
O Casamento

Danielle Steel


















Traduo de MARIA FILOMENA DUARTE
Crculo de Leitores





http://groups.google.com/group/digitalsource










Ttulo original: THE WEDDING
Foto da capa: SOFOTO/DIGITAL VISION
ISBN 972-42-3002-3
Copyright 2000 by Danielle Steel Impresso e encadernado para Crculo de Leitores
por Printer Portuguesa Casais de Mem Martins, Rio de Mouro
em Julho de 2003
Nmero de edio: 5538
Depsito legal nmero 196 523/03

































Para a Beatie,

a minha primeira e muito amada noiva.

Que sejas feliz para sempre!

Do fundo do meu corao, com amor,

D.S.

CAPTULO 1

        O trnsito flua a passo de caracol ao longo da Via Rpida de Santa Mnica, e Allegra encostou a cabea ao banco do Mercedes 300 azul-escuro; a este ritmo, 
nunca mais chegaria ao seu destino. No tinha nada de especial para fazer at chegar a casa, mas parecia-lhe sempre um incrvel desperdcio de tempo estar ali encurralada 
no meio do trnsito.
        Esticou as longas pernas, suspirou e ligou o rdio. Sorriu quando comeou a tocar o ltimo som de Bram Morrison. O cantor era um dos seus clientes na firma 
de advogados; h mais de um ano que o representava. Allegra tinha muitos clientes importantes. Conclura o curso de Direito em Yale, h quatro anos, e aos vinte 
e nove era nova associada da Fisch, Herzog & Freeman, uma das firmas de advogados mais importantes de Los Angeles. O apoio jurdico  gente do mundo do espetculo 
sempre fora a sua paixo.
        Havia j algum tempo que Allegra percebera de que queria cursar Direito. Depois de dois anos de frias de Vero em New Haven, na primeira fase da sua estada 
em Yale, s fugazmente admitira que talvez gostaria de vir a ser atriz, o que no teria surpreendido ningum da famlia, mas tambm no lhes teria agradado. A me, 
Blaire Scott, escrevia e produzia um dos espetculos de televiso que mais xito alcanara e que estava h nove anos no ecr. Era uma comdia, cheia de malcia, 
mas com alguns momentos srios e umas pitadas de drama da vida real. Durante sete anos atingira o pico das audincias e valera sete Emmies  autora. O pai, Simon 
Steinberg, era um ilustre produtor de cinema, responsvel por alguns dos filmes mais importantes de Hollywood. Ganhara trs Oscar da Academia e uma reputao lendria 
associada aos xitos de bilheteira. Por outro lado, ainda mais importante, era uma das raridades de Hollywood, um homem simptico, um cavalheiro, um ser humano verdadeiramente 
decente. Simon e Blaire constituam um dos casais mais invulgares e respeitados da indstria cinematogrfica. Trabalhavam muito e tinham uma famlia a srio,  qual 
dedicavam grande parte do seu tempo. Allegra tinha uma irm de dezessete anos, Samantha. "Sam", como era conhecida, estava terminando o ensino secundrio, era modelo 
e, ao contrrio de Allegra, queria ser atriz. S o irmo, Scott, que acabara de ingressar em Stanford, parecia ter escapado por completo ao mundo do espetculo. 
Estudava Medicina e sempre quisera ser mdico. Hollywood e a sua alegada magia no atraam Scott Steinberg.
        Com vinte anos, Scott j vira o suficiente do mundo do espetculo e considerava at que Allegra fizera um disparate ao optar por tal ramo do direito. Scott 
no queria passar o resto da vida preocupando-se com a bilheteira, as receitas ou as audincias, pretendia especializar-se em medicina desportiva e ser cirurgio 
ortopdico. Era uma atividade interessante e natural: quando algum fraturasse um osso, ele tratava-o. Sabia bem a ansiedade por que passara o resto da famlia com 
estrelas arrasadas e errticas, atores excntricos, gente desonesta que desaparecia de repente e investidores quixotescos.  certo que tambm haviam pontos altos, 
que se ganhava bom dinheiro e que todos pareciam adorar o que faziam. A me tirava enorme prazer do seu programa televisivo e o pai produzira alguns grandes filmes. 
Allegra gostava de ser advogada das estrelas e Sam queria ser atriz, mas, quanto a Scott, bem podiam tirar da o sentido.
        Sorriu com os seus botes, pensando no irmo, ao som dos ltimos acordes do disco de Bram. At Scott ficara impressionado quando lhe dissera que Bram era 
um dos seus clientes. Era um heri! Allegra nunca divulgava o nome dos seus constituintes, mas Bram falara nela durante um programa especial com Brbara Walters. 
Carmen Connors, uma loura explosiva que pretendia ser a nova Marilyn Monroe, tambm era sua cliente. Tinha vinte e trs anos, nascera numa pequena cidade do Oregon 
e era uma crist fervorosa. Comeara como cantora, entrara em dois filmes seguidos e revelara-se uma atriz sensacional. A CAA falara-lhe na firma e um dos scios 
mais velhos apresentara-a a Allegra. Criara-se de imediato uma empatia entre ambas, e agora ela era a menina querida de Allegra, literalmente, s vezes, mas a jovem 
no se importava.
        Ao contrrio de Bram, que estava chegando aos quarenta e trabalhava no mundo da msica h cerca de vinte anos, Carmen ainda era relativamente nova em Hollywood 
e parecia estar sempre afogada em problemas: encrencas com namorados, homens que se apaixonavam por ela e que a moa afirmava mal conhecer, seguidores obcecados, 
publicitrios, cabeleireiros, tablides, paparazzi e potenciais agentes. Carmen nunca sabia como havia de lidar com eles, e Allegra j estava habituada a atender 
os seus telefonemas a qualquer hora do dia ou da noite, mas sobretudo a partir das duas da madrugada. Muitas vezes, a jovem beldade era assaltada por terrores noturnos 
e tinha sempre medo que algum entrasse em casa  fora e lhe fizesse mal. Allegra conseguira controlar, em parte, o seu pavor recorrendo a uma empresa de segurana 
que vigiava a casa durante a noite, a um alarme extremamente sofisticado e a dois ces de guarda muito agressivos. Eram rottweilers e Carmen tinha medo deles, mas 
a verdade  que os possveis assaltantes e seguidores tambm a assustavam. No entanto, apesar destas medidas, continuava telefonando para Allegra no meio da noite, 
s para lhe dar conta dos problemas que estava  encontrando, ou s vezes apenas para desabafar. Allegra no se aborrecia; j estava habituada, mas os amigos comentavam 
que ela era mais uma bab do que uma advogada. Porm, Allegra sabia que isto fazia parte do seu trabalho com celebridades. Vira o que os pais passavam com as estrelas 
e j nada a surpreendia. Apesar de tudo, adorava a sua profisso, e o mundo do espetculo agradava-lhe em particular.
        Enquanto esperava que o trnsito avanasse, apertou outro boto do rdio e de sbito pensou em Brandon. Por fim, os automveis recomearam a andar. s vezes, 
quando regressava de uma reunio ou de um encontro com um cliente, levava uma hora para percorrer os quinze quilmetros que a separavam de casa, mas tambm j estava 
acostumada a isso. Gostava muito de viver em Los Angeles, e era raro aborrecer-se por causa do trnsito. Baixara a capota do carro. Na tarde quente de janeiro, os 
seus longos cabelos louros brilhavam com os ltimos raios de sol. Estava um dia tpico do sul da Califrnia, o gnero de tempo de que sentira a falta durante os 
sete longos invernos que passara em Yale, quando freqentava a Faculdade de Direito. Depois do ensino secundrio em Beverly Hills, a maioria dos seus amigos tinham 
ido para a UCLA, mas o pai preferira que ela fosse para Harvard. Allegra optara por Yale, embora nunca se tivesse sentido tentada a ficar no Leste depois da licenciatura. 
Toda a sua vida estava na Califrnia.
        Ao acelerar, pensou em telefonar a Brandon para o escritrio, mas depois resolveu esperar at chegar em casa. s vezes, no caminho, respondia do carro a 
alguns telefonemas de trabalho, mas nesse dia apetecia-lhe chegar em casa e descontrair-se um pouco antes falar com ele. Tal como o seu prprio dia de trabalho, 
tambm o dele era muito agitado, e s vezes piorava para o fim, quando se reunia com clientes que tinha de acompanhar ao tribunal no dia seguinte ou participava 
em reunies com outros advogados ou juizes. Brandon era advogado de defesa, litigante, especializado em crimes de colarinho branco, na sua maioria delitos federais 
que envolviam bancos, desvio de fundos e extorses. 'Direito a srio', como ele dizia, e no o que ela fazia, acrescentava, num tom jovial, mas at Allegra era obrigada 
a reconhecer que a atividade dele era muito diferente da sua. Tambm a personalidade dele era muito distinta. Brandon era muito mais tenso, muito mais grave, e tinha 
uma viso mais intensa da vida. Durante os dois anos de namoro com ele, a famlia de Allegra acusara Brandon Edwards mais de uma vez de no ter muito sentido de 
humor. Tratava-se de uma verdadeira falha de carter para eles, que, na sua maioria, eram capazes de atitudes ousadas.
        No entanto, havia muitas coisas que Allegra apreciava em Brandon, nomeadamente o interesse que ambos nutriam pelo direito e o fato de ele ser firme e digno 
de confiana. Tambm lhe agradava saber que tinha uma famlia. Brandon casara h dez anos, quando ainda estava na faculdade. Fora para Boalt, na Universidade de 
Berkeley, Joanie, a namorada, engravidara pelo que se vira obrigado a casar com ela, e ainda se ressentia disso. Em certos aspectos, Joanie continuava muito ligada 
a ele, depois de dez anos de casamento e de dois filhos, e, s vezes, Brandon dizia detestar ainda no ter conseguido divorciar-se dela, que se sentia preso e que 
lamentava ter sido obrigado a casar de repente por Joanie estar grvida. Tinham duas filhas pequenas. Depois de acabar o curso, Brandon fora trabalhar para uma das 
firmas de advogados mais conservadoras de So Francisco. S por acaso  que o haviam transferido para o escritrio de Los Angeles, pouco depois de ele e Joanie terem 
chegado a acordo quanto a uma separao judicial. Conhecera Allegra trs semanas depois de chegar  cidade, atravs de um amigo comum, e h dois anos que saam juntos. 
Ela amava-o e adorava as filhas dele. Joanie no gostava de deix-las vir a Los Angeles, e por isso em geral era Brandon que se deslocava a So Francisco para v-las. 
Sempre que podia, Allegra acompanhava-o. O nico problema era que, ao fim de dois anos, Joanie ainda no conseguira arranjar emprego e argumentava que a sua ausncia 
de casa seria muito traumtica para as filhas. Dependia totalmente de Brandon e continuavam em litgio por causa da casa e do apartamento nos arredores de Tahoe. 
De fato, em dois anos, pouco fora resolvido, o divrcio ainda no dera entrada no tribunal e os acordos financeiros no estavam concludos. De vez em quando, Allegra 
importunava-o, insistindo no fato de ele ser advogado, mas no ter conseguido obrigar a mulher a assinar um contrato. Porm, no queria pression-lo. De momento, 
a situao de ambos teria de ficar como estava, num compasso de espera, e s poderia evoluir quando ele quebrasse todas as amarras com Joanie.
        Pensando em Brandon, virou para Beverly Hills e perguntou a si prpria se ele teria vontade de ir jantar fora. Sabia que estava a preparar-se para um julgamento, 
e era mais do que provvel que quisesse ficar trabalhando no escritrio at tarde. Mas Allegra no podia se queixar; tambm passava muitas noites a trabalhar, embora 
no fosse preparando-se para julgamentos. Os seus clientes eram escritores, produtores, realizadores e atores, e ela fazia-lhes tudo, desde contratos a testamentos, 
desde negociar acordos at gerir-lhes o dinheiro ou tratar-lhes do divrcio. A componente legal da sua atividade era o que mais lhe interessava, embora reconhecesse 
que, com clientes famosos, ou pelo menos do mundo do espetculo, tinha que estar disposta a tratar de todos os aspectos das suas vidas complicadas, e no apenas 
dos contratos.
        Mas s vezes Brandon no compreendia isso. Aquele meio continuava a ser um mistrio para ele, apesar de Allegra ter tentado explicar-lhe vrias vezes. Porm, 
ele dizia que preferia exercer advocacia para 'gente normal' e em circunstncias legais que entendesse como a sala de audincias de um tribunal federal, por exemplo. 
Esperava vir a ser juiz federal e aos trinta e seis anos j se mostrava razoavelmente ambicioso. O telefone tocou no carro quando Allegra descrevia uma curva. Por 
instantes, teve esperana que fosse Brandon, mas no, era Alice, a secretria. Trabalhava na firma h quinze anos e era uma verdadeira tbua de salvao para Allegra. 
Muito sensata e inteligente, tinha um modo apaziguador e maternal de lidar com os clientes mais irascveis.
        - Ol, Alice, o que h? - perguntou Allegra, sem tirar os olhos da estrada e ajustando o bocal do telefone.
        - A Carmen Connors telefonou agora mesmo. Pensei que quisesse saber. Est muito aborrecida. Vem na capa do Chatter.
         O Chatter era um dos tablides mais repugnantes do mercado e h vrios meses que andava a comer Carmen viva, apesar dos sucessivos avisos e ameaas de Allegra. 
Mas eles sabiam at onde podiam ir e eram mestres na arte de no ultrapassar os limites. Paravam sempre onde deviam, para no ser processados.
        - O que temos agora? - perguntou Allegra, de sobrolho franzido, aproximando-se rapidamente da pequena casa que os pais tinham ajudado a comprar quando terminara 
o curso. J lhes pagara o que devia e adorava a sua casinha nos arredores de Doheny.
        - O artigo fala numa orgia em que ela participou com um dos mdicos, o cirurgio plstico, segundo creio.
        A pobre Carmen cara na asneira de ter sado com ele uma vez. Jantaram no Chasen's e, segundo o que contara a Allegra, nem sequer houvera sexo, e muito menos 
uma orgia.
        - Oh, pelo amor de Deus! - exclamou Allegra entre dentes, entrando no jardim da sua casa com um ar de enfado. Tem a algum exemplar?
        - Compro um quando for para casa. Quer que lho deixe a?
        - No tem importncia, vejo-o amanh. Estou em casa. Amanh telefono para Carmen. Obrigada. Mais alguma coisa?
        - A sua me ligou. Queria saber se voc podia ir l jantar na sexta-feira e confirmar que vai ao Globo de Ouro no sbado. Disse que contava com a sua presena.
        - Claro. Sorriu e deixou-se ficar sentada no carro. Ela sabe que vou.
        Tanto o pai como a me tinham sido nomeados nesse ano, e Allegra no perderia a cerimnia por nada deste mundo. Convidara Brandon h mais de um ms, antes 
do Natal.
        - Acho que ela s queria ter a certeza de que voc vai.
        - Eu tambm lhe vou telefonar.  tudo?
        - Sim.
        Eram seis e quinze. Allegra sara do escritrio s cinco e meia, o que era cedo para ela, mas levava trabalho para casa e, se no se encontrasse com Brandon, 
teria tempo para faz-lo.
        - At amanh, Alice. Boa noite. - disse Allegra, tirando a chave da ignio.
        Pegou na pasta, fechou o carro e entrou  correndo. A casa estava vazia e s escuras. Atirou a pasta para cima do sof, acendeu as luzes e dirigiu-se para 
a cozinha.
         sua frente, a vista da cidade, l em baixo, era espetacular. Anoitecera e as luzes cintilavam como jias. Enquanto bebia um copo de gua mineral, deu uma 
vista de olhos na correspondncia. Algumas faturas, uma carta de Jessica Farnsworth, uma velha amiga da escola, uma mo-cheia de catlogos, uma srie de papelada 
sem importncia e um postal de outra amiga, Nancy Towers, que se encontrava esquiando em St. Moritz. Jogou quase tudo fora, e, enquanto bebia, reparou nos tnis 
de Brandon, e sorriu; a casa parecia sempre mais animada quando ele l deixava as suas coisas. Brandon tambm tinha o seu apartamento, mas passava muito tempo com 
ela. Gostava da sua companhia e dizia-lhe, mas tambm deixava bem claro que no estava pronto para assumir qualquer compromisso. O seu casamento fora demasiado redutor 
e traumtico. Receava cometer outro erro e talvez fosse por isso que demorava tanto a divorciar-se de Joanie. Mas Allegra tinha tudo o que desejava. Dissera-o vrias 
vezes  psicloga e aos pais. E tinha apenas vinte e nove anos. No sentia pressa de casar.
        Ps a correspondncia de lado e puxou os longos cabelos louros para trs. Ligou a secretria eletrnica e sentou-se num banco de bar, junto da bancada. A 
cozinha, toda em mrmore branco e granito preto, estava impecavelmente limpa e arrumada. O cho era de mosaicos pretos e brancos alternados, como num tabuleiro de 
xadrez, e Allegra fitou-o enquanto ouvia as mensagens. Como j esperava a primeira era de Carmen, que parecia ter estado a chorar. Disse qualquer coisa incoerente 
acerca do artigo, que a situao era injusta e que a av ficara muito incomodada. Nessa tarde, telefonara a Carmen, de Portland. A jovem atriz no sabia se Allegra 
era de opinio que se movesse um processo, mas pensava que deveriam falar no assunto e pedia-lhe que lhe ligasse assim que chegasse em casa ou que tivesse um momento 
livre. Nunca lhe passava pela cabea que Allegra tinha direito aos seus momentos de privacidade. Carmen precisava dela para resolver os seus problemas e s pensava 
nisso, o que no significava, no entanto, que fosse m pessoa.
        A me telefonara outra vez, convidando-a para jantar na sexta-feira, tal como lhe dissera Alice, e lembrando-lhe a cerimnia de atribuio dos Globos de 
Ouro nesse fim-de-semana. Allegra sorriu ao ouvir a voz da me, que parecia verdadeiramente entusiasmada. Talvez fosse porque o pai tambm fora nomeado, mas, de 
qualquer modo, disse que Scott vinha de Stanford com Sam e que esperava que Allegra fosse  cerimnia com eles.
        A mensagem seguinte era de um professor de tnis que Allegra andava evitando h algumas semanas. Comeara as lies vrias vezes, mas no tinha tempo para 
continuar. Tomou nota do nome dele, para lhe telefonar e, pelo menos, explicar o motivo que a levava a desistir.
        Seguiu-se uma mensagem de um homem que conhecera nas frias. Era atraente e trabalhava para um estdio importante, mas no estava fazendo jogo limpo. Sorriu 
ao ouvir aquela voz forte. Ele deixou o nome e disse que esperava que Allegra lhe telefonasse, mas ela no tinha inteno de faz-lo. No estava interessada em sair 
com outro homem, exceto Brandon, que era o terceiro caso amoroso importante na sua vida. O anterior durara quase quatro anos e abrangera o seu ltimo semestre na 
Faculdade de Direito e os dois primeiros anos como advogada em Los Angeles. Tambm se licenciara em Yale e era diretor, mas, passados quatro anos, no se comprometera 
com ela e acabara por ir para Londres. Pedira-lhe que o acompanhasse, mas Allegra estava cheia de clientes na Fisch, Herzog & Freeman nessa fase, e no pde ir  
com ele. Pelo menos, foi o que ela disse. Porm, mesmo que tivesse chegado  concluso que no deveria largar um bom emprego e segui-lo at ao fim do mundo, a verdade 
 que ele se recusara a fazer promessas e at a falar do futuro. Roger vivia 'para o presente, no presente'. Divagara muito sobre o carma, frivolidades e liberdade. 
E, aps dois anos de terapia, Allegra tivera realmente o bom senso de no ir atrs dele para Londres. Ficara em Los Angeles e conhecera Brandon dois meses depois.
        E ainda antes de Roger houvera um professor casado de Yale. Allegra envolvera-se com ele durante o ltimo ano do curso, e fora um caso prdigo em volpia, 
entusiasmo e paixo. Nunca conhecera ningum como ele, e s conseguiram pr termo  situao quando Tom pediu uma licena sabtica e percorreu a p o Nepal durante 
um ano. Levou a mulher e o filho pequeno e, quando voltaram, ela estava grvida outra vez. Nessa altura Allegra j andava com Roger, mas criava-se sempre certa tenso 
quando os caminhos de ambos se cruzavam. Pouco depois, sentira-se aliviada quando ele fora dar aulas para Northwestern. Tom desejara-a ardentemente, mas nunca conseguira 
traduzir o seu desejo em qualquer espcie de projetos claros para o futuro. Tudo o que ele via, quando olhava para a longa estrada que tinha  sua frente, era Mithra, 
a mulher, e o filho, Euclid. Agora era pouco mais do que uma recordao no passado de Allegra, cuja psicloga s falava dele para lhe lembrar que a relao de ambos 
nunca inclura promessas de futuro.
        - No sei ao certo se deveria inclu-las, tendo eu vinte e nove anos - respondera ela mais do que uma vez. A verdade  que eu nunca quis casar.
        - No  essa a questo, Allegra retorquia sempre a Dr. Green num tom firme.
        A terapeuta era de Nova Iorque e tinha uns grandes olhos negros, que s vezes perseguiam Allegra depois das sesses. J h quatro anos que se encontravam, 
com algumas interrupes pelo meio. Allegra sentia-se bem com a vida, embora estivesse sujeita a muitas presses, como as expectativas da famlia e da firma de advogados 
e o grande volume de trabalho.
        - Algum j quis casar com voc? -  perguntara a Dr. Green mais do que uma vez, apesar de Allegra afirmar sempre que a questo no tinha importncia.
        - O que interessa isso, se eu no quero casar?
        - Por qu? Porque  que no quer um homem que deseje casar com voc, Allegra? O que se passa?
        Ela no dava trguas.
        - Isso  uma estupidez! O Roger teria casado comigo, se tivesse ido com ele para Londres, mas eu no quis. Tinha muito que fazer aqui.
        - O que a leva a pensar que ele teria casado? -  A Dr. Green parecia um pequeno furo, metia-se em todos os cantos e farejava todas as pistas, todas as 
partculas de poeira aparentemente inofensivas, ou insetos. Ele alguma vez lhe disse?
        - Nunca falamos no assunto.
        - Isso no lhe d que pensar Allegra?
        - Que importa? J foi h dois anos - respondia ela, irritada. Detestava quando a Dr. Green a pressionava demasiado com perguntas. Isso  um disparate!
        Ela era muito jovem para casar, e nesse momento estava demasiado absorvida pela sua carreira para pensar em casamento.
        - E com Brandon? -  A Dr. Green adorava fazer dele cavalo de batalha. E Allegra detestava falar-lhe acerca do namorado. A psicloga no compreendia as motivaes 
dele nem sabia at que ponto ficara traumatizado por se casar quando a mulher engravidara. Quando  que ele avana?
        - Quando resolverem a questo dos bens e do dinheiro explicava sempre Allegra com toda a sensatez, falando como uma advogada.
        - Porque no dividem eles os encargos financeiros e se divorciam? Depois podem passar o tempo que quiserem  resolvendo a questo dos bens...
        - Por qu? Qual  a vantagem da diviso? No  obrigatrio que nos casemos.
        - Pois no. Mas ele quer? E voc, Allegra? J alguma vez falaram nisso?
        - No precisamos falar, compreendemo-nos perfeitamente um ao outro. Estamos ambos ocupados, temos ambos carreiras importantes e, afinal, s estamos juntos 
h dois anos!
        - H pessoas que se casam muito mais depressa do que isso, ou muito mais devagar. A questo  saber se voc se voltou a envolver com um homem que no quer 
assumir um compromisso. Os olhos castanhos e vivos da Dr. Green fitavam os olhos verdes de Allegra.
        Claro que no a respondia, tentando evitar o olhar penetrante da sua interlocutora, mas sem xito. Ainda no chegou o momento.
        Ento a Dr. Green fazia um aceno de cabea e ficava  espera do que Allegra diria a seguir.
        As trocas de palavras eram quase sempre as mesmas. Conheciam-se h dois anos, mas Allegra j no tinha vinte e sete nem vinte e oito anos, mas sim vinte 
e nove, e Brandon separara-se h dois anos. As filhas, Nicole e Stephanie, tinham onze e nove anos, e Joanie ainda no conseguira arranjar emprego. Continuava dependente 
de Brandon para tudo o que precisava. E, tal como ele, Allegra explicava a situao pelo fato de Joanie no ter experincia profissional. Desistira da faculdade 
para ter a Nicky.
        De fato, a voz de Nicole foi a que se seguiu na secretria eletrnica de Allegra. A menina esperava que ela fosse com o pai a So Francisco no fim-de-semana. 
Disse que tinha saudades dela, e esperava que estivesse tudo  correndo bem e que conseguissem ter tempo para ir patinar. 'E, oh!... Est bem... Adoro o casaco que 
me mandou no Natal... Ia te escrever um bilhete, mas esqueci-me e a mame disse... ' Seguiu-se um silncio embaraoso quando a menina de onze anos tentou recuperar 
a compostura, 'dou este fim-de-semana. Adeus... Gosto muito de voc... Oh!... Sou a Nicky. Adeus.' A garota desligou e Allegra ainda sorria quando ouviu a mensagem 
de Brandon. Ficaria trabalhando at tarde e ainda  estava no escritrio quando lhe telefonou. A mensagem dele era a ltima.
        Allegra desligou o aparelho, acabou de beber a gua, jogou a garrafa no lixo e pegou no telefone para ligar para o escritrio dele.
        Estava sentada no banco da cozinha, com as pernas compridas enroscadas  volta dele enquanto fazia a ligao. Era alta, magra e bela, mas no tinha conscincia 
disso. Vivia h muito tempo num mundo de gente com um aspecto extraordinrio e na sua vida eram mais importantes as coisas do esprito do que as da beleza do rosto 
e do corpo. Nunca pensava nisso, o que por vezes a tornava ainda mais atraente. Percebia-se facilmente que no dava importncia  aparncia, que se concentrava por 
completo nas pessoas que a rodeavam.
        Brandon atendeu ao telefone particular ao segundo toque e mostrou-se atarefado e distrado. Era fcil perceber que estava  trabalhando.
        - Brandon Edwards - disse.
        Allegra sorriu. Ele tinha uma voz profunda e sensual e ela gostava particularmente do seu tom. Brandon era alto, louro e com o cabelo bem aparado, como um 
aluno do liceu. Talvez fosse um pouco conservador na maneira de vestir, mas Allegra no se importava; havia nele qualquer coisa de saudvel e de muito honesto.
        - Ol, recebi a sua mensagem - disse num tom enigmtico, mas ele reconheceu-a logo. Como foi o seu dia?
        - Interminvel respondeu, esgotado.
        Allegra no lhe falou no seu. Ele interessava-se muito pouco pela empresa dela e agia sempre como se considerasse que o seu ramo do direito era mais absurdo 
do que legal.
        - Tenho um julgamento para a semana e estou perdendo um tempo dos diabos com o trabalho de investigao. Terei muita sorte se conseguir sair daqui antes 
da meia-noite.
        Brandon parecia mesmo exausto.
        - Quer que te leve alguma coisa para comer? - perguntou ela com um sorrisinho. Podia aparecer a com uma pizza.
        - Prefiro esperar. Tenho aqui um sanduche e no quero interromper o trabalho. Compro qualquer coisa quando acabar, se no for muito tarde e voc ainda me 
quiser receber...
        Allegra sentiu o calor na voz dele e respondeu com um sorriso.
        - Eu te quero sempre. Vem  hora que te apetecer. Tambm trouxe trabalho para casa. Guardava na pasta os documentos para a prxima tourne de concertos de 
Bram Morrison. Tenho muito com que me entreter.
        - timo. At logo.
        Foi ento que ela se lembrou.
        - Oh! A propsito, Brandon, hoje recebi uma chamada da Nicky. Deve ter confundido as datas, porque julgou que ns amos a So Francisco. Isso  para a prxima 
semana, no ?
        No fim-de-semana seguinte, Brandon acompanhava-a a festa dos Globos de Ouro, e no outro iam a So Francisco ver as crianas.
        -Por sinal... Eu... Eu devo ter-lhe falado nisso... Pensei que faria sentido l ir antes do incio do julgamento. Depois no poderei ausentar-me durante 
uns tempos, ou pelo menos no o devo fazer.
        Brandon parecia desajeitado ao tentar explicar a situao e Allegra franziu a sobrancelha, apreciando a vista da janela da cozinha.
        - Mas no podemos ir esta semana! O papai e a mame foram nomeados, alm de trs dos meus clientes. Entre estes figurava Carmen Connors. Esqueceu-se ?
        Allegra nem podia acreditar que Brandon tivesse mudado de idias. Ela andava  falando no assunto desde o Natal!...
        - No, mas julguei... Agora no tenho tempo para conversar sobre esse assunto, Allie, seno fico aqui toda a noite. Porque no falamos disso mais tarde?
        A resposta dele no a deixou descansada. Por instantes, ficou pensando, antes de telefonar  me.
        Blaire passava a semana inteira gravando o seu programa, como era habitual, e  noite estava cansada, depois de horas e horas em palco, mas ficava sempre 
satisfeita ao saber da filha mais velha. Viam-se com freqncia, embora menos nos ltimos tempos, desde que Allegra andava com Brandon.
        Blaire reiterou o convite para o jantar de sexta-feira e disse-lhe que o irmo, Scott, tambm estaria l. A vinda dele a casa constituam momentos importantes 
para a famlia, e no havia nada de que Blaire gostasse mais que de um sero na companhia de todos os filhos.
        - Ele tambm vai aos Globos de Ouro? - perguntou Allegra, que gostava sempre de v-lo. 
        - Fica em casa com a Sam. Diz que estas cerimnias so mais divertidas na televiso. Pelo menos, v-se todas as pessoas que quer, em vez de ser empurrado 
pela multido e no conseguir descobrir atrs de quem correm os reprteres.
        - Talvez tenha razo.
        Allegra riu com a descrio. Sabia que Sam gostaria muito de ir, mas os pais no queriam exp-la, ou pelo menos a mantinham o mais longe possvel da avidez 
da imprensa. Muito menos ela iria ao Globo de Ouro ou ao Oscar da Academia. Todas as jovens estrelas de Hollywood l estariam, assim como os reprteres. Os pais 
s tinham aceitado que fosse modelo porque ningum sabia quem ela era quando a via nas fotografias. Desfilava com o nome de Samantha Scott, o apelido de solteira 
da me, e, apesar de esta ser muito conhecida, Scott passava mais despercebido que Steinberg. Toda a gente em Hollywood sabia quem era Simon Steinberg e teria feito 
tudo para tirar fotografias  filha.
        - De qualquer modo, l estarei garantiu Allegra. J no sabia ao certo se Brandon iria, por isso no falou no assunto  me, porm Blaire perguntou-lhe. 
No era segredo que Brandon no era das pessoas de quem Blaire mais gostava, nem Simon. Preocupava-os que ele sasse com a filha h dois anos e ainda no se tivesse 
divorciado da mulher.
        - O prncipe Brandon tambm vem? - perguntou Blaire com uma irritao bvia na voz.
        Allegra hesitou. No queria discutir com a me, mas tambm no gostara do que ela dissera, nem do seu tom.
        - Ainda no tenho a certeza - respondeu em voz baixa, que, no entanto, pareceu muito alta  me. Estava sempre o defendendo, e no devia faz-lo, pelo menos 
perante Blaire. Est preparando-se para um julgamento e talvez tenha que trabalhar este fim-de-semana.
        Em sua opinio, no era da conta da me que ele fosse ver as filhas a So Francisco.
        - No acha que podia interromper o trabalho por uma noite? - perguntou Blaire, ctica, e o seu tom de voz teve o condo de exasperar Allegra.
        - Porque no deixa pra l, mame? Tenho a certeza que ele far o possvel e, se puder, vai.
        - Talvez seja melhor pedir a outra pessoa que te acompanhe. No h motivo para que v sozinha. Assim voc no se diverte...
        Blaire ficava aborrecida sempre que Brandon deixava Allegra s quando tinha outros planos, trabalho a mais ou disposio a menos. Ela fazia sempre o que 
era mais conveniente para ele, aceitava a situao com desportivismo, e Blaire no percebia por que.
        - Eu divirto-me de qualquer maneira - respondeu Allegra tranquilamente. S quero l estar quando voc e o pai receberem os prmios acrescentou, com orgulho.
        - No diga isso, que d azar - replicou Blaire, supersticiosa.
        Mas havia poucas coisas que pudessem dar azar a Blaire Scott e a Simon Steinberg. Ambos j tinham ganhado vrios Globos de Ouro, o que no s lhes dava prestgio 
como era empolgante. Alm disso, nos ltimos anos, a atribuio dos Globos de Ouro prenunciava muitas vezes o que a Academia faria em Abril. Era uma noite muito 
importante em Hollywood e os Steinberg estavam entusiasmados.
        - Voc vai ganhar um, tenho a certeza. Ganha sempre! - O Globo de Ouro era um trofu invulgar, porque tanto era atribudo em televiso como em cinema, e 
por isso qualquer dos membros do casal Steinberg o podia ganhar, e isso j acontecera vrias vezes. Allegra sentia-se muito orgulhosa dos pais.
        - Deixa os elogios - disse a me, sorrindo, tambm orgulhosa da filha.
        Allegra era uma moa formidvel. Entre ela e Blaire havia uma ligao especial, que sempre as mantivera muito unidas.
        - E na sexta-feira? Vem jantar?
        - Amanh eu confirmo, se no se importa. Queria falar dos planos de Brandon com ele e ver o que o namorado pretendia fazer acerca de So Francisco. Se ele 
ficasse, Allegra gostaria que fosse jantar com ela na casa dos pais, mas concluiu que seria mais fcil negociar tudo de uma vez e adiou a conversa para a manh seguinte. 
Passaram alguns minutos  falando de Scott, de Sam e do pai. Depois Blaire explicou-lhe que resolvera inserir uma nova personagem no programa e que a idia fora muito 
bem recebida pela estao de televiso. Aos cinqenta e quatro anos, Blaire ainda era muito bela e cheia de idias novas e empolgantes. Adorava o que fazia e produzira 
outro espetculo antes deste na mesma estao. Nos ltimos nove anos, alcanara um xito estrondoso com o seu programa atual, Buddies, mas os nveis de audincia 
tinham oscilado um pouco nesse ano, e ningum duvidava de que os Globos de Ouro dariam uma ajuda. Desta vez Blaire queria mesmo ganh-lo.
        Blaire Scott era alta e magra como Allegra e tinha um corpo de modelo. O cabelo era ruivo natural, mas h muito que adquirira um tom louro-morango que passava 
quase sem a ajuda de tinta. H um tempo fizera uma operao nos olhos e mandara esticar a pele do pescoo h uns anos, mas nunca se submetera a um lifting ao rosto. 
Era invejada por todas as suas amigas e, ao v-la envelhecer com tanta graciosidade, Allegra sentia-se esperanada no futuro. 'O segredo est em no exagerar', dizia 
ela s filhas com toda a naturalidade, falando de cirurgia plstica, mas Allegra apostava que a me nunca o faria. Considerava que era uma perda de tempo contrariar 
a natureza. 'Esperem alguns anos e pensaro de maneira diferente', afirmava Blaire com um ar sbio. Estava realmente convicta do que dizia, mas por fim, aos quarenta 
e trs anos, o olhar do pblico obrigara-a a contrariar os seus planos e a fazer uma operao nos olhos e, aos cinqenta, no pescoo E a verdade  que no parecia 
ter mais de quarenta e cinco. 'Fica tudo estragado quando os outros sabem a nossa idade', gracejava ela s vezes, embora no desejasse verdadeiramente esconder a 
idade, mas apenas manter-se atraente aos olhos de Simon. Aos sessenta anos, o marido continuava a ser o homem encantador que sempre fora. Quanto muito, afirmava 
Blaire, estava ainda melhor do que quando se casara.
        - Est mentindo - dizia ele, sorrindo sempre, com um ar triunfante, quando ouvia estas palavras.
        Allegra adorava estar com os pais. Eram pessoas afveis, inteligentes e felizes, e espalhavam o bem-estar  sua volta.
        Eu quero um homem como ele disse uma vez  Dr. Green, embora com receio que a psicloga invocasse Freud, mas esta no o fez.
        - Eu diria que  uma boa deciso, avaliando pelo que me contou do casamento dos seus pais. Acha que conseguiria conquistar um homem como ele?  - perguntou-lhe 
a Dr. Green de chofre.
        - Claro que sim - respondeu Allegra prontamente, mas ambas sabiam que no falava a srio.
        Allegra prometeu telefonar  me a dizer-lhe o que resolvera acerca do jantar de sexta-feira logo que soubesse quais eram os seus planos. Depois lembrou-se 
de falar com Nicole, mas mudou de idia; talvez Joanie no gostasse. Foi buscar um iogurte j encetado na geladeira, comeou a com-lo e telefonou para Carmen. Esta 
estava completamente histrica, como acontecia sempre que surgia um novo artigo a seu respeito nos tablides. No entanto, desta vez Allegra foi obrigada a concordar 
que a notcia era estpida. Afirmava-se que ela participara numa orgia em Las Vegas com o seu cirurgio plstico. Este ter-lhe-ia dado um novo rosto, um novo nariz, 
um novo queixo e teria feito implantes mamrios e lipoaspirao.
        - Como  que eu podia ter feito tudo isso? - perguntou ela, com um misto de surpresa e de ingenuidade, e, como sempre, escandalizada por verificar at que 
ponto a imprensa estava disposta a mentir a seu respeito.
        Como sucedia com todas as celebridades, as pessoas afirmavam que haviam estado na escola com ela, que eram as suas melhores amigas, que tinham viajado na 
sua companhia e, evidentemente, uma legio de homens asseguravam que tinham dormido com ela. H pouco tempo, duas mulheres tinham afirmado o mesmo, o que deixara 
Carmen lavada em lgrimas. Parecia-lhe muito injusto que as pessoas estivessem to empenhadas em inventar histrias a seu respeito.
        -  o preo da fama - recordava-lhe sempre Allegra com doura, pensando que era difcil acreditar que tivesse apenas mais seis anos do que Carmen.
        A jovem estrela parecia to ingnua em alguns aspectos, to inconsciente do mal que espreitava em toda a parte e to admirada com o aproveitamento jornalstico. 
Continuava a achar que todos eram seus amigos e que ningum pretendia mago-la Exceto s duas da madrugada, quando acreditava facilmente que metade de Los Angeles 
estava  porta, pronta a entrar-lhe em casa  fora e a viol-la Por fim, Allegra contratara uma governanta interna e aconselhara Carmen a deixar uma luz acesa junto 
 porta do seu quarto. Tinha medo da escurido e assustava-se por no ver nada l fora.
        - Oua, voc no tem idade para j ter feito tudo isso - disse Allegra, sossegando-a mais uma vez quanto ao artigo do Chatter.
        - Acha que mais algum chegar a essa concluso? Eu limitei-me a tirar uma verruga da testa - redargiu, desconsolada, assoando-se outra vez e pensando em 
tudo aquilo que a av lhe dissera quando telefonara de Portland. A velhota acusara-a de ter coberto a famlia de vergonha e dissera-lhe que Deus nunca lhe perdoaria.
        -  claro que sim. Leu a pgina seguinte.
        - No, por qu? - perguntou Carmen, esticando o corpo perfeito no sof, sem largar o telefone.
        - Talvez na pgina seguinte digam que uma mulher deu  luz quntuplos em Marte E, duas pginas mais  frente, que uma mulher deu  luz um macaco num disco 
voador. Se acreditarem nessas tretas, o que importa que digam que voc fez uma remodelagem no rosto aos vinte e trs anos? Mande-os  fava, Carmen, tem que endurecer 
um pouco, caso contrrio eles te deixaro doida.
        - J esto - retorquiu ela, desesperada. Falaram durante cerca de uma hora e por fim Allegra desligou e foi tomar uma ducha. Estava secando o cabelo quando 
Brandon chegou. 
        Enquanto ele subia a rampa, Allegra apareceu  porta, de roupo turco, com o cabelo molhado a cair-lhe pelas costas e sem maquiagem. De certo modo, era ainda 
mais bela quando no estava arrumada, e Brandon gostava do seu aspecto natural, fresco e sensual.
        - Uau! - exclamou, beijando-a. Entrou atrs dela e Allegra fechou a porta  chave. Eram dez da noite. Ele tinha um ar exausto; deixou cair a pasta no hall 
e abraou-a. Valeu a pena trabalhar at tarde - disse Brandon, beijando-a e passando a mo por dentro do robe turco. Allegra estava nua por baixo.
        - Est com fome? - perguntou ela no intervalo de dois beijos.
        - Estou morrendo de fome... - respondeu Brandon, referindo-se a ela e no ao jantar.
        - O que te apetece? -  perguntou a jovem, rindo-se, enroscando as pernas nas dele e despindo-lhe o casaco.
        - Peito, creio eu... Ou talvez perna respondeu ele com voz rouca.
        Beijou-a de novo e um minuto depois estavam sentados na cama dela. Enquanto desabotoava a camisa, Brandon fitava-a com um olhar de desejo. Parecia cansado, 
depois de um longo dia de trabalho, mas nem por isso estava mal disposto. Nem sequer queria falar com ela; apetecia-lhe apenas devorar o seu corpo.
        Allegra ajudou-o a despir a camisa e ele tirou as cuecas. Pouco depois estavam ambos nus, deitados na cama e a fazer amor, envolvidos na luz suave que Allegra 
deixara acesa. Brandon sentiu-se completamente inebriado por ela. Uma hora mais tarde, quando j estavam saciados e se preparava para dormir, sentiu-o levantar-se 
e despertou.
        - Aonde vai? -  perguntou Allegra, virando-se e abrindo os olhos para admirar o esplendor do seu corpo, alto, esguio e dourado. Estavam bem um para o outro 
e eram to parecidos que por vezes algumas pessoas julgavam tratar-se de irmo e irm.
        -  tarde - respondeu ele em tom de desculpa, apanhando lentamente as roupas do cho.
        -  Vai para casa?
        Allegra ficou admirada e sentou-se na cama, olhando para ele. Brandon mostrou-se atrapalhado quando ela lhe fez a pergunta. Nem sequer haviam falado um com 
o outro, s tinham feito amor, e Allegra no queria que ele fosse embora.
        - Julguei... Amanh tenho de sair cedo e no queria te acordar.
        Parecia pouco  vontade, ansioso por ir embora. Fazia aquilo muitas vezes.
        - E o que importa que tenha que levantar cedo? Eu tambm. -  Allegra mostrou-se ofendida com o seu abandono. Tem aqui camisas lavadas. Eu tambm preciso 
de me levantar cedo.  to agradvel dormirmos juntos...
        Era agradvel e Allegra sabia que Brandon tambm gostava, mas tambm sabia que s vezes ele preferia voltar para o seu apartamento. Gostava do seu espao 
prprio, das suas coisas; nos dois ltimos anos, dissera-lhe vrias vezes que lhe agradava acordar na sua prpria cama, apesar de ser raro fazerem amor na casa dele. 
Vinha sempre para ali, para casa dela, mas, ao mesmo tempo, gostava de voltar para a dele. Esta atitude levava-a a sentir-se usada, e dispensada, e era particularmente 
penoso o sentimento de solido que a assaltava depois de Brandon sair e ela ficar sozinha na sua prpria casa. Segundo afirmou  psicloga, sentia-se abandonada. 
Porm, no queria pedir-lhe fosse o que fosse, nem for-lo a ficar, se ele no quisesse. Estava apenas muito desiludida.
        - Gostaria que ficasse Brandon -  disse em voz baixa, mas no acrescentou mais nada quando ele foi tomar ducha e voltou para a cama.
        Para Brandon, era mais fcil ficar do que discutir.
        Nessa noite, quando estavam deitados lado a lado, Allegra olhou para ele e sorriu. Talvez houvesse coisas a aperfeioar na relao de ambos, como o divrcio 
dele e a sua preferncia por dormir s, mas no lhe restavam dvidas de que o amava.
        Obrigada por ficar disse baixinho, abraada a ele. Brandon tocou-lhe ao de leve na face e beijou-a. Pouco depois comeou a ressonar.

CAPTULO 2

        Na manh seguinte, Allegra levantou-se antes de o despertador tocar, s seis e quinze. Fora a hora que Brandon determinara. Este se levantou e foi lavar 
os dentes e barbear-se, enquanto Allegra, nua, foi para a cozinha fazer caf.
        s seis e quarenta e cinco Brandon estava sentado  mesa, completamente vestido. Allegra ps-lhe  frente dois pezinhos e uma xcara de caf fumegante.
        - Que belo servio tem este restaurante! - exclamou ele, satisfeito. E gosto muito da farda das empregadas... acrescentou, admirando o corpo de Allegra quando 
ela, ainda nua, se sentou do outro lado da mesa, na sua frente.
        - Voc tambm est com um timo aspecto -  disse ela, admirando-lhe o terno cinzento-escuro.
        Brandon comprava tudo o que vestia nos Brooks Brothers. De vez em quando, ela tentava lev-lo a um estabelecimento Armani ou Rodeo Drive, na esperana de 
moderniz-lo um pouco, mas esse no era o seu tipo. Brandon era cem por cento Wall Street.
        - Eu diria que ests lindo para esta hora da manh. -  Allegra sorriu no meio de um bocejo e serviu-se de caf. S precisava estar no escritrio s nove 
e meia. A propsito, o que vai fazer esta noite?
        Fora convidada para uma estria e, como Brandon tinha o julgamento para preparar, no sabia se poderia acompanh-la. Duvidava, e tambm no desejava ir.
        - Tenho que trabalhar. Acabou-se a brincadeira. Disse aos outros tipos que ficaria por l at  meia-noite respondeu ele, quase em pnico ao lembrar-se de 
tudo o que tinha para fazer.
        A preparao de um julgamento era sempre assim, e por isso  que Allegra gostava que a sua firma tivesse uma equipE de litigantes, o que a dispensava de 
todo o trabalho deste gnero. Competia-lhe apenas colaborar com eles e fornecer-lhes informaes. De certo modo, o que fazia era mais simples. Era uma atividade 
criativa,  sua maneira, mas no implicava as exigncias brutais que o trabalho de defesa ao nvel federal impunha a Brandon.
        - Quer vir para c quando acabar? - perguntou, tentando no parecer suplicante. Gostaria que ele fosse para casa ao seu encontro, o que o jovem nem sempre 
estava disposto a fazer, e ela no o queria pressionar.
        - Adoraria -  respondeu Brandon, pesaroso, mas no posso. Quando acabar, estarei extenuado. Tenho de ir a casa.
        - Os meus pais convidaram-nos para jantar na sexta-feira -  disse ela; sabia que a me tambm acabaria convidando-o, s para agradar  filha, mesmo que no 
gostasse dele.
        - Na sexta-feira  noite vou ver minhas filhas -  respondeu Brandon com ar despreocupado, acabando de comer um dos pezinhos. J te tinha dito.
        - Julguei que no falava srio -  replicou ela, admirada. E o Globo de Ouro? Havia esperana no olhar de Allegra. Eles so importantes!...
        Eram para ela, mas no para Brandon.
        - Tambm a Stephanie e a Nicky so importantes. Tenho de ir v-las antes do julgamento respondeu ele com firmeza.
        - Brandon, h meses que te falei no Globo de Ouro. Eles significam muito para mim e para os meus pais. E a Carmen tambm foi nomeada. No posso esquecer 
tudo isto para ir a So Francisco objetou, tentando aparentar serenidade. Eram sete da manh.
        - Compreendo que no possa ir. No estava esperando que fosse -  disse ele, perfeitamente calmo.
        - Mas estou eu esperava que voc viesse comigo - insistiu ela, com uma ponta de irritao na voz, apesar dos seus esforos. Quero que voc v!
        - Essa expectativa no  razovel, Allegra. J te disse que no posso, expliquei-te o motivo. No vejo vantagem em estarmos a repetir o assunto. Por qu?
        - Porque  muito importante para mim! Ganhou flego, tentando no se zangar com ele. Tinha de haver uma maneira de resolver o problema a contento de todos. 
Olha, porque no vai  entrega dos prmios comigo e vamos os dois a So Francisco no domingo? Que tal te parece?
        Allegra parecia totalmente vitoriosa, entusiasmada por haver encontrado uma soluo racional, mas ele abanou a cabea e bebeu um gole de caf antes de retrucar.
        - Esse plano no resolve, Allie, desculpe. Preciso de mais de um dia para estar com elas. No posso fazer isso.
        - Por qu?
        Sentiu que ia desatar a chorar e tentou controlar-se.
        - Porque elas precisam de mais tempo, e, francamente, eu tambm preciso falar com a Joanie acerca do apartamento de Squaw. Ela quer vend-lo.
        - Isso  ridculo! -  explodiu Allegra, perdendo, por fim, o controle. Podem tratar do assunto pelo telefone. Pelo amor de Deus, Brandon, no tem feito mais 
nada que no seja falar com ela do apartamento, da casa, do carpete, do carro e do co nos ltimos dois anos! Esta cerimnia dos prmios  importante para ns! Allegra 
inclua a sua famlia, mas Brandon no se deixou comover. Para ele, a situao tinha a ver com a sua prpria famlia, que era constituda pela ex-mulher e as duas 
filhas. No vou desistir de voc a favor da Joanie! - acrescentou ela abruptamente.
        - Pois no. Brandon levantou-se, sorrindo, sem querer deixar-se influenciar por ela e mostrando-o claramente. E a Stephanie e a Nicky?
        - Elas compreendem, se explicar.
        - Duvido. E, de qualquer modo, no se trata de uma opo.
        Brandon fitou-a com firmeza e Allegra encarou-o, incapaz de acreditar que ele a deixaria para ir a So Francisco.
        - Quando volta? - perguntou, consternada por dentro e muito contrariada.
        Mais uma vez, sentia-se abandonada e um pouco assustada, mas sabia que no podia ceder a estes sentimentos. Brandon ia ver as filhas em So Francisco, no 
era propriamente sua inteno desiludi-la. Acontecia, ponto final! No entanto, porque se sentia to mal com a deciso dele?
        Allegra no conseguiu perceber a resposta de Brandon, nem sequer concluir se devia ficar furiosa ou triste por ele no a acompanhar  cerimnia dos Globos 
de Ouro. Seria assim to importante? Teria o direito de fazer tais exigncias? 
        E por que motivo  que as reaes dele eram sempre to confusas quando estavam em causa as necessidades dela? Seria, como afirmava a Dr. Green, porque no 
queria admitir para si prpria que ele se comportava de forma errada? Estaria rejeitando-a, ou apenas fazendo o que tinha que fazer? E porque  que nunca conseguia 
responder a estas perguntas?
        - Volto, como sempre, no ltimo avio de domingo  noite. Chego s dez e quinze. Posso estar aqui por volta das onze assegurou ele para acalm-la.
        Foi ento que Allegra se lembrou que no estaria em Los Angeles.
        - Esqueci-me de te dizer que vou para Nova Iorque no domingo  noite. Fico l toda a semana, at sexta-feira.
        - Ento tambm no poderia ir comigo a So Francisco - replicou ele, descontrado.
        - Podia partir de l, se quisesse. Se fssemos no domingo.
        - Isso  ridculo! - exclamou ele, ignorando o plano dela e pegando na pasta. Voc tem o seu trabalho, Allie, e eu tenho o meu, e s vezes basta que nos 
comportemos como pessoas adultas!
        De sbito, esboou um sorriso melanclico. Nesse momento, ambos se aperceberam de que no se veriam durante dez dias, at ao outro fim-de-semana.
        - Quer aparecer esta noite e ficar aqui, j que vou estar tanto tempo sem te ver?
        Allegra desejava que ele o fizesse, mas, como era habitual, Brandon colou-se ao seu plano original. Era raro alter-lo.
        - No posso, srio. Quando acabarmos, estarei demasiado cansado. No seria muito divertido, e no vale a pena eu vir  s para dormir, no acha?
        Mas era precisamente neste ponto que ambos discordavam.
        -  claro que vale! No tem obrigao de me distrair. Dizendo isto, Allegra ps-se na ponta dos ps, passou-lhe os braos pelo pescoo e beijou-o.
        - Te vejo na prxima semana, querida  - afirmou ele friamente, depois de beij-la. Telefono esta noite e amanh antes de ir para So Francisco
        - Quer ir jantar na casa de mame na sexta-feira, antes de partir? -  perguntou ela, furiosa consigo prpria por estar suplicando. Era exatamente o que sabia 
que no devia fazer, mas no conseguiu refrear-se. Desejava estar com ele.
        - O mais provvel era perder o avio, como aconteceu da ltima vez, e depois as meninas ficam aborrecidas.
        - As meninas? -  perguntou ela, erguendo a sobrancelha e esforando-se por no disparatar. Ou a Joanie?
        - Ora, Allie, no seja m. Bem sabe que no posso. Eu tenho um julgamento, e voc de ir   Nova Iorque, eu tenho duas filhas em So Francisco. Ambos temos 
as nossas obrigaes. Porque no fazemos o que temos que fazer e nos encontramos depois, descontrados?
        Ele falava de modo que tudo parecesse razovel, mas havia uma parte de Allegra que no aceitava as coisas assim, a mesma parte que ficava desiludida quando 
ele no estava presente, como sucederia na cerimnia da entrega dos prmios, ou quando ia para casa depois de fazerem amor e dormia sozinho. Pelo menos, passara 
a ltima noite com ela, e Allegra lembrou-se que devia estar grata por isso e no o aborrecer mais com o fim-de-semana.
        - Amo voc -  disse-lhe, quando ele a beijou  porta, recuando para que ningum a visse nua.
        - Eu tambm - respondeu ele, sorrindo. Divirta-se em Nova Iorque. E no esquea de levar roupa quente. Li no Times de hoje que ir nevar.
        - timo!
        Allegra tinha um ar desolado ao v-lo afastar-se e acenou-lhe quando ele entrou no carro. Fechou a porta e foi espreit-lo da janela do quarto at ele descer 
a rampa em marcha atrs. Sentiu-se mal ao v-lo partir. Havia qualquer coisa que no estava bem, mas no sabia o qu. Seria o fato de ele no alterar os seus planos, 
ou de ir ver outra vez Joanie, com as filhas, ou seria apenas porque era obrigada a ir sozinha  cerimnia dos Globos de Ouro e a explicar-se aos pais? Talvez fosse 
por saber que no o veria durante dez dias... Tudo isto lhe criava um sentimento de infelicidade.
        Foi para o banheiro e abriu o chuveiro. Ficou ali durante muito tempo, com a gua a escorrer pelo rosto, pensando nele e perguntando a si prpria se Brandon 
se modificaria. 
        Ou continuaria a preferir dormir sozinho, a achar que era muito incmodo aparecer depois do trabalho, mantendo-se casado com Joanie eternamente? Deixou que 
as lgrimas se misturassem com a gua quente e disse com os seus botes que era um disparate aborrecer-se. No conseguiu encontrar respostas para as suas questes.
        Estava exausta quando saiu da ducha, meia hora depois. Talvez Brandon j tivesse chegado ao escritrio, mas parecia-lhe to estranho que ele ainda estivesse 
na cidade, que passasse dois dias sem o ver. E, no entanto, quando tentava explicar-lhe sentimentos como este, quando lhe dizia que precisava da sua companhia ou 
que queria estar com ele, Brandon parecia no a entender. 
        - Porque lhe parece que isso acontece? -  perguntava-lhe sempre a Dr. Green.
        - Como vou saber? -  retrucara Allegra mais de uma vez.
        - Acha que se deve a falta de empenho da parte dele? -  insistia, em geral, a Dr. Green. Talvez no se importe tanto com voc como voc com ele... Ou talvez 
no seja capaz de assumir o tipo de compromisso que voc pretende -  insinuava com subtileza, insistindo num tema familiar que enervava Allegra.
        - Porque ela dava sempre a entender que os homens da vida de Allegra se entregavam pouco? Por que motivo este era um tema recorrente e porque  que continuava 
a dizer que se tratava de um padro. Allegra ficava mesmo aborrecida.
        Jogou fora o resto dos pezinhos de mirtilo. Brandon comera quase todos e ela no tinha fome. Fez um caf fresco e depois foi se vestir. Por volta das oito 
e meia estava pronta para sair e ainda dispunha de algum tempo antes de enfrentar o trnsito na auto-estrada. Olhou para o relgio. Sabia que a me devia ter sado 
para o estdio s quatro da manh, mas deixou-lhe uma mensagem na secretria eletrnica, confirmando que iria jantar com eles na sexta-feira e que iria sozinha. 
Tinha a certeza que, quando chegasse, haveria comentrios, sobretudo se lhes dissesse onde estava Brandon, mas, pelo menos por enquanto, no teria de ouvir nada.
        Em seguida, fazendo um esforo de memria, ligou para um nmero de Beverly Hills que metade das mulheres americanas trocaria por um brao. Eram amigos desde 
os catorze anos, tinham namorado durante seis meses quando andavam na escola secundria, e desde ento havia mantido uma boa amizade. Ele atendeu ao segundo toque, 
como sempre, exceto quando estava 'ocupado' ou ausente, e Allegra sorriu ao ouvir aquela voz conhecida, que s ela no considerava insuportavelmente sensual.
        - Ol, Alan, sou eu, no se irrite...
        Allegra sorria sempre quando falava com ele. Alan era uma pessoa especial.
        - A esta hora? - Alan surpreso ao ouvir a voz dela, mas Allegra sabia que o amigo costumava levantar-se bastante cedo. Terminara um filme em Bancoc e passaria 
trs semanas em casa. Allegra tambm sabia que ele acabara recentemente um romance com a atriz inglesa Fiona Harvey; conforme o seu agente. O que andou fazendo ontem 
 noite? Foi presa? Est  telefonando para eu te pagar a fiana?
        - Exatamente. Vai buscar-me  esquadra de Beverly Hills daqui a vinte minutos.
        - Nem pense nisso! Todos os advogados deviam estar na cadeia! Por mim, pode ficar a.
        Alan tinha trinta anos e o rosto e o corpo de um deus grego, mas, alm disso, era inteligente e genuinamente bem formado. Era um dos amigos mais ntimos 
de Allegra e o nico homem de quem se lembrara para acompanh-la  festa da entrega dos prmios. Sorriu ao recordar que Alan fora seu namorado no passado. A maioria 
das mulheres americanas daria tudo para conhec-lo.
        -  O que vai fazer no sbado? -  perguntou de chofre, balanando o p como uma criana e fazendo um esforo para no pensar em Brandon, ou para no permitir 
que tal a aborrecesse.
        -  Voc no tem nada com isso, muito obrigado - respondeu ele, fingindo-se ofendido.
        - Vai sair com algum?
        - Por qu? Tem a inteno de apresentar-me mais uma das suas terrveis colegas? Acho que a ltima bastou, minha malvada!
        - Ora, no me aborrea! No era uma namorada, e voc bem sabe. Precisava de um especialista em direito peruano, e  isso mesmo que ela , portanto no me 
chateie. Por sinal, soube que te deu, gratuitamente, uma consulta que valia trs mil dlares, por isso no se faa de vtima.
        - Quem  que se fazendo de vtima? -  Alan mostrou-se reservado, fingindo-se escandalizado com a linguagem dela.
        - Voc, e no respondeu  minha pergunta.
        - Vou sair com uma menina de catorze anos que talvez me atire para a priso. Por qu?
        - Preciso de um favor.
        Allegra podia dizer-lhe tudo sem artifcios nem rodeios. Gostava dele como de um irmo.
        -  Que novidade! Precisa sempre de um favor. Quem  que quer o meu autgrafo desta vez?
        -  Ningum, absolutamente ningum. Preciso do teu corpo.
        -  Essa  uma proposta que me intriga...
        Nos ltimos catorze anos, desde o fugaz namoro de ambos, pensara mais de uma vez em aproximar-se dela, mas Allegra nutria por ele sentimentos to fraternos 
que Alan nunca conseguira tomar a iniciativa. No entanto, era bela e inegavelmente inteligente e Alan gostava dela mais do que de qualquer outra mulher no mundo. 
No fundo, talvez fosse esse o problema.
        - No que est pensando exatamente em relao a este corpo velho e decrpito?
        - Em nada que seja agradvel, juro. -  Deu uma gargalhada. Tambm no  assim to mau, por acaso. Preciso de companhia para a festa de entrega dos Globos 
de Ouro. A mame e o papai foram nomeados, e a Carmen Connors tambm, uma das minhas clientes. E h mais dois que so candidatos. Tenho de estar presente e no gostaria 
ir sozinha.
        Allegra estava sendo honesta com ele, como sempre, uma qualidade que Alan muito apreciava nela.
        - O que aconteceu ao... Como  que ele se chama? - Alan sabia perfeitamente o nome de Brandon e tambm dissera vrias vezes a Allegra que no gostava dele. 
Considerava-o frio e petulante. Ela estivera vrias semanas sem falar com ele por causa disso, mas depois se habituara, porque Alan no perdia uma oportunidade de 
lhe dizer o que pensava; porm, desta vez poupou-a.
        - Tem de ir a So Francisco.
        - Que simptico da parte dele, Al! Que grande sentido de oportunidade! Que tipo afvel! Foi ver a mulher?
        - No, estpido, foi ver as filhas. Tem um julgamento que comea na segunda-feira.
        - No sei se estou percebendo a relao... - replicou Alan com frieza.
        - Ele no poder ir ver as filhas durante duas semanas, por isso quer visit-las agora.
        - Cancelaram os vos de So Francisco para Los Angeles? Porque  que os anjinhos no podem vir c ver o papai?
        - A me no permite.
        - O que te deixa solitria, no ?
        - Sim, e foi por isso que te telefonei. Pode ir? - perguntou ansiosa.
        Seria divertido ir com ele. Alis, era sempre divertido estar com Alan. Era como se voltassem os dois  adolescncia. Contavam anedotas, riam de tudo e por 
nada e faziam muito barulho.
        -   um sacrifcio, mas acho que, se for obrigado a isso, posso alterar alguns planos... - disse ele, suspirando.
        Allegra riu.
        - Mentiroso! Aposto que no tem nada para fazer!
        - Ai isso  que tenho! Por acaso, ia jogar boliche.
        - Voc?! - Allegra riu ainda mais. Cinco minutos depois estaria rodeado de gente. No pode jogar boliche...
        - Um dia te levo, para acreditar em mim.
        - Est combinado. Adorarei ir - respondeu, radiante. Como era habitual, ele salvara-a. No iria  festa sozinha.
        Alan Carr era um amigo com o qual podia contar sempre.
        - A que horas vou te buscar, Cinderela?
        Alan parecia satisfeito com a combinao. Gostava sempre de estar com ela.
        - Aquilo comea cedo. Seis horas?
        - Estarei l.
        - Obrigada, Alan disse ela, com sinceridade. Agradeo-te muito.
        - No seja to agradecida, pelo amor de Deus!Voc merece um tipo melhor do que eu... Merece que esse palerma te leve, se  o que deseja, portanto no me 
agradea. Pense na sorte que eu tive.  assim que deve pensar. Do que voc precisa  de mais afirmao. Onde foi buscar essa humildade?  demasiado inteligente para 
isso. Gostaria muito de te ensinar uma ou duas coisas sobre esse assunto... Ele no sabe a sorte que tem. So Francisco, o raio que o parta!
        Alan comeou a resmungar e Allegra riu,  mas sentia-se mil vezes melhor.
        - Tenho de ir trabalhar. At sbado. E por favor, tente manter-se sbrio, combinado?
        - No seja meiga! No admira que no consiga arranjar quem v com voc!...
        Brincavam um com o outro. Ele bebia bastante, mas era raro embriagar-se e nunca se portava mal. Ambos gostavam de brincar. Allegra sentiu-se de novo confiante 
a caminho do emprego. Alan devolvera-lhe a boa disposio.
        Durante o dia, esqueceu a tristeza que a invadira de manh. Encontrou-se com uns agentes ligados  tourne de Bram, tratou de alguns pormenores relativos 
 segurana de Carmen, reuniu-se com outro cliente por causa da custdia dos filhos e, ao fim do dia, ficou admirada ao verificar que nem se lembrara de Brandon. 
Continuava lhe desagradar que ele no a acompanhasse  cerimnia de entrega dos Globos de Ouro, mas pelo menos no se sentia to mal como de manh. E, ao pensar 
nisso, concluiu que no fora razovel. Ele tinha o direito de ir ver as filhas, e talvez estivesse certo. Talvez ambos tivessem que pensar nas suas carreiras, cumprir 
os seus compromissos e encontrar-se nos momentos livres. No era um modo de vida muito romntico, mas era o possvel nesta fase. Afinal, talvez no fosse assim to 
mau, ela  que devia ser demasiado exigente, como ele insinuava de vez em quando.
        -  isso que voc pensa? - perguntou-lhe a Dr. Green nessa tarde, durante a consulta semanal.
        - No sei bem o que penso - admitiu Allegra. Sei o que quero, mas, quando falo com o Brandon,  como se estivesse a ser pouco razovel e exigindo demasiado 
dele. No sei quem  que tem razo ou se estou assustando-o.
        -  uma hiptese interessante -  observou a Dr. Green com frieza. Porque julga que o assusta?  
        -  Porque ele no est preparado para aquilo que eu pretendo de uma relao, ou para o que eu quero dar.
        -  Acha que est disposta a dar mais? Por qu? -  insistiu a Dr. Green, interessada.
        -  Acho que gostaria de viver com ele, mas creio que isso o assusta de morte.
        -  O que a leva a dizer isso?
        A Dr. Green comeava pensar que Allegra estava fazendo progressos.
        -  Acho que ele est assustado porque quer voltar para o seu apartamento,  noite. Nunca passa a noite em minha casa, se puder evit-lo.
        -  E quer que voc v com ele?  uma questo de territrio?
        -  No. -  Allegra abanou a cabea lentamente. Diz que precisa do seu prprio espao. Uma vez confidenciou-me que, quando acordamos juntos de manh, se sente 
como se estivesse casado. E como o casamento no foi uma boa experincia para ele, no quer repeti-la.
        -  O Brandon tem de se libertar disso, caso contrrio passar o resto da vida sozinho. Compete-lhe fazer essa opo. Mas as opes dele afetaro o relacionamento 
de vocs, Allegra.
        -  Eu sei, mas no quero apress-lo.
        -  J l vo dois anos -   retorquiu a Dr. Green, discordando. Chegou o momento de ele mudar algumas coisas. A menos que voc esteja satisfeita com a situao 
atual disse ela, sempre oferecendo opes a Allegra. Se  isso que pretende, ento no temos queixas, no  verdade?  assim? 
        -  No sei. No me parece  -  respondeu Allegra, nervosa. Eu queria mais. No me agrada quando ele se retira para o seu mundo ou quando vai a So Francisco 
sem mim.
        E depois admitiu uma coisa que a fazia sentir-se estpida.
        -  s vezes preocupo-me com a ex-mulher dele, tenho medo que a Joanie consiga faz-lo voltar. Ela ainda depende muito dele. Creio que  por isso que o Brandon 
no se quer comprometer.
        -  Bem, o melhor que ele tem a fazer  decidir-se um destes dias, no acha, Allegra?
        -  Penso que sim respondeu Allegra, com cautela, mas no acho que esteja certo fazer-lhe ultimatos.
        -  Porque no? -  perguntou a Dr. Green, afoita.
        -  Ele no ia gostar.
        -  E depois?
        A psicloga pressionava Allegra, tal como gostaria que ela pressionasse Brandon.
        -  Ele pode terminar a relao se eu insistir demasiado.
        -  E qual seria o resultado? -  perguntou a Dr. Green.
        -  No sei  -  respondeu Allegra, com ar assustado. Era uma mulher forte, todavia, nunca se sentia suficientemente forte na presena de Brandon, como se 
no tivesse amado dois homens antes dele. Tinha medo, e por isso recorria  Dr. Green h quase quatro anos.
        -  Se a relao terminar, voc ficar livre para conhecer outra pessoa que esteja mais disposta a assumir um compromisso. Isso seria assim to mau?
        -  Talvez no -   respondeu Allegra com um sorriso ansioso, mas seria muito assustador...
        -  Com certeza, mas voc havia de ultrapassar a situao. Ficar sentada  espera que Brandon se digne abrir as portas do cu pode ser mais prejudicial para 
si do que o receio que tem de conhecer algum disposto a am-la, Allegra.  um assunto para pensar, no acha? -   perguntou ela, trespassando Allegra com o olhar 
e terminando a sesso com o habitual sorriso caloroso.
        De certo modo, era como se fosse ao encontro de uma cigana para lhe ler a sina. Ao sair, tentou passar em revista tudo o que dissera; havia coisas de que 
se lembrara e outras que tentara desesperadamente recordar, mas de que se esquecera. No entanto, de um modo geral, as sesses faziam-lhe bem e, ao longo dos anos, 
ambas tinham analisado o seu pendor para se envolver com homens que no conseguiam, ou no queriam, am-la. Era um padro muito antigo na sua        vida e Allegra 
no gostava de pensar nele, e ainda menos de falar. Ao fim de todo este tempo, tinha esperana de se melhorar.
        Voltou para o escritrio, resolveu alguns assuntos pendentes e a sua ltima reunio do dia foi com Malachi O'Donovan. Era um amigo de Bram Morrison, tambm 
uma estrela do rock, com menos projeo do que ele, mas igualmente muito importante. Nascera em Liverpool, mas o casamento dera-lhe acesso  cidadania americana. 
A mulher chamava-se Rainbow, e tinham duas filhas, Swallow e Bird. Allegra j estava habituada a estas bizarrices. Muito pouco do que se dizia ou fazia no mundo 
do rock a surpreendia.
        O'Donovan tinha uma histria complicada de detenes e drogas, dois assaltos e uns quantos processos judiciais confusos. Passara algum tempo na priso ao 
longo dos anos e parecia muito intrigado com Allegra. A princpio reagiu em termos sexuais, mas, como ela o ignorou e se limitou propositadamente s questes de 
natureza profissional, acabou por se acalmar e tiveram uma conversa muito interessante. Allegra estava convencida de que poderia ajud-lo em alguns dos seus problemas 
jurdicos, a maioria dos quais provinham de uma tourne mundial que ele andava tentando organizar, embora estivesse afundando-se em complicaes burocrticas e questes 
legais.
        -  Veremos o que se pode fazer, Mal. Entrarei em contato depois de receber os dossis do seu advogado atual.
        -  No se preocupe com o meu ltimo advogado  -  disse ele, encolhendo os ombros  sada.  um idiota! -  acrescentou, no seu belo dialeto irlands.
        -  De qualquer modo, precisamos dos seus papis. Allegra esboou um sorriso afetuoso. Telefono-lhe assim que souber alguma coisa.
        O'Donovan gostou muito dela. Morrison no o encaminhara mal. A advogada era inteligente e ia direita ao assunto, sem rodeios. Isso lhe agradava.
        -  Telefone-me quando quiser, filha  -  disse ele em voz baixa, quando Rainbow j estava junto do elevador.
        Allegra fingiu que no ouviu, voltou a entrar e fechou a porta do gabinete.
        Por fim, foi para casa j tarde. Esteve lendo uns processos e analisou alguns dos contratos de Bram. Carmen acabara de receber uma proposta muito interessante 
para rodar um filme que poderia ser muito importante para ela. Era um desafio, o que Allegra adorava.
        Estava bem-disposta quando chegou a casa e s ento se lembrou que no soubera de Brandon durante todo o dia. Perguntou a si prpria se ele teria ficado 
irritado por haver pressionado-o com a questo dos Globos de Ouro nessa manh.
        Por volta das nove horas telefonou para ele no escritrio e ele mostrou-se satisfeito ao ouvir a sua voz. Disse-lhe que trabalhara treze horas seguidas e 
que ia precisamente ligar-lhe.
        -  Comeu alguma coisa? -  perguntou ela, solcita, arrependida de ter se zangado com ele.
        Depois se lembrou do que a Dr. Green lhe dissera. Tinha o direito de esperar mais do que ele queria, ou conseguia, dar-lhe.
        -  Nos trazem sanduches de vez em quando. s vezes at nos esquecemos de  comer...
        -  Devia ir para casa e deitar-se em horas decentes  -   lembrou-lhe, desejando que ele fosse ao seu encontro. Mas desta vez no lhe perguntou nada, e ele 
no falou no assunto. Agradava-lhe voltar ao trabalho e ao convvio com os colegas.
        -  Te telefono amanh antes de partir para So Francisco.
        -  Estarei na casa dos meus pais. Vou diretamente do escritrio para l.
        -  Nesse caso, talvez no telefone -   disse ele.
        Allegra teve vontade de gritar. Porque Brandon se  afastava de tudo de que ela gostava, principalmente da sua famlia? Estava tudo relacionado com a fobia 
do compromisso.
        -  Te telefono depois de chegar. Ligo para sua casa.
        -  Como quiser  -   respondeu ela com calma,  satisfeita por ter tido oportunidade de falar do assunto com Jane Green. As conversas de ambas tornavam sempre 
tudo mais simples, mais claro e menos dramtico. Era to simples, de fato... Ele no conseguia chegar at ela nem am-la livre e abertamente. Alguma vez o conseguiria? 
Allegra queria casar com ele, se conseguisse divorciar-se e descontrair-se o suficiente para am-la. Estava convencida de que ele a amava,  sua maneira, mas tambm 
era bvio que se sentia fortemente limitado pelas recordaes do que se passara com Joanie.
        -  Conseguiu resolver a questo dos Globos de Ouro? -  perguntou Brandon de repente, e Allegra admirou-se de ele falar nisso, de um assunto to melindroso.
        -  Sim, est tudo bem  -   respondeu, sem se alongar mais, sem querer admitir perante ele que estava aborrecida.
        -  Vou com o Alan.
        -  Alan Carr?
        Brandon ficou escandalizado. Esperava que ela fosse sozinha, com os pais.
        -  Julguei que iria s com o seu irmo e os seus pais, ou coisa do gnero.
        Allegra riu da ingenuidade dele. A cerimnia dos Globos de Ouro era um dos acontecimentos mais sofisticados do ano e no um daqueles a que mais gostaria 
de ir com o irmo de vinte anos.
        Estou ficando um pouco velha para isso, sabe? Mas o Alan  uma boa companhia. Me  faz rir a noite inteira e diz grosserias acerca das grandes estrelas, mas 
todos o conhecem e o adoram.
        -  Nunca esperei que preenchesses o meu lugar com tanta facilidade   -  replicou ele, mostrando-se simultaneamente irritado e ciumento.
        Allegra riu. Talvez lhe fizesse bem.
        -  Eu preferia estar com voc  do que com o Alan, em qualquer circunstncia  -  afirmou, honestamente.
        -  No se esquea disso  -   disse ele, sorrindo. Mas que raio de cumprimento, Allie! Nunca pensei estar na mesma turma do Alan Carr!
        -  Bem, no deixes que isso te suba  cabea -   retorquiu ela, provocadora.
        A conversa durou mais alguns minutos e depois desligaram, mas Brandon nunca se referiu  hiptese de passar a noite com ela. Allegra sentiu-se de novo deprimida 
quando se deitou e ficou pensando nisso. Tinha vinte e nove anos e um namorado que preferia dormir sozinho na sua prpria cama do que estar com ela, pelo menos s 
vezes, seno quase sempre, e que no a acompanhava numa ocasio que era importante para ela, para estar com a ex-mulher e as duas filhas. Por muito que desse a volta 
ao assunto ou tentasse esquecer, sentia-se magoada. E sozinha. Brandon era muito reservado,  sua maneira, e, fossem quais fossem as necessidades dela, fazia sempre 
o que queria.
        'Voc merece melhor.' Nessa noite, ao deitar-se, a voz da Dr. Green ecoou na sua cabea, mas no conseguiu lembrar-se se as palavras que ela dissera tinham 
sido mesmo estas ou se tratava apenas da idia que ela transmitira. Porm, prestes a adormecer recordou o brilho intenso dos olhos castanhos da psicloga, que a 
observava e reforava a mensagem. 'Eu mereo melhor', repetiu em surdina... 'Melhor... Mas o que quer isto dizer?' E depois, de sbito, viu apenas Alan... Riu ... 
Mas estaria rindo dela? Ou de Brandon?
        






CAPTULO 3

        A casa dos Steinberg em Bel Air era uma das mais bonitas da zona. Era grande e confortvel, mas no palaciana. Fora a prpria Blaire que a decorara h anos, 
quando haviam mudado, logo depois do nascimento de Scott. Blaire era exmia em restaurar objetos e  redecorar divises para mant-las frescas, limpas e modernas. 
Os filhos brincavam com ela porque a casa estava em constante remodelao.
        Mas Blaire gostava de dar-lhe um novo aspecto e usava muitas cores claras e alegres. O ambiente era acolhedor, elegante e informal. Era um local que todos 
gostavam de visitar. A vista do ptio e da sala era espetacular. E h vrios meses que Blaire falava em substituir as paredes da cozinha por vidro. Porm, andava 
to atarefada com o seu programa que ainda nem tivera tempo para isso.
        Allegra saiu do emprego e foi diretamente para l. Como sempre, ao chegar sentiu-se envolvida pelo calor e pelo aconchego da famlia e da casa onde crescera. 
O seu quarto ainda estava como o deixara h onze anos, quando fora para a universidade. O papel da parede, os cortinados e a colcha da cama, de uma seda clara, cor 
de pssego, tinham sido substitudos quando ela estava na Faculdade de Direito. Allegra passava l uma noite de vez em quando, ou um fim-de-semana. Ir para casa 
e estar com a famlia era sempre divertido e relaxante. O seu quarto ficava no mesmo piso da sute dos pais, que era constituda pelo quarto, por duas salas de vestir 
adorveis e por dois escritrios que eles utilizavam quando tinham de trabalhar em casa, o que era muito freqente. Nesse mesmo piso havia ainda dois quartos de 
hspedes. L em cima, Sam e Scott tinham tambm as suas sutes e uma grande sala no meio. Partilhavam um televisor enorme, uma pequena tela de cinema, uma mesa de 
pool e uma fantstica aparelhagem sonora que o pai dera no Natal. Estar ali era o sonho de qualquer adolescente, e havia sempre pelo menos meia dzia de amigas de 
Sam l em casa, a falarem do colgio, dos planos para a faculdade e dos namorados.
        Sam encontrava-se na cozinha quando Allegra entrou, e era difcil no reparar como se tornara bonita no ltimo ano. Sem mais nem menos, com dezessete anos 
e meio, o seu aspecto, que j era extraordinrio, melhorara ainda mais. Tinha o toque de uma estrela, diziam os scios do pai, e a me resmungava sempre quando os 
ouvia falar assim. A prioridade de Sam sempre foram os estudos. Blaire no se importava que ela tivesse uma curta carreira de modelo, mas no a entusiasmava a idia 
de que a filha mais nova se tornasse atriz. Era uma carreira dura e, perante o que via diariamente, comeava a pensar que seria prefervel que Samantha se mantivesse 
 margem. No entanto, era difcil os pais conseguirem ser muito convincentes. Sam vivera sempre naquele meio e, de momento, s pensava em ser atriz. Tinha concorrido 
 UCLA, Northwestern, Yale e NYU pelo que tinham a oferecer no domnio do teatro, e, graas s suas excelentes notas, fora aceita em todas, mas, ao contrrio de 
Allegra dez anos antes, no pretendia ir para o Leste. Queria ficar em Los Angeles e talvez at viver em casa. Decidira ir para a UCLA e j fora aceita.
        Na noite de sexta-feira, Sam estava comendo uma ma quando Allegra entrou. Os cabelos louros caam-lhe pelas costas como um lenol amarelo-dourado e os 
olhos eram grandes e verdes como os da irm.
        -   Ol, menina. Como vai a vida?
        Satisfeita, Allegra deu-lhe um beijo e abraou-a.
        -  Nada mal. Fiz uns desfiles esta semana para um fotgrafo ingls. Era um tipo agradvel. Gosto dos estrangeiros; so simpticos para mim. Em Novembro trabalhei 
com um francs que estava a caminho de Tquio. Desta vez foi uma amostra para o Times de Los Angeles. E vi um trecho do novo filme de papai.
        Como todas as adolescentes, Sam tinha um discurso inconseqente, mas Allegra compreendia-a.
        -  Como era o filme? -  perguntou, servindo-se de palitos de cenoura e cumprimentando Ellie com um abrao afetuoso.
        Ellie, que era cozinheira da famlia h vinte anos, expulsou-as da cozinha
        -  Era bom.  difcil dizer. Algumas cenas ainda no estavam no seu lugar... Mas era legal. 
        E Sam tambm o era. Allegra sorriu ao ver a irm subir as escadas aos saltos. Toda ela era pernas, braos e cabelo; lembrava um belo potro selvagem a saltar 
por cima de tudo. Parecia to jovem e ao mesmo tempo to espigada! Custava a acreditar como crescera depressa, mas a verdade  que era quase uma mulher. H onze 
anos, quando Allegra sara de casa para ir para Yale, Sam tinha apenas seis anos, e em certos aspectos todos continuavam a pensar nela como se fosse um beb.
        -   voc? -  gritou a me do alto das escadas, espreitando por cima do corrimo.
        Blaire parecia pouco mais velha do que as filhas. O cabelo ruivo e sedoso estava penteado para cima, com duas canetas e um lpis espetados, e emoldurava-lhe 
o rosto. Vestia jeans e uma camisola preta de gola alta e calava uns tnis pretos que comprara para Sam, mas que esta no usava. Parecia uma menina, e s quem se 
aproximasse  que via como era bela, como a idade passava por ela de uma forma suave e como a sua figura era esbelta como a das filhas.
        -  Como est, querida? -  perguntou, beijando Allegra e correndo para atender o telefone.
        Era Simon. Estava atrasado. Tivera um problema no escritrio, mas chegaria em casa  hora do jantar.
        Fora a proximidade um do outro que os salvara das presses de Hollywood ao longo dos anos, isso e o fato de terem uma relao maravilhosa. Blaire raramente 
o admitia, mas a sua vida era um caos quando o conhecera. Estava desesperada e, depois do casamento, foi como se tudo tivesse mudado para melhor. A sua carreira 
disparara e os bebs haviam chegado depressa e com facilidade, alm de serem recebidos com muito amor. Blaire e Simon adoravam a casa, os filhos, as carreiras, e 
adoravam-se um ao outro. No havia mais nada que desejassem, exceto, talvez, mais filhos. Ela tinha trinta e sete anos quando Sam nascera, o que j lhe pareceu demasiado 
tarde. E parou. Agora lamentava no ter tido pelo menos mais um, mas os trs filhos davam-lhe uma grande alegria, apesar de uma ou outra briga com Samantha.
        Blaire sabia que ela era mimada, mas tinha bom corao. Era aplicada nos estudos e nunca fazia disparates. Se discutia com a me de vez em quando, isso era 
prprio da sua idade e da sua cultura.
        Assim que Blaire desligou o telefone, subiu as escadas, viu Allegra a espreitar pela janela do quarto e foi ao seu encontro.
        -  Pode voltar para casa quando quiser, bem sabe -  disse em voz baixa, observando a filha mais velha, que parecia surpreendentemente melanclica. Desejou 
perguntar se tinha acontecido alguma coisa, mas no se atreveu. Blaire ficava sempre preocupada quando via que Allegra no recebia apoio emocional suficiente de 
Brandon. Ele era to independente em tudo e parecia to inconsciente das necessidades e dos sentimentos da filha! Blaire fizera o possvel por gostar dele nos ltimos 
dois anos, mas no conseguira.
        -  Obrigada, me.
        A jovem sorriu-lhe e depois deitou na grande cama de colunas. Algumas vezes, sentia-se muito bem em estar ali, nem que fosse s por algumas horas, outras, 
desagradava-lhe a influncia que a famlia ainda exercia nela. Sentia-se muito ligada a eles, e isso s vezes dava-lhe que pensar. Gostava tanto dos pais e dos irmos 
e no cortara os laos que os uniam, como acontecia com outras mulheres da sua idade, mas porque deveria de faz-lo? Brandon queixava-se que continuava demasiado 
presa a eles e que isso no era saudvel nem normal, mas Allegra dava-se to bem com a famlia, que a apoiava tanto! O que havia de fazer? Deixar de v-los porque 
estava  chegando aos trinta anos?
        -  Onde est o Brandon? -  perguntou a me, tentando mostrar-se despreocupada. Notara que Allegra viera jantar sozinha, e tinha de admitir que se sentira 
aliviada, mas no disse nada, evidentemente. Ficou trabalhando at tarde?
          - Teve que ir a So Francisco ver as filhas - respondeu Allegra, num tom to despreocupado como o da me, porm, ambas sabiam que aquilo era uma farsa 
para dar a impresso que nenhuma delas estava inquieta nem aborrecida.
        - Mas tenho a certeza que volta amanh. Blaire sorriu, irritada por causa de Allegra; Brandon nunca estava presente quando ela precisava. Contudo, ficou 
admirada com a resposta da filha.
        - Por acaso, no. Tem de passar o fim-de-semana com elas. Comea um julgamento na segunda-feira e no sabe ao certo quando voltar a v-las.
        - Ele no vai  cerimnia de entrega dos prmios? Blaire ficou estupefata. Isto teria algum significado? Seria um dos primeiros sinais de ruptura? Tentou 
mostrar-se apenas admirada e no esperanosa.
        - No, mas no tem importncia mentiu Allegra, sem querer admitir como ficara transtornada. Sentia-se to vulnervel ao admitir perante a me que tinha problemas 
com Brandon! Ficava to frustrada quando se aborrecia com ele! A me nunca se zangava com o pai. A relao de ambos sempre fora perfeita. Vou com o Alan.
        - Que simptico da parte dele! - disse Blaire, lacnica, sentando-se numa cadeira confortvel junto da cama.
        Allegra observava-a. Sabia que haveria mais e inevitveis perguntas. Porque ele no se divorciava? Porque ia constantemente a So Francisco para ver a ex-mulher? 
A relao de ambos teria futuro? J se apercebera de que ia fazer trinta anos?
        - No fica aborrecida quando ele no te acompanha em ocasies que so importantes para voc?
        O olhar azul e lmpido da me parecia querer trespass-la at ao mago da sua alma, e Allegra tentou impedi-la.
        - s vezes, mas, como ele diz, somos os dois adultos, com bons empregos e muitas obrigaes. Nem sempre podemos estar um com o outro, mas temos de compreender. 
No vale a pena discutirmos por causa disso, me. Ele tem duas filhas noutra cidade e precisa de v-las.
        - O que me parece  que no tem um grande sentido de oportunidade. No  da mesma opinio?
        Ao ouvi-la, Allegra teve vontade de chorar. E a ltima coisa que desejaria nessa noite era defender Brandon. Estava aborrecida consigo mesma e no queria 
justificar o comportamento dele perante a me. Mas, no momento em que as duas mulheres trocavam um olhar, apareceu  porta um jovem alto, de cabelo preto.
        - De quem vocs esto falando mal? De Brandon, calculo, ou h alguma coisa de novo no horizonte?
        O irmo, Scott, acabara de chegar do aeroporto. Allegra levantou-se, com um sorriso enlevado. Ele avanou, sentou-se ao seu lado e abraou-a.
        - Meu Deus, voc est cada vez mais alto, exclamou ela com um gemido, enquanto a me os observava com um sorriso embevecido. Scott era muito parecido com 
o pai. Tinha um metro e oitenta e, felizmente, no devia crescer mais. Jogava basquetebol em Stanford. Que nmero cala agora? - gracejou Allegra. Os ps dela eram 
pequenos para a sua altura, mas Sam calava trinta e oito e Scott quarenta e quatro, da ltima vez que lhe fizera a mesma pergunta.
        - Continuo a calar quarenta e quatro, muito obrigado.
        Aproximou-se da me e abraou-a. Em seguida, sentou-se no cho, conversando com as duas.
        - Onde est o pai?
        - Est a caminho, espero. Telefonou h um bocado. A Sam est l em cima. E o jantar deve ficar pronto daqui a dez minutos.
        - Estou morrendo de fome! Scott tinha um aspecto formidvel, e era bvio que, pela maneira como o olhava, a me se orgulhava dele. Todos, alis. Daria um 
excelente mdico. Ento qual  o palpite? - perguntou ele, virando-se para Blaire. Vai ganhar, como  habitual, ou vai envergonhar-nos?
        - Vou envergonhar-los, tenho a certeza. Blaire riu-se, tentando no pensar nos Globos de Ouro. Mesmo depois de tantos anos escrevendo e a produzindo programas 
de sucesso, as cerimnias de entrega dos prmios deixavam-na sempre nervosa. Acho que seu pai  que nos vai encher de orgulho este ano disse, misteriosa, mas depois 
se calou.
        Da a cinco minutos, Simon entrou na rampa da casa. Todos desceram as escadas  correndo e Blaire gritou a Sam que largasse o telefone e viesse jantar.
        Foi uma refeio animada. Os dois homens tentaram manter uma conversa sria e sobrepor-se  tagarelice das mulheres, feita de boatos, de novidades e de comentrios 
acerca dos prmios, e  catadupa de perguntas de Sam sobre Carmen como era ela, o que vestia, com quem saa. No meio daquilo tudo, Blaire recostou-se na cadeira 
com um sorrisinho e ficou observando-os, os seus trs filhos e o marido, que amava h tantos anos. Tal como Scott, Simon era alto, moreno e elegante. Tinha sessenta 
e quatro anos e uma pequena madeixa de cabelos grisalhos nascia-lhe agora nas tmporas. As pequenas rugas  volta dos olhos eram sinais do tempo que s o tornavam 
ainda mais atraente. Era um homem de aspecto fabuloso e, s de olhar para ele, Blaire sentia um formigueiro no corpo. Porm, ultimamente, de vez em quando sentia-se 
triste, inquieta. Preocupava-a o fato de estar se modificando. Parecia que ele no mudava, que melhorava  medida que ia envelhecendo, mas Blaire sentia-se diferente; 
afligia-se mais do que antes, com o marido, com os filhos, com a carreira. Pensava que poderia tornar-se obsoleta e ficava apreensiva ao pensar que os seus nveis 
de audincia tinham baixado um pouco no ltimo ano e que Samantha iria para a faculdade. E se ela fosse para o Leste ou resolvesse ficar a viver numa residncia 
universitria, se escolhesse a UCLA? O que faria quando todos fossem embora? E se no precisassem mais dela?... Ou se perdesse o programa? O que seria dela quando 
tudo acabasse? E se a sua situao com Simon se alterasse? Mas sabia que isso era um disparate. De vez em quando, tentava falar do assunto com Simon. De repente, 
tinha tantos medos, acerca de si, da sua vida, do seu corpo... Fora apenas h um ou dois anos... Sabia que o seu aspecto mudara, por muito que os outros lhe dissessem 
o contrrio. Estava envelhecendo s vezes era doloroso verificar que parecia ter-se modificado mais do que Simon. Era espantoso como o tempo passava to depressa! 
J tinha cinqenta e quatro anos... Da a pouco faria cinqenta e cinco... E depois sessenta... Desejaria gritar  'Oh! Meu Deus, pra o relgio... Espera... Preciso 
de mais tempo!' Parecia-lhe estranho que Simon no compreendesse isto. Talvez porque os homens tinham mais tempo, os seus hormnios no se alteravam de repente aos 
cinqenta anos e o seu aspecto modificava-se de uma forma mais subtil. Alm disso, podiam sempre optar por uma mulher com metade da idade deles e por mais meia dzia 
de filhos, mesmo que no os desejassem, como Simon repetia sempre que Blaire lhe lembrava que ele ainda podia ter mais filhos e ela no. Ainda que o marido no estivesse 
interessado, tinha essa opo, o que tornava as coisas diferentes entre eles. Mas quando tentava dizer-lhe tudo isto, Simon limitava-se a responder que ela trabalhava 
de mais e estava sendo tola. 'Pelo amor de Deus, Blaire, a ltima coisa que eu quero  mais filhos. Adoro os que temos, mas se a Sam no crescer depressa e no arranjar 
a sua prpria casa um destes dias para poder ultrapassar a barreira do som, fico doido!' Ele dizia isto, mas Blaire sabia que Simon tambm no queria que Sam sasse 
de casa: era o seu beb. No entanto no percebia por que motivo era tudo muito mais fcil para ele, por que razo se preocupava menos com estas coisas, porque afligia 
tanto com as notas de Scott ou com o fato de Allegra ainda estar com Brandon, passados dois anos, e ele continuar casado com outra mulher Mas nenhum destes assuntos 
foi abordado durante o jantar. Conversaram acerca de outras coisas. Simon e Scott falaram de basquetebol, de Stanford e de uma possvel viagem  China. E depois 
todos se referiram aos Globos de Ouro, e Scott brincou com Sam por causa do ltimo rapaz que vira na companhia da irm. Disse que era um bobo, e Samantha defendeu-o 
acaloradamente, embora garantisse que no gostava dele. Blaire anunciou que os nveis de audincia tinham subido outra vez, depois de uma breve queda no ms anterior, 
e que tencionava remodelar o jardim e a cozinha no Vero seguinte.
        - Isso  alguma novidade? - perguntou Simon para arreli-la, trocando um olhar afetuoso com a mulher. Est sempre arrancando qualquer coisa e instalando 
outra! E, para todos os efeitos, eu gosto do jardim tal como est. Por que mud-lo?
        - Descobri um jardineiro ingls fabuloso, e ele diz que consegue mudar tudo em dois meses. A cozinha  outra histria... - respondeu Blaire, sorrindo. Espero 
que todos vocs gostem de surpresas. Entre Maio e Setembro passaremos a comer sempre na cozinha.
        Seguiu-se um protesto geral e Simon lanou um olhar cmplice ao filho.
        - Creio que  precisamente na altura da nossa ida  China.
        - Vocs no vo a lado nenhum! - Blaire lanou um olhar penetrante ao marido. Este ano passamos o Vero inteiro furiosa, e eu no vou ficar sozinha outra 
vez!
        Todos os anos pai e filho faziam uma viagem juntos, em geral a qualquer lugar onde Blaire no pudesse ir ter com eles mesmo que tentasse, como Samoa ou Botswana.
        - Podem ir passar o fim-de-semana em Acapulco... -  Scott riu deles, e as brincadeiras, as altercaes e as trocas de brincadeiras continuaram at s nove 
horas. Por fim, Allegra levantou-se e disse que tinha de ir para casa. Ainda precisava fazer sero.
        - Voc trabalha demais  - observou a me em tom de censura.
        Allegra sorriu.
        - E voc no, mame? - Blaire trabalhava mais do que todas as pessoas que ela conhecia e Allegra respeitava-a muito por isso. Vejo-os amanh  noite na entrega 
dos  prmios  - disse quando todos se levantaram da mesa.
        - Quer vir conosco? - perguntou a me. Allegra balanou a cabea.
        - O Alan atrasa-se sempre e encontra um grupo de amigos para onde quer que vamos. Talvez ele queira ir a algum lado depois da festa.  prefervel encontrarmos-nos 
l, ou os deixaremos  doidos!
        - Vai com o Alan e no com o Brandon? -  perguntou Samantha, admirada.
        A irm mais velha fez um sinal afirmativo.
        - Por qu?
        - Ele teve que ir a So Francisco ver as filhas  - respondeu Allegra com naturalidade. Era como se j tivesse explicado o mesmo um milho de vezes, e estava 
ficando cansada.
        - Tem  certeza que ele no est dormindo com a ex-mulher? - inquiriu Sam, de chofre.
        Por instantes, Allegra ficou sem flego. Depois foi rpida na resposta, furiosa com a impertinncia da irm mais nova.
        - Esse comentrio  maldoso e totalmente desnecessrio. Devia ter cuidado com o que diz, Sam  - replicou, irritada.
-         Bem, no fique paranica por causa disso  -  retorquiu Sam, toda eriada. Talvez eu tenha razo, talvez tenha sido por isso que voc ficou toda irritada 
com o que eu disse.
        - Pare com isso, Sam! - exclamou Scott, vendo como Allegra ficara transtornada. A vida sexual dele no te diz respeito.
        - Obrigada  - segredou-lhe Allegra mais tarde, quando lhe deu um beijo de boa-noite, mas, por outro lado, perguntou a si prpria por que motivo o comentrio 
de Sam a incomodara tanto. Seria precisamente o que ela pensava? O que receava? Claro que no. Joanie era dependente, dengosa, e Brandon dizia-lhe muitas vezes que 
a mulher deixara de o atrair. O problema no residia a, mas era muito doloroso ser obrigada a defend-lo. Era bvio que toda a famlia pensava que ele devia estar 
ali, e Allegra tambm. E, no seu ntimo, sentia-se furiosa por ele no estar presente.
        Nessa noite, durante o caminho, no pensou noutra coisa, e, quando chegou em casa, estava de novo zangada com ele. Sentou-se e ficou pensando no assunto, 
fingindo que olhava para o trabalho. Por fim, resolveu telefonar para ele. Sabia de cor o nmero de telefone do hotel onde Brandon ficava e digitou-o com os dedos 
trmulos. Talvez conseguisse convenc-lo a voltar, mas depois teria de explicar a Alan que ele no poderia lev-la, apesar de a amizade de ambos permitir que lhe 
dissesse fosse o que fosse. Se Alan ficasse irritado com ela, no deixaria de lhe dizer.
        Ligaram para o quarto de Brandon e Allegra ficou esperando. Eram dez da noite, mas ele no atendeu. Pediu que tentassem de novo, caso tivessem se enganado 
no nmero, mas era bvio que ele no se encontrava l. Talvez ainda estivesse em casa, falando com Joanie acerca do divrcio. s vezes, depois de as filhas irem 
para a cama, os dois ficavam discutindo durante horas. Ao pensar nisso, vieram-lhe  cabea as palavras de Sam. E Allegra enfureceu-se outra vez, com ele, por estar 
ausente, e com a irm, por ter dito tal coisa. No queria passar a vida a aborrecer-se por causa de Brandon nem sentindo-se insegura devido s insinuaes de uma 
adolescente. J lhe bastava o resto! Assim que desligou, o telefone comeou a tocar e Allegra sorriu. Ficara histrica sem motivo. Talvez fosse Brandon, que acabara 
de regressar ao hotel. Mas no. Era Carmen, e estava chorando.
        - O que est acontecendo?
        - Acabo de receber uma ameaa de morte -! Carmen soluava e dizia que queria voltar para regon, mas a sua carreira no era das que desapareciam com facilidade. 
Tinha contratos a cumprir e o mundo solicitava Carmen Connors.
        Allegra franziu a sobrancelha.
        - Como foi isso? - Tente acalmar-se e conte-me.
        - Chegou pelo correio. Hoje me esqueci de abrir a correspondncia. Assim que cheguei a casa, depois de jantar, abri-a, e l estava aquilo. Diz... Carmen 
debulhou-se em lgrimas outra vez. Diz que sou uma cabra e que no mereo viver nem mais uma hora. Afirma que sabe que eu ando enganando-o e que sou uma prostituta, 
e jura que vai me pegar.
        - Oh cus! - pensou Allegra. Esses  deveriam de temer. Os que imaginavam que tinham uma relao, ou uma espcie de direito, e que se sentiam enganados. 
Esses  que eram verdadeiramente perigosos, mas no queria assustar Carmen ainda mais.
        - No parece ser ningum que voc conhece, no ? Algum com quem tenha sado e que possa estar zangado porque no quis sair com ele outra vez?
        Pelo menos valia a pena fazer a pergunta, embora Allegra soubesse como Carmen era recatada. Apesar das notcias dos tablides, a jovem atriz vivia como a 
Virgem Maria.
        - H oito meses que no saio com ningum, e os dois ltimos tipos com quem sa eram casados -  respondeu ela, desolada.
        -  o que eu calculava. Acalme-se. Ligue o alarme  - disse Allegra tranquilamente, como se estivesse falando com uma criana.
        - J liguei.
        - Fez bem. Chame o segurana do porto e fale sobre carta. Eu vou telefonar para polcia e FBI, e amanh conversamos com eles. No vale a pena fazer nada 
esta noite, mas, de qualquer forma, vou dar-lhes conhecimento do que se passa. O LAPD pode mandar patrulhar a rea da sua residncia de meia em meia hora. Porque 
no leva um dos ces com voc para cama esta noite, para se sentir melhor?
        - No posso... Tenho medo deles -  respondeu Carmen com nervosismo, e Allegra riu, o que aliviou a tenso.
        -  esse o objetivo. Eles assustariam qualquer pessoa. Pelo menos deixe-os  solta na propriedade. Sabe, talvez no passe tudo de fogo de palha, mas no 
custa nada ter cuidado.
        - Porque  que eles fazem estas coisas? - choramingou Carmen.
        J recebera ameaas antes e ficara assustada, mas nunca algum tentara verdadeiramente fazer-lhe mal. Era apenas conversa, e todas as pessoas clebres que 
Allegra conhecia tinham sido vtimas de ameaas uma vez ou outra. Passava depressa, mas no era agradvel. Os pais tambm j as tinham recebido, e houvera uma ameaa 
de rapto contra Sam quando ela tinha onze anos. A me contratara um guarda-costas para acompanh-la durante seis meses e ele fizera todos perderem a pacincia, vendo 
televiso de noite e de dia e a entornar caf nas carpetes. No entanto, se fosse obrigada a isso, Allegra contrataria um para vigiar Carmen. Por sinal, tencionava 
arranjar-lhe um para a cerimnia dos Globos de Ouro. Havia dois de que gostava particularmente. Recorria aos seus servios com freqncia, e um deles era uma mulher.
        -  gente estpida, Carmen. Querem ateno e julgam que, se tentarem aproximar-se de si, conseguiro um pouco de notoriedade.  um mtodo doentio, mas faa 
o possvel por no se preocupar demasiado. Vou tentar arranjar-lhe duas pessoas para a noite de amanh, uma mulher e um homem, como se voc fosse com outro casal 
declarou Allegra para sosseg-la. J lidara com muitas situaes deste tipo e conseguia sempre apaziguar os seus clientes.
        - Talvez eu nem v... - disse Carmen, nervosa. E se algum me der um tiro durante a cerimnia?
        Desatou a chorar outra vez e a falar em regressar a Portland.
        - Ningum vai dar-lhe um tiro na cerimnia dos Globos! Pode vir conosco. Quem  o seu acompanhante?
        - Um tipo chamado Michael Guiness. Foi o estdio que escolheu. Nunca o vi.
        Carmen parecia desanimada, mas Allegra apressou-se a encoraj-la.
        - Eu o conheo.  um bom companheiro.
        Michael era homossexual, mas muito apresentvel, e um dos jovens atores que iam e vinham e que talvez pensassem que seria benfico para a sua imagem serem 
vistos na companhia de Carmen Connors. A homossexualidade de Michael Guiness era um segredo bem guardado.
        - Eu trato de tudo. Acalme-se e tente dormir. Allegra sabia que, s vezes, Carmen passava a noite sentada vendo filmes na televiso porque se sentia assustada 
ou s.
        - Com quem  que voc vai? -  perguntou Carmen casualmente, partindo do princpio de que seria com Brandon. Vira-o uma ou duas vezes e considerava-o respeitvel, 
mas enfadonho. Ficou admirada com a resposta de Allegra.
        - Vou com um antigo colega de escola,  Alan Carr  - respondeu Allegra com prontido. Estava se preparando mentalmente para telefonar para a polcia e FBI.
        - Oh, meu Deus! - exclamou Carmen, abismada. O Alan Carr? Est brincando comigo? Voc estudou com ele?
        - Exatamente  - confirmou Allegra, divertida com a reao de Carmen. Era muito freqente isso acontecer.
        - Vi todos os filmes dele!
        - Eu tambm, e deixe-me que dizer-lhe que alguns no prestam para nada. Realmente, alguns eram uma misria, e ela sabia-o. Estou sempre dizendo que ele precisa 
de um novo agente, mas o Alan  muito teimoso.
        - Oh, meu Deus, ele  uma maravilha!
        - Melhor do que isso,  boa pessoa. Vai gostar dele. - Allegra perguntou a si prpria se Alan se interessaria por Carmen. Talvez simpatizassem um com o outro, 
o que seria divertido para todos. Depois vamos tomar uma bebida, e levamos voc  e Michael, se quiser.
        - Eu adoraria...
        Quando desligaram, Carmen sentia-se muito melhor. Allegra sentou-se a olhar pela janela e pensando como a vida era estranha. O maior smbolo sexual da Amrica 
no saa com um homem h oito meses e recebia ameaas de morte de loucos que julgavam ser donos dela. Isto estava profundamente errado, no mnimo. Por outro lado, 
Carmen ficara to impressionada por Allegra conhecer Alan Carr... De fato, era tudo um pouco confuso.
        Quando acabou de falar com Carmen, olhou para o relgio. Tinham estado ao telefone durante mais de uma hora. Era quase meia-noite. Tinha receio de ligar 
outra vez a Brandon quela hora, mas resolveu faz-lo. Talvez ele j tivesse tentado ligar quando ela estava ao telefone. No entanto, quando voltou a ligar para 
o hotel, Brandon ainda no havia regressado, por isso deixou-lhe outra mensagem, desta vez a pedindo que lhe telefonasse.
        Allegra foi para a cama  uma hora. Ainda no tivera notcias de Brandon, mas no quis voltar a tentar. Comeava a sentir-se ridcula e fazia o possvel 
por no pensar nas palavras de Sam. No sabia o que Brandon andava fazendo, embora tivesse a certeza de que ele no dormia com Joanie. Porm, no imaginava onde 
 que poderia estar quela hora. So Francisco era uma cidadezinha sonolenta e, pelo que Allegra vira, as pessoas recolhiam a casa as nove ou dez da noite. Com certeza 
no tinha ido a um clube noturno. Talvez estivesse discutindo com a ex-mulher por causa do apartamento nos arredores de Tahoe. Sam no tinha o direito de dizer aquelas 
coisas a respeito dele. Ficava furiosa s de pensar nisso. Porque  que todos eram to desagradveis para com Brandon? E porque  que se via sempre obrigada a defend-lo 
e a responder s perguntas dos outros sobre o seu comportamento?
        O telefone no voltou a tocar, e por fim Allegra adormeceu, s duas da madrugada. Depois tocou as quatro, e ela levantou-se de um salto, com o corao em 
alvoroo, julgando que era Brandon. Mas era Carmen. Ouvira um barulho e ficara aterrada. Falava em surdina e estava to assustada que as suas palavras mal faziam 
sentido. Allegra levou quase uma hora para acalm-la outra vez e perguntou a si prpria se deveria ir ao seu encontro. Contudo, Carmen insistiu que j estava bem. 
Mostrou-se envergonhada por serem cinco da manh, mas Allegra assegurou-lhe que no tinha importncia.
        - V dormir um pouco, seno fica com um aspecto horrvel para a festa desta noite, e, como  provvel que ganhe, tem de se apresentar bem. Agora volte para 
a cama disse Allegra, como se fosse uma irm mais velha.
        - Est bem.
        Carmen riu, sentindo-se como se fosse uma criana. Cinco minutos depois de ela desligar, Allegra adormeceu. Estava extenuada. S se mexeu s oito da manh, 
quando Brandon telefonou, acordando-a.
        - Estava levantada? -  perguntou ele.
        Allegra fingiu que j tinha acordado e gemeu ao olhar para o relgio. Dormira menos de cinco horas e ressentia-se disso.
        - Levantei-me vrias vezes alis, disse ela, recuperando a compostura. A Carmen teve um pequeno problema.
        - Oh, pelo amor de Deus! No sei por que continua a aturar essa situao absurda! Devia ter um servio de atendimento, ou ento desligar o telefone.
        No estava na natureza de Allegra fazer tal coisa, que, alm disso, tambm no era compatvel com a sua profisso, mas Brandon nunca a entenderia.
        - No faz mal, j estou habituada. Ela recebeu uma ameaa de morte. Ao olhar para o relgio outra vez, viu que eram oito e cinco e lembrou-se que tinha de 
telefonar para a polcia e para o FBI a participar o sucedido. Ia ter uma manh atarefada. Onde esteve ontem  noite?
        Tentou no falar num tom de acusao e no pensar nas palavras de aviso de Sam.
        - Sai com uns amigos. O que aconteceu? Porque me telefonou duas vezes?
        - Por nada  - respondeu ela, sentindo-se logo na defensiva -  S queria te dar as boa-noite. Julguei que tinha ido ver as meninas ontem  noite.
        Se no fora, porque partira para So Francisco na sexta-feira?
        - E era para ir, mas o avio chegou atrasado e a Joanie disse que elas tinham tido um dia cansativo, por isso telefonei a dois colegas com quem trabalhei. 
Andamos pelos bares e estivemos conversando. s vezes, Allegra esquecia-se de que ele vivera naquela cidade. Pensei que tivesse acontecido alguma coisa quando cheguei 
e soube que havia telefonado, mas calculei que j estivesse dormindo a essa hora. Afinal, acho que podia ter feito como os seus clientes e ligar a qualquer hora 
do dia ou da noite..
        Brandon no concordava com os telefonemas que ela recebia de madrugada, mas a maioria dos clientes de Allegra s o faziam quando eram obrigados a isso.
        - Parece que voc tem se divertido -  observou Allegra, tentando no se mostrar irritada ou desapontada, como na realidade estava.
        -  verdade. s vezes,  divertido voltar a esta cidade. Ontem  noite, foi interessante. J no ia queles bares h sculos! A situao no a atraa, mas 
talvez fosse divertido para ele encontrar-se com os amigos. Brandon trabalhava muito e era raro fazer uma coisa deste gnero. Vou buscar minhas filhas s nove. Prometi 
lev-las a Sausalito e talvez a Stinson.  pena que no possas estar aqui  - disse ele, mostrando-se de novo mais terno.
        - Esta manh tenho que ir  polcia por causa da Carmen, e talvez ao FBI, porque a carta chegou pelo correio, e  noite vou  festa dos Globos de Ouro.
        - Deve ser divertido -  disse ele, mostrando-se totalmente desinteressado, como se nunca tivesse feito parte dos seus planos ir l. Como correu o jantar 
ontem  noite?
        - Bem. O costume: os Steinberg no seu melhor e no seu pior. O Scott veio a casa e foi agradvel. A Sam est muito desprendida. Acho que  da idade, mas no 
posso dizer que me agrade.
        - Isso  porque a sua me a deixa fazer tudo o que ela quer. Na minha opinio, acho que no  a melhor maneira de tratar uma menina mimada, e ela est ficando 
demasiado crescida para isso. Admira-me que o seu pai no se imponha!
        Na opinio de Allegra, Brandon estava sendo um pouco rspido, e, apesar de no discordar totalmente dele, estava admirada por se mostrar to crtico para 
com os seus irmos. Ela tinha sempre o cuidado de no dizer nada desagradvel acerca das filhas dele.
        - O meu pai adora-a. E, alm disso, a Sam tem trabalhado mais como modelo nestes ltimos tempos, talvez seja por isso que est to cheia de si  e julga que 
pode fazer tudo o que deseja.
        Allegra continuava pensando nos comentrios de Sam na noite anterior, e agora estava duplamente ofendida com a irm por ela a ter preocupado sem motivo. 
Era curioso que as palavras de Sam a tivessem afetado, mas Allegra sabia que isso se devia ao fato de se sentir triste por Brandon ter ido passar o fim-de-semana 
a So Francisco.
        - Um destes dias, ainda arranja problemas por causa dos ares de modelos. Algum fotgrafo se mete com ela, ou lhe oferece drogas... Acho que tudo isso  muito 
pouco saudvel para a Sam. Estou admirado por os seus pais a autorizarem a fazer tal coisa.
        Para Brandon, tudo se devia aos malefcios do mundo do espetculo, em todas as suas formas e variantes. Mostrava claramente o seu desacordo e dizia muitas 
vezes que nunca permitiria que as filhas fossem modelos, atrizes ou fizessem qualquer coisa que as expusesse ao olhar do pblico. Sempre fizera Allegra sentir que 
tais atividades eram desagradveis e pouco interessantes, apesar de os seus pais terem sado muitssimo bem e ela se orgulhar disso.
        - Talvez tenha razo -  respondeu diplomaticamente, perguntando a si prpria se eles seriam demasiado diferentes ou se essa idia se deveria ao fato de ele 
estar longe. A verdade  que sentia que Brandon a abandonara.
        s vezes era difcil afirmar, mesmo passados dois anos, que fizera a escolha correta. Quase sempre pensava que Brandon era o homem certo para ela, mas de 
vez em quando, como agora, sentia que eram dois estranhos.
        - Tenho de ir buscar as meninas -  disse ele. Te telefono logo  noite acrescentou, para acalm-la.
        - Estarei no Globo de Ouro... - ela lhe lembrou  com doura.
        -  verdade, tinha esquecido -  disse ele, e o modo como falou fez com que Allegra tivesse vontade de bater nele. Te telefono amanh de manh.
        - Obrigada. Depois, odiando-se por isso, acrescentou: Tenho pena que no possa ir...
        - Vai e divirta-se, de qualquer modo. O Alan Carr  melhor companhia do que eu para essas coisas. Pelo menos, sabe com quem fala. Eu, no. V l como ele 
se porta, e diz-lhe que  a minha garota, Allie. Nada de graas... -  advertiu Brandon.
        Allegra sorriu, de novo enternecida. Ele falava a srio e amava-a, embora no se apercebesse da importncia que as cerimnias de entrega de prmios tinham 
para ela. Elas eram a sua vida, eram importantes para a sua famlia e para a sua profisso.
        - Vou sentir a sua falta. E, s para que saiba, preferia ir com voc do que com o Alan...
        - Farei o possvel por ir no prximo ano, querida, prometo. -  Brandon parecia sincero.
        - Est bem -  disse Allegra, desejando que ele estivesse na cama, a seu lado.
        Pelo menos, era um lugar em que nunca sentia as diferenas, apenas as semelhanas que havia entre eles. Sexualmente davam-se muito bem. E talvez o resto 
tambm melhorasse. Os divrcios nunca eram fceis.
        -Divirta-se com as meninas, querido, e diga que tenho saudades delas.
        - Prometo. Amanh te telefono. Vou estar atento ao noticirio desta noite.
        Allegra riu. Seria a ltima pessoa a ser vista. No fora nomeada, nem era apresentadora; era apenas uma annima insignificante que no interessava s cmaras, 
a menos que a filmassem, se o pai ou a me ganhassem, ou Carmen. Mas eles guardavam-se para os vencedores. A nica coisa que poderia atrair as atenes para ela 
seria o fato de acompanhar Alan Carr, mas, sendo relativamente desconhecida, no acreditava que tal acontecesse. Duvidava que Brandon a visse.
        Desligaram, e Allegra sentiu-se melhor depois de falar com ele. s vezes Brandon no compreendia o seu meio e era lento em organizar a sua vida, mas era 
um grande tipo, e era sempre obrigada a explicar a todas as pessoas que o amava. Era lamentvel que no vissem as suas virtudes, como ela via.
        Levantou-se e ligou a mquina do caf. Em seguida, telefonou  polcia, ao FBI e  empresa de segurana que guardava a residncia de Carmen. Pouco depois 
encontrou-se com eles em casa da atriz e ficou satisfeita por verificar que estava sendo feito tudo para proteg-la. Tinha contatado os seus dois guarda-costas preferidos, 
Bill Frank e Gayle Watels, que haviam sado da equipe de operaes especiais do LAPD. Felizmente estavam livres e aceitaram trabalhar com Carmen durante algum tempo. 
Iriam com ela  cerimnia dessa noite, e Carmen ficara aliviada por se saber to bem protegida. Allegra mandara Gayle  casa Fred Hayman para fazerem um vestido, 
o que no era tarefa fcil, porque teriam de esconder o coldre e todas as suas armas, mas as senhoras da Fred Hayman estavam habituadas a tarefas invulgares.
        Allegra conseguiu chegar a casa as quatro e quinze, enquanto o cabeleireiro e a esteticista se ocupavam de Carmen. Mal teve tempo de tomar ducha, pentear-se 
e enfiar-se no vestido preto comprido e colado ao corpo que comprara para a ocasio. Era discreto, mas de muito bom corte, e atraa as atenes. Era uma criao 
de Ferre e tinha um fabuloso casaco branco de organdi. Depois ps os brincos de prolas e diamantes que o pai lhe dera quando completara vinte e um anos. O cabelo 
louro e sedoso, apanhado no alto da cabea, caa-lhe numa cascata de rolos e caracis e dava-lhe um ar sensual. Alan Carr chegou, estonteante no seu novo smoking 
Armani. Usava uma camisa de seda branca de colarinho estreito e sem gravata e penteara o cabelo preto para trs. Estava ainda melhor do que nas suas seis ltimas 
fotografias.
        - Uau! -  exclamou Alan, antes que ela pudesse dizer o mesmo.
        O vestido de Allegra tinha uma abertura que deixava ver as meias de seda preta e calava umas sandlias de cetim preto, de salto alto.
        - Acha que posso me portar bem com voc assim? - perguntou, fingindo-se incrdulo.
        Allegra riu e beijou-o. Ele sentiu o seu perfume no pescoo e no cabelo e, tal como noutras ocasies, perguntou a si prprio porque nunca tentara reacender 
a velha chama nos ltimos anos. Comeava pensar que podia surgir uma nova oportunidade para ambos, e Brandon Edwards que fosse para o inferno!
        -  Obrigada, senhor. Tambm est muito elegante -  declarou Allegra, admirando-o com um afeto genuno. Est mesmo com bom aspecto!
        -  No devia ficar to admirada -   disse ele, rindo -  No  delicado da tua parte.        
        -  s vezes esqueo-me de como  bonito. Penso em voc mais ou menos como penso no Scott.. Um menino grande, percebe? De jeans esfarrapados e tnis sujos.

        - Est deixando-me destroado... Fique quieta! Adoro o seu aspecto  -  disse ele com admirao, baixando subitamente a voz e com uma expresso no olhar que 
ela no via desde os tempos em que tinham catorze anos e que pensava que no voltaria a ver.
        Allegra fingiu no se importar com isso
        -  Vamos? -  perguntou Alan, enquanto ela pegava numa pequena bolsa preta de cerimnia com um fecho de prola e cristal de rocha.
        Tudo na sua aparncia era perfeito e formavam um par muito elegante. Allegra sabia que estar com ele equivalia a serem constantemente perseguidos pela imprensa. 
Queriam saber quem ela era e se haviam ou no de desencadear uma onda de novos boatos acerca da vida sentimental de Alan Carr.
        -  Prometi  Carmen que amos busc-la -  explicou Allegra, quando saram e se dirigiram para a limusine que os aguardava. Era grande e a jovem no tinha 
dvidas de que havia espao para todos. Fora Alan que a alugara, com o motorista, numa base anual. Fazia parte do seu contrato atual.
        -  Importa-se?
        - Acho que sim. No fui nomeado, por isso no tenho pressa de chegar. Oua, talvez ns pudssemos ir para outro lado qualquer. Est demasiado bonita para 
perder o seu tempo com aqueles estpidos e os idiotas dos tablides!
        -  Comporte-se... -   disse ela em tom de admoestao.
        Alan beijou-a no pescoo, mas apenas por brincadeira.
        -  V como eu me comporto bem. Nunca despenteio uma mulher. Fui treinado por especialistas.
        Com um gesto elegante, ajudou-a a entrar no automvel e Allegra deu-lhe um sorriso quando ele entrou atrs dela.
        -  Bem sabe que metade das mulheres americanas daria o brao direito, e o esquerdo, para estarem sentadas aqui ao seu lado. Sou mesmo uma garota de sorte, 
no sou?
        Sorriu e ele deu uma gargalhada, fingindo-se envergonhado.
        -  No seja tola, Al. Eu  que tenho sorte. Est deslumbrante esta noite!
        -  Espere at ver Carmen. Est absolutamente de morrer!
        -  Ela no te chega aos calcanhares, minha amiga -   retorquiu Alan com ar galante.
        Porm, quando chegaram a casa de Carmen e entraram na rampa ficaram estupefatos. A atriz estava ladeada pelos guarda-costas que Allegra contratara. Bill 
parecia uma parede enfiada num smoking e Gayle tinha um ar afetado no seu belo vestido de lantejoulas cor de bronze, que lhe realava a figura e o cabelo acobreado. 
O casaco, combinado, disfarava completamente as duas armas que trazia, uma Walker-PPK.380 e uma Derringer. 38 Special. Foi Carmen que lhes fez perder o flego e 
que deixou Alan literalmente sem fala. Usava um vestido de seda vermelha, de gola alta e mangas compridas, que realava cada curva do seu corpo perfeito. Tal como 
o de Allegra, tinha uma grande abertura, que revelava as suas pernas de deusa. Quando se virava, quase parecia que o vestido no tinha costas, e via-se a pele cremosa 
at s ndegas, bem torneadas. O cabelo, louro-prateado, estava preso atrs num elegante coque. Carmen tinha no s um aspecto terrivelmente sensual, como um toque 
de distino. Parecia uma verso muito sexy e jovem de Grace Kelly.
        -  Uau! -  exclamou Allegra, falando pelos dois. Est fabulosa!
        -  Gosta? -  Carmen parecia uma menina rindo para eles, e ficou mortificada ao sentir que corara quando Allegra a apresentou a Alan. Tenho o maior prazer 
em conhec-lo  -  disse ela, quase engasgando com as palavras.
        Alan abanou a cabea e garantiu-lhe que tambm sempre quisera conhec-la. Acrescentou que Allegra s fizera referncias agradveis a seu respeito, e Carmen 
sorriu para a advogada com um misto de gratido e de prazer.
        -  Acho que ela lhe mentiu. s vezes sou muito chata -  retorquiu, e todos soltaram uma gargalhada.
         a natureza da profisso  -  desculpou-se Alan.
        Os dois guarda-costas instalaram-se em frente deles, de cada lado do televisor e do bar. Ao arrancarem, Allegra ligou-o, para ver quem ia chegando  cerimnia 
e, pouco depois, avistou os pais. A me estaca com um vestido de veludo verde-escuro e estava muito bela quando os Steinberg sorriram para os reprteres. O locutor 
explicava quem eles eram aos telespectadores que se encontravam em casa no momento exato em que a limusine parou junto do apartamento de Michael Guiness. O jovem 
estava  espera deles e saiu a correndo, cumprimentou a todos e saltou para o banco da frente, ao lado do motorista. Alan e Michael j tinham trabalhado juntos num 
filme, e Allegra apresentou-o a Carmen e aos guarda-costas quando partiram para o Hilton.
        -  Nunca fui  cerimnia do Globo de Ouro  -  disse Michael, entusiasmado por ir com eles.
        Era pouco mais velho do que Carmen, mas menos sofisticado e muito menos famoso do que ela, e, por instantes, Allegra pensou que, de certo modo, Carmen se 
aliava mais como acompanhante de Alan, porm, sabia perfeitamente que isso seria uma histria fantstica para os tablides.
        Ao aproximarem-se do Hilton, puseram-se na longa fila de limusines que esperavam despejar os seus passageiros reluzentes, como pedacinhos de isco atirados 
 gua para excitar os tubares que patrulhavam os oceanos. Centenas de reprteres empunhavam mquinas fotogrficas e estendiam microfones e gravadores, tentando 
captar um momento, um olhar, uma palavra, junto de uma pessoa importante E l dentro a multido era ainda mais compacta. Havia pequenas reas destinadas aos jornalistas 
e aos operadores de cmara para entrevistarem os nomeados ou qualquer ator sedento de publicidade que lhes concedesse uns minutos. Alm deles, viam-se filas de fs, 
encostados s paredes, de tal modo que o enorme hall estava reduzido a um minsculo corredor atravs do qual as pessoas entravam no grande salo de baile, onde se 
encontravam todas as estrelas de televiso e de cinema conhecidas, de maior ou menor grandeza. Era um grupo extraordinrio e mesmo entre os fs que estavam l fora, 
havia um ambiente de grande expectativa. Assim que cada limusine se aproximava e surgia um novo rosto, gritavam o seu nome ou aplaudiam, e dezenas de reprteres 
precipitavam-se,  luz de centenas de flashes das mquinas fotogrficas.
        Carmen Connors ficou apavorada s de ver aquilo. Fora ao Globo de Ouro no ano anterior, mas, como agora era uma das nomeadas, sabia que a imprensa estava 
muito mais ansiosa por devor-la. E como recebera uma ameaa de morte na noite anterior, sentia-se ainda mais nervosa com a ateno, a multido e as cmaras.
        - Voc est bem? -  perguntou-lhe Allegra, num tom maternal.
        - Sim  -  respondeu ela, quase num murmrio.
        -  Deixe-nos sair primeiro, a mim e ao Bill, depois o Michael e a seguir voc. A princpio, ficaremos entre voc e as cmaras -   explicou Gayle tranquilamente, 
transmitindo uma sensao de proteo s pela maneira como pronunciou estas palavras.
        -  Ns formaremos a retaguarda  -   acrescentou Allegra para sosseg-la, mas sabendo que as atenes se concentrariam extremamente em Alan. Este fato poderia 
desviar um pouco o interesse suscitado pela presena de Carmen, mas tambm atrairia mais reprteres sobre eles. No era possvel evitar a imprensa naquele local. 
Havia centenas de pessoas  espera deles, talvez um milhar. Ns ficamos aqui, Carmen. Voc tem de entrar na sala. Vai ver que se sente bem.
        Allegra lembrou-se que estavam l muitas outras estrelas.
        -  Vai habituar-se a isto -  disse Alan, tocando ao de leve no brao de Carmen.
        Havia nela uma ternura que lhe agradava e uma vulnerabilidade que no via h anos, mas que o atraa bastante. A maioria das atrizes que conhecia eram muito 
frias.
        -  No creio que alguma vez me habitue -  respondeu Carmen em voz baixa, fitando-o com os seus grandes olhos azuis.
        Alan teve vontade de abra-la, mas sabia que a chocaria com o seu gesto.
        -  Vai sentir-se bem -   reiterou ele, calmo. No lhe acontecer mal nenhum. Eu estou constantemente recebendo ameaas desse gnero. So doidos! Nunca cumprem 
o que prometem!
        Alan disse isto com uma confiana total, porm no fora exatamente o mesmo que o FBI afirmara essa tarde. Segundo eles, a maior parte das ameaas concretizadas, 
em geral, eram antecedidas de qualquer tipo de explicao, como aquela que Carmen recebera pelo correio: a convico de que andava enganando o homem que lhe enviara 
a mensagem e que lhe devia alguma coisa, embora ela tivesse a certeza de que nem sequer o conhecia. Tal como Alan, tambm os agentes pensavam que a maioria das ameaas 
eram apenas o grito dbil de pessoas confusas e incapazes, mas havia sempre uma que fazia o que prometia e causava uma verdadeira desgraa. A polcia e o FBI haviam 
recomendado que tivesse cuidado durante uns tempos e que tentasse evitar aparies pblicas ou esperadas e locais muito concorridos. Mostrar-se nessa noite era demasiado 
arriscado, mas, por outro lado, ir ao Globo de Ouro fazia parte da sua profisso, e Carmen sabia-o.
        -  Eu estou aqui  -  disse ele baixinho, agarrando-lhe no brao e ajudando-a a sair ao encontro de Bill e de Gayle, os seus guarda-costas, e de Michael, 
que a esperava na calada. Alan no tirou os olhos dela, nem Allegra.
        O efeito foi quase instantneo quando uma centena de reprteres se precipitou para Carmen e a multido comeou a cham-la com vozes estridentes. Allegra 
nunca vira uma coisa assim. Era como se tivessem sido apanhados por uma onda, ao olharem para ela. Allegra e Alan pensaram quando fora a ltima vez que Hollywood 
produzira uma estrela com o carisma de Carmen.
        -  Pobre menina! -  exclamou Alan, com pena dela. Conhecia bem a situao, mas nunca se sentira to dominado por ela como lhe parecia que sucedia com Carmen. 
Era um pouco mais velho quando alcanara o seu primeiro grande xito e, depois de adulto, nunca tinham conseguido pression-lo tanto nem aproveitar-se dele daquela 
maneira.
        -  Anda -   disse ele, agarrando Allegra, mas sem tirar os olhos de Carmen, tentando esquivar-se, abrir caminho e sorrir, enquanto os fs, os reprteres 
e as cmaras a empurravam. Eram s centenas, e at a fila das limusines estava bloqueada. Ningum conseguiu se mexer, at a massa humana que envolvia Carmen dispersar. 
Vamos ajud-la acrescentou, e abriu caminho entre a multido, onde os guarda-costas se debatiam e a polcia comeara a mudar de posio.
        Michael Guiness estava perdido naquele mar de gente, com um ar completamente indefeso, mas, pouco depois, Alan aproximou-se, com Allegra agarrada a ele, 
e ps um brao firme nos ombros de Carmen.
        -  Ol! -   exclamou, hbil, como se oferecesse para proporcionar um momento de descanso a Carmen.
        Assim que o reconheceu, a multido entrou em delrio, gritando o seu nome e o de Carmen.

        -  Claro que sim... Claro que estou... Temos aqui uma vencedora... Exatamente... Muito obrigado... Feliz por estar aqui... Miss Connors ser uma das nossas 
vencedoras esta noite...
        Alan no deixava de gracejar com eles, ao mesmo tempo em que abria caminho com os seus ombros de futebolista e continuava a andar, e, ao verem o que ele 
fizera, Gayle e Bill conseguiram passar  frente. Gayle esgueirou-se por baixo de vrios arcos com os seus saltos de estilete, fingindo uma inocncia total, e Bill 
exibiu toda a sua corpulncia, abrindo caminho para que Carmen entrasse no edifcio. O passo era lento, mas por fim conseguiram avanar, e Alan aproveitou a ocasio, 
agarrando-se a Allegra e a Carmen. Pouco depois estavam l dentro e ouviram-se novos gritos dos fs. Os reprteres acorreram de novo, aproximando as cmaras de televiso 
do rosto deles. Por instantes, Carmen virou-se para o lado, mas Alan agarrou-a com fora e continuou a falar para mant-la calma e a ajudar a avanar.
        -  Voc est bem -   repetia constantemente, voc est bem... Venha, agora, sorria para as cmaras. Todo o mundo est vendo-a esta noite!
        Carmen parecia romper a chorar, e Alan apertou-a ainda com mais firmeza. Por fim, com um ltimo impulso, entraram no salo, vendo-se livres dos seus perseguidores. 
Uma das  abas do casaco de Allegra estava ligeiramente rasgada e a abertura no vestido de Carmen subira consideravelmente. Um f agarrara-lhe mesmo a perna e outro 
tentara pegar seus brincos. Fora a confuso total, e Carmen tinha os olhos marejados de lgrimas quando chegaram ao salo
        -  Nem se atreva! -  disse-lhe Alan em voz baixa. Se lhes der a entender que est assustada, da prxima vez que a virem ser pior. Tem de agir como se nada 
disto a incomodasse. Finja que gosta...
        -  Detesto -  replicou Carmen, deixando escapar duas lgrimas, que lhe rolaram pela face.
        Alan estendeu-lhe o leno.
        -  Estou falando a srio. Tem de ser muito forte quando os encarar Aprendi isso h cinco anos. Se no, eles arrancam-lhe o corao e a seguir rasgam-lhe 
a roupa!
        Allegra fez um sinal afirmativo, grata por Alan as acompanhar. Talvez tivesse sido melhor assim. Brandon no teria prestado qualquer ajuda, quanto muito, 
teria irritado a imprensa e Michael ainda no entrara no salo.
        -  Ele tem razo, sabe? Voc tem que dar a impresso que controla isto de olhos fechados.
        -  E se no conseguir? -  perguntou Carmen, visivelmente abalada, fitando Alan com ar de gratido. Tinha vergonha de olhar para ele. Era to belo e famoso! 
A verdade  que era to famosa como ele, mas no o sabia, o que contribua muito para o seu encanto.
        -  Se no conseguir, ento no pertence a este mundo -  disse Alan em voz baixa.
        -  Talvez no pertena... -  respondeu ela tristemente, devolvendo-lhe o leno. Tocara apenas nos olhos e ficara quase sem rmel.
        -  A Amrica diz que sim. Acha que eles so mentirosos? -  perguntou Alan propositadamente, avistando um grupo de gente conhecida.
        -  Apresentou-os a todos. Allegra conhecia a maior parte. Bill e Gayle tinham-se afastado alguns metros, cientes de que o perigo diminura. Alan e Carmen 
estavam agora com os seus pares, com outras estrelas, produtores e realizadores.
        Pouco depois, os pais de Allegra juntaram-se a eles. Blaire beijou Alan, manifestou a sua satisfao por voltar a v-lo e disse-lhe que gostara muito do 
seu ltimo filme. Simon abanou a cabea, desejando intimamente, como sempre, que Allegra se apaixonasse por ele.

        Alan era o tipo de genro com que todos sonhavam. Era belo e inteligente, de trato fcil e porte atltico. Simon e Alan tinham jogado golfe e tnis vrias 
vezes e, quando ele e Allegra andavam na escola secundria, Alan vivera literalmente na cozinha dos Steinberg, mas nos ltimos anos andara muito atarefado, e Simon 
no sabia se estava ali como acompanhante de Allegra ou de Carmen Connors. Parecia igualmente atento a ambas. Por fim entrou Michael, que encontrou um grupo de amigos 
e ficou  falando com eles a alguns metros de distncia.
        -  H muito tempo que no o vamos  -  queixou-se Simon a Alan, mostrando-se bem-humorado. No se afaste dessa maneira!
        -  No ano passado, estive seis meses na Austrlia, e antes disso passei oito meses no Qunia rodando um filme. Regressei h pouco da Tailndia. Nesta maldita 
profisso, andamos sempre a viajar. Para o ms que vem, vou para a Sua. s vezes  divertido, como sabe...
        Firmou um olhar cmplice em Simon. Nunca trabalhara para ele, mas, como toda as pessoas em Hollywood, gostava muito de Simon Steinberg. Era um homem inteligente, 
simptico, comportava-se sempre como um cavalheiro e, tanto nos seus acordos como na sua palavra, era infalivelmente honesto. Em muitos aspectos, era parecido com 
Allegra, e estas eram as mesmas qualidades que Alan apreciava nela. Isso e o fato de ter umas belas pernas e uma figura que no lhe permitia pensar nela como uma 
irm. Ao princpio da noite recomeara a acalentar sonhos romnticos com ela, mas, assim que Carmen aparecera, fora como se  tivessem retirado as entranhas. No 
sabia se estava de cabea para cima ou para baixo ou o que sentia por ela; s sabia que lhe apetecia pegar Carmen no colo e atravessar a multido at chegarem a 
um lugar onde fosse possvel ficarem ss durante muito, muito tempo, onde pudesse conhec-la. Apesar da sua afeio por Allegra nos ltimos quinze anos, nunca se 
sentira assim; desde que Carmen Connors entrara na limusine que no conseguia tirar os olhos dela.
        Allegra tambm reparara e sorriu-lhe. Achava que ele acertara em cheio, e depressa, e no sabia ao certo se importava com isso.
        -  Eu disse-te que ias gostar dela... -   murmurou em tom adulador no momento em que se encaminhavam para a mesa e uma dzia de fotgrafos tiravam fotografias 
deles. Carmen e Michael estavam atrs deles e Bill e Gayle eram os ltimos. Carmen vinha bem protegida entre todos eles, mas a imprensa andava atarefada com outras 
estrelas de primeira grandeza, embora nenhuma fosse to bela.
        -  Porque  que me faz lembrar a Sam quando fala comigo dessa maneira? -  replicou ele, mostrando-se um pouco aborrecido e sem querer admitir perante ela 
nesse momento que estava enamorado de Carmen.
        -  Est me chamando de menina ou s a dizer-me que pareo ter dezessete anos? -   gracejou Allegra, quando outro fotgrafo, este do Paris Match, tirou uma 
fotografia.
        -  Estou a te dizendo que  uma chata, mas te amo mesmo assim  -  retorquiu ele, sorrindo, com um olhar pelo qual milhes de mulheres teriam dado a vida.
        -  Voc  mesmo muito engraado, sabe? -   continuou ela, com vontade de lhe dar um empurro, mas sem se atrever a tal naquele lugar. Acho que a Carmen pensa 
o mesmo, para te dizer a verdade -   acrescentou, como uma irm mais velha e onisciente.
        -  Talvez seja prefervel no se meter nisso -   disse ele em tom de aviso. Desejava  beij-la outra vez no pescoo e sentia-se completamente louco.
        Era ridculo. Durante quinze anos conhecera-a e amara-a sobretudo como um irmo, e agora, de repente, sentia-se de novo sexualmente atrado por ela e, ao 
mesmo tempo, pela sua cliente, aquela loura explosiva. Nada disto devia acontecer. Virou-se e pediu um usque com gelo a um criado que estava passando. Precisava 
de uma bebida para aclarar as idias, ou talvez s para se sentir um pouco menos atordoado.
        -  No quero que fale no assunto com ela -   disse ele a Allegra quando se encaminhavam para a mesa que lhes fora destinada.
        Era uma mesa para dez pessoas: Allegra e Alan, Carmen e Michael, um produtor amigo do pai que ela conhecia h anos, a mulher, que fora uma atriz muito famosa 
nos anos quarenta, um casal de que Allegra nunca ouvira falar, o que era raro, e Warren Beatty e Annette Bening.
        -  Estou falando a srio, Allegra -   disse Alan outra vez. No quero que interfira nem que tente provocar seja o que for.
        -  Quem  que disse que eu ia interferir? -   perguntou ela com uma inocncia anglica, quando Carmen se aproximou.
        A jovem atriz estava um pouco mais  vontade e fitou Alan com os seus grandes olhos azuis e um sorriso aberto quando ele se sentou ao seu lado. Conversaram 
durante alguns minutos e depois Allegra afastou-se para ir cumprimentar uns amigos. Encontravam-se l vrios scios da firma de advogados e quase todos os clientes 
mais importantes. Os pais tinham uma mesa cheia dos seus amigos mais ntimos, muitos deles diretores e produtores, alm da estrela do ltimo filme do pai. Estavam 
todos no seu ambiente, e tambm Allegra se sentiu totalmente  vontade ao atravessar a multido, cumprimentando as pessoas que conhecia bem e rindo aqui e ali com 
um velho amigo. Na sua maioria, eram escritores, produtores ou diretores. Tambm havia gente dos estdios e das televises muito em evidncia. Era uma noite realmente 
importante.
        -  Voc est estonteante! -  comentou Jack Nicholson quando ela passou.
        Allegra agradeceu o cumprimento.
        Nicholson era um dos amigos mais antigos do pai. Ao passar por Barbra Streisand, Allegra saudou-a com um gesto de cabea e ela correspondeu. No sabia ao 
certo se Barbra a conhecia, mas conhecia a me, Blaire Scott. E Allegra ficou particularmente satisfeita por parar para conversar com Sherry Lansing. Era reconfortante 
verificar que muitos homens olhavam para ela com uma admirao ostensiva. De certo modo, Brandon era to reservado que era raro receber dele este tipo de ateno. 
Mesmo no meio das estrelas, Allegra mantinha a sua a brilhar, o que no deixava de surpreend-la.
        -  O que anda fazendo? -  perguntou Alan quando ela voltou. Passeando? 
No pode, se for a minha acompanhante. Esse tipo com quem sai te fez criar maus hbitos... Fingiu-se irritado com ela, mas Allegra sabia que estava a brincar.
        -  Ora, cala-se e porta-se bem! -  replicou, com um sorriso.
        Sentou-se e pouco depois foi servido o jantar. Aps o caf, as luzes diminuram de intensidade, e eles foram para o ar, com a msica, o espetculo e o Globo 
de Ouro televisionado em todo o seu esplendor. Quando a cerimnia comeou, os coraes bateram mais depressa. Durante algum tempo, os apresentadores saltaram entre 
o cinema e a televiso. Comearam pelos prmios menos importantes, mas logo no incio da noite vrias pessoas que Allegra conhecia foram homenageadas. Todos se apressavam 
a empoar o nariz e a pr batom durante os intervalos de publicidade e,  medida que os prmios eram entregues, as cmaras focavam os nomeados e enervavam ainda mais 
todas as pessoas. Por fim, chegou a vez da me de Allegra. Ela ganhara o prmio para a melhor srie de comdia durante tantos anos que Allegra no duvidava que voltaria 
a alcan-lo. Trocou um olhar cmplice com Alan e lamentou no estar mais perto da mesa dos pais, para pegar na mo da me em sinal de apoio. Era difcil acreditar 
que Blaire estivesse preocupada ao fim de todos aqueles anos, mas ela confessava-se sempre inquieta, e, quando Allegra viu o seu rosto no monitor, verificou que 
estava to aterrada como os outros nomeados. Parecia em pnico. Em seguida, disseram os nomes, um por um. A msica, o silncio interminvel, enquanto todos aguardavam... 
E depois o nome dela... S que nesse ano, pela primeira vez depois de sete anos consecutivos de vitria, no foi o nome da me que se ouviu, mas o de outra pessoa 
qualquer. Allegra ficou petrificada, como sabia que a me ficara. Nem podia acreditar! Virou-se para Alan com os olhos cheios de lgrimas, a pensar nela, na dor 
e no desapontamento que devia estar sentindo nesse momento. Mostraram de novo a imagem da me no monitor, logo a seguir  do vencedor, que se dirigiu para o pdio. 
A expresso de Blaire era agradvel e sorridente, mas Allegra percebeu que ela estava destroada. Aquele desfecho refletia as preferncias que o pblico manifestara 
atravs das audincias.
        -  No posso acreditar... -  segredou a Alan, sentindo-se esmagada e desejosa de poder confortar a me. Porm, no era possvel circular pela sala quando 
as cmaras estavam filmando.
        -  Nem eu, -  respondeu ele em voz baixa. Continua a ser um dos melhores programas da televiso. Sempre que estou em casa, vejo-o.
        Allegra sabia que ele estava falando verdade, mas sete anos de prmios em nove era muito tempo. Chegara o momento de outra pessoa vencer. E era exatamente 
isso que Blaire Scott receava. Sentada no seu lugar, sentiu um peso no estmago; quando olhou para Simon, ele fez um gesto de cabea e deu-lhe uma palmadinha na 
mo, mas Blair no sabia ao certo se o marido compreendia o que ela estava sentindo. Simon fora distinguido com o prmio muitas vezes, mas as suas vitrias eram 
sempre acontecimentos diferentes. No tinha um programa recorrente como ela, cujo padro de excelncia tivesse que manter, semana aps semana, temporada aps temporada. 
Em certos aspectos, o que Blaire fazia era muito mais difcil. Depois se lembrou que Simon tambm fora nomeado e tentou no ser to egosta, mas era difcil. Era 
como se estivesse perdendo em vrias frentes, mesmo que mais ningum se apercebesse disso.
        -  Espero que a minha me esteja bem -  disse Allegra, preocupada,  medida que a cerimnia avanava, e Alan comungava do mesmo sentimento.
        Allegra desejou que aquilo terminasse rapidamente, mas ainda havia muitos prmios para distribuir. Era como se nunca mais acabasse! Depois foi a vez de Carmen. 
Os nomes para a melhor atriz de cinema foram lidos e as cmaras focaram de perto as nomeadas, uma por uma. Debaixo da mesa, Carmen apertava a mo de Alan, que a 
agarrava com fora, esperando que ela ganhasse. E, de repente, foi a exploso do seu nome, as cmaras, os flashes, os aplausos. Quando Carmen se levantou e olhou 
para ele, Alan retribuiu-lhe o olhar, radiante, como se tivesse vivido unicamente  espera desse momento. De sbito Allegra percebeu que acontecera qualquer coisa 
especial nessa noite, algo de que nenhum deles se apercebera ainda, no sabia quanto tempo levariam a compreender, mas sentia que se criara uma espcie de magia 
entre eles.
        Alan estava de p,  espera dela, quando Carmen voltou, rendida e sem flego, rindo e chorando ao mesmo tempo, agarrada ao seu prmio. Abraou-a e beijou-a 
no momento em que um dos fotgrafos disparou. Allegra apressou-se a puxar-lhe a manga e ele sentou-se rapidamente ao seu lado
        -  Tem cuidado avisou.
        Alan sabia que ela tinha razo, mas no fora capaz de se conter. Carmen estava to entusiasmada que nem conseguia ficar quieta, e Allegra sentia-se to feliz 
e orgulhosa dela que esqueceu um pouco a desiluso causada pelo fracasso da me. Em certos aspectos, era como se Carmen fosse a sua irm mais nova. Allegra ajudara-a 
e acompanhara a sua carreira nos ltimos trs anos, quase desde que entrara na firma, e agora Carmen era uma das vencedoras. E bem o merecia!
        Seguiu-se mais uma hora de entrega de prmios, e as pessoas comearam desejar ir para casa e a sentir que estavam ali h muito tempo. Depois foram entregues 
os prmios finais: melhor ator de cinema, a contrapartida do galardo de Carmen, que foi para outro cliente da firma de Allegra. Melhor filme, melhor diretor e, 
finalmente, melhor produtor de filmes de longa-metragem. O prmio do melhor produtor foi para Simon nesse ano, como j acontecera duas vezes, e Simon estava radiante 
quando subiu ao pdio, pegou no seu trofu e agradeceu a todas as pessoas, e em particular  mulher, Blaire, que seria sempre a nmero um para ele, como no deixou 
de frisar. Havia lgrimas no sorriso de Blaire quando olhou para o marido, e ele beijou-a quando voltou para a mesa.
        E por fim, nos ltimos minutos, o prmio humanitrio, que no era atribudo todos os anos, mas s quando era verdadeiramente merecido por uma pessoa clebre 
do mundo do espetculo. Foram exibidos trechos de vrios filmes e enumeradas diversas obras ao longo de quarenta anos e, no fim, j todos tinham percebido de quem 
se tratava, exceto o laureado, que ficou pasmado ao ouvir o seu nome. Dessa vez Blaire levantou-se para aplaudi-lo e chorou ao beij-lo. Era Simon Steinberg, que 
se encaminhou para o pdio.
        -  Meu Deus... Eu... Eu no sei o que dizer -  murmurou, profundamente comovido. Por uma vez, sinto-me incapaz de exprimir o que sinto. Se ganhei este prmio 
e tenho a certeza que no o mereo foi graas a todos vocs  e  sua generosidade para comigo ao longo dos anos,  honestidade,  diligncia, aos objetivos que me 
ajudaram a atingir e aos extraordinrios momentos que partilhamos. Sado-vos a todos; agradeceu ao pblico, com os olhos marejados de gua.
        Allegra sentiu as lgrimas a rolarem-lhe pela face, e Alan ps-lhe o brao  volta dos ombros.
        -  Agradeo tudo o que foram para mim e fizeram por mim, tudo o que me deram. Vocs  que so seres humanos de privilgio, a par da minha mulher, Blaire, 
da minha filha Allegra e dos meus dois filhos que ficaram em casa, Scott e Sam, e de todos aqueles com quem trabalhei. Continuo a ser o seu humilde servo.
        Com estas palavras, Simon desceu do pdio e recebeu uma estrondosa ovao do pblico que se encontrava no grande salo de baile do Hotel Hilton. Era de fato 
um grande homem, e Allegra, ali de p, chorou de alegria e de orgulho pelo pai.
        Fora uma noite maravilhosa, por vrios motivos, e quando todos pegaram nas suas coisas, Allegra disse a Alan que queria ir falar  me. Alan concordou, assegurando 
que esperava por ela na mesa, com Carmen. Allegra foi encontrar a me no meio de um grupo de amigos e de colegas. Deu-lhe um grande abrao e disse-lhe que gostava 
muito dela. 
        -  Sente-se bem? -   perguntou em voz baixa. Blaire tinha os olhos midos das lgrimas que vertera por Simon. Fora uma noite importante para ele, e sentia-se 
feliz pelo marido e suficientemente orgulhosa dele para esquecer o seu prprio desapontamento.
        -  Teremos de nos esforar mais para o ano que vem -   afirmou aparentemente animada, mas Allegra viu algo no seu olhar que no lhe agradou, e quando a deixou 
e se aproximou do pai reparou que a me o fitava com nervosismo. Simon estava conversando com Elizabeth Coleson, uma diretora com quem trabalhara. Era uma inglesa 
fora do comum, porque apesar de ser muito nova, fora-lhe atribudo o ttulo de 'Lady' na Inglaterra, em sinal de reconhecimento pelo seu enorme talento. Estavam 
ambos profundamente embrenhados na conversa, Simon ria e havia um toque de intimidade no modo como falavam. No era nada de grave, mas Allegra sentiu qualquer coisa 
estranha ao observ-los. Depois, antes de poder concluir o seu raciocnio, o pai virou-se para trs e viu-a. Acenou-lhe imediatamente e apresentou-a como a nica 
pessoa da famlia que tinha um emprego respeitvel. Elizabeth Coleson deu uma gargalhada forte e rouca, apertando a mo de Allegra e dizendo que tinha muito prazer 
em conhec-la. Era apenas cinco anos mais velha que Allegra e possua aquela sensualidade comum nas inglesas, que  simultaneamente muito atraente e despreocupada, 
na medida em que no fazem qualquer esforo para serem sensuais, mas conseguem-no por completo. Ao observ-la, Allegra pensou que exalava sexo e talento. Parecia 
ter sado da cama naquele momento, o que levava os outros a interrogar-se se traria mais alguma coisa por baixo do vestido de noite azul-marinho, bastante simples 
e um pouco fora de moda. Era bvio, mesmo para Allegra, que Simon gostava dela.
        Estiveram conversando durante alguns minutos, e Allegra disse ao pai que se orgulhava muito dele. Simon deu-lhe um abrao e um beijo, mas, quando os deixou, 
mantinha ainda aquela sensao incmoda em relao a Elizabeth. Regressou  sua mesa e, quando voltou a olhar, verificou que Blaire juntara-se a eles. Allegra sabia 
que fora uma noite difcil para a me, embora nunca o admitisse perante ningum, nem sequer  filha mais velha. Estava muito preocupada com o seu programa. Ao fim 
de nove anos, era difcil continuar a mant-lo interessante. Nos ltimos tempos, a estao tinha perdido alguns anunciantes de vulto, devido  queda dos nveis de 
audincia, e o fato de o programa no ter sido premiado poderia agravar a situao.
        Mas, nessa noite, Allegra pareceu aperceber-se de outro tipo de inquietao no olhar da me, e perguntou a si prpria se isso teria qualquer relao com 
Elizabeth Coleson ou seria simplesmente fruto da sua imaginao, e Blaire estaria apenas desolada por o seu programa no ter sido premiado. No caso da me, era difcil 
chegar a uma concluso; Blaire era uma profissional e possua um esprito desportivo insupervel.  sada, pelo menos uma dzia de reprteres perguntaram-lhe como 
se sentia por no ter sido premiada. Ela exprimiu a sua satisfao pelo argumentista/produtor que ganhara o prmio e a sua admirao pelo respectivo programa com 
a elegncia que lhe era peculiar e realou a importncia que os prmios do marido tinham para si e as suas excepcionais qualidades humanas, acrescentando que talvez 
fosse tempo de serem reconhecidos talentos mais novos.
         sada, Carmen foi de novo assediada pelos fotgrafos, ainda mais do que na chegada, e os fs entraram em delrio quando a viram. Lanaram-lhe flores, quiseram 
tocar-lhe e uma mulher, gritando o seu nome, atirou-lhe um urso de pelcia que a ia atingindo na cabea. Felizmente, Alan apanhou-o a tempo.
        -   como no futebol -  disse ele, sorrindo, a Allegra.
        Para sua grande surpresa, gostara verdadeiramente da noite, e props a Allegra que fossem comer um hambrguer em um restaurante estilo anos cinqenta que 
conhecia e que convidassem Carmen e Michael.
        Levaram meia hora para entrar no carro e, j l dentro, sentiram-se como que apalpados, maltratados e puxados por milhares de mos e de reprteres.
        -  Cus! Acho que quero ser entregador no Safeway quando for grande -  resmungou Michael do banco da frente, com um gemido de cansao, o que provocou uma 
gargalhada geral.
        No entanto, quando Alan sugeriu que fossem comer um hambrguer, ele disse que se sentia exausto, porque estava gravando um filme e no dia seguinte tinha 
de chegar cedo ao estdio. Se os outros no se importassem, iria para casa. Carmen concordou. Estava satisfeita por ir sair com Allegra e Alan.
        Deixaram Michael em casa e em seguida foram para o Ed ebevic's, em La Cienega. Carmen lamentou no ter trocado o vestido de noite por uma camiseta e  jeans.
        - Eu tambm -   disse Alan com ar travesso, fazendo rir as duas mulheres. Por sinal, acho que voc ficaria incrvel de jeans. E se amanh fosse comigo at 
Malibu, para eu saber se gosto mais de te ver de vestido de noite vermelho ou de jeans? Uma espcie de Cortejo de Miss Amrica... Com os diabos, voc podia ganhar 
o prmio de Miss Simpatia... Ou o concurso de trajes de banho..
        Carmen riu e Allegra acompanhou-a. Instalaram-se num compartimento e alguns dos clientes viraram-se quando os dois guarda-costas se sentaram ao lado deles. 
Passava da meia-noite.
        Alan pediu um hambrguer com queijo e uma cerveja com chocolate, o que fez lembrar a Allegra os seus tempos de juventude. Ela mandou vir um caf e um pratinho 
de rodelas de cebola, sem mais nada. Todos riram da garonete, vestida  dona de casa dos anos cinqenta. Parecia mesmo Ethel em I Love Lucy.
        -  E voc, Miss Melhor Atriz do Ano? -  perguntou Alan a Carmen, que riu.
        Dava-se bem com ela, comportando-se simultaneamente como um irmo mais velho e um heri romntico. Ao olhar para ele, Allegra foi obrigada a admitir que 
Alan era o homem que todas as mulheres desejavam. Porm, conhecia-o h demasiado tempo para lev-lo a srio ou para se deixar  apaixonar por ele; naquele momento, 
s desejava Brandon
        -  Quero torta de ma e uma batida de morango-   respondeu Carmen, com um ar maldoso.
        -  Agora que todos ganhamos os nossos prmios, para o diabo com as calorias! Dem-me gordura antes que eu morra! -  exclamou Alan. Depois beliscou Carmen 
e olhou-a com admirao. Voc foi espantosa esta noite, por sinal. Portou-se muito melhor do que eu me teria portado na sua idade. Esta coisa do estrelato  assustadora!..
        S outra pessoa que vivesse sujeita s mesmas presses e ao mesmo sofrimento  que poderia perceber verdadeiramente Carmen, embora Allegra tambm a entendesse, 
porque estava muito prxima dela.
        -  Sempre que eles se aproximam de mim, os fotgrafos ou os fs, desejaria desatar a fugir e regressar ao regon -  disse Carmen, suspirando.
        -  Nem fale disso... -  Allegra rolou os olhos nas rbitas e depois a encarou mais a srio. O Alan tem razo, voc foi estupenda. Senti-me muito orgulhosa 
de voc.
        -  Eu tambm - assegurou Alan, baixinho. Por instantes, quando estava ali, tive medo que passassem por cima de voc na entrada. s vezes, a imprensa e a 
televiso descontrolam-se, no acha?
        No entanto, os guarda-costas que contratara tinham feito um bom trabalho, pensou Allegra, olhando para eles na mesa ao lado.
        -  A imprensa assusta-me mortalmente - confessou Carmen, cujas palavras no surpreenderam ningum.
        Em seguida, Alan perguntou a Allegra como encontrara a me.
        -  Aborrecida, creio, embora no o admitisse.  demasiado orgulhosa para permitir que algum se aperceba de que est sofrendo. E talvez os seus sentimentos 
sejam contraditrios. Sei que ficou feliz pelo meu pai, mas tem andado extremamente preocupada com o seu programa, e isto no vai ajudar. Quando fui falar com ela, 
estava elogiando o meu pai, e ele mostrava-se muito satisfeito. Creio que o prmio humanitrio significou muito para ele, ainda mais do que aquele que recebeu pelo 
filme.
        -  Simon merece-o -  afirmou Alan. Carmen deu um olhar melanclico a Allegra.
        -  Gostaria de entrar num dos filmes dele...
        -  Hei de falar-lhe nisso - prometeu.
        Talvez Simon tambm estivesse interessado nela. Carmen era um sucesso de bilheteira e o seu talento evolua rapidamente. No entanto, Allegra no lhes falou 
em Elizabeth Coleson. Fora a primeira vez que vira o pai comportar-se daquela maneira, a no ser com a me. Talvez se tratasse apenas de admirao profissional, 
e talvez a expresso que detectara no olhar da me fosse simplesmente de emoo, depois de uma noite to empolgante, to cheia de ondas de orgulho e de desapontamento.
        Saram do Ed Debevic's s duas horas, depois de conversarem sobre o passado no ensino secundrio de Beverly Hills e a infncia de Carmen em Portland, que 
fora bem mais normal que a deles, por isso ela tivera mais dificuldade em adaptar-se  insanidade da sua vida atual, com tablides e paparazzi, prmios e ameaas 
de morte.  uma vida normalssima, a nossa concluiu Alan com um ar divertido. Quando entraram na limusine puxou Carmen para o colo e ela no fez meno de lhe fugir. 
        -  Querem que eu v de um txi. -  perguntou Alegra, divertida. Nas duas ltimas horas, tornara-se ainda mais bvio que se sentiam extremamente atrados 
um pelo outro.
        -  E que tal o porta-malas? -  sugeriu Alan. Allegra entrou no carro e deu-lhe um encontro, perante o riso de Carmen. De certo modo, invejava aquela amizade 
de longa data. No tinha amigos assim em Hollywood, no tinha amigos, alis, exceto Allegra. S conhecia as pessoas com quem trabalhava e nunca mais voltava a ver 
depois de acabar de gravar um filme. Continuavam o seu caminho, tal como ela, e uma das coisas que mais lhe desagradava na sua vida em Los Angeles era a solido 
e as sadas raras, exceto em noites como aquela, com um acompanhante escolhido pelo estdio, to entediado como ela. Foi o que lhes transmitiu no caminho para casa, 
ante o olhar espantado de Alan.
        -  Talvez metade dos homens americanos dessem a vida para sair com voc  e ningum neste pas acreditaria que passa as noites em casa a ver televiso - disse 
ele, e Carmen acreditou que a vida romntica de Alan era muito menos empolgante do que a maioria das pessoas julgava, exceto algum romance ocasional, que fazia sempre 
sensao nos tablides -  Bem, teremos que tratar-   disso afirmou, com o ar mais natural do mundo Carmen j concordara em ir com ele a Malibu no dia seguinte, agora 
tentava convenc-la a ir jogar boliche.
        Alan e Carmen pareciam estar caminhando para um novo romance. Allegra sentia-se feliz por eles, o que a fez pensar de novo em Brandon. Assim que entrou na 
cozinha, foi ouvir as mensagens que tinha na secretria eletrnica. No esperava que Brandon tivesse telefonado, mas existia sempre essa possibilidade, nem que fosse 
para dizer que a amava. 
        Trs amigos e um dos scios da firma tinham deixado mensagens, apesar de nenhuma delas ser urgente, nem sequer importante. Por acaso havia uma de Brandon. 
Telefonara s para dizer que se divertira muito com as filhas e que lhe ligaria no domingo. No fez qualquer referncia aos prmios, no vira a cerimnia na televiso 
e no sabia nem disse nada acerca de Carmen nem do pai de Allegra. De repente, ao ouvi-lo, a jovem sentiu-se s outra vez. Era como se nunca tivesse feito parte 
da sua vida, a no ser quando ele prprio queria, e mesmo assim s em certa medida. Brandon era uma espcie de turista. E apesar da intensidade dos sentimentos dela 
e da durao da relao de ambos, existira sempre uma distncia cuidadosamente estudada entre os dois.
        Desligou a secretria eletrnica e dirigiu-se lentamente para o quarto, tirando os grampos. O cabelo caiu em cascata pelos ombros, e, sem que soubesse porqu, 
vieram-lhe as lgrimas nos olhos quando abriu o fecho do vestido e o atirou para as costas de uma cadeira. Tinha vinte e nove anos e no sabia ao certo se algum 
homem a amara verdadeiramente. Sentiu uma estranha solido quando se viu ao espelho do quarto de vestir, nua, perguntando a si prpria se Brandon a amava, se seria 
capaz de alargar as fronteiras que definira para si prprio e ficar  sua disposio, como Alan estava pronto a fazer com Carmen. Era to simples como isso. Alan 
e Carmen tinham-se conhecido nessa noite e ele tentava chegar a ela, sem medos nem hesitaes. E ali estava Brandon, dois anos depois, como um homem no cimo de um 
rochedo, com receio de saltar, sem conseguir recuar e sem lhe querer dar a mo para a confortar. Estava sozinha. Era uma daquelas concluses chocantes que faziam 
estremecer qualquer pessoa na escurido da noite. Allegra estava completamente s. Tal como Brandon, onde quer que se encontrasse nesse preciso momento.






CAPTULO 4

        O primeiro telefonema que Allegra recebeu no domingo de manh foi o de Brandon. Ia jogar tnis com as filhas e queria ter a certeza de que a encontrava antes 
de ela sair. Sabia que a jovem partia para Nova Iorque nessa tarde e no queria deixar de lhe falar
        -  Como esto todos os teus? -  perguntou interessado.
        Allegra estranhou que ele no se tivesse dado ao trabalho de ver os noticirios. Podia t-lo feito, pelo menos pelos seus pais, se no por Carmen, mas no 
disse nada para recrimin-lo; estava satisfeita por ele ter telefonado.
        -  Carmen ganhou o prmio de melhor atriz de cinema e o meu pai o ttulo de melhor produtor de filmes de longa-metragem. E tambm lhe concederam um prmio 
especial por motivos humanitrios, o que foi magnfico Foi timo! Infelizmente, a minha me... -   Suspirou ao dizer isto, lembrando-se da expresso de preocupao 
e de derrota que vira no olhar da me. No ganhou nada e creio que isso a afetou muito.
        - Tem que aceitar essas situaes com desportivismo, pelo menos - disse o namorado, melfluo.
        De repente, Allegra irritou-se com ele. O fato de Brandon no ter estado presente na cerimnia j era mau, mas o que lhe desagradava ainda mais era a insensibilidade 
que demonstrava para com a me dela.
        -  A situao  um pouco mais complexa do que isso, tem a ver com a existncia de um programa, quer se ganhe ou no um prmio. Neste ltimo ano, ela tem 
lutado pela sobrevivncia do programa, e isto pode ter provocado a perda de patrocinadores importantes.
        -  Isso  que  pior... - replicou Brandon, sem se mostrar particularmente compreensivo. D os meus parabns ao teu pai.
        -  Prometo que o farei.
        Em seguida, contou-lhe como passara o dia com as filhas, e o modo como ele mudou de assunto comeou a aborrec-la. O fato de ter visto como Alan tratara 
Carmen na noite anterior, e at o modo como se comportara com ela prpria, recordara-lhe como certos homens eram sensveis, solcitos e protetores. Nem todos eram 
distantes ou propositadamente indiferentes como Brandon. Mostrava-se auto-suficiente e esperava o mesmo dela. No queria que Allegra lhe exigisse fosse o que fosse. 
Pareciam dois barcos com rotas paralelas, mas consideravelmente distantes no oceano. A solido que Allegra sentira na vspera apoderou-se de novo dela ao ouvi-lo. 
Nos ltimos tempos, sentia-se cada vez mais ansiosa com a relao de ambos e abandonada quando no o tinha junto de si. Sempre ambicionara uma ligao como a dos 
pais, mas comeava a duvidar que estivesse preparada para ela e que no continuasse a escolher homens que no estavam dispostos a assumir um compromisso, como sugerira 
a Dr. Green.
        -  A que horas partes para Nova Iorque? -  perguntou ele para puxar assunto.
        Allegra ia encontrar-se com um escritor muito importante e de grande sucesso. O agente pedira-lhe que o representasse num acordo que visava a realizao 
de um filme, e ela marcara tambm outras reunies em Nova Iorque. Teria uma semana muito atarefada e esperava estar envolvida em negociaes de grande responsabilidade.
        -  Parto no vo das quatro -  respondeu, mostrando-se triste, mas ele nem deu por isso. Ainda tinha de fazer a mala e queria passar por casa da me para 
v-la, se tivesse tempo, ou pelo menos telefonar-lhe para se certificar de que ela estava bem depois da noite anterior. E tambm queria saber de Carmen. -  Fico 
no Regency de Nova Iorque.
        -  Eu te telefono.
        -  Boa sorte para o teu julgamento.
        -  Quem me dera conseguir um acordo! Seria muito melhor para o meu cliente, mas ele  muito teimoso -  queixou-se Brandon.
        -  Talvez mude de idias  ltima hora disse Allegra.
        -  Duvido, e j fiz todo o trabalho mais pesado. Como era habitual, Brandon retirara-se para o seu mundo, para a sua prpria vida, e Allegra sentia que tinha 
de conquistar a sua ateno. 
        - Vejo-te no prximo fim-de-semana -  acrescentou ele, mostrando-se pesaroso de repente. Vou sentir a tua falta... Parecia surpreendido, e Allegra sorriu. 
Eram estas pequenas coisas que a mantinham agarrada a ele, sempre com esperana. Talvez a amasse, mas no tinha muito tempo e estava bastante traumatizado pelo que 
se passara com a ex-mulher. Era sempre esta a desculpa: um trauma provocado por Joanie. Allegra explicara esta situao mil vezes as  pessoas e  havia exemplos que 
eram muito bvios para si, alm de ser evidente que ele a amava.
        -  Eu j sinto a tua falta... -  murmurou ela, com a sensibilidade  flor da pele.
        Seguiu-se um longo silncio
        -  Eu no podia ter feito outra coisa, Allie Tinha de vir para c este fim-de-semana.
        -  Eu sei, mas ontem  noite senti a tua falta. Foi importante para mim.
        -  J te disse que irei no prximo ano. 
        Brandon parecia estar a ser sincero, e Allegra acabou por sorrir.
        - Fico  espera.
        Mas qual seria a situao deles no ano seguinte? Estaria Brandon divorciado? J teriam casado? Haveria ele superado o medo de se comprometer? Existiam muitas 
perguntas que continuavam sem resposta.
        -  Te telefono amanh  noite -  prometeu outra vez e, antes de desligar, falou-lhe ao corao. -   Te amo, Al disse em voz baixa.
        -  Eu tambm -  respondeu ela, fechando os olhos com fora. Brandon estava ali para ela, embora tivesse que lidar com os seus prprios medos e obrigaes. 
Cuide-se esta semana.
        -  Prometo. E voc tambm -  disse ele, como se fosse igualmente sentir a falta dela.
        Ao desligar, Allegra esboou um sorriso melanclico. O que ambos tinham no fora conquistado com facilidade, mas chegariam l, apesar do que os outros pensavam. 
Precisava ser paciente. Brandon merecia-o.
        Em seguida, telefonou aos pais, felicitou de novo o pai e transmitiu-lhe os parabns de Brandon. Depois pediu para falar com a me e sentiu ainda uma rstia 
de tristeza na sua voz.
        -  Sente-se bem? -  perguntou, com ternura.
        Blaire sorriu, comovida por a filha ter telefonado.
        -  No! Vou cortar os pulsos esta tarde, ou talvez enfie a cabea no forno!
        -  Ento v, antes que desmontem a cozinha -   replicou Allegra com um sorriso, satisfeita por ouvi-la  gracejar. A srio me, merecia aquele prmio outra 
vez, e bem o sabe.
        -  Talvez no, querida, talvez seja o momento de dar oportunidade a outra pessoa. Este Outono tivemos muitos problemas com o programa.
        Um dos atores se despediu, cansado de fazer o mesmo papel h nove anos, e outros tinham pedido aumentos fabulosos quando renovaram os contratos. Alguns dos 
argumentistas tambm tinha se afastado e, como era habitual, o fardo cara em peso sobre os ombros de Blaire.
        - Talvez eu esteja ficando velha... -   acrescentou Blaire, querendo fazer humor, mas algo no seu tom de voz preocupou Allegra. Fora semelhante ao que vira 
no olhar da me na noite anterior, e que a assustara. Perguntou a si prpria se o pai teria apercebido disso e se tambm ficara inquieto.
        -  No seja ridcula, me, ainda tem mais trinta ou quarenta anos  sua frente -  disse ela com otimismo.
        - Oh!, Deus me livre... - gemeu Blaire, s de pensar nisso. Depois soltou uma das suas gargalhadas de antigamente -   Talvez viva mais vinte, e depois fecho 
a loja.
        -  Eu encarrego-me -  disso afirmou Allegra, j mais aliviada em relao  me e a Brandon.
        Sentia-se muito melhor do que na vspera e quase desejava no ter que ir para Nova Iorque sem o ver. Gostaria muito de ter passado a noite com ele antes 
de partir.
Falou  me da ida a Nova Iorque, assegurando que voltaria no fim da semana. Contava sempre aos pais para onde ia.
        -  Te vemos quando voltar -  disse a me, agradecendo-lhe o cuidado.
        O telefonema seguinte foi para Carmen. Ainda no estava histrica, mas aproximava-se do pnico a passos largos. A imprensa assentara razes em frente da 
porta principal da sua casa e, segundo Carmen, encontrava-se l um verdadeiro batalho, pronto a atac-la se pusesse um p de fora. Os guardas contratados por Allegra 
tambm l estavam, mas Carmen temia que a imprensa invadisse a casa se ela abrisse a porta para sair. Era uma prisioneira na sua prpria casa; no conseguira ir 
a lado nenhum desde a madrugada.
        -  No h uma porta de servio? -  sugeriu Allegra.
        Carmen respondeu que sim, mas l tambm estavam alguns fotgrafos  espera, com cmaras de televiso de vrias estaes.
        -  O Alan passou por a? -  perguntou Allegra, pensativa, tentando encontrar uma sada que no implicasse um grande confronto com a comunicao social.
        -  Ontem  noite falamos em ir a Malibu, mas ele no telefonou e eu no quis incomod-lo - disse Carmen, mostrando-se hesitante, mas Allegra teve uma idia 
e estava certa de que Alan no se importaria de ajudar Carmen.
        -  Tem alguma peruca que a modifique completamente?
        -  Tenho uma preta, bem engraada, que usei no Dia das Bruxas do ano passado.
        -  timo! V busc-la, pois pode precisar dela. Eu vou telefonar ao Alan.
        Juntos, traaram um plano. Ele aproximar-se-ia da porta principal num velho caminho que tinha e que raramente utilizava. Ningum o reconheceria, exceto 
se averiguassem a chapa de matrcula, mas nessa altura j eles iriam longe. Allegra sugeriu que tambm usasse uma peruca; Alan tinha muitas. Recomendou-lhe que fosse 
pelos fundos, fingisse que estava  namorando a empregada e depois arrancasse; com sorte, ningum descobriria quem ele era, nem que Carmen o acompanhara.
        -  Ela pode ficar na casa de Malibu durante uns dias, at que a situao volte  normalidade - props Alan. Pelos clculos de Allegra, Carmen iria gostar. 
Alan prometeu que iria busc-la  uma hora e Allegra telefonou para Carmen. Esta mostrou-se de sbito envergonhada pelo fato de Alan ir busc-la, dizendo que no 
queria abusar da simpatia dele.
        -  No hesite, aproveite! - gracejou Allegra. Ele vai adorar!
        Alan chegou  uma hora em ponto, segundo lhe contaram mais tarde, com uma cabeleira loura que lhe dava um aspecto de hippie. O caminho Chevrolet estava 
to velho e estragado que ningum reparou nele quando Alan abordou a criadinha mexicana de cabelo preto e curto, que vestia um top grosseiro e  jeans boca-de-sino. 
Carmen levava dois sacos de compras com as suas coisas e saram ambos pela porta das traseiras sem que ningum  prestasse ateno nem tirasse uma nica fotografia. 
Fora a fuga perfeita. Dez minutos depois, telefonaram a Allegra de uma estao de servio.
        -  Bom trabalho! -  exclamou ela, felicitando-os. Agora divirtam-se, os dois, e no se metam em encrencas durante a minha ausncia.
        Allegra lembrou a Carmen que ficaria hospedada no Regency de Nova Iorque e que regressaria a Los Angeles no fim-de-semana seguinte. Antes de desligar, agradeceu 
a Alan por tomar conta de Carmen.
        -  No se trata exatamente de um sacrifcio... -  assegurou ele com sinceridade  sua velha amiga. Estaria mentindo se dissesse que era -  acrescentou, em 
voz baixa.
        Alan estava admirado com o que sentia por Carmen. No sabia qual o rumo que as coisas iriam seguir entre eles, mas adorava a idia de tomar conta dela na 
ausncia de Allegra. Nem sequer tinham levado os guarda-costas. Seriam apenas eles os dois na casa de praia.
        -  No se porte mal, est bem? Enquanto eu estiver fora, quero dizer. Ela  uma boa moa...  muito religiosa e  uma menina simptica... No  como as outras 
que ns conhecemos.
        Allegra procurava as palavras certas, receando que ele se lanasse num caso leviano e que depois a deixasse.
        -  Eu compreendo, Al, no precisas de me dizer. Eu sei.  Vou portar-me bem. Juro... Mais ou menos, claro... Deu um olhar ansioso a Carmen, que andava l 
fora, de um lado para o outro, de jeans e top. Ouve, Allie. A Carmen  diferente, eu sei... Nunca conheci ningum como ela... Exceto voc, talvez, e isso foi h 
muito tempo.  parecida conosco quando ramos jovens, honestos, sinceros, puros, antes de crescermos e nos tornarmos cnicos e um pouco intrigados com as pessoas 
que no estiveram  altura das nossas expectativas. No a magoarei, Al, prometo. Creio.. No importa... Vai para Nova Iorque e trata da tua vida. Um destes dias, 
quando voltares, falaremos de ns, como nos velhos tempos.
        -  Toma bem conta dela!
        Era como se lhe confiasse a irm mais nova, mas sabia que Alan era boa pessoa, e algo na sua voz lhe disse que ele seria carinhoso com Carmen.
        -  Te adoro, Alle. Quem me dera que conseguisses arranjar algum que fosse bom para voc, em vez desse idiota, com a sua ex-mulher e o seu divrcio eterno! 
Isso no leva a parte nenhuma, Al, e voc bem sabe.
        -  Vai passear! -  replicou ela, bem-humorada, e ele riu.
        -  Est bem, j percebi. Vai para Nova Iorque e descansa. Pelo menos isso te faz bem.
        Allegra riu e em seguida desligaram.
        Alan e Carmen tiraram as perucas e partiram para Malibu. Quando l chegaram, a casa estava silenciosa, tranqila, cheia de sol e completamente deserta. Carmen 
nunca vira um lugar to bonito, e Alan sentiu-se feliz por estar na sua companhia, desejando, de sbito, ficar ali para sempre.
        Allegra partiu para o aeroporto. Telefonara a Bram Morrison antes de sair e deixara-lhe o nome do seu hotel em Nova Iorque. Ele gostava sempre de saber onde 
ela estava. Era uma das suas manhas. As outras pessoas poderiam contat-la, se precisassem, atravs da firma.
        Embarcou pouco depois das trs horas, em classe executiva, e ficou sentada ao lado de um advogado que conhecia de uma firma rival. s vezes era fcil acreditar 
que o mundo estava cheio de advogados. Pelo menos, assim parecia. Era estranho pensar, ao voar para leste, que a essa mesma hora Brandon regressava a Los Angeles. 
Nesse momento seguiam rumos opostos.
        Allegra leu os documentos do acordo que iria ser assinado no dia seguinte, tomou alguns apontamentos e at teve tempo de dar uma vista de olhos por alguns 
jornais. Quando chegou a Nova Iorque j passava da meia-noite. Tirou a mala da esteira rolante e, quando saiu para apanhar um txi, ficou admirada ao ver que estava 
um frio cortante. Por volta da uma hora entrou no quarto do hotel. No tinha sono e gostaria de  telefonar para algum. Eram apenas dez horas em Los Angeles, mas 
sabia que Brandon s chegaria a casa s onze. Tomou uma ducha, vestiu a camisola, ligou a televiso e deitou-se nuns lenis imaculados. Era o luxo total, e havia 
algo de divertido e de adulto no fato de se encontrar num hotel de sonho em Nova Iorque em servio.
        Gostaria de conhecer algum a quem pudesse telefonar ou de ver um amigo. Nessa semana teria de se encontrar com o escritor, no dia seguinte, e depois com 
outros advogados e agentes. Ia ser uma semana atarefada, mas,  noite, no tinha nada que fazer a no ser ficar sentada no hotel a ver televiso ou lendo documentos. 
E, ali deitada naquela cama enorme, sentia-se uma criana, com um sorriso travesso, a comer os chocolates que lhe haviam deixado na mesa-de-cabeceira.
        -  De que ri? -   perguntou ao rosto que viu no espelho quando foi lavar os dentes. Quem te disse que era suficientemente crescida para ficar num lugar destes 
e para se encontrar com um dos escritores mais importantes do mundo? E se descobrirem quem voc , que no passa de uma menina pateta?
        De sbito, a idia de que fora to longe e assumira uma to grande responsabilidade pareceu-lhe divertida. Riu de novo, lavou os dentes, voltou para a cama 
enorme e suntuosa e acabou de comer as trufas de chocolate.



































CAPTULO 5

        O despertador tocou s oito horas do dia seguinte. A luz ainda era escassa naquela manh de Janeiro. Estava nevando em Nova Iorque, e ainda eram cinco horas 
na Califrnia. Allegra virou-se para o outro lado, com um suspiro, e por um ou dois minutos esqueceu onde estava. Depois, lembrou-se da reunio dessa manh com o 
escritor. Era um homem muito mais velho, desconfiado de tudo o que fosse ligado ao cinema, mas o seu agente estava convencido de que daria um impulso  sua carreira 
nessa fase, visto que cara na inevitvel curva descendente, e Allegra fora a Nova Iorque para ajudar a convenc-lo a fazer o acordo, a pedido do agente. Este era 
to ilustre como as pessoas que representava, e o fato de ter solicitado a Allegra que interviesse na assinatura do acordo era uma honra para ela e um passo importante 
para que viesse a tornar-se scia da firma. Porm, ao virar-se na cama, a perspectiva de se encontrar com qualquer deles pareceu-lhe muito pouco atraente, por mais 
importantes que eles fossem. Estava um dia de frio e de neve, e teria preferido passar a manh na cama.
        Enquanto tentava levantar-se, levaram-lhe o caf da manh e com ele os jornais do dia, depois de beber o caf, de comer cereais e croissants com gelia e 
de dar uma olhadela aos jornais, a perspectiva de um dia em Nova Iorque pareceu-lhe quase excitante. O escritrio do agente literrio ficava em Madison Avenue e 
a firma de advogados em Wall Street. Entre ambos havia mil e um estabelecimentos, outras tantas galerias de arte e muita gente fascinante. Por vezes, estar em Nova 
Iorque era uma experincia inebriante. Havia tantas pessoas a fazer inmeras coisas interessantes, uma profuso de acontecimentos culturais, peras, concertos, exposies 
de todo o tipo, peas de teatro. Por comparao, Los Angeles parecia a provncia!
        Allegra vestiu um traje preto e um casaco forte e calou umas botas para a reunio das dez da manh. Chegou de txi, agarrada  carteira e  pasta, e, ao 
entrar, lamentou no ter levado um chapu: tinha o rosto dolorido do frio e as orelhas geladas.
        O elevador parou no ltimo andar, totalmente ocupado pela agncia. Nas paredes via-se uma coleo impressionante de obras de Chagall, Dufy e Picasso, alguns 
pastis, um pequeno leo e uma srie de desenhos. Era bvio que a agncia estava se saindo muito bem. No meio da sala encontrava-se uma pequena escultura de Rodin.
        No a fizeram esperar e viu-se na presena do diretor da agncia, um homenzinho rechonchudo com um leve sotaque alemo. Chamava-se Andreas Weissman.
        -  Miss Steinberg.
        O homem estendeu-lhe a mo, observando-a com interesse, o aspecto anglo-saxnico e distinto de Allegra e os seus cabelos louros no puderam deixar de lhe 
chamar a ateno. Considerava-a muito bela e durante toda a reunio, antes da chegada do autor, sentiu-se fascinado por ela. Por fim, uma hora depois, apareceu um 
homem que aparentava cerca de oitenta anos, mas com a agudeza de esprito de um de quarenta. Jason Haverton era gil, espirituoso e muito arguto. Ao olhar para ele, 
Allegra apercebeu-se de que devia ter sido muito bonito, porque era ainda bastante atraente. Durante uma hora, conversaram sobre a indstria cinematogrfica em geral, 
e Jason Haverton perguntou-lhe se ela era da famlia de Simon Steinberg. Quando respondeu afirmativamente, Haverton manifestou-lhe a sua admirao pelos filmes do 
pai.
        Os dois homens convidaram-na para almoar em La Grenouille, e s quando foi servido o prato principal  que comearam a falar de negcios. Jason Haverton 
admitiu perante Allegra que fizera o possvel por evitar aquele acordo e afirmou que no estava de modo algum interessado em que um dos seus livros fosse adaptado 
ao cinema. Considerava que, na sua idade, era um ato de prostituio. Por outro lado, escrevia com menos freqncia do que no passado, os seus leitores j no eram 
jovens e o seu agente estava convencido de que vender um livro para um filme era uma maneira ideal de aumentar de novo o seu pblico e atrair leitores mais novos.
        -  Concordo com ele - disse Allegra, sorrindo para Haverton e depois para Weissman. No ser necessariamente uma m experincia para si.
        Allegra continuou a falar, realando vrios caminhos possveis para minimizar o stresse do escritor e para tornar o acordo mais atraente. Haverton apreciou 
as suas palavras e ficou impressionado com ela. Era uma garota inteligente e uma boa advogada. E, quando veio o sufl de chocolate, j eram amigos e ele confidenciou-lhe 
que gostaria de t-la conhecido h cinqenta anos. Casara quatro vezes, mas, segundo afirmou, j no tinha foras para arranjar uma quinta mulher.
        -  Do tanto trabalho... -  disse ele, com uma piscadela de olho que fez Allegra rir.
        Era fcil perceber por que motivo fora to bem sucedido com as mulheres, era inteligente, divertido e tremendamente encantador Mesmo com a sua idade avanada, 
despertava uma atrao especial. Vivera em Paris na juventude e a primeira mulher era francesa. As duas seguintes eram inglesas e a ltima, americana, tambm fora 
uma escritora clebre. Morrera h dez anos e, apesar de ter se envolvido com vrias desde ento, nenhuma conseguira lev-lo ao altar.
        -  Elas absorvem tanta energia, minha querida... So como cavalos de corrida demasiado frgeis, mas lindas de ver e insuportavelmente dispendiosas. Porm, 
proporcionam um enorme prazer.
        Haverton sorriu-lhe e Allegra sentiu-se derreter ao olhar para ele. Tinha vontade abra-lo, mas desconfiava que, se o fizesse, ele se atiraria a ela de 
boa vontade, como um gato a um rato que tivesse confiado demasiado no felino E Jason Haverton no era um gatinho de estimao, ainda tinha muito de leo, apesar 
dos seus oitenta anos. E era um leo muito atraente. Weissman divertia-se a observar o assdio. Eram velhos e bons amigos e partilhava da opinio de Jason: Allegra 
era uma garota extraordinria e no se admiraria se Jason tentasse cortej-la. Mas ela parecia demasiado esperta para ele e, apesar de no usar aliana na mo esquerda, 
conseguia dar a impresso de que estava comprometida, por pequenas coisas que disse.
        -  Sempre viveu em Los Angeles? -  perguntou Jason enquanto bebiam o caf e brincavam com o que restava do sufl.
        Ficaria surpreendido se a jovem respondesse afirmativamente. A verdade  que havia nela um requinte que lhe lembrava a Europa ou o Leste dos Estados Unidos, 
pelo menos. Mas ela surpreendeu-o.
        -  Sempre vivi em Los Angeles, exceto quando fui para Yale.
        Ento deve ter uns pais extraordinrios disse ele em tom de cumprimento.
        Allegra sorriu. Haverton j sabia quem era o pai dela e, ao observ-la, reconheceu que era muito parecida com ele, pelo menos em esprito: sensvel e sincera, 
direta e moderada nas palavras, mas no nos sentimentos.
        -  A minha me tambm escreve -  explicou Allegra. Dedicou-se  fico quando era muito nova e h vrios anos que faz argumentos para a televiso. Tem um 
programa de muito xito, mas creio que, ainda que no confesse, intimamente, lamenta nunca ter escrito um romance.
        -  Devem ser pessoas de grande talento -  observou ele, muito mais interessado nela do que nos pais, mas bastante intrigado com aquela bela jovem.
        -  E so. Mas o senhor tambm - replicou Allegra com um sorriso, desviando cuidadosamente a conversa para ele, o que muito lhe agradou.
        Weissman, admirado e fascinado, observava como ela lidava com Haverton. Era sbia e hbil e disse-lhe assim que o motorista do velho escritor o veio buscar 
e o levou para casa. Haverton saiu, acenando afetuosamente a Allegra, como se fossem velhos amigos, depois de ter concordado com a maior parte das condies do acordo 
que ela lhe propusera. O agente e a advogada voltaram para o escritrio de Weissman, na limusine deste, para discutirem as clusulas mais importantes do contrato.
        -  Foi fantstica com ele! -  afirmou Weissman, fascinado e tambm divertido.
        Era muito jovem, mas de raciocnio rpido, e possua uma habilidade especial para lidar com as outras pessoas.
        -   essa a minha profisso -  explicou ela, sem artifcios,  lidar com pessoas como ele. A maioria dos atores parecem crianas.
        -  E tambm os escritores -  assegurou Andreas, sorrindo. Allegra agradava-lhe
        Passaram duas horas trabalhando no acordo e na quantia que, na opinio de ambos, Haverton deveria receber. Por fim, Allegra disse que iria telefonar  empresa 
cinematogrfica e que lhe comunicaria a resposta dos seus responsveis. Talvez conseguissem concluir o acordo ainda nessa semana, antes de ela partir de Nova Iorque, 
na sexta-feira. Entretanto, tinha outras reunies marcadas sobre outros assuntos, mas entraria em contato com Andreas logo que recebesse notcias da Califrnia acerca 
do filme de Jason.
        -  Quanto tempo fica por aqui? -  perguntou ele outra vez.
        -  At sexta-feira, a menos que conclua tudo antes disso, mas creio que ser boa idia ficar enquanto trabalhamos nisto. Estou certa de que teremos algumas 
respostas na quarta-feira, o mais tardar. Andreas concordou com ela e depois escreveu um endereo numa folha de um bloco de apontamentos Hermes. Tudo nele era da 
mais requintada qualidade. Era um homem que apreciava o melhor em tudo, at nos clientes.
        -  Eu e a minha mulher daremos uma pequena festa esta noite. Um dos autores que represento acabou de escrever um livro importante, que, na nossa opinio, 
poder mesmo ganhar um prmio literrio. Duvido que Jason esteja l, mas iro alguns dos nossos clientes e penso que voc ir gostar. Estendeu-lhe o papel com um 
endereo na Quinta Avenida e o nmero do telefone de sua casa e disse-lhe que aparecesse entre as seis e as nove horas dessa noite. Teriam muito prazer em receb-la. 
        -   muito amvel -  agradeceu Allegra. Gostara do tempo que passara com ele nessa tarde e apreciara o modo como Weissman trabalhara. Mostrara-se arguto 
e rigoroso e, alm da educao e do encanto europeu, era um empresrio brilhante, que sabia exatamente o que estava fazendo e no admitia situaes absurdas. E Allegra 
apreciava isso nele. Ouvira boas referncias a seu respeito e sempre conseguira bons acordos com os seus clientes.
        -  Experimente e aparea. Ficar conhecendo um pouco do meio literrio de Nova Iorque e talvez se divirta.
        Allegra agradeceu-lhe outra vez e saiu do escritrio pouco depois. Fora uma tarde inesperadamente agradvel. Quando chegou  rua, a neve j tinha derretido. 
Atravessou o passeio devagar e apanhou um txi para o hotel, onde tinha vrios telefonemas a fazer para a Califrnia.
        Eram cinco horas quando concluiu todas as chamadas do quarto para comear as negociaes com vista no filme sobre o livro de Haverton. Uma hora depois, aps 
ter feito alguns apontamentos, ainda no resolvera se encomendaria o jantar ou iria  festa dos Weissman. L fora estava um frio glido e ela s trouxera roupas 
de trabalho e dois vestidos de l, e a idia de apanhar frio outra vez no a seduzia, mas, por outro lado, encontrar algumas das figuras literrias locais parecia-lhe 
uma razo vlida. Levou meia hora pensando no assunto, enquanto via o noticirio, e depois correu para o guarda-roupa. Resolvera ir  festa dos Weissman. Optou pelo 
seu nico vestido preto. Tinha gola alta e mangas compridas e era muito elegante, porque se moldava a sua figura. Calou sapatos de salto alto e penteou-se. Por 
fim, viu-se ao espelho. Comparada com as pessoas sofisticadas de Nova Iorque, receava parecer uma camponesa. As nicas jias que trouxera resumiam-se a uma pulseira 
que a me lhe dera e uns brincos de ouro. Prendeu o cabelo atrs numa trana, pintou os lbios e voltou a vestir o casaco. Era velho e j vinha dos tempos da faculdade, 
quando ia ao teatro, mas pelo menos era quente, mesmo que no fosse bonito.
        Desceu ao trio e o porteiro arranjou-lhe um txi. Por volta das sete e meia, estava na esquina da Rua Oitenta e dois com a Quinta Avenida, em frente do 
Metropolitan Museum. Era um edifcio de apartamentos antigo e elegante, com um porteiro e dois ascensoristas, vrios sofs de Veludo vermelho-escuro e uma carpete 
persa que impedia que o som dos saltos altos ecoasse no cho de mrmore da entrada. O porteiro disse-lhe que os Weissman moravam no dcimo quarto andar, e saram 
seis pessoas do elevador quando  ela entrou. Pareciam ter vindo da festa do agente literrio, e Allegra pensou se no se teria atrasado de mais, mas depois lembrou-se 
que Andreas dissera que ela podia aparecer at s nove. Assim que chegou l  em cima, ouviu o barulho. Ainda se ouvia bem, e pelo menos ficou sabendo que a festa 
continuava. Tocou  campainha e um mordomo veio abrir a porta.  primeira vista, estaria ali mais de uma centena de pessoas. Allegra ouviu um piano a tocar.
        Entrou, entregou o casaco e, olhando  sua volta, examinou o vestbulo do elegante duplex. No entanto, foram as pessoas que lhe despertaram a ateno. Era 
um ambiente tipicamente nova-iorquino, com vestidos de cocktail, trajes cinzento-escuros e alguns tweeds. Todas as pessoas parecia entusiasmada e cheia de vida, 
como se tivessem mil e uma histrias para contar acerca dos muitos lugares que haviam visitado. Definitivamente, Allegra no estava na Califrnia. E, por uma vez, 
no reconheceu os rostos clebres. Sabia que estava junto de pessoas igualmente famosas, mas era um mundo diferente do de Hollywood, e fascinavam-na porque no as 
conhecia. Talvez soubesse a maioria dos nomes. Olhou  sua volta e viu Tom Wolfe e Norman Mailer, Barbara Walters, Dan Ratcher e Joan Lunden, e uma srie de figuras 
ilustres rodeadas de editores, professores e escritores. Havia um pequeno grupo que, como algum explicou, era constitudo pelos curadores do Metropolitan Museum. 
O presidente da Christie's tambm l estava e um punhado de artistas importantes. Era o tipo de reunio que nunca seria possvel em Los Angeles, porque no havia 
uma to grande variedade de figuras eclticas e sonantes. Em Los Angeles todos estavam envolvidos na 'indstria', como  chamavam, como se fizessem automveis em 
vez de filmes, mas em Nova Iorque havia de tudo, desde cenaristas de teatro a atores da Broadway, a gerentes de armazns e joalheiros importantes, misturados com 
editores, escritores e dramaturgos. Era uma combinao fascinante. Serviu-se de uma taa de champanhe... Observando-os, e ficou aliviada ao ver Andreas Weissman 
ao longe. Foi encontr-lo na biblioteca, junto de uma janela que dava para Central Park, a conversar com o seu maior concorrente no mundo literrio, Morton Janklow. 
Falavam de um amigo comum que havia sido cliente de Weissman e morrera h pouco tempo. Fora uma grande perda para a comunidade literria, como ambos reconheceram. 
Nesse momento, Andreas reparou em Allegra e foi ao seu encontro. De vestido preto e cabelo puxado para cima, tinha um ar mais austero do que nessa tarde. Era muito 
bela e jovem. Dirigiu-se lentamente para ele, com a taa de champanhe na mo. Tudo no seu andar era elegncia e leveza, o que lhe fez lembrar o bailado e os quadros 
de Degas. Jason Haverton tinha razo, pensou Weissman com um sorrisinho discreto. Haverton telefonara-lhe mais tarde, para lhe dizer que Allegra no s era uma boa 
advogada como uma pessoa requintada. Gostara muito de almoar com ela e confidenciou a Andreas que, se tivesse uns anos a menos, as coisas poderiam ser diferentes. 
Disse isto com malcia, o que fez o agente sorrir naquele momento, quando estendeu a mo a Allegra. Ela parecia atear fogo no corao dos homens, mesmo em pleno 
Inverno.
        -  Ainda bem que veio, - Allegra.
        Passou-lhe o brao pelos ombros com delicadeza e conduziu-a atravs da sala at junto de um grupo de convidados. Allegra reconheceu mais pessoas, nomeadamente 
o dono de uma galeria importante, uma modelo famosa e um jovem artista. Formavam um grupo muito heterogneo, e era exatamente isso que lhe agradava em Nova Iorque. 
Era por este motivo que os nova-iorquinos nunca queriam ir para o Oeste; Nova Iorque era demasiado empolgante. Andreas apresentou-a a vrias pessoas que se encontravam 
na sala e explicou que ela era uma advogada da gente do espetculo de Los Angeles. Todos se mostraram muito satisfeitos por conhec-la.
        Em seguida Andreas desapareceu, deixando-a com os seus novos amigos. Uma mulher mais velha chamou-a para lhe dizer que ela se mexia como uma bailarina. Allegra 
admitiu que fizera oito anos de bailado em criana, e algum lhe perguntou se era atriz. Dois jovens muito elegantes disseram que trabalhavam nos Lehman Brothers, 
em Wall Street, outros num escritrio de advogados que a contatara para uma entrevista durante a sua estada em Yale. Allegra tinha a cabea rodando quando subiu 
ao andar superior para admirar a vista espetacular do parque e travar conhecimento com outros convidados. s nove horas voltou a descer. A festa continuava animada, 
e acabara de chegar um novo grupo que parecia ser de empresrios, acompanhados de igual nmero de mulheres elegantemente vestidas. Algumas usavam gorros de pele 
e todas estavam muito bem penteadas. Tinham um aspecto diferente do das mulheres de Los Angeles, com as suas plsticas, a sua aparncia jovem e os seus cabelos louros. 
Estas eram mais graves, mais interessantes, com menos artifcios e menos maquiagem, mas com roupas caras, algumas jias e rostos srios e intensos. Tambm se viam 
algumas plsticas, e corpos to esguios que pareciam lpis, mas na maioria eram pessoas que desenvolviam aes importantes e cuja presena era suficiente para influenciar 
o mundo. Allegra sentia-se fascinada por elas e pelas suas conversas. Falavam de temas interessantes e eram, de fato, pessoas inteligentes.
        -  Isto  formidvel, no ? -  exclamou algum atrs dela.
        Allegra virou-se e viu um homem observando-a, tal como ela examinara as outras pessoas que se encontravam na sala. Era alto e magro, de cabelo preto e com 
o aspecto aristocrtico de um verdadeiro nova-iorquino. Estava vestido a rigor para a ocasio, com uma camisa branca, um terno escuro e uma conservadora gravata 
Hermes em dois tons de azul-marinho, mas havia qualquer coisa nele que no condizia com a sua expresso. Allegra no percebia se era a pele bronzeada, o brilho do 
olhar ou o sorriso aberto. De certo modo, parecia mais um californiano do que um nova-iorquino, mas esta descrio tambm no se aplicava bem. No conseguiu reconhec-lo, 
mas ele mediu-a de alto a baixo e tambm ficou fascinado por ela. Parecia integrada, mas algo nela denotava que no pertencia quele ambiente. Ele gostava de freqentar 
a casa dos Weissman; encontrava sempre as pessoas mais fascinantes, desde bailarinos a agentes literrios, capitalistas e maestros. Era divertido misturar-se com 
eles, tentar adivinhar de onde tinham vindo e de quem se tratava. Era o que fazia nesse momento, mas sem resultado. Allegra tanto podia ser decoradora como mdica. 
Tambm ela tentava adivinhar o que ele fazia e oscilava entre o corretor e o banqueiro. Ao fit-lo com um ar pensativo, o homem reagiu com um sorriso aberto.
        - Estava tentando descobrir o que voc faz, quem  e de onde vem - confessou. Adoro fazer esse exerccio aqui, embora erre sempre. Talvez seja bailarina, 
a avaliar pelo modo como se mexe e como posiciona o corpo, mas aposto que  editora na Doyle Dane. Que tal?
        - Pssimo - respondeu Allegra, rindo, divertida com o seu jogo.
        Ele aproximou-se um pouco mais. Parecia ter um bom senso de humor e estar totalmente descontrado quando a olhou de frente.
        - Talvez no ande muito longe. Tambm escrevo muito. Sou advogada - acrescentou Allegra, retribuindo o olhar.
        Ele ficou surpreendido.
        -Em que tipo de firma? - insistiu, divertido com o jogo. Gostava muito de adivinhar o que as pessoas faziam, e em Nova Iorque havia um grande leque de atividades. 
A resposta a qualquer pergunta nunca era simples, e muito menos se estava relacionada com a ocupao de algum. Calou-se e continuou a tentar adivinhar. Acho que 
 direito das sociedades, ou talvez algo muito srio, como direito da concorrncia. Acertei?
        A hiptese pareceu-lhe pouco provvel, porque ela era muito feminina e muito bela, mas agradava-lhe a combinao de uma bonita mulher envolvida numa atividade 
de grande responsabilidade.
        Allegra respondeu com uma gargalhada que o encantou. Tinha um riso alegre, uns cabelos incrveis e exalava ternura. Apostava que gostava do seu semelhante, 
embora nos seus olhos houvesse um toque de mistrio. Eles diziam-lhe muito acerca de quem ela era e no que estava pensando. Era uma mulher de princpios, disso tinha 
a certeza, convices firmes e talvez opinies fortes, mas tambm tinha sentido de humor, ria muito e havia algo suave e feminino no modo como mexia as mos. E tinha 
uma boca deliciosa...
        -  O que o leva a pensar que sou uma advogada sisuda? -  perguntou Allegra, rindo de novo. Nem sequer sabiam o nome um do outro, o que, alis, parecia ser 
pouco importante. Gostava de falar com ele e de entrar no seu jogo de adivinhao. Pareo-lhe assim to sria? -insistiu, curiosa quanto  resposta.
        Ele ficou pensando, observando-a atentamente, e depois abanou a cabea. Allegra no pde deixar de reparar no seu belo sorriso: era muito atraente.
        - Enganei-me - disse ele, corrigindo-se, com um ar pensativo. Voc  uma pessoa sria, mas no trabalha num ramo srio do direito. E que tal uma combinao 
singular? Talvez represente pugilistas profissionais ou esquiadores. Acertei?
        Estava brincando e ela achou graa.
        - Porque concluiu que eu no estou nas sociedades nem na concorrncia?
        - Voc no  enfadonha.  sria e conscienciosa, mas tem uns olhos risonhos. Os tipos de direito das sociedades nunca se divertem. Ento, eu tinha razo? 
Est no ramo do desporto? Cus, no me diga que  do ramo jurisdicional. Detestaria pensar que faz esse gnero de trabalho!...
        Recuou ao pousar o copo, e ela sorriu. Tinham sido uns momentos divertidos, e sentiu-se muito  vontade ao olhar fixamente para ele.
        - Estou no ramo do espetculo, em Los Angeles. Vim c falar com Mister Weissman acerca de um dos seus clientes e fazer outros contatos. Represento pessoas 
do mundo do espetculo em geral, como argumentistas, produtores, diretores e atores.
        - Interessante, muito interessante... - observou, mirando-a de novo, como se tentasse concluir se todas as informaes condiziam. E  de Los Angeles?
        Mostrou-se surpreendido com a resposta afirmativa de Allegra.
        - Sempre vivi l, exceto os sete anos que estive em Yale.
        - Eu fui para uma faculdade rival - disse ele. Allegra levantou a mo.
        - Espere, agora  a minha vez. Esta  fcil. Voc foi para Harvard.  do Leste, provavelmente de Nova Iorque, ou talvez Connecticut ou Boston. Piscou-lhe 
o olho. E andou num colgio interno... Exeter ou St. Paul's.
        Ele riu do perfil ultra conservador, ultra previsvel e totalmente elitista que ela descrevia. No sabia se a responsabilidade de tal juzo cabia ao terno 
escuro,  gravata Hermes ou ao corte de cabelo recente.
        -Est perto. Sou de Nova Iorque. Fui para Andover e para Harvard. Ensinei em Stanford durante um ano e agora estou...
        Allegra interrompeu-o e levantou a mo outra vez, observando-o. No tinha ar de professor, a menos que desse aulas na Faculdade de Gesto, mas era demasiado 
jovem e bem-parecido para isso. Se estivessem em Los Angeles, diria tratar-se de um ator, mas tambm parecia ser demasiado inteligente e isento de egocentrismo para 
isso.
        - Agora  a minha vez - lembrou ela. J me disse muito. Talvez ensine Literatura em Columbia, mas, para ser honesta, julguei que fosse banqueiro, quando 
o vi.
        Ele fazia lembrar Wall Street e tinha um ar muito respeitvel, apesar do olhar malicioso.
        -  o traje - admitiu ele, sorrindo, como se fosse seu irmo. Era quase to alto como o pai de Allegra e havia algo familiar no modo como ria. Trouxe o terno 
para agradar  minha me. Ela disse que eu tinha de vestir qualquer coisa que me desse um ar respeitvel, j que voltava a Nova Iorque.
        - Tem estado fora?  - perguntou Allegra.
        Ainda no lhe dissera se era banqueiro ou professor, e estavam ambos a divertir-se com aquele jogo. Por fim, os convidados comearam a sair. Haviam passado 
cerca de duzentas pessoas pelo apartamento dos Weissman, que parecia agora quase vazio, com cerca de metade.
        - Estive ausente durante seis meses, a trabalhar noutro lado - respondeu ele, dando-lhe uma pista. Detesto dizer-lhe onde.
        Parecia muito divertido com as coisas que haviam dito acerca um do outro e Allegra continuava a tentar adivinhar onde ele estivera e o que fazia.
        - Talvez a dar aulas na Europa?
        Ele abanou a cabea
        -Noutro lugar qualquer?
        Allegra sentia-se confusa. Talvez o terno a tivesse induzido em erro. Quando o fitava nos olhos, percebia que ele tinha uma imaginao viva, e era bvio 
que gostava de associar fatos.
        - No ensino h muito tempo, mas no anda longe. Digo-lhe?
        -Creio que  prefervel. Desisto A culpa  toda da sua me; acho que o traje me confundiu -  retorquiu, bem-humorada.
        -Compreendo perfeitamente. Comigo acontece o mesmo. Quando me vi no espelho, esta noite, quase no me reconheci. Por sinal, sou escritor... Sabe como . 
Tnis rotos, pantufas de tapete inglesa, roupes velhos, jeans desbotadas e camisetas de Harvard todas esburacadas.
        - Bem me pareceu que voc era desse gnero!
        Mas na realidade o terno ficava-lhe muito bem, e Allegra desconfiava que no guarda-roupas dele devia haver mais fatos do que camisetas rotas. Tinha um aspecto 
formidvel e devia ter uns trinta e cinco anos. Na verdade, tinha trinta e quatro e vendera o seu primeiro livro para o cinema h um ano. O segundo acabara de sair 
e estava sendso alvo de crticas esplndidas e vendendo muito bem, o que o surpreendia. Era muito literrio, mas sentira que tinha de escrever. Andreas Weissman 
tentara convenc-lo de que o seu verdadeiro talento residia na fico comercial, por isso estava prestes a escrever o seu terceiro livro e tentar alargar os horizontes. 
        - Ento onde esteve durante seis meses? A escrever numa praia das Bahamas?
        A situao pareceu-lhe muito romntica, mas ele riu da sugesto.
        -Numa praia, mas no nas Bahamas. Passei seis meses em Los Angeles, em Malibu, a adaptar o meu primeiro livro para um filme. Foi uma loucura ter aceitado 
escrever o argumento e a co-produo. Talvez no volte a fazer o mesmo, embora esteja certo de que ningum me pedir. Um amigo meu de Harvard est produzindo-o. 
        - E j est de regresso? 
        Parecia to estranho que se cruzassem ali depois de ele ter passado seis meses em Los Angeles... Era espantoso que, no meio de tantas pessoas que se encontravam 
na festa nessa noite, eles se tivessem descoberto, ambos recm-chegados da Califrnia, atrados como dois ims.
        -  Estou aqui h uma semana para falar com o meu agente -   explicou ele. Tenho uma idia para um terceiro livro e, se alguma vez terminar este maldito argumento 
em que estou trabalhando, fecho-me  chave durante um ano e escrevo-o. J recebi uma proposta para fazer um argumento inspirado no segundo, mas no sei se estou 
disposto a isso. No me sinto muito atrado por Hollywood e pela indstria do cinema. Ainda no sei se prefiro voltar para Nova Iorque, dedicar-me a escrever livros 
daqui em diante e esquecer os filmes. Ainda no decidi. Agora, a minha vida est um pouco louca.
        -No h motivo para que no faa as duas coisas. Nem sequer tem de escrever os argumentos, se no quiser. Venda os livros e deixe que algum o faa por voc. 
Assim fica com mais tempo para escrever o seu romance.
        Era como se Allegra estivesse  aconselhando um dos seus clientes. Ele riu do seu ar sisudo.
        - E se me destroem o livro? - perguntou, inquieto. Ao ver a expresso no seu olhar, Allegra no conseguiu conter o riso.
        - Isso  mesmo conversa de escritor!... As aflies de entregar o seu beb a desconhecidos. No posso garantir que no venha a ter problemas, mas por vezes 
 uma situao menos cansativa do que ser voc a escrever o argumento, j para no falar da co-produo.
        - Acredito. Caminhar sobre pregos  menos cansativo. As pessoas de l esto me deixando doido! No respeitam o texto, s se preocupam com o elenco, e talvez 
com o diretor, guio no significa absolutamente nada para elas. So muito hbeis com as palavras. Enganam, mentem, dizem o que lhes convm s para conseguirem o 
que querem. Acho que j estou  habituando-me, Deus me livre, mas a princpio quase fiquei doido!
        - O que me parece  que voc precisa de um bom advogado em Los Angeles, ou talvez de um agente local que lhe d a mo. Devia pedir ao Andreas que o apresentasse 
a algum da CAA - disse ela, cheia de sentido prtico.
        Ele sorriu e estendeu-lhe a mo.
        - Talvez pudesse telefonar-lhe - sugeriu, considerando a idia muito atraente. Ainda no me apresentei. Aqui estou eu a me lamentar, desculpe. Sou Jeff Hamilton.
        Allegra olhou para ele e sorriu. Estavam muito perto um do outro no meio das pessoas, que eram cada vez menos na festa dos Weissman. Reconheceu o seu nome 
assim que o ouviu.
        - Eu li o seu primeiro livro. Gostei muito. Era uma obra sria, mas por vezes muito divertida. Impressionara-a e ficara-lhe na memria, o que era significativo. 
Sou Allegra Steinberg - acrescentou.
        - No  da famlia do produtor, calculo...  - disse ele casualmente, ainda divertido com o jogo e com o fato de ambos viverem em Los Angeles.
        Mas ela apressou-se a corrigi-lo. Orgulhava-se da famlia, embora nunca puxasse dos gales.
        - Simon Steinberg  meu pai - respondeu tranquilamente.
        - Por acaso deu uma olhada pelo meu primeiro livro, e simpatizei muito com ele. Passou uma tarde inteira no escritrio a dizer-me o que estava errado no 
argumento, e o que  engraado  que conclu que tinha razo. Depois, fiz vrias alteraes propostas por ele. Sempre quis telefonar-lhe para agradecer, mas no 
tive oportunidade.
        - O meu pai  extremamente inteligente e tem vastos conhecimentos em relao a uma srie de coisas disse ela - sorrindo. Deu-me muito bons conselhos ao longo 
dos anos.
        - Imagino.
        Jeff imaginava muita coisa, mas uma delas era voltar a v-la nessa noite.
        Allegra comeava a olhar  sua volta, apercebendo-se de que tinham sado umas dezenas de convidados enquanto continuavam a conversar.
        -  Acho que vou andando - disse, com pena. J passava muito das nove da noite, a hora a que a festa deveria ter acabado.
        - Onde est hospedada? -  perguntou Jeff, ansioso por no a deixar fugir. Havia algo de invulgar nela, e teve de se conter para no lhe tocar.
        - Estou no Regency. E voc?
        - Eu sou um menino mimado. Estou em casa da minha me, aqui na cidade. Ela foi fazer um cruzeiro e s regressa em Fevereiro. A casa  sossegada, mas muito 
agradvel. Fica aqui perto.
        Seguiu-a at ao vestbulo, a par de meia dzia de outros convidados. Allegra pediu o casaco e Jeff tirou o sobretudo de um cabide, com um longo cachecol 
de l.
        -Posso lev-la a algum lugar? - perguntou, esperanoso, depois de terem agradecido a festa a Mrs. Weissman.
        Andreas estava l em cima, embrenhado numa conversa com dois jovens autores, com o ar de quem no queria ser incomodado. Deixaram-no, portanto, e desceram 
as escadas.
        -Vou para o hotel - disse ela, assim que entraram no elevador e comearam a descer.  s apanhar um txi.
        Atravessaram o trio lado a lado; sentiam-se bem juntos. Jeff abriu-lhe a porta, saiu atrs dela e depois lhe pegou suavemente no brao. Estava nevando outra 
vez e a calada estava escorregadia.
        -Quer ir tomar uma bebida? Ou comer um hambrguer?  cedo, e eu adoraria ficar  conversando com voc  mais um pouco. Detesto conhecer algum assim, entusiasmar-me 
com uma pessoa que depois logo vai embora... Parece-me intil! Tanta energia e emoo para nada!
        Fitou-a, ansioso. Allegra parecia muito jovem, mas havia qualquer coisa nela que o fascinava. No sabia o que era, porm, a verdade  que ela tambm parecia 
sentir-se atrada por ele. Ambos viviam em Los Angeles, os seus domnios de atividade cruzavam-se e pareciam ter muitas coisas em comum. Fosse como fosse, no queria 
deix-la, por enquanto, e ela no tinha vontade de regressar ao hotel. Iria sentir-se muito s. E deixaram-se ficar ali, a olhar para a neve, de brao dado.
        -  Tenho de ir ler uns contratos - disse ela, sem entusiasmo. Haviam-lhe enviado por fax um monte deles nessa tarde, a respeito da tourne de Malachi O'Donovan, 
mas claro que poderia sempre l-los mais tarde; esta ocasio parecia-lhe muito mais importante. Era como se ela e Jeff Hamilton ainda tivessem muito a descobrir 
acerca um do outro, uma histria para contar, uma misso a cumprir, por isso acrescentou. Pensando melhor, seria bom comer qualquer coisa. O hambrguer parece-me 
uma boa idia.
        Satisfeito, Jeff chamou um txi e deu ao motorista o endereo do Elaine's. Enquanto vivera em Nova Iorque e escrevera o seu primeiro livro, freqentara-o 
muitas vezes, e, sempre que voltava, gostava de passar por l, para recordar os velhos tempos.
        -  Tive receio que no quisesse sair admitiu.
        Era bonito e tinha um ar de rapaz, os olhos brilhantes e o cabelo salpicado de flocos de neve. Sair com Allegra era muito importante para ele; queria saber 
mais coisas a seu respeito, do seu trabalho, da sua vida, do pai, que conhecera h uns meses. No percebia por que motivo os caminhos de ambos nunca se haviam cruzado 
em Los Angeles. Era como se tivessem vindo a Nova Iorque para se conhecer, como dois planetas que acabassem por colidir. E Jeff sentia-se muito contente
        -  Saio pouco -  explicou ela, estou sempre trabalhando. Os meus clientes contam muito comigo.
        Demasiado, na opinio de Brandon, que detestava o excesso de servios que lhes prestava, mas fazia parte da sua maneira de ser, daquilo que ela era, e agradava-lhe.
        -  Eu nunca vou a lado nenhum-   disse ele, pensativo, enquanto seguiam para leste. Escrevo quase sempre  noite. Gosto muito de Malibu. s vezes, vou passear 
para a praia de madrugada; ajuda a purificar as idias. Onde  que voc vive?
        A jovem despertava-lhe a curiosidade e esperava v-la mais vezes, mesmo antes de deixarem Nova Iorque.
        -  Vivo em Beverly Hills. Tenho uma casinha engraada, que comprei quando voltei de Yale.  pequena, mas perfeita para mim. Tem uma bela vista e um jardim 
japons quase s com pedras. Assim, no deixo morrer as plantas; quando  preciso, fecho a porta e vou-me embora. Como agora -   afirmou Allegra, sorrindo.
        -  Viaja muito? -  perguntou Jeff. Ela abanou a cabea.
        Tento estar presente o mais que posso, pelos meus clientes, s viajo quando preciso de estar com eles noutro lugar qualquer. Dois so msicos. s vezes encontro-me 
com eles durante as tournes, aqui e ali, um ou dois dias, mas estou quase sempre em Los Angeles.
        Allegra j prometera a Bram Morrison que tentaria ir visit-lo, e, se Mal O'Donovan quisesse, faria o mesmo por ele. Eram duas tournes longas e cansativas, 
e Allegra j dera meia volta ao mundo s para apoi-los, de Bancoc s Filipinas e a Paris.
        -  Por acaso conheo alguns? -   perguntou Jeff, de novo intrigado.
        Allegra falava deles como se fossem pessoas sagradas, que tivesse jurado proteger do mal, e, de certo modo, era o que fazia.
        -  Alguns...
        -  Est autorizada a dizer quem? -   insistiu.
        Pagou o txi e entraram no Elaine's. Estava cheio e barulhento, mas o maitr  reconheceu-o logo e fez-lhe sinal de que lhe arranjaria lugar dentro de alguns 
minutos.
        -  Ento que clientes so esses a quem  to dedicada? -  O modo como falou f-la sentir que Jeff compreendia o carinho que nutria por eles, o que no a 
surpreendeu. Estava a quilmetros de distncia de Brandon, que reclamava sempre que ela concedia um momento livre aos seus clientes.
        -   provvel que conhea a maior parte, e alguns no se importam que saibam quem  o seu advogado. Posso dizer-lhe quais so. Bram Morrison e Malachi O'Donovan, 
Carmen Connors, Alan Carr, etc. Para citar alguns.
        Orgulhava-se deles como uma me-galinha e, ao observ-la, Jeff compreendeu-a e percebeu sua lealdade e  como era protetora, o que s aumentou a sua admirao.
        -  Est me dizendo que so representados pela sua firma ou que so seus clientes pessoais?
        Os nomes pareciam-lhe demasiado importantes para uma pessoa to nova como ela, Allegra aparentava pouco mais de vinte e cinco anos. Mas ela riu da pergunta 
e ele adorou o seu sorriso.
        -  No, esses so mesmo meus clientes explicou. H outros, evidentemente, mas no posso revelar a sua identidade. Creio que o Bram diria a qualquer pessoa 
quem  o seu mdico e o Mal tambm  muito livre a este respeito E a Carmen, ento, est sempre dizendo aos jornais quem  que a representa!
        Parecia citar estes nomes com uma grande naturalidade. Eram as pessoas que preenchiam a sua vida
        -  Meu Deus, mas que grupo, Allegra! Deve sentir-se muito orgulhosa! -  exclamou ele com admirao. H quanto tempo est na firma?
        Talvez fosse muito mais velha do que parecia, considerou, mas ela riu, adivinhando-lhe o pensamento.
        -  H quatro anos. Tenho vinte e nove... Quase trinta. Falta pouco... lamentou-se.
        -  Eu tenho trinta e quatro e voc faz-me sentir como se tivesse passado os ltimos dez anos dormindo.  uma grande carga, eles no devem ser fceis de representar...
        -  Alguns so -  disse ela, sempre ansiosa por ser simptica. E no seja ridculo! Voc escreveu dois livros e est prestes a comear o terceiro, anda escrevendo 
um argumento e a co-produzir um filme. O que fiz eu? Nada, exceto representar um grupo de pessoas de talento, pessoas como voc. Redijo-lhes os contratos, represento-os 
nas negociaes, preparo-lhes as procuraes e os testamentos, enfim, protejo-os sempre que posso. Creio que, de certo modo,  um trabalho criativo, mas, sejamos 
honestos, no se compara com aquilo que voc faz, por isso no tenha pena de si acrescentou em tom de censura. A verdade  que eram ambos pessoas realizadas, que 
adoravam o que faziam.
        -  Talvez eu venha a precisar dos seus servios -  disse ele, pensativo, lembrando-se da sua ltima conversa com Andreas Weissman nesse dia, de manh. Se 
vender outro livro em Hollywood, necessito de um advogado para verificar os meus contratos, pelo menos.
        -  A quem recorreu da ltima vez? -   inquiriu Allegra, curiosa quanto  colaborao de Weissman.
        -  O Andreas orientou tudo daqui. Foi uma negociao muito direta, e no posso dizer que tenha ficado prejudicado. O acordo consiste numa quantia fixa por 
eu escrever o argumento e numa percentagem das vendas brutas, se o filme vingar. Como estou produzindo-o com um amigo, no quis me mostrar muito agressivo. Fiz mais 
pela experincia do que pelo dinheiro. Cometo muitas vezes este erro. Sorriu, mas no tinha aspecto de quem estava morrendo de fome. O terno que vestia era caro. 
Se voltar a fazer isso, quero uma compensao econmica maior, e no estou disposto a abdicar tanto da minha vida.
        -  Terei o maior prazer em analisar os seus contratos em qualquer altura. Allegra sorriu e, aparentemente, ele gostou da idia. Bastante, por sinal.
        -  Agradar-me-ia muito -   retorquiu Jeff.
        No sabia por que motivo Andreas nunca lhe falara nela nem se oferecera para apresent-los. A verdade  que o editor nunca pensara que o seu protegido, o 
seu jovem escritor de sucesso, se sentiria atrado pela bela advogada loura de Los Angeles.
        Sentaram-se numa mesa ao fundo da sala e conversaram durante horas, sobre Harvard, Yale e os dois anos que ele passara em Oxford. A princpio detestara aquele 
ambiente, mas depois acabara por adorar. O pai morrera quando l estava, e ele comeara a escrever a srio depois disso. Falou tambm da desiluso da me por no 
ter sido advogado, como o pai, ou, melhor ainda, mdico, como ela prpria.
        Jeff descreveu a me como uma mulher muito forte, muito puritana, uma autntica ianque. Tinha idias definidas sobre tica e responsabilidade profissional 
e continuava a pensar que escrever no era um trabalho srio para um homem.
        -  A minha me  argumentista -  explicou Allegra, falando de novo nos pais e admirada por sentir vontade de partilhar os seus assuntos prediletos com Jeff.
        Havia muito de que falar, tanta coisa que lhe queria contar. Era como se tivesse passado a vida  espera que ele fosse seu amigo. Jeff estava totalmente 
em sintonia com o que ela sentia e pensava e era muito compreensivo. Nenhum deles queria acreditar quando olharam para o relgio e viram que era uma da manh.
        -  Adoro o modo como o direito funciona, a sua lgica e a satisfao pela resoluo dos problemas confidenciou ela. s vezes confunde-me, mas  realmente 
aquilo de que mais gosto.
        Allegra sorriu, sem se aperceber de que estavam ambos de mos dadas. Havia uma espcie de fogo no seu olhar quando pronunciou estas palavras, e Jeff deleitou-se 
a olhar para ela. No se lembrava de ter sentido algo semelhante por ningum num primeiro encontro.
        Do que gosta mais, Allegra? -  perguntou, com voz terna. De ces? De crianas? Do habitual?
        -  De tudo isso, creio. Especialmente da minha famlia. Ela  tudo para mim!
        Jeff era filho nico e invejava as histrias que Allegra contava de Sam, de Scott e dos pais. Alis, invejava-a em muitos aspectos. A sua prpria famlia 
dispersara-se depois da morte do pai, e a me no era uma pessoa afetuosa. No entanto, era fcil perceber que Simon Steinberg era um homem terno e adorvel...
        -  Um dia destes tem de ir conhec-los -  sugeriu Allegra amavelmente. E ao Alan.  o meu amigo mais antigo. Alan Carr. Queria apresent-lo a toda as pessoas, 
como uma criana! Ansiosa por dar a conhecer o seu novo e melhor amigo. Oh, no! Como sempre acontecia, Jeff reagiu imediatamente ao nome. Era impossvel no o fazer. 
        -  Ele  o seu amigo mais antigo? No acredito! 
        -  Foi meu namorado na escola secundria, no segundo ano. Desde ento ficamos amigos.         
        Era estranho como Jeff parecia encaixar em tudo isto...! Gostava de ouvi-la falar do trabalho, da famlia, dos amigos. Era to diferente de Brandon! No entanto, 
Allegra sentia que no era justo compar-lo com um desconhecido: no sabia nada dos subterfgios, das fraquezas e das falhas de Jeff. Mas sentia-se to bem com ele! 
Era muito estranho. E ele adorava a franqueza e a total ausncia de pretensiosismo de Allegra. Era o tipo de mulher que sempre admirara, e h muito tempo que no 
encontrava ningum assim. No se cansava de olhar para ela, e,  medida que noite se aproximava do fim, sentia-se cada vez mais impelido a pr-lhe uma questo importante. 
A princpio pensou que talvez no fosse muito correto faz-lo, mas agora percebia que era inevitvel, tinha de lhe perguntar.
        -  Existe algum homem na sua vida, Allegra? Um homem que signifique algo, uma relao a srio, quero dizer. Alm de Alan Carr.
        Sorriu, tremendo ligeiramente antes de ouvir a resposta.
        A jovem hesitou, indecisa quanto ao que havia de dizer. Ele tinha o direito de saber. Ou no? Haviam passado muito tempo falando um com o outro e era bvio 
que se sentiam fortemente atrados, mas no podia negar que Brandon era um elemento importante na sua vida, e sabia que tinha de falar nele a Jeff.
        -  Existe -  respondeu Allegra tristemente, olhando Jeff nos olhos.
        -  Era o que eu receava. No estou admirado, mas tenho pena.  feliz com ele?
        A pergunta era importante. Se a resposta fosse afirmativa, ele ficaria de fora. Queria lutar pelo que desejava, mas no era estpido nem louco, e no queria 
sair magoado.
        -  s vezes sou -  respondeu ela, com sinceridade.
        -  E quando no  feliz com ele, qual  o motivo? -  perguntou-lhe com muito cuidado, ansioso por saber se ainda haveria uma oportunidade. Mesmo que percebesse 
que no tinha qualquer hiptese, no teria sido tempo perdido, congratular-se-ia sempre por t-la conhecido. Gostava verdadeiramente dela.
        -  Ele tem atravessado um perodo difcil -  explicou Allegra, sempre ansiosa por desculp-lo, e admirada com a freqncia com que o fazia. Est passando 
um mau bocado, tratando do divrcio. Alis... Havia qualquer coisa no aspecto dela e no que dizia que no agradou a Jeff. Na verdade, est separado. Ainda no entregou 
o processo.
        No percebia porque contara isto a Jeff, mas fazia parte da histria. Ele fitou-a e fez outra pergunta.
        -  H quanto tempo foi isso?
        Era como se soubesse que este dado era fundamental para a histria. Allegra dera-lhe a entender e Jeff aproveitara a oportunidade.
        -  H dois anos -  respondeu ela tranquilamente.
        -  Isso a incomoda?
        -  s vezes, embora no tanto como parece incomodar as outras pessoas. H dois anos que andam discutindo a partilha dos bens. Por sinal, o que me aborrece 
 sentir que ainda h coisas na nossa relao que precisam  ser aperfeioadas.
        -  Por exemplo?
        -  Ele ainda necessita de manter uma certa distncia - respondeu Allegra honestamente. Tem receio de assumir um compromisso, e talvez seja por isso que ainda 
no se divorciou. Se algum se aproxima demasiado dele, mesmo com subtileza, recua. Diz que est traumatizado por ter sido forado a casar, e eu compreendo, mas 
no percebo porque hei - de pagar por isso ao fim de todo este tempo. A culpa no  minha!
        - H algum tempo vivi com uma mulher assim - declarou Jeff com calma, lembrando-se de uma escritora de Vermont que o fizera terrivelmente infeliz. Nunca 
me senti to s na minha vida!
        -  Eu sei disse Allegra em voz baixa, sem querer trair Brandon perante Jeff. Amava-o, queria casar com ele, e no lhe parecia justo falar dele a mais ningum. 
E, no entanto, sentia que tinha de faz-lo. Precisava conversar com Jeff acerca da sua relao com Brandon. Era como se tivesse essa obrigao, apesar de t-lo conhecido 
s nessa noite.
        -  Ele tem filhos?
        -  Sim, duas filhas. Est muito ligado a elas, e as crianas so adorveis. Tm nove e onze anos. Passa muito tempo com elas em So Francisco.
        -  E voc tambm vai?
        -  Quando posso. Trabalho muitos fins-de-semana, em conjunto ao que se passa com os meus clientes. Podem receber ameaas de morte, estar rodando um filme, 
fazer novos acordos, tournes, etc.
        Eles mantinham-na ocupada, mas Jeff tinha a certeza que as ausncias freqentes de Brandon tambm contribuam para aumentar a sua solido.
        -  No se importa que ele v sozinho?
        -  No  justo impedi-lo, se no o posso acompanhar. Ele tem o direito de ver as filhas.
        Allegra parecia estar na defensiva, mas Jeff sentia-se cada vez mais intrigado com o que ouvia. Desconfiava que ela no fosse feliz com aquele homem, ainda 
que no o admitisse nem perante si prpria.
        -  No se aborrece por ele andar agarrado  mulher h tanto tempo? -  perguntou abertamente.
        Allegra franziu o sobrolho e respondeu:
        -  Voc parece a minha irm!
        -  O que pensa a sua famlia?
        -  No morrem de amores por ele... -  respondeu Allegra, suspirando.
        Jeff comeava a gostar do que estava ouvindo. Talvez ela tivesse se apaixonado por Brandon numa determinada fase, mas no era de maneira alguma uma situao 
imutvel, e muito menos com uma moa como ela. Allegra merecia mais, e a aprovao da famlia contava muito para ela. Qualquer pessoa percebia isso.
        -  No me parece que eles compreendam -  lamentou-se Allegra. Depois de tudo o que passou, Brandon tem dificuldade em se comprometer, o que no significa 
que no se interesse, s no pode dar aos outros o que esperam dele.
        -  E voc, o que espera? -   perguntou Jeff ternamente.
        -  O que os meus pais tm -  replicou ela, sem pensar. Amor e carinho um pelo outro e pelos filhos.
        -  Acha que ele lhe dar tudo isso? -  insistiu Jeff, pegando-lhe de novo na mo.
        Allegra no a retirou. Ele fazia-lhe lembrar algumas pessoas de quem gostava, como o pai, Scott e at Alan, mas no Brandon. Brandon era frio e distante, 
receava ser obrigado a dar. Jeff parecia disposto a faz-lo abertamente. No recuava, no tinha medo dela, do que ela pudesse sentir, ou mesmo do que ele prprio 
pudesse sentir se viesse a conhec-la. Parecia to desejoso de estar junto dela, de entrar na sua intimidade, que Allegra parecia ouvir as palavras da Dr. Green 
a ecoar na sua mente e sorriu para Jeff, sem motivo. Mas ele repetiu a pergunta:
        -  Acha que o Brandon lhe dar o que deseja, Allegra? Era importante para ele saber isto.
        -  No sei -  respondeu ela francamente. Penso que far o possvel.
        Ou no faria? Brandon tentara assim tanto?
        -  Quanto tempo est disposta a esperar? -  perguntou Jeff. Allegra ficou atnita. A Dr. Green perguntara-lhe precisamente o mesmo e ela nunca conseguira 
responder.
        Porm, era preciso que Jeff soubesse o que ela sentia. No queria engan-lo.
        -  Eu o amo, Jeff. Pode no ser uma situao perfeita, mas o aceito como ele . Esperei dois anos e posso esperar mais, se for obrigada a isso.
        -  Talvez tenha de esperar muito tempo -  disse ele, pensativo, ao sarem do restaurante.
        Era fcil perceber que a relao era problemtica, mas tambm que Allegra ainda no estava pronta para abandon-la. Porm, Jeff era um homem paciente e disse 
para si prprio que, se os caminhos de ambos tinham se cruzado, devia haver qualquer motivo para isso. E enquanto esperavam por um txi sob a neve que caa, ps-lhe 
um brao  volta do corpo e puxou-a para si.
        -  E voc? -  perguntou ela, enquanto esperavam no frio, lado a lado, batendo com os ps no cho. Quem  que existe na sua vida?
        -  A minha diarista, Guadaloupe, a minha dentista, em Santa Mnica e a minha datilografa, Rosie -   respondeu Jeff.
        Allegra sorriu e olhou para ele, divertida com a descrio.
        - Parecem formar um bom grupo. Mais ningum? Nenhuma jovem estrela deslumbrante, interrompida temporariamente das suas palavras, a  te olhar  luz das velas 
e a esperar que voc acabe o trabalho? 
        -  Ultimamente, no. 
        Jeff sorriu de novo. Houvera mulheres a srio na sua vida e vivera com duas, mas nunca durante muito tempo. O nico obstculo que ele tinha de ultrapassar 
era Brandon, e no sabia bem o que havia de fazer para isso.
        Por fim, apanharam um txi e entraram, aliviados por o automvel ser confortvel e estar aquecido. Jeff deu o endereo do Regency ao motorista e, quando 
este arrancou, puxou Allegra mais para si. Nenhum deles disse uma palavra, limitando-se a ver a neve a rodopiar  sua volta.
        O percurso at ao hotel era curto, e ambos lamentaram ter chegado to depressa, mas era to tarde que at o bar j fechara. Passava das duas da manh. Allegra 
no quis convid-lo a subir para no lhe causar uma impresso errada. Despediu-se dele no trio.
        -  Gostei muito, Jeff -  disse, melanclica. Obrigada por esta noite maravilhosa.
        -  Tambm gostei muito. Pela primeira vez na vida, sinto que devo alguma coisa a Andreas Weissman. Soltaram uma gargalhada, e ele acompanhou-a ao elevador. 
Como vai ser o resto da sua semana? -  perguntou ele, esperanoso.
        Mas ela abanou a cabea, desapontada.
        -  Muito atarefado.
        Nos quatro dias seguintes tinha almoos e reunies. Precisava de trabalhar na tourne de Bram e voltar a ver Jason Haverton. Restavam-lhe as noites, mas 
tencionava fazer sero.
        -  E amanh  noite? -  sugeriu. Allegra hesitou. No devia aceitar.
        -  Tenho uma reunio numa firma de advogados em Wall Street at s cinco, e depois vou encontrar-me com um jurista. No creio que esteja livre antes das 
sete retorquiu, pesarosa.
Desejava voltar a v-lo, mas no sabia se o devia fazer, por causa de Brandon. Por outro lado, parecia-lhe que no havia razo para que no fossem amigos.
        -  Porque no lhe telefono? Vejo que est muito cansada. Talvez pudssemos comer alguma coisa aqui, ou dar um Passeio a p. Gostava mesmo de v-la -  insistiu, 
olhando-a com ar carinhoso.
        Allegra sentiu que ele estava sendo sincero; e estava pedindo, estava decidido, mas no a pressionava.
        -  No acha que seria confuso, Jeff? -  perguntou. No queria ser desagradvel para ningum, nem para ele, nem para Brandon, nem para si prpria.
        -  No tem de ser; vamos ver como as coisas correm - respondeu ele honestamente. Eu no a pressionarei, mas gostaria de v-la outra vez.
        -  Eu tambm. -   reconheceu ela. O elevador desceu e despediram-se.
        Telefono-lhe amanh s sete horas lembrou-lhe com um aceno, quando as portas se fecharam.
        J l em cima, Allegra s conseguia pensar em Jeff. Perguntou a si prpria se no fora infiel a Brandon pelo fato de haver estado com ele e de terem falado 
de certas coisas. Tambm no teria gostado que Brandon fosse jantar fora com outra mulher, mas parecia haver qualquer coisa predestinada naquela noite. Era como 
se estivesse escrito que o conheceria, como se precisasse dele na sua vida e estivessem condenados a ser amigos. Jeff compreendia to bem o que ela dizia tudo, na 
verdade e ela sabia o que ele estava pensando ainda antes de o dizer.
        Quando entrou no quarto, ainda se sentia culpada. Havia uma mensagem de Brandon debaixo da porta, que pareceu lembrar-lhe a vida real. Pensou em telefonar-lhe, 
mas hesitou, devido ao adiantado da hora, embora fossem apenas onze e quinze em So Francisco. Por fim, despiu o casaco, sentou-se e ligou. Ele atendeu no segundo 
toque. Estava trabalhando para o julgamento do dia seguinte e mostrou-se surpreendido por ela telefonar to tarde, mas parecia satisfeito por ouvi-la.
        -  Onde esteve esta noite? Mostrava-se mais curioso do que despeitado.
        -  Fui a casa do agente do Haverton e ficou muito tarde. Em Nova Iorque, estas coisas da literatura duram toda a noite.
        Era mentira, mas no lhe quis dizer que fora ao Elaine's nem falar-lhe de Jeff. Havia sido honesta para com ele e dissera-lhe que tinha uma relao sria. 
Isso  que era importante e nada mais devia a Brandon. No acontecera nada. No se sentia obrigada a falar-lhe de Jeff.
        -   Est se divertindo? -  perguntou ele no meio de um bocejo. H horas que estava trabalhando para o julgamento.
        -  Como vai seu trabalho?
        -  Muito devagar. Estamos comeando a agarrar o jri. Quem me dera que o tipo se limitasse a confessar, para que fssemos todos para casa!
        Desde o princpio que Brandon no gostara daquele caso.
        -  Quanto tempo calcula que isso dure se ele no o fizer?
        -  Duas semanas, no mximo. E j chega!
        Estavam a analisar uma vasta quantidade de material e Brandon contava com a colaborao de trs assistentes. Era um crime de colarinho branco na sua verso 
mais complicada.
        -  Voltarei para casa antes de terminar, pelo menos.
        -   provvel que tenha de trabalhar este fim-de-semana -  disse ele com naturalidade, mas Allegra j esperava esta resposta. Tambm precisava ir ao escritrio 
no sbado, para se inteirar do que se passara na sua ausncia, e talvez conseguisse convenc-lo a descontrair-se um pouco no domingo.
        -  No se preocupe. Estarei em casa na sexta-feira  noite.
        Allegra partia no vo das seis e chegaria por volta das dez, hora da Califrnia. Talvez aparecesse na casa dele para lhe fazer uma surpresa.
        -  Eu entro em contato com voc durante o fim-de-semana -  retorquiu ele com frieza.
        Allegra lembrou-se da conversa com Jeff  sada do Elaine's. Detestava que Brandon a pusesse  distncia.
        - Te telefono amanh  noite -  acrescentou, maquinalmente. Estar no hotel a essa hora?
        -  Por acaso, tenho um jantar de trabalho -  respondeu Allegra, mentindo pela segunda vez. Porque eu no te ligo quando voltar? No devo chegar tarde.
        No podia sair todas as noites at s duas da manh, caso contrrio no conseguiria trabalhar, e tinha a certeza que Jeff entenderia a situao. Essa noite 
fora uma exceo, um daqueles invulgares encontros da alma em que duas pessoas descobrem que tm mil e uma idias e sentimentos em comum, mas no podia ser assim 
todas as noites.
        -  No trabalhe de mais -  disse Brandon com pressa, e desligou, pretextando que tinha de voltar ao trabalho. Nem sequer disse que a amava ou que sentia 
a sua falta, no prometeu ir busc-la ao aeroporto nem ir a casa dela.
        A reao de Brandon trouxe de novo  superfcie a fragilidade da relao de ambos. Apesar disso, Allegra perseverava sempre, porque o amava. Do que estava 
 espera? Perguntou a si prpria. O que iria mudar, em sua opinio? Tal como afirmara Jeff, poderia ser obrigada a esperar muito, muito tempo. Talvez para sempre.
        Dirigiu-se lentamente para o quarto, pensando em Brandon e nos bons momentos que tinham passado juntos. Houvera muitos naqueles dois anos, e tentou esquecer 
as desiluses, como a dessa noite. Tambm tinham sido muitas, momentos em que ele no estivera presente, nem em corpo nem em esprito, em que no pronunciara as 
palavras que ela precisava ouvir ou no comparecera a acontecimentos que eram importantes para ela, como o Globo de Ouro. Allegra no sabia se pensava nisso nesse 
momento porque estava furiosa ou porque conhecera Jeff e desejava que as coisas dessem certo com ele e no com Brandon. Procuraria em Jeff tudo o que Brandon no 
era? Seria Jeff uma fantasia e a afinidade apenas fruto da sua imaginao? Allegra ficou ali, sem respostas, pensando em ambos e olhando l para fora.







































CAPITULO 6

        Na tera-feira, quando o despertador tocou, s oito horas, e Allegra se levantou, Nova Iorque estava coberta por um manto de neve. Park Avenue encontrava-se 
repleta de montculos brancos que mais pareciam nata batida, e j havia crianas a saltar, a escorregar e  atirando bolas de neve umas s outras no caminho para 
a escola. Visto de cima, o espetculo era divertido, e Allegra teve vontade de se juntar a elas.
        Passou o dia em reunies e telefonou a Carmen Connors para saber se estava tudo bem.
        A governanta sara, a secretria eletrnica permanecia ligada e Allegra admitiu que Carmen tivesse ido s compras ou no se encontrasse na cidade. Deixou-lhe 
uma mensagem, esperando que estivesse tudo correndo bem, e telefonou a Alice para saber se havia mensagens dela, mais ameaas ou outros problemas quaisquer.
        -  Ela nunca mais deu notcias desde que voc partiu. Por sinal, todos os clientes de Allegra tinham mantido o silncio. Mal O'Donovan deixara uma mensagem, 
mas partira de novo, e Alan pedia-lhe que lhe telefonasse quando regressasse  cidade. Alm disso, encontrava-se tudo em ordem.
        -  Como est Nova Iorque? -  perguntou Alice.
        -  Toda branca respondeu Allegra.
        -  No ser por muito tempo...
        Na manh seguinte, estaria toda negra e coberta de lama, mas entretanto proporcionava um belo espectculo.
        Allegra almoou com um advogado com o qual se correspondia h alguns anos, no World Trade Center, e passou o resto da tarde com os promotores de Bram e mais 
dois advogados. Em seguida regressou rpida ao hotel, onde se reuniu com outro advogado para discutir um acordo de licenciamento que envolvia Carmen. Algum pretendia 
lanar um perfume e usar o seu nome, mas Allegra no gostara da idia. O produto no era de alta qualidade e Carmen no tencionava ficar sentada em armazns vendendo 
perfumes. Quanto mais pensava nisso, menos lhe agradava. s seis e meia voltou para o quarto, extenuada devido  neve, durante o dia o trnsito fora um horror. Levara 
uma hora desde Wall Street at ao hotel e a perspectiva de se meter de novo naquela confuso para ir a qualquer lado era aterradora. Os txis buzinavam, os automveis 
derrapavam e os pees avanavam penosamente atravs da neve e da lama. Recomeara a nevar. Central Park devia estar bonito, mas as ruas de Nova Iorque eram um pesadelo.
        Allegra leu as mensagens e tomou apontamentos. Carmen no respondera ao seu telefonema, mas Alice contatara a polcia e o FBI e no havia notcia de mais 
ameaas nem de outros problemas; estava tudo sob controle. Tinha uma mensagem de Bram, que queria saber a sua opinio acerca dos promotores, e vrios faxes do escritrio, 
mas nada de importante. O telefone tocou quando estava verificando as mensagens e Allegra atendeu-o inadvertidamente.
        -  Steinberg -  disse, distrada. S depois percebeu que se enganara, mas a resposta do outro lado da linha foi instantnea.
        -  Hamilton. Como foi o seu dia? Parece atarefada...
        -  Muito. Passei-o quase todo lutando contra o trnsito.
        -  Ainda est trabalhando?
        Jeff no queria incomod-la, mas gostava de ouvir a sua voz, mesmo que ela estivesse ocupada. Esperara o dia inteiro por aquele momento.
        Allegra sorriu ao escut-lo. Hamilton tinha uma voz profunda, agradvel e tremendamente sensual.
        -  No, estava dando uma vista de olhos pelas mensagens e pelos faxes. Parece que est tudo calmo. Como passou o seu dia?
        -  Muito bem. O Weissman fez um bom trabalho negociando o novo contrato.
        -  Para o filme ou para o livro? Estou confusa, voc tem muitos projetos.
        -  Olha quem fala! -  exclamou Jeff, rindo. O do terceiro livro. Vou deix-la negociar o filme. Por acaso, falei-lhe no assunto, e ele achou que era uma 
tima idia. Disse-me que nunca fez tal sugesto porque pensava que eu estava prestes a sair da esfera do cinema, que odiava o meio, e no se enganava, mas parece 
que estou disposto a tentar de novo, pelo menos mais uma vez. Assegurou que voc  uma advogada estupenda, mas eu no tenciono incomod-la, a menos que seja obrigado 
a isso. Ele avisou-me que anda sempre atarefadssima e tem vrios clientes muito importantes. Riram ambos da advertncia de Andreas.
        -  Estou impressionada -  replicou ela, divertida com o que Weissman dissera dos seus clientes.
        -  Eu tambm, Miss Steinberg. E quanto ao jantar? Ainda tem foras para comer, depois de todos esses acordos importantes?
        -  No fiz um nico acordo importante, hoje. Passei a tarde falando com advogados e com agentes musicais, e h pouco recusei um perfume com o nome de Carmen.
        -  Pelo menos  divertido. Como eram os tipos da msica? Bastante fracos, no?
        -  Talvez, mas eram espertos. Gostei deles. Planejaram uma tourne incrvel para o Bram. Se ele estiver em forma, acho que devia aproveitar.
        Jeff gostava de ouvi-la falar do que fazia, de escutar a sua voz, de saber as suas idias e os seus interesses. Passara o dia inteiro pensando nela ou antes, 
no conseguira deixar de pensar nela e agradava-lhe tudo o que lhe dizia respeito. Era uma loucura. Mal a conhecia e, de repente, no conseguia tir-la da cabea. 
No entanto, Allegra tambm foi obrigada a admitir que, durante as reunies dessa tarde, a imagem de Jeff lhe viera frequentemente a mente, e s vezes distrara-se.
        -  O senhor afeta a minha vida profissional, Mister Hamilton. Esta gente de Nova Iorque vai julgar que eu sou uma toxicodependente da Costa Oeste! Esqueo-me 
constantemente do que dizem e estou sempre a pensar na nossa conversa, ontem  noite. Isto no  maneira de trabalhar.
        -  Pois no, mas sabe bem, no sabe? -  retorquiu ele. Sorriram ambos. Jeff teve vontade de lhe perguntar se tivera notcias de Brandon, mas no o fez, limitou-se 
a indagar se trouxera agasalho, umas calas, um gorro de l e luvas.
        -  Por qu? -  Allegra no conseguia adivinhar qual o  motivo da pergunta, a menos que no quisesse que ela apanhasse frio, mas Jeff parecia ter qualquer 
outra coisa em mente. Passara a tarde inteira pensando nisso e esperava que ela tivesse trazido a roupa adequada. 
        -  Tenho umas calas de l, que vesti hoje, e um gorro, mas  muito feio.
        -  E no trouxe luvas? -  perguntou ele, solcito.
        -  H vinte anos que no uso luvas.
        - Na verdade esquecera-se de traz-las e passara o dia com as mos enregeladas, devido s entradas e sadas constantes.
        -  Eu levo-lhe umas da minha me. Agrada-lhe qualquer coisa um pouco invulgar, ou prefere um programa fantasioso?
        Jeff partira do princpio de que ela queria jantar com ele, e no se enganava. Allegra levara o dia inteiro pensando nisso e convencendo-se de que no havia 
mal nenhum, apesar da sua relao com Brandon.
        -  No  preciso fazermos nada de especial -  respondeu, tranqila. J tinha muitas ocasies especiais na sua vida, nomeadamente quando saa com os clientes, 
ia a cerimnias de entrega de prmios ou a jantares em Hollywood. Gostava de noites simples. O que tem em mente? -  acrescentou, simultaneamente entusiasmada e desconfiada.
        -  Vai ver... Vista roupa quente, calas e botas e o seu gorro feio. Encontramo-nos no trio do hotel daqui a meia hora.
        -  O que ser? No terei motivos para me preocupar? No ir levar-me para Connecticut ou Vermont, ou para qualquer lugar ainda pior?
        Allegra parecia uma menina prestes a dar uma escapadela.
        -  No, mas por sinal bem gostaria de lev-la para qualquer lado. No pensei nessa opo... Jeff riu, fascinado com a sugesto.
        -  E fez bem. Amanh tenho que ir trabalhar.
        -  Eu sei. No se preocupe, que no  nada que meta medo, apenas um divertimento  moda de Nova Iorque. At daqui a meia hora.
        Jeff desligou. Allegra acabou de ler as mensagens e pensou em telefonar a Brandon, mas duvidava que ele j se encontrasse em casa ou que tivesse voltado 
para o escritrio.
        Eram apenas quatro e meia na Califrnia. De sbito sentiu-se mal, ao pensar que o fato de lhe telefonar era uma obrigao, como tomar um medicamento, por 
exemplo. Era estranho sentir-se assim de repente, mas a verdade  que nutria certo sentimento de culpa por causa de Jeff, embora no tivessem feito nada reprovvel 
at ento e estivesse certa de que no o fariam.
        Encontrava-se no trio  hora certa, de calas, casaco de frio e o velho gorro vermelho de esqui na cabea. Atravs da porta giratria, viu que ainda estava 
nevando. As pessoas entravam e batiam com os ps no cho, para afastar a neve, e sacudiam o cabelo e os gorros, rindo umas para as outras, com flocos brancos nas 
plpebras. Era divertido observ-las. De sbito, ao olhar l para fora, avistou uma carruagem fechada, como uma antiga sege inglesa. Tinha janelas e teto e parecia 
muito confortvel. Parou em frente do hotel e o cocheiro saltou para o passeio. O porteiro ajudou-o a segurar os cavalos e algum saiu, entrando apressado no hotel. 
Quando chegou  porta giratria, Allegra viu que era Jeff, com um gorro de esqui parecido com o seu e uma parka bem quente.
        -  A sua carruagem aguarda-a         - disse radiante, com um brilho nos olhos, corado do frio. Enfiou a mo dela no seu brao e entregou-lhe um par de luvas 
brancas de angor. Calce-as, que est um gelo l fora.
        -  Voc  incrvel! -  exclamou, espantada. Jeff alugara a carruagem para ela. Ajudou-a a entrar, fechou a porta e em seguida cobriu-a com uma manta de pele. 
O cocheiro j recebera as devidas instrues. No posso acreditar!
        Allegra olhava para ele, deslumbrada e muito comovida. Parecia uma garota que tivesse sado pela primeira vez com um rapaz. Sentou-se ao seu lado, aconchegou-se 
no interior da manta e Jeff pousou o brao nos seus ombros.
        -  Aceitei a sua sugesto: vamos a Vermont. Voltaremos na prxima tera-feira. Espero que isto no altere nenhum dos seus compromissos -  disse ele, deliciado.
        -  De modo algum.
        Sentada ao seu lado, Allegra sentia que poderia fazer tudo o que Jeff quisesse.
        -  Dirigiram-se lentamente para o parque e ele ajudou-a a calar as luvas brancas de angor. Eram confortveis e quentes e as mos da me de Jeff eram mais 
ou menos do tamanho das suas. Allegra fitou-o e os olhos de ambos encontraram-se. Ele era um belo homem e estragava-a com mimos
        -  Isto  maravilhoso, Jeff. Obrigada.
        -  No seja boba -  retorquiu, atrapalhado. Pensei que devamos fazer qualquer coisa especial, j que estava nevando.
        A carruagem aumentou ainda mais a confuso no trnsito j to estrangulado. Por fim chegaram a Central Park South e em seguida dirigiram-se para norte, at 
alcanarem o rinque de patinagem de Wollman. A carruagem parou e Allegra olhou para a escurido l fora.
        -  Onde nos encontramos? -  perguntou, um pouco nervosa.
        Estava tanto frio e vento que nem os ladres teriam se atrevido a sair. De sbito a porta abriu-se e o cocheiro ajudou-os a descer. Jeff olhou para ela, 
sempre deliciado.
        -  Sabe patinar?
        -  Mais ou menos. No patino desde os meus tempos de Yale e no sou nenhuma Peggy Fleming.
        -  Quer tentar?
        Ela riu da idia, que lhe pareceu divertida. No conseguiu resistir e fez um sinal afirmativo.
        -  Adoraria.
        Correram para o rinque, de brao dado, e a carruagem ficou  espera. Jeff alugara-a at  meia-noite. Alugara tambm patins para ambos, e ajudou Allegra 
a apertar os seus. Em seguida deu-lhe a mo, mas ela conseguiu levantar-se bastante depressa. Jeff pertencera  equipa de hquei de Harvard e era um excelente patinador. 
Deu uma volta rpida ao rinque, s para aquecer, e depois voltou para junto dela. Allegra patinava razoavelmente. Continuava  nevando e no se via mais ningum  
volta. Comeram cachorros-quentes, para ganhar foras, e beberam trs copos de chocolate fumegante. Allegra estava divertindo-se muito, e ambos riam e brincavam como 
dois velhos amigos. Para ela, era como se estivesse com Alan, ou talvez um pouco melhor.
        -  No me lembro de me ter divertido tanto -  declarou, quando se sentaram para descansar, porque os tornozelos estavam doloridos.
        -  De vez em quando, vou patinar em Los Angeles, mas os rinques da Califrnia so muito fracos. No ano passado experimentei em Tahoe, mas o rinque  bastante 
pequeno.
        -  Definitivamente, no  um esporte do Oeste.  pena. Eu gosto de patinar.
        -  Eu tambm. Allegra olhou para ele com uma expresso feliz. Jeff era aquilo a que Sam teria chamado uma 'brasa'; era alto, viril e atltico, e parecia 
estar sempre rindo. J nem me lembrava como  divertido -  assegurou, radiante, agradecendo-lhe outra vez.
        -  Pouco depois, ele foi comprar-lhe um pretzel e um chocolate quente. No estava tanto frio, o vento abrandara, mas continuava nevando intensamente.
        - Amanh a cidade estar intransitvel, se isto continuar. Talvez os nossos compromissos sejam cancelados -  disse ele, animado, e Allegra riu-se, antevendo 
a situao. Ia encontrar-se com Haverton outra vez e falou no escritor a Jeff
        -  Gosto mesmo dele. Deve ter sido um terror na juventude, mas  um homem simptico, interessante e culto, e arguto como sempre. Allegra admirava-o e gostara 
de conhec-lo.  curioso... Tudo parece ser muito mais civilizado aqui do que na Califrnia. Existe mesmo um meio literrio, cheio de senhoras e de cavalheiros, 
e com gente erudita, que se comporta como deve ser e respeita as tradies. L so todos muito menos requintados. s vezes, esqueo isso, mas volto para c e lembro-me 
novamente. Na Califrnia, um homem como Jason Haverton no poderia existir. Seria atacado pelos jornais, receberia ameaas de morte e os tablides insinuariam que 
tinha um caso com a enfermeira geritrica.
        -  Quem sabe, Allegra? Sendo ele um velho, talvez isso desse algum sal  sua vida. Talvez gostasse.
        -  Estou falando srio -  disse ela. Tinham recomeado a Patinar, e ele agarrava-a com fora, com o pretexto de impedi-la de cair. Allegra no objetou, a 
situao agradava-lhe.  um mundo diferente, Jeff.
        -  Eu sei -  concordou ele, falando num tom mais grave. Para alguns dos seus clientes, deve ser difcil ter uma vida to exposta, to cheia de medos, de 
ameaas de morte e do assdio constante a si prprios e s famlias.
        -  Um dia isso tambm vai acontecer-lhe. Sucede a todos aqueles que fazem algum dinheiro e que so clebres.  um processo quase automtico. Uma pessoa ganha 
uns dlares, torna-se famosa e algum quer mat-la.  como no Oeste selvagem: pum, pum, e acaba tudo. E os tablides tambm no so muito divertidos. Inventam qualquer 
mentira para aumentar as vendas e no se importam de magoar seja quem for.
        -  Voc deve estar sempre a lidar com essa escria, dado os clientes que tem. Consegue fazer alguma coisa para proteg-los?
        -  Muito pouco. Aprendi com os meus pais a ser discreta, a levar uma vida honesta e a ignorar essas coisas, mas eles perseguem-nos, de qualquer maneira. 
Costumavam tentar tirar-nos fotografias quando ramos pequenos, mas o meu pai parecia um leo enjaulado, nunca  deixava, e, quando era obrigado a isso, recorria 
a medidas restritivas para nos proteger. Mas agora as coisas esto muito mais soltas,  preciso haver duas tentativas de assassinato para conseguir proteo Pouco 
antes de vir, tomei um grande susto com a Carmen, mas hoje falei com a polcia e com o FBI, e parece que a situao acalmou. Isso a aterroriza, pobrezinha. s vezes, 
telefona-me s quatro da manh s porque ouviu um barulho e ficou apavorada.
        -  Voc deve dormir bastante... -  gracejou ele.
        Allegra riu. No lhe disse que Brandon detestava aqueles telefonemas nem que protestava constantemente devido s intromisses dos seus clientes. No lhe 
parecia correto queixar-se dele a Jeff, e tambm no lhe queria criar falsas esperanas, mostrando-se infeliz por causa de Brandon. Ainda estavam muito unidos Alm 
disso, na semana seguinte Jeff regressaria a Los Angeles, e no haveria mais noites como aquela. Quanto muito, talvez almoassem juntos uma vez por outra. Podia 
at apresent-lo a Alan, ou mesmo aos pais. Sabia que Blaire iria ador-lo, e Simon j o conhecia. Pareceu-lhe estranho pensar nisso, era como se o levasse a casa 
dos pais para estes lhe darem a sua aprovao. 
        -  Em que est pensando? -  perguntou Jeff, fitando-a.
        Allegra tinha uns olhos expressivos e franzira o sobrolho. Hesitou antes de responder.
        -  Estava pensando que gostaria de o apresentar  minha famlia, e isso pareceu-me estranho, portanto procurava justificar a situao a mim prpria.
        -  E tem de faz-lo, Allegra? -  perguntou ele ternamente.
        -  No sei. Terei?
        Ele no respondeu. Estavam no limite do rinque de patinagem, encostados no corrimo. Jeff olhou para ela, com a neve caindo sobre ambos, aproximou-se mais 
e beijou-a. Allegra ficou to admirada que nem reagiu: ficou encostada a ele, para no cair, e depois retribuiu o beijo, deixando que o seu corpo se colasse ao dela. 
Quando pararam, estavam ambos sem flego.
        -  Oh... Jeff -  disse, baixinho, atordoada com o que tinham feito. Sentia-se de novo uma menina e, ao mesmo tempo, uma mulher.
        -  Allegra... -  Jeff murmurou o seu nome e abraou-a de novo. Ela no ofereceu resistncia.
        Por fim separaram-se e recomearam a patinar. Durante alguns minutos, nenhum disse uma palavra.
        -  No sei se devo pedir desculpa por isto, mas no me agrada -  disse ele muito srio, olhando para Allegra enquanto patinava.
        -  No tem de faz-lo. Eu tambm o beijei -  respondeu ela tranquilamente.
        Ento Jeff olhou-a bem de frente.
        -  Sente-se culpada em relao ao Brandon?
        Queria saber o que ela sentia. Estava apaixonando-se por Allegra, estava completamente enamorado dela, das suas idias, dos seus princpios e dos seus sonhos, 
para no falar da sua beleza. Agradava-lhe estar com ela, abra-la, beij-la e fazer amor com ela, e Brandon que fosse para o inferno!
        -  No sei. -  respondeu a jovem o mais sinceramente possvel. No sei ao certo o que sinto. Por um lado, acho que deveria sentir-me culpada. Quero casar 
com ele. H dois anos. Mas o Brandon  to rgido, Jeff! Recusa-se a dar mais do que quer, e tudo o que faz  calculado, limitado e restrito.
        -  Porque  que pretende casar com uma pessoa assim; pelo amor de Deus? -  perguntou Jeff, irritado, parando de novo. A sesso estava quase terminando e 
as poucas pessoas que ainda se encontravam no rinque comeavam a se retirar.
        -  No sei. -  respondeu ela, lamurienta, cansada de explicar a mesma coisa a toda as pessoas e tentando justificar-se, at a si prpria. Talvez porque tenho 
estado ao lado dele h tanto tempo, ou porque penso que ele necessita de mim. Creio que seria boa para ele. O Brandon precisa aprender a dar, a soltar-se, a no 
ter tanto medo de amar e de se comprometer...
        Os olhos de Allegra encheram-se de lgrimas quando se virou para Jeff. Tudo parecia to estpido em comparao com a generosidade dele!
        -  E se o Brandon no aprender, o que lhe resta. Que tipo de casamento ser o seu? Possivelmente semelhante ao que ele teve com a ex-mulher, pssimo. Talvez 
fique sempre ressentido consigo por t-lo obrigado a dar qualquer coisa que no est na sua natureza. Parece que foi isso mesmo que o aborreceu no primeiro casamento, 
e, no entanto, ainda nem sequer se divorciou. Quanto tempo ir durar essa situao? Mais dois anos? Cinco? Dez? Porque faz isto a si prpria?  como se estivesse 
a castigar-se. Voc merece muito mais, no acha?
        Era o que a me lhe costumava dizer, mas a voz de Jeff era mais clara.
        -  E se voc for como ele. -  retorquiu, tristemente, verbalizando o seu pior receio, o seu maior terror. No fim, todos eram como Brandon, mas era assim 
que ela os escolhia.
        -  Acha-me parecido com ele neste momento? -  perguntou Jeff.
        Allegra riu atravs das lgrimas e respondeu
        -  No, voc me faz lembrar o meu pai, Simon Steinberg.
        -  Tomo essas palavras como um cumprimento -  afirmou Jeff sinceramente
        -  E so,  srio. Voc me faz lembrar um pouco o meu irmo, e tambm o Alan -  acrescentou, com um sorriso triste, pensando em todos os homens bons da sua 
vida e no naqueles que eram prisioneiros da sua incapacidade de ddiva, como Brandon e outros antes dele.
        -  J alguma vez tentou falar com algum acerca disto? -  perguntou Jeff com ingenuidade.
        Ela riu.
        -  Ah, sim, o grande entendido da psicoterapia! E durante quanto tempo  que se suporta tal coisa? Fao terapia h quatro anos. Vejo a minha psicloga s 
teras-feiras -  respondeu Allegra com naturalidade.
        -  E o que diz ela?... Ou prefere no falar nisso? -  continuou, hesitante.
        Ficava confuso que se mantivesse ligada a uma pessoa que lhe dava to pouco. At ela prpria parecia ter conscincia disso, embora tivesse reparado que o 
defendia muito, e parecia habituada a faz-lo. Com certeza que outras pessoas lhe teriam j dito o mesmo.
        -  No, no tenho problema em falar nisso -  respondeu Allegra abertamente, dando mais uma volta ao rinque ao lado de Jeff. Ela diz que  um velho problema, 
e . Escolho homens que no so capazes de me amar, nem a mim nem a outra pessoa qualquer, mas creio que o Brandon  melhor do que os anteriores. Pelo menos, tenta.
        Jeff no sabia como os outros tinham sido, mas no ficou impressionado com o que ouviu acerca de Brandon.
        -  Como  que sabe? O que faz ele por si? -  perguntou, quase envergonhado.
        -  Brandon ama-me -  respondeu ela com obstinao. Pode ser tenso e retrado, mas, apesar disso, creio que me ajudaria, se eu precisasse dele.
        Allegra sempre se convencera disso, mas Brandon nunca tivera oportunidade de o provar.
        -  Tem a certeza? -  insistiu Jeff, contundente. Pense nisso. Quando  que ele a ajudou? Eu mal a conheo, mas comeo a estar convencido de que ele a vai 
deixar ficar mal um destes dias. Nem sequer consegue divorciar-se da ex-mulher! De que est ele  espera?
        Porm, Allegra ficou to triste com a pergunta que Jeff resolveu mudar de assunto.
        -  Desculpe, talvez eu esteja com cimes. No tenho o direito de dizer estas coisas, mas a situao parece-me to injusta!  difcil encontrar algum por 
quem me interesse, e de repente surge voc, com o Brandon a seu lado, como uma srie de latas vazias atadas ao rabo de um gato. Acho que gostaria de me ver livre 
dele e simplificar a situao.
        Allegra riu da analogia e compreendeu as implicaes.
        -  Eu percebo.
        Jeff tocara-lhe num ponto sensvel, mas no o admitiria perante ele. H dois anos que andava com Brandon e no ia acabar a relao por ele no a ter acompanhado 
 cerimnia do Globo de Ouro, por no lhe ter dito ao telefone que a amava, porque gostava de voltar para casa depois de fazer amor com ela nem porque conhecera 
um escritor belo e atraente em Nova Iorque. No estava disposta a atirar a vida pela janela fora s porque algum a levara para patinar. Jeff desarmara-a, e ela 
tinha conscincia disso, mas esse fato nada tinha a ver com Brandon.
        Continuaram a patinar, de brao dado, at ao fim da sesso, e em seguida devolveram os patins. Allegra no disse uma palavra at voltarem para a carruagem. 
Jeff lamentou ter se excedido e convidou-a para ir at a casa da me para tomar qualquer coisa, mas Allegra considerou que era mais acertado regressar ao hotel. 
J era tarde e tinha de se levantar cedo no dia seguinte.
        -  Prometo que me porto bem. Eu no devia ter dito aquelas coisas a respeito dele, Allegra. Desculpe.
        -  Sinto-me lisonjeada -  replicou Allegra, sorrindo, e muito gostaria que me renovassem o convite, mas amanh tenho de me levantar cedo.
        Dizendo isto, reclinou-se no banco, nos braos dele, e Jeff imaginou como seria bom acordar a seu lado na manh seguinte, porm no disse nada e limitou-se 
a ouvir o rudo dos cascos dos cavalos no pavimento e a ver a neve pela janela.
        -   bonito, no ? -  perguntou, ternamente. Allegra fez um sinal afirmativo e sorriu.
        -  Adorei ir patinar. Obrigada, Jeff.
        O jantar fora mais do que criativo. Allegra apreciara todos os momentos passados com ele, mesmo quando fizera afirmaes contundentes acerca de Brandon, 
e, por muito que isso a irritasse, compreendia perfeitamente as motivaes de Jeff. Brandon continuava a ser merecedor de crtica, mas no era nele que Allegra pensava 
nesse momento, e sim em Jeff, enquanto a carruagem atravessava o parque em direo ao Plaza.
        -  Voc patina bastante bem -  disse ele em tom de elogio, mas beija ainda melhor.
        Allegra reagiu com uma risadinha.
        -  Tambm voc, e tem esprito desportivo. Recomearam a conversar e, quando saram do parque, riam e falavam  vontade um com o outro. Assim que chegaram 
 porta do hotel, o cocheiro ajudou-os a descer; Jeff pagou-lhe e a carruagem afastou-se.
        -  Sinto-me uma espcie de Cinderela -  disse ela, observando os cavalos que desciam Park Avenue, coberta de neve, e devolvendo-lhe as luvas.
        -  E agora? Transformamo-nos em abboras? -  perguntou ele, divertido e mais feliz do que nunca. Allegra era formidvel.
        -  Foi to divertido... Adorei!
        A situao fora perfeita, com a neve e a patinagem. Allegra olhou para ele e pensou em beij-lo, roda pelo desejo. Jeff entrou a seu lado e esperou que 
o elevador descesse. Ficou admirada ao ver que ele entrara tambm, mas no disse nada. Subiram os dois lado a lado, em silncio, at ao dcimo quarto andar. Jeff 
seguiu-a at  porta do quarto e esperou que ela tirasse a chave do bolso. Allegra no o convidou a entrar e ficou ali olhando para ele, com um ar melanclico. Gostaria 
que a situao fosse diferente, que Brandon no existisse na sua vida h dois anos, mas era impossvel neg-lo, e no estava em causa trocar uma relao por uma 
noite romntica na neve com um desconhecido.
        -  Deixo-a aqui -  disse Jeff, to perturbado como ela. No queria sair magoado, mas tambm no queria separar-se dela nem acreditar que desejava ou que 
tinha ou no tinha com Brandon.
        -  Ia desejar-lhe boa-noite, sem tencionar pression-la mais, quando ela deu um passo na sua direo, e Jeff no conseguiu conter-se. Puxou-a para si e beijou-a, 
apertando-a tanto que ela quase nem conseguia respirar. Mas Allegra gostou. Sentiu-se segura, protegida e desejada, embora soubesse que, se passasse a noite com 
ele, Jeff s quereria sair de manh.
        Beijou-o de novo, to cheia de desejo como ele; depois se afastou e abanou a cabea tristemente.
        -  No posso fazer isto, Jeff -  murmurou, com os olhos marejados de lgrimas.
        Jeff fez um sinal afirmativo.
        -  Eu sei. Nem eu queria tal coisa neste momento. Voc passaria a odiar-me. Porque no nos deixamos ficar assim por enquanto, como num romance  antiga, 
com uns abraos e uns beijos, sem mais nada, ou talvez apenas como amigos, se  isso que deseja? Eu farei o que voc quiser -  disse ele com ternura. No me vou 
embora. No se sinta pressionada.
        -  Nem sei o que sinto -  respondeu ela com sinceridade. Estou to confusa... Olhou para ele com uma expresso verdadeiramente atormentada. Eu desejo-o... 
Tambm desejo o Brandon... Quero que ele seja o que nunca foi, mas acho que ele podia... E porque me aflijo? Porque fao isto? No percebo o que estou aqui a fazer. 
Acho que estou apaixonando-me por voc. Isto  real? Ou apenas um devaneio nova-iorquino? No sei o que est acontecendo... -  disse ela, tropeando nas suas prprias 
palavras.
        Jeff sorriu, enlevado, e beijou-a outra vez.
        Allegra no o afastou. Adorava beij-lo, aninhar-se nos seus braos, estar junto dele, sentada numa carruagem, patinando...
        -  O que acontecer quando voltarmos? -  perguntou. Estavam encostados  parede do lado de fora do quarto.
        No se atrevia a lev-lo para dentro, porque no sabia se no acabariam na cama ao fim de cinco minutos, e isso no seria justo para ningum, apesar de tentador. 
Conseguiria Jeff acompanh-la, fosse qual fosse a vida dela? Era uma pergunta interessante.
        - Isto  tudo muito romntico, mas o que aconteceria quando eu tivesse de ir ao mercado comprar comida, quando a Carmen me telefonasse s quatro da manh 
porque um co derrubou um lato do lixo ou o Mal O'Donovan fosse preso por embriaguez e distrbios em Reno e eu tivesse de me levantar da cama e ir ao encontro dele 
para  pagar sua fiana?
        - Eu iria com voc. Nem mais nem menos. No considero nada disso assim to chocante nem impositivo. At seria divertido para mim. Daria-me excelentes idias 
para algumas das minhas aventuras na fico comercial.
        - No brinque. Isso equivale a ter meia dzia de filhos adolescentes e rebeldes.
        - Acho que conseguiria sobreviver. Pareo-lhe assim to frgil? Sempre fui muito flexvel. Alis, seria um bom treino para quando tivssemos filhos, que 
fazem tudo isso, ou talvez no, se os educarmos bem.
        - O que  que est dizendo?
        Allegra parecia totalmente confusa e um pouco infeliz, mas tinha de reconhecer que era uma infelicidade agradvel.
        - Que quero estar com voc, que quero acompanh-la, e ver o que acontece. Comigo passa-se o mesmo: estou apaixonando-me e no sei por que, mas tambm no 
quero perder nem devolver tudo a um tipo que, em minha opinio, no a aprecia nem a merece. Afastou com os dedos uma madeixa do cabelo sedoso de Allegra e fitou 
os olhos que conhecia apenas h dois dias, mas que j confiavam tanto nele. O que eu no quero  faz-la infeliz, nem afast-la. Deixemos estar tudo assim, por enquanto; 
as coisas acabaro por se resolver. Veremos o que acontece quando regressarmos a Los Angeles - disse Jeff, mostrando-se razovel.
        Aterrada, Allegra olhou para ele.
        - E se eu concluir que no poderemos voltar a ver-nos? - perguntou.
        No seria soluo continuarem a se ver e a beijar-se de vez em quando; Brandon decerto no iria gostar.
        - Espero que no tome essa deciso - respondeu ele, sem perder a calma.
        - No sei o que fazer... - disse ela, sentindo-se como uma criana. 
        Jeff sorriu, tirou-lhe a chave da mo e abriu a porta
        - Tenho algumas idias, mas no creio que nenhuma delas seja apropriada, dadas as circunstncias. Beijou-a de novo, provocando-lhe um estremecimento interior, 
e estendeu-lhe a chave, sem sair do corredor. E amanh?
        - Tenho uma reunio com o Haverton e com os promotores e mais duas nos arredores. Depois lembrou-se que combinara jantar com um advogado que no tinha hiptese 
de se encontrar com ela de outra maneira. Seria um dia longo e no disporia de muito tempo para v-lo. Acho que no estarei livre antes das nove, ou talvez mais 
tarde.
        - Telefono a essa hora.
        Jeff inclinou-se, beijou-a e desceu.
        Allegra sentiu-se em paz ao fechar a porta do quarto. Pensou em telefonar a Brandon, mas sentiu que no era capaz. Seria muito desonesto ligar e fingir que 
ficara sentada no quarto pensando nele. Sabia que tinha de deixar de ver Jeff, ou pelo menos parar de beij-lo, mas a sensao de desistir de tudo era demasiado 
penosa. Talvez conseguisse encarar a situao como um interldio sem importncia, com alguns beijos, e depois tudo voltaria  normalidade, quando ambos regressassem 
 Califrnia. Passou-se uma hora, e continuava a pensar no mesmo, quando Jeff telefonou. Deu um salto ao ouvir o toque e pensou em no atender: tinha a certeza de 
que era Brandon. Ele no ligara nesse dia e no havia mensagens de casa. Por fim resolveu atender, mas ao faz-lo sentiu-se imediatamente culpada.
        -Al?
        Parecia uma criminosa ao pegar no telefone, e Jeff deu uma gargalhada do outro lado.
        - Cus! Nem tente sequer jogar pquer. Est com uma voz horrvel,
        -  assim que eu me sinto, Jeff, profundamente culpada.
        Foi o que me pareceu. Oua, voc no fez nada de mal, os danos podem ser reparados. No traiu a confiana dele e, se se sentir melhor assim, podemos fazer 
um intervalo. Era uma proposta sensata, mas custava-lhe muito fazer tal sacrifcio. Jeff por seu lado, gostaria de v-la tantas vezes quantas ela quisesse.
        - Acho que devemos fazer uma pausa - respondeu, desolada. Eu no agento isto!
        - Voc  uma mulher honesta.  uma pena... - gracejou ele, sem querer entristec-la. Porm, era terrvel pensar que no voltariam a encontrar-se.
        - Amanh  noite no posso te ver - disse ela, recuperando a firmeza.
        Jeff sentiu um aperto no corao.
        - Compreendo. Telefone, se mudar de idia. Allegra tinha todos os nmeros dele. 
        - Sente-se bem?
        Mal a conhecia, mas preocupava-se com ela.
        - Sim, s preciso recuperar o meu equilbrio. Os dois ltimos dias foram uma loucura total!
        - E muito agradveis - acrescentou ele, recordando a boca dela e com receio de no voltar a beij-la. Telefonara para dar boa-noite, mas acabara por proporcionar 
a oportunidade de fugir, o que contrariava o seu intento.
        - Os dois ltimos dias foram maravilhosos - disse ela, pensando na patinagem, na carruagem e nos beijos que haviam trocado sob a neve. Ele virara a sua vida 
do avesso, e agora ela tinha de se concentrar na realidade e voltar para Brandon. Eu telefono acrescentou, com a voz entrecortada, pensando em Jeff e no em Brandon. 
Boa noite, Jeff.
        - Boa noite.
        Jeff no chegou a explicar porque ligara. Telefonara apenas para dizer que a amava.

CAPTULO 7

        O dia de quarta-feira pareceu-lhe interminvel. Tinha vrios compromissos, tanto no centro da cidade como nos arredores, um almoo tardio e por fim um jantar 
de ltima hora com um especialista em direito fiscal que trabalhava para um dos seus clientes. Foi um dia longo. Ao sair do restaurante, em Park Avenue, para apanhar 
ar, pensou em Jeff pela milsima vez desde manh.
        Mantivera-se firme, o que quase lhe custara a vida, mas no telefonara para ele. No podia faz-lo; os sentimentos de ambos estavam muito frescos, mas eram 
demasiado intensos. Era muito perigoso brincar com o fogo.
        No caminho para o hotel olhou casualmente para uma livraria e viu-o. Da contracapa de um livro, Jeff observava-a atravs da vitrine. Allegra parou e fitou 
aqueles olhos que lhe diziam tanto. Contrafeita, entrou no estabelecimento e comprou um exemplar.
        J no quarto, pousou o livro na mesa a seu lado e ficou olhando para a fotografia. Por fim, guardou-o na pasta. No havia mensagens, nem dele nem de mais 
ningum. Tinha chegado um monte de faxes e, nessa manh, as ligaes telefnicas com Bram Morrison e Malachi O'Donovan haviam sido longas. Carmen deixara uma mensagem 
codificada a Alice, dizendo que estava bem, e tudo o resto parecia correr dentro da normalidade, s Bram  que tinha um problema, algum fizera uma estranha ameaa 
a um dos seus filhos. Chegara pelo telefone, e a governanta espanhola mal percebera o que o homem dissera, mas o tom no era dos melhores. O prprio Bram ligara 
 polcia e contratara guarda-costas para proteger os dois filhos. Tal como Allegra explicara a Jeff, os problemas eram inmeros, ameaas, decises a tomar, tournes, 
licenas, explorao de todo o gnero e os interminveis contratos.
        Mas nessa noite Allegra no encontrou consolo no trabalho; s conseguia pensar em Jeff. Por fim, s dez horas, ele telefonou.
        - Como foi o seu dia de trabalho?
        Tentou no se mostrar demasiado insistente, mas estava muito nervoso e com as palmas das mos midas da transpirao. S o fato de ouvir a voz dela e de 
no poder v-la fazia-o sentir-se infeliz.
        - No foi mau.
        Allegra falou-lhe de Bram, da tourne e da ameaa e Jeff ficou impressionado com o perigo que corriam os filhos do ator.
        - Essas pessoas esto doentes, deviam ir para a cadeia! E como foi o resto do dia?
        Allegra deu um olhar desolado  pasta, que estava do outro lado do quarto.
        - Comprei o seu livro.
        - Srio? - Jeff parecia satisfeito. Agradava-lhe saber que ela pensara nele. O que TE levou a compr-lo?
        - Queria ter o seu retrato.
        Allegra parecia uma menina. Jeff riu e teve vontade de abra-la.
        - Eu podia passar por a e mostrar-lhe o original... - sugeriu, animado.
        Foi a vez de ela dar uma gargalhada.
        - Acho que no devemos.
        - Como est o Brandon? - perguntou ele, por fim, depois de uma pausa. Detestava at ouvir o seu nome, mas queria saber se ela lhe telefonara.
        - Liguei agora a pouco. Ele tinha sado. Deve andar atarefado com o julgamento.
        - E ns, Allegra? - perguntou Jeff em voz baixa. No conseguira concentrar-se, pensar ou fazer o que quer que fosse nessa manh.
        - Acho que vamos continuar como estamos at aprendermos a controlar-nos-  respondeu ela.
        - Vou te comprar uma pistola de alarme para voc disparar sempre que eu me aproximar. Garanto que no teria descanso!
        -  Sou to m como voc  -  disse ela, ainda com remorsos.
        - No seja to implacvel para consigo mesma, pelo amor de Deus! Voc fez tudo o que estava certo: impediu-me de avanar, mandou-me embora, disse que no 
voltaria a ver-me.
- Jeff enumerou-lhe as virtudes que detestava, mas sem deixar de respeitar a coragem e a tica de Allegra. Ela estava determinada a ser fiel.
        - Pois, eu fiz tudo isso, mas depois de t-lo beijado vrias vezes -         retorquiu, corrigindo-o.
        - Oua, conselheira, beijar no  crime neste pas. Tenha calma! No estamos na Inglaterra vitoriana! Voc fez o que estava certo e devia sentir-se satisfeita 
consigo mesma - lembrou-lhe Jeff, desejoso de que ela no fosse to fiel a Brandon.
        - No estou satisfeita Sinto-me mal e, ainda por cima, tenho saudades suas confessou Allegra.
        - Agrada-me ouvir isso - disse ele, radiante. Como vai ser o dia de amanh, ou isso no interessa?
        - Muito ocupado, e sim, interessa.
        -  imaginava... - suspirou, deprimido. Quando regressa a Los Angeles?
        - Na sexta-feira.
        - Eu tambm. Podemos, ao menos, ir no mesmo vo? Prometo no fazer nada de imprprio no avio.
        Allegra riu, mas a idia no lhe pareceu a melhor. Porque haviam de se torturar? Era bvio que no conseguiriam deixar de tocar-se.
        - No me parece, Jeff. Talvez um dia possamos almoar em Los Angeles.
        - Ora, ora, isso no chega - replicou ele, queixoso, merecemos mais. No podemos ser amigos, pelo menos? Isto no faz sentido! Voc no  uma freira,  uma 
mulher, e nem sequer est casada com ele! E, pelas suas contas, tal nunca viria a suceder, mas quando ela chegasse a essa concluso e recuperasse a liberdade, o 
que estaria ele fazendo, onde viveria? O sentido de oportunidade era importante na vida, e Jeff no tencionava esperar que ela desistisse de Brandon. Naquele ritmo, 
levaria anos. Allegra, encontre-se comigo s mais uma vez antes de voltar. Por favor. Preciso v-la!
        - Voc no precisa, voc quer argumentou ela. 
        - Fao uma fita se voc no concordar. Vou ao hotel e deito-me no cho do trio. Levo a carruagem e o cavalo e entro pela porta giratria. Jeff fazia-a sempre 
rir, o que o deixava muito feliz. O que nos est fazendo, sua marota? O que se passa?
        - Estou mantendo a minha palavra, e honrando um compromisso.
        - Esse tipo no faz idia do que  isso, e voc bem sabe. Ele no a merece! Alis, nem eu. Pelo menos me deixe lev-la ao aeroporto.
        - Eu telefono em Los Angeles. - respondeu ela com firmeza.
        - E diz o qu? Que no me v por causa do Brandon?
        - Voc prometeu que no me pressionava... - lembrou-lhe a jovem, sentindo-se esgotada.
        - Menti - retorquiu ele calmamente.
        - Voc  impossvel!
        - V ler o meu livro, ou olhar para a minha fotografia. Telefono amanh  noite.
        - No estarei.
        Allegra tinha de demov-lo, embora contra a sua prpria vontade.
        - Ento telefono mais tarde.
        - Porque me pressiona deste modo?
        - Porque a amo.
        Fez-se um longo silncio do lado dela. Jeff fechou os olhos e ficou  espera, ciente de que no devia ter dito aquilo.
        - Est bem, no a amo, foi um disparate. Gosto muito de voc e quero conhec-la melhor.
        Ouviu-se uma risadinha do outro lado da linha.
        - Allegra Steinberg, sabe que est me deixando doido. E como me vai representar se no me vir?
        - Voc no tem qualquer acordo para fazer neste momento - disse ela.
        Jeff ficou furioso.
        - Ento me arranje um! Que tipo de advogada  voc? 
        - Perdi o juzo, graas ao meu cliente mais recente. 
        - V-se embora, volte para ele! E no quero voltar a v-la. Alm disso, patina mal - gracejou ele.
        -  verdade - reconheceu Allegra, rindo de novo. Ambos guardavam boas recordaes da noite anterior
        Ao pensar nisso, custava-lhe a acreditar que no o via apenas h um dia: parecia-lhe uma eternidade! Como conseguiria sobreviver em Los Angeles se no se 
encontrassem?
        - Estava brincando,  uma excelente patinadora - disse ele com ternura. Alis, tem uma srie de atributos timos, e um deles  a fidelidade. Espero ter a 
sorte de encontrar algum como voc, um dia. As mulheres da minha vida sempre me deram a impresso de que a fidelidade inclua pelo menos meia dzia de pessoas, 
ou a maioria dos habitantes do sexo masculino de uma pequena cidade. De qualquer modo, telefono amanh  noite, Miss Steinberg - insistiu, com delicadeza.
        - Boa noite, Srt. Hamilton - respondeu ela, aprumada. Tenha um bom dia amanh. Falo com voc  noite.
        No podia dizer-lhe que no telefonasse; gostava muito de falar com ele, e a conversa representava um estmulo para ambos, o que era conveniente, porque 
o dia seguinte ia ser terrvel.
        Choveu a cntaros. Allegra no conseguiu arranjar um txi e o nibus parou quando se decidiu tentar este meio de transporte. Todas as suas reunies se prolongaram 
ou foram canceladas. Por volta das seis horas, quando chegou ao hotel, estava ensopada. De manh fora convidada para jantar em casa dos Weissman, s sete e meia, 
e, para afastar Jeff da sua mente e no ficar sentada no quarto pensando nele, aceitara o convite. Ele enviara um ramo de rosas vermelhas logo de manh. Ficara encantada 
ao ver as flores, mas, felizmente, ele no insistira. Allegra sentia que devia mais do que isso a Brandon e sabia que ele lhe era fiel; apesar das suas muitas falhas, 
a leviandade no era uma delas. Na verdade, estava admirada consigo prpria em relao a Jeff, nunca acontecera ficar prisioneira de uma atrao irresistvel
        Regressaria a Los Angeles no dia seguinte, mas no falava com Brandon desde segunda-feira. Telefonara e deixara vrias mensagens, mas ele sara sempre ou 
fora para o tribunal ou estava em reunies. Era irritante no conseguir falar com ele, mas concluiu que talvez fosse o seu castigo por no ter sido totalmente fiel. 
Procedera mal ao beijar Jeff e sabia que, se o voltasse a ver, no conseguiria resistir. Sentia-se triste, mas ao mesmo tempo, aliviada por saber que no estaria 
no hotel nessa noite, se ele telefonasse.
        Escolheu um vestido de l vermelho e soltou o cabelo e depois enfiou a capa de chuva. Ainda tentou falar com Brandon mais uma vez antes de sair, mas voltaram 
a dizer que ele estava numa reunio, por isso deixou mensagem dizendo que telefonara. Em seguida desceu  correndo e pediu ao porteiro que lhe arranjasse um txi.
        Esperou meia hora e acabou por chegar atrasada, tal como a maioria dos convidados, alis, pelo mesmo motivo. Os Weissman esperavam catorze pessoas para jantar. 
Andreas j lhe dissera que Jason Haverton estaria presente, alm de mais dois ou trs escritores.
        Assim que entrou, foi apresentada a uma jovem muito atraente. Era uma escritora feminista bastante controversa, mais uma cliente de Andreas. Tambm l estava 
um clebre locutor, um correspondente do New York Times, o diretor da CNN, com a mulher, e uma atriz da Broadway conhecida da sua me, que fez questo de a cumprimentar 
antes de se sentar. A mulher era muito respeitada e imponente e fez uma entrada arrasadora na sala, que foi observada por todos. Era o evento nova-iorquino perfeito 
para uma noite de chuva.
        S faltava uma pessoa, e a campainha da porta tocou no ltimo minuto. Allegra levantou a cabea e, quando o convidado entrou na sala, reconheceu que devia 
ter adivinhado: era to bvio! Nenhum deles desconfiara, e Jeff ficou ainda mais admirado do que ela.
        -  o destino... - disse ele, fitando-a com um sorrisinho perverso.
        Allegra riu, aliviada, e muito mais satisfeita do que queria admitir, sem conseguir disfarar o que sentia. Estendeu-lhe a mo como se tivessem acabado de 
se conhecer.
        -  Sabia de alguma coisa? -   perguntou, a meia voz, sentando-se ao seu lado. Tinha o cabelo molhado da chuva e estava muito atraente.
        - Claro que no - respondeu ela, denunciando com o olhar os sentimentos que procurava combater. Era uma sorte ele no a beijar em frente dos Weissman.
        - Diga a verdade. - Jeff gracejava com ela e divertia-se com isso. Foi voc que combinou tudo? No tenha vergonha de me contar.
        Allegra deu-lhe um olhar malvolo. Ele riu, inclinou-se, deu-lhe um beijo na face e foi buscar um usque com gua. Voltou pouco depois e sentou-se conversando 
com ela. Por fim, Jason Haverton aproximou-se. Estava satisfeito com o acordo que haviam conseguido e as suas reticncias quanto  hiptese de um dos seus livros 
ser adaptado ao cinema tinham-se dissipado, em grande parte graas a Allegra
        - Ela  formidvel! - afirmou o velho escritor, com admirao, aproveitando uma ocasio em que Allegra se aproximara de Andreas para dizer qualquer coisa. 
 excelente no que faz e muito bonita - acrescentou, fazendo acompanhar o elogio de um gim tnico.
        - Acabei de contratar os servios dela - confirmou Jeff, divertido com a conversa.
        - Pode crer que vai fazer um bom trabalho - disse o velho para sosseg-lo.
        - Espero que sim - respondeu Jeff, quando Allegra se dirigia para junto deles.
        Foi uma noite interessante para todos e o final perfeito para a estada de Allegra em Nova Iorque. Jeff saiu com ela. Allegra desistira de mant-lo  distncia; 
era to natural estarem juntos! E ele parecia to feliz na sua companhia! Mostrava-se muito orgulhoso e protetor.
        - Quer ir tomar um suco a qualquer lado? - perguntou com ar inofensivo. Se confiar em mim, claro est.
        Os seus olhos transbordavam de ternura e amor.
        - Voc nunca foi problema, o problema sou eu - respondeu, sorrindo, quando desciam no elevador.
        - Julgava que ramos ambos. Quer passar pela casa da minha me? Fica a trs quarteires daqui. Prometo portar-me bem, e, se me descontrolar, pode sair quando 
quiser.
        - Voc me parece muito perigoso. Allegra riu das precaues de Jeff. Temos de saber lidar com isso, no acha?
        Mas a verdade  que nenhum deles conseguia faz-lo. Desceram a Quinta Avenida debaixo do mesmo guarda-chuva, at chegarem ao apartamento.
        O vento estava forte e empurrava Allegra para o lado de Jeff. O prdio era muito semelhante quele em que os Weissman viviam. Tinha um nico apartamento 
em cada andar e o elevador dava em trios particulares e individuais. Era um edifcio pequeno e os apartamentos, apesar de no serem grandes, eram muito bem lanados, 
com uma vista soberba.
        No andar da me de Jeff, o cho do trio era de mrmore preto e branco. O mobilirio resumia-se a uma mesa e a uma cadeira antigas compradas num leilo da 
Christie's. No interior do apartamento havia uma grande coleo de antiguidades inglesas. Quanto aos tecidos, brocados amarelos de grande requinte conviviam com 
sedas de tons cinzentos e com alguns chintz de cores sbrias. Estava muito bem decorado, mas o ambiente era um pouco austero. S num pequeno escritrio com um sof 
de couro  que Jeff e Allegra sentiram que poderiam sentar-se e conversar. Era a nica diviso que agradava a Jeff. Allegra pegou numa fotografia da me dele e examinou-a 
com interesse. Era uma mulher alta e magra, muito parecida com o filho, mas tinha uns olhos tristes, os lbios finos, e era difcil imagin-la sorrindo. No parecia 
muito divertida, e neste aspecto era difcil compar-la a Jeff, cujo rosto era a imagem do riso e do bom humor.
        - Tem um aspecto muito sisudo - comentou Allegra com delicadeza, pensando como era diferente da sua famlia, em que todos riam e falavam alto, e da sua prpria 
me, que era to bonita.
        - Ela  uma pessoa sisuda. No creio que tenha voltado a ser feliz desde que perdeu o meu pai - explicou ele.
        - Oh, que pena! - exclamou Allegra, embora com a sensao de que ela sempre fora assim.
        - O meu pai  que tinha senso de humor.
        - O meu tambm  - disse Allegra, mas depois lembrou-se que Jeff j o conhecia.
        - Sentou-se no sof, ao seu lado, com um copo de vinho na mo, e estendeu as pernas, enquanto ele acendia a lareira.
        Fora uma semana longa e cansativa, mas tambm tivera os seus pontos altos, nomeadamente o passeio de carruagem e o rinque de patinagem, e at o jantar dessa 
noite. Tinham ficado sentados um ao lado do outro. Com Jeff  direita e Jason Haverton  esquerda, a conversa fora animada.
        - Esta noite diverti-me - disse, observando-o, satisfeita por estar ali com ele. E voc?
        Jeff virou-se para ela e sorriu.
        - Claro, muito. Sabe, por acaso passou-me pela cabea que voc estivesse l, mas nem sequer me atrevi a perguntar. Tive receio que no aparecesse, se soubesse 
que eu tambm fora convidado. Teria ido, em qualquer dos casos?
        Ela encolheu os ombros
        - Talvez. Nem sequer acalentei a esperana de que voc estivesse l. Ela destri as nossas iluses, no ?
        Na verdade, ficara to feliz ao v-lo que o seu corao dera um pulo. Por muito pouco razovel que isso fosse, estava a tornar-se impossvel controlar os 
seus sentimentos E, contudo, havia sempre Brandon, escondido na sombra.
        - E agora? - perguntou Jeff sentando-se a seu lado com um copo de vinho na mo e passando-lhe o brao por cima dos ombros.
        Sentiam-se to bem juntos, desde que se conheciam. E assim sentados lado a lado, no apartamento da me, o momento era perfeito, pensou Jeff.
        - Voltamos para Los Angeles e veremos o que acontece, acho eu - respondeu ela honestamente. Acho que tenho de dizer qualquer coisa ao Brandon.
        A situao era incontornvel. De certo modo, Allegra sentia que tinha obrigao de lhe contar o que se passara. Ao rever Jeff percebera que no poderia manter 
o silncio
        - Vai falar-lhe acerca de ns? - perguntou ele, escandalizado.
        - No sei. Allegra ainda no se decidira. Talvez s precise dizer que me sinto atrada por outra pessoa, assim, o Brandon perceber o que falta.
        - Francamente, acho que devia guardar isso para voc. Veja o que sente por ele, o que voc quer, o que no tem, e depois tire as suas concluses.
        Aparentemente eram muitos os motivos de preocupao, ambos estavam cansados de pensar neles, por isso, a conversa derivou para outros assuntos, o seu novo 
livro, o contrato para mais um filme... Nessa noite, aceitara algumas sugestes de Jason, todas elas instigadas por Allegra.
        Jeff estava entusiasmado com a perspectiva de escrever outro livro, mas muito menos com a concluso do argumento. Tencionava instalar-se em Malibu e comear 
a trabalhar assim que voltasse. No tinha planos para o fim-de-semana.
        -  E voc? -  perguntou, interessado.
        A lenha crepitava, e comeavam  ficar com sono. A salinha estava quente e confortvel, e Jeff sorriu, deliciado com a presena de Allegra. A casa da me 
sempre lhe parecera to austera! Era agradvel ver Allegra aninhada no sof, a seu lado.
        - Preciso me organizar para o fim-de-semana. Allegra tinha de negociar o prximo filme de Carmen e precisava trocar impresses com Alan acerca de um novo 
acordo. Havia uma srie de grandes e de pequenos projetos que exigiam a sua ateno. Nem sequer imaginava o que se teria acumulado na sua secretria durante a sua 
ausncia!
        - Acho que vou trabalhar no sbado e talvez jante com os meus pais. No domingo vejo o Brandon.
        - S no domingo? - Jeff ficou admirado. Ele no vai a casa de seus pais no sbado  noite? No vai busc-la ao aeroporto?
        - No pode, est num julgamento. Diz que tem de trabalhar pelo menos at domingo, e no quer que eu o distraia.
        Jeff ergueu o sobrolho e bebeu mais um gole de vinho.
        - Pois eu adoraria que voc me distrasse, Allegra - declarou, sorrindo. Telefone-me, se se sentir s. Mas no disse mais nada, e nenhum deles voltou a falar 
de Brandon.
        Ficaram sentados no sof durante muito tempo e portaram-se bem, at que ele se levantou para ir buscar gelo. Allegra foi atrs dele. Na cozinha estava tudo 
imaculado e impecvel; a me de Jeff era meticulosa e a governanta passara a semana inteira fazendo limpeza. Porm, assim que ele pousou o gelo no lava-louas e 
olhou para Allegra, no conseguiu refrear-se, aproximou-se dela e abraou-a. Sentiu-a a tremer nos seus braos, com as pernas encostadas s suas, e pareceu-lhe que 
todo o seu corpo se derretia com o calor dela.
        - Oh! Cus, Allegra... No sei como consegue pr-me neste estado...
        Tivera muitas mulheres na sua vida, mas nenhuma lhe despertara tais sensaes. Talvez fosse por saber que no a poderia possuir por enquanto, ou talvez nunca. 
Havia um sentimento simultaneamente amargo e doce no desejo de ambos. A boca dele encontrou a sua, e pouco depois ela estava encostada  parede. Jeff colou o seu 
corpo ao dela, mas Allegra no objetou. Desejava-o. No entanto, ele era o fruto proibido, e sabia que no podia ter.
        - Acho que devemos parar... - disse ela distraidamente, com voz rouca, acompanhando os movimentos do corpo de Jeff. Tinha o rosto e o pescoo em brasa. Jeff 
acariciava-lhe os seios enquanto a beijava.
        - No sei se agento isto... - murmurou ele, gemendo e tentando parar, mas sem conseguir.
        Por fim, devagar, penosamente, recuperou o controle. Fora um esforo tremendo, mas Jeff o fez por ela, porque acreditava que aquilo no era o que ela queria. 
As bocas de ambos continuavam coladas e a mo de Allegra deslizara lentamente pela perna dele. Era uma doce tortura.
        - Desculpe - sussurrou ela, com voz rouca.
        - Tambm peo desculpa - disse Jeff, desejoso de a possuir ali mesmo, no cho da cozinha, em cima da mesa, em qualquer lado, no silncio do apartamento da 
me. No sei quantas vezes conseguirei voltar a fazer isto.
        - Talvez a oportunidade no volte a surgir - replicou Allegra, tristemente. Daqui em diante passamos a encontrar-nos no Spago, em Los Angeles, para almoar. 
L s poderemos conversar.
        - Que desiluso! Eu estava gostando - gracejou ele. Tocou-lhe de novo no seio, para atorment-la, e depois a beijou.
        -  Estamos torturando-nos! -   exclamou, destroada.
        Era tudo to estpido! E, todavia, Allegra no pde deixar de perguntar a si prpria se Brandon teria honrado as suas obrigaes numa situao semelhante. 
        -  divertido, mas perverso - disse Jeff, com um sorriso amarelo, tentando tirar o melhor partido da situao. No estou interessado em repetir - afirmou, 
olhando-a bem de frente.
        Allegra perguntou a si prpria se haveria um aviso implcito nas suas palavras.
        Jeff foi mostrar-lhe o quarto. Era uma diviso sombria, masculina, com cortinados  riscados e uma profuso de antiguidades inglesas. Conseguiram afastar-se 
da cama, o que foi um milagre, e riram disso enquanto percorriam o resto do apartamento.
        Pouco depois da meia-noite, Jeff levou-a ao hotel. Subiu com ela, e dessa vez entrou. Havia uma pequena sala de estar. Sentou-se e Allegra mostrou-lhe o 
livro. Pusera-o de p, para ver a fotografia dele.
        - Perdemos o juzo, sabe? Eu ando correndo atrs de voc como um menino, e voc olha para a minha fotografia.
        Fora uma semana estranha para ambos, e, de certo modo, era como se tivessem estado num cruzeiro, longe da vida habitual e das obrigaes dirias. Logo veriam 
o que aconteceria quando voltassem para casa. Por enquanto, era difcil imaginar.
        Jeff ficou mais um pouco, mas j tinham bebido e dito tudo o que podiam, restava-lhes despedirem-se, por uns tempos, pelo menos, ou para sempre. Esse momento 
chegara depressa para eles, mais depressa do que era habitual para a maioria das pessoas. Era pegar ou largar, deixar correr ou fugir, ou agarrar a oportunidade. 
Todavia, qualquer caminho que escolhessem seria doloroso.
        Jeff fez um esforo para se levantar e ficou olhando para Allegra durante muito tempo. Depois a abraou; queria ficar com ela, proteg-la, estar  sua disposio, 
mas sabia que no podia.
        - Prometa que me telefona se necessitar de alguma coisa. No precisa fazer nada por minha causa, no  obrigada a romper com ele, se no quiser, mas ligue-me, 
se precisar de mim.
        - Prometo. E voc tambm anuiu, tristemente. Parecia uma despedida, e por enquanto nenhum deles sabia se aquele momento no passaria de uma simples recordao 
de uns dias em Nova Iorque, com neve e um passeio de carruagem  meia-noite.
        - Telefono quando receber a minha primeira ameaa de morte - gracejou ele.
        Allegra acompanhou-o  porta. Ento Jeff abraou-a de novo, fechou os olhos e aspirou o perfume dos seus cabelos.
        - Oh, como vou sentir a sua falta!
        - Eu tambm.
        Allegra nem sabia ao certo o que estava fazendo. Nada tinha sentido. Tentava agir de forma correta, mas tudo aquilo parecia um disparate.
        - Eu ligo s para saber como voc est.
        Jeff iria dar uns dias para assentar e depois lhe telefonava para o escritrio.
        De repente, ficaram sem palavras. Abraaram-se uma ltima vez e beijaram-se. Por fim, Jeff saiu. Ela sentou-se na cama e chorou, j sentindo a sua falta. 
O telefone comeou a tocar pouco depois, mas Allegra no atendeu. Receava que fosse Brandon.


CAPTULO 8

        Allegra passou o dia seguinte numa roda-viva. Teve duas reunies no centro da cidade e o avio partia s seis da tarde, o que implicava que teria de sair 
do hotel as quatro, ou talvez ainda mais cedo, se estivesse mau tempo e devido ao trnsito de sexta-feira. Telefonou a Andreas Weissman para se despedir e para lhe 
agradecer todo o apoio prestado durante aquela semana e os seus dois convites extremamente hospitaleiros. Ele reafirmou que fora um prazer conhec-la, prometeu telefonar- 
para Los Angeles e agradeceu-lhe o seu trabalho com Jason.
        Fez a mala s pressas as trs horas, depois de um almoo tardio, e por fim, com um misto de remorso e de pnico, resolveu telefonar a Brandon. No falava 
com ele h dias e comeava a sentir-se mal, ainda que, de um modo geral, Brandon nunca tivesse cimes nem se mostrasse preocupado com o que ela fazia em Nova Iorque. 
Sabia que estava trabalhando. E era verdade. Mas surgira Jeff, e Allegra continuava a interrogar-se se a sua vida alguma vez voltaria  normalidade. Jeff telefonara 
de manh, quando acabara de se levantar, e o simples fato de ouvir sua voz fizera vir lgrimas aos olhos. Quisera apenas dizer que pensava nela e, apesar de no 
ter falado nisso, Allegra percebera que ele estava na cama e no pensara noutra coisa durante toda a manh.
        Quando telefonou para o gabinete de Brandon, a secretria eletrnica estava ligada. Acionou o boto adequado que a ps em contacto com a assistente e perguntou 
se ele estava no tribunal; ficou surpreendida ao saber que no.
        - Ele no est no julgamento? Alguma coisa teria corrido mal?
        - Chegaram a um acordo esta manh.
        - timo! Ele ficou satisfeito?
        - Muito - respondeu a assistente secamente.
        Allegra no gostava dela.
        - Nesse caso, diga-lhe que o vejo esta noite. Se quiser ir me buscar, chego no United 412. Aterrissamos as nove quinze; estarei em casa por volta das dez.
        - Ele no pode ir, parte para So Francisco s quatro horas.
        - Sim? Por qu?
        - Para ver a famlia, suponho respondeu a assistente num tom desagradvel.
        Allegra ficou pensando no que ouvira. Brandon fora a So Francisco no fim-de-semana anterior e sabia que ela voltava nessa noite, mas como no falavam h 
dois dias, no sabia se haveria algum problema com as filhas.
        - Diga-lhe s que eu liguei - replicou Allegra com rispidez. Chego a casa por volta das dez. Ele que me telefone.
        - Sim senhora -  respondeu a outra com um sarcasmo evidente.
        Allegra j se queixara dela a Brandon, mas ele respondera que era uma tima secretria e que gostava dela.
        Depois de desligar, Allegra ficou pensando. Brandon terminara o julgamento. Estava livre no fim-de-semana e ia a So Francisco. Dissera-lhe que no podia 
v-la no domingo, mas talvez julgasse que ela tinha outros planos ou lhe pedisse que fosse ter com ele assim que chegasse, no sbado, por exemplo. Mas de que serviria? 
Seria uma canseira. Foi ento que teve uma idia. Telefonou para a companhia area e perguntou se havia lugar no vo para So Francisco. Sabia onde Brandon ficava 
hospedado e iria encontrar-se com ele no hotel. Que grande idia... Poderia fazer-lhe uma surpresa!
        Havia um vo s cinco e cinqenta e trs, apenas sete minutos antes da sua partida para Los Angeles. Allegra sabia que conseguiria chegar a tempo. Reservaram 
um lugar na primeira classe, o nico disponvel, e ela agarrou-o. Valia a pena, s para ver Brandon. Precisava mesmo estar com ele depois de toda aquela loucura 
com Jeff nos ltimos quatro dias. Talvez tudo no tivesse passado de uma iluso romntica. Para ela, Brandon representava solidez, tempo e histria. Estavam juntos 
h dois anos e acompanhara todo o seu processo de separao. Adorava as filhas dele e amavam-se, tinham uma vida em conjunto. O que acontecera entre ela e Jeff no 
passara de um lampejo de magia. Acontecia s vezes, mas no era suficiente para alicerar uma vida, pensou Alegra com firmeza, enquanto ligava pedindo que fossem 
buscar sua bagagem.
        No telefonara para despedir-se de Jeff. Sabia que ele partira num vo anterior, e ficara tudo esclarecido entre ambos. Agora chegara o momento de se separarem 
e de verem o que aconteceria se voltassem a encontrar-se, mas no tencionava pr em risco o seu futuro com Brandon, e congratulou-se com o fato de as coisas no 
terem ido mais longe. Teria sido um erro da sua parte, e o que se passara j causara remorsos suficientes. Contudo, resolveu no contar nada a Brandon; s serviria 
para mago-lo. Sorriu, pensando como ele iria ficar satisfeito ao v-la e como ela prpria se sentiria feliz. Ainda pensou em deixar-lhe uma mensagem no gabinete, 
a avis-lo que mudara de planos, mas concluiu que seria mais divertido fazer-lhe uma surpresa.
        Saiu do hotel e entrou na limusine que a aguardava. No caminho para o aeroporto, teve de enfrentar o trnsito da hora do rush na sua fase pior e por pouco 
no conseguia chegar a tempo. Teve de trocar o bilhete e despachar a bagagem e embarcou um minuto antes de fecharem as portas. O avio estava repleto e a maioria 
das comissrias pareciam de mau humor. No fim da semana todos estavam cansados e o avio ia demasiado cheio. O mau tempo provocou um atraso de meia hora na descolagem. 
No interior do aparelho, o ambiente era pesado e abafado, e o filme foi interrompido na classe econmica, o que irritou todas as pessoas.
        Allegra pegou no livro de Jeff e virou-o vrias vezes, s para olhar para a fotografia. Havia algo de misterioso nos seus olhos, de familiar na sua boca, 
como se fosse transmitir qualquer coisa, ou desaparecer. Estava encostado em um prdio revestido de tijolo. Era uma tima fotografia. Por fim, guardou o livro na 
mala.
        Quando chegaram a So Francisco, tiveram que esperar meia hora na pista por um terminal livre. Eram onze horas locais, duas horas mais tarde do que o previsto, 
e todos estavam exaustos. Fora um vo tpico dos tempos modernos, alimentao de m qualidade, falta de conforto, atrasos interminveis e o conseqente desagrado 
dos passageiros. Bem-vindos s viagens da nova era!
        Allegra encaminhou-se para a esteira rolante da bagagem e, apesar dos dissabores da viagem, havia qualquer coisa de divertido no fato de se encontrar ali 
inesperadamente. Era como se partilhasse um grande segredo. No regressava a uma casa suja com a correspondncia acumulada, no tinha de desfazer as malas nem de 
levar a roupa  lavanderia, no precisava ir para o escritrio no sbado. Era como se recebesse um presente extraordinrio Um fim-de-semana com Brandon, e nesse 
momento no necessitavam de mais nada, nem ele tinha que saber o que se passara. Allegra estava entusiasmada com a sua deciso
        Ao pegar na mala, porm, pensou de novo em Jeff. J devia ter chegado a Los Angeles,  sua casa de Malibu. Como se sentiria. Dissera que telefonaria da 
a uns dias, mas Allegra no sabia se atenderia a chamada. Precisavam ambos de digerir a loucura que se apoderara deles, e se se encontrassem seria ainda pior. Agora 
que sara de Nova Iorque, estava determinada a fortalecer a sua deciso e a tentar esquecer tudo o que acontecera.
        Apanhou um txi  sada do terminal e pediu ao motorista que a levasse ao Fairmont. Era um hotel antigo e imponente, onde Brandon gostava sempre de ficar. 
Em sua opinio, era uma aventura para as filhas e ficava perto de tudo. Allegra tentara convenc-lo a ir para um hotel menor em Pacific Heights, mas era difcil 
quebrar velhos hbitos e Brandon contrapunha sempre que as garotas adoravam o Fairmont.
        quela hora da noite, no levaram mais de vinte minutos para chegar  cidade. Allegra teve a sensao de que se deslocava debaixo de gua quando o empregado 
lhe pegou na mala. 
        - Fez reserva, senhora? - perguntou ele com ar solcito.  
        Com um sorriso frio, Allegra respondeu que ia ter com o marido.
        Calculava que ele estivesse dormindo a essa hora, mas a surpresa de v-la ali compensaria. Tencionava pedir uma chave, entrar no quarto, despir-se e deitar-se 
na cama a seu lado. Gostaria de tomar uma ducha, mas no era justo fazer tanto barulho quando ele estava dormindo, guardaria o banho para o dia seguinte
        Eram onze e meia quando chegou  recepo, e no trio as pessoas entravam e saam. Havia vrios restaurantes, onde pessoas de toda a cidade iam jantar: o 
Tonga Room, de comida oriental e polinsia, o Venetian Room, com orquestras de renome e artistas famosos, e o Mason's, para refeies mais ntimas, mas Allegra s 
queria a chave do quarto de Brandon.  
        - Edwards, por favor - disse, mostrando-se distrada e afastando o cabelo dos olhos. Sentia-se desleixada com o casaco de frio que levara para Nova Iorque 
e a capa de chuva. Trazia o ncessaire numa das mos, a pasta na outra, e tinha a mala a seu lado.
        -  Nome? -   perguntou a recepcionista, sem expresso.
        - Brandon.
        - J deu entrada no hotel?
        - Tenho a certeza que sim. Chegou esta tarde. Apanhei o vo de Nova Iorque para vir ter com ele.
        - E a senhora ?...
        A mulher olhou maquinalmente para Allegra.
        - A senhora Edwards.
        Sentia-se  vontade com a mentira, pois ficava sempre hospedada no Fairmont como Sr. Edwards. Era mais simples.
        - Obrigada, senhora Edwards. Quarto quinhentos e catorze.
        A recepcionista deu-lhe a chave e fez sinal ao carregador. Este pegou na mala e encaminhou-a para o elevador, oferecendo-se para levar os volumes menores, 
que entregou de bom grado; sentia-se desfalecer. Eram duas e meia da manh, hora do Leste, e levantara-se s sete e meia. Alm disso, a sua viagem fora frtil em 
emoes... Allegra afastou este pensamento e entrou no elevador, tentando reprimir um sorriso ao pensar na surpresa que iria causar a Brandon. Talvez ele nem sequer 
acordasse e s a visse de manh, deitada a seu lado. No sabia se j estava com as filhas ou se s as iria buscar no dia seguinte, mas desconfiava que elas j se 
encontrassem l, e talvez fosse por isso que Brandon chegara to cedo.
        O carregador abriu-lhe a porta e ela pediu-lhe que pousasse a bagagem do lado de dentro e a deixasse ali. Gratificou-o e levou o dedo aos lbios, com receio 
que Brandon estivesse dormindo. Tivera uma semana difcil, por causa do julgamento, e devia estar esgotado. Acendeu a pequena luz da sala da sute e fechou a porta. 
Brandon era um bom cliente, e quase sempre o instalavam numa sute com dois quartos pelo preo de dois quartos grandes. Allegra atravessou a sala.  luz difusa, 
com cuidado para no acordar ningum, no se ouvia qualquer som no quarto ao lado. Brandon devia estar dormindo. A pasta dele encontrava-se junto da secretria, 
o casaco pendurado nas costas de uma cadeira, e viam-se vrios livros e jornais espalhados. The Wall Street Journal, The New York Times, uma revista de direito e, 
debaixo da cadeira onde deixara o casaco, um par de sapatos e os mocassins que usava quando estava trabalhando. Era razoavelmente arrumado em casa, mas pouco cuidadoso 
nos hotis.
        Allegra pousou as suas coisas e, com um sorriso, entrou no quarto s escuras, na ponta dos ps, s queria v-lo, despir-se e deitar-se ao seu lado. No havia 
luz, mas, quando os seus olhos se habituaram  escurido, verificou que a cama estava vazia, com os lenis afastados para trs, e viam-se chocolates em cima das 
almofadas. Brandon no se encontrava l. Allegra perguntou a si prpria se ele estaria com as filhas, a conversar com Joanie acerca dos bens ou se teria ido ao cinema. 
Por vezes gostava de ir ver um filme para se descontrair, sobretudo depois de uma semana atribulada ou de um julgamento, mas ficou um pouco desapontada por no o 
encontrar. Depressa se apercebeu de que teria tempo de tomar uma ducha, lavar a cabea e descansar um pouco antes de ele voltar. Iriam para a cama juntos, provavelmente 
com um desfecho mais interessante. Ao pensar nisso, foi obrigada a expulsar Jeff da sua mente mais uma vez. Era ridculo, mas a verdade  que sentia que estava sendo 
infiel nesse momento Era uma situao completamente louca, mas Allegra procurou no pensar mais nele e acendeu a luz para se preparar.
        Despiu o casaco e foi pendur-lo no roupeiro e, assim que se aproximou, percebeu por que motivo Brandon no estava na cama haviam-lhe dado a chave do quarto 
errado, aquelas roupas pertenciam a outra pessoa qualquer. Havia meia dzia de vestidos de mulher, dois deles bastante vistosos, umas jeans e vrios pares de sapatos. 
Ao ver aquilo, Allegra afastou-se rapidamente do roupeiro. Correu para a sala, para pegar nas suas coisas antes que os hspedes voltassem e ficassem furiosos com 
a sua intromisso, mas, ao entrar l, viu outra vez o casaco dele, e os sapatos, e ficou a olhar, atnita. No tinha dvidas: eram os de Brandon. E a pasta tambm 
era a dele. Teria reconhecido em qualquer lugar e, alm disso, tinha as suas iniciais. Era o quarto de Brandon... Mas havia roupas de mulher no roupeiro... Allegra 
voltou atrs e verificou de novo, admitindo, por momentos, que fossem roupas suas e que Brandon as tivesse trazido na esperana de ela ir ter com ele, mas depressa 
percebeu que essa idia era ridcula, pois se tratava de peas de vesturio de uma mulher dez ou doze centmetros mais baixa do que ela. Depois apalpou os vestidos, 
como se tentasse perceber por que motivo estavam ali. Sentia-se muito cansada e a sua mente recusava-se a aceitar o que os seus olhos viam.
        Em seguida entrou no banheiro e deparou com vrias peas de maquiagem, chinelos dourados com penas brancas e uma camisola de renda branca quase transparente. 
Ficou a olhar para aquilo, estupefata, e s ento sentiu o impacto do que tinha  sua frente: ele fora para So Francisco com outra mulher. Aquelas coisas no eram 
suas, nem pertenciam s filhas dele, que, de resto, no estavam ali. S ento  que reparou que, dessa vez, no lhe tinham dado uma sute com dois quartos, como 
era habitual, para instalar as garotas, e as roupas de mulher que vira eram demasiado pequenas para serem de Joanie. Pertenciam claramente a outra pessoa. Mas quem? 
A pergunta ficou sem resposta. Ao olhar mais atentamente  sua volta, Allegra viu artigos de vesturio feminino espalhados por todo o lado, meias-calas em cima 
da cama, um  suti nas costas de uma cadeira, uma calcinha junto do lavatrio... O que ele estava  fazendo? E h quanto tempo? Quantas vezes a enganara? Quantas 
vezes fora para So Francisco com outra pessoa e lhe dissera que queria estar sozinho com as filhas? Allegra nunca desconfiara, nem por um minuto, sempre acreditara 
nele, e ele enganara-a e mentira. E em Los Angeles tivera muitas oportunidades de fazer o mesmo. Ao pensar em tudo isto, o rosto de Jeff surgiu na sua mente. Deixara-se 
consumir pelo remorso por causa de meia dzia de beijos e abandonara um homem que se mostrava seriamente interessado nela, tudo porque acreditava que estava ligada 
a Brandon pelo sentimento e pelo dever. E, entretanto ele era um impostor, um mentiroso! Allegra continuou olhando  sua volta, com os olhos marejados de lgrimas, 
mas no havia mais nada para ver, e no queria estar ali quando eles voltassem do jantar.
        Sentiu-se corar ao pensar em todas as vezes que o namorado se mostrara desinteressado e afirmara que precisava de 'espao' e de 'estar s', sem combinar 
nada com ela. No admirava: Brandon era um autntico patife!
        Pegando em toda a sua bagagem atabalhoadamente, Allegra apressou-se a abandonar o quarto e correu para o elevador, rezando para no dar de caras com eles 
ao entrar. Desceu at  sada de Califrnia Street e, j na rua, tentou apanhar um txi, mas no era to fcil arranjar txi em So Francisco como em Nova Iorque, 
e a maior parte deles esperavam em fila  porta principal do hotel. Porm, esse era o ltimo lugar onde queria estar nesse momento: no desejava encontrar com Brandon 
quando ele voltasse sabia-se l de onde e com quem! E ficou em Califrnia Street, agarrada s malas, a ver passar os bondes eltricos repletos de turistas. Mirou-os 
com os olhos cheios de lgrimas de raiva.
        Era inacreditvel o que ele fizera! Enganara-a descaradamente! O mestre da fuga aos compromissos andara distribuindo a sua pessoa com a maior prodigalidade!
        Por fim avistou um txi e largou a mala para lhe fazer sinal. O motorista saiu do automvel para ajudar a arrumar a bagagem.
        - Muito obrigada - disse ela distraidamente, entrando no carro.
        - Para onde vamos?
        - Para o aeroporto - respondeu Allegra com voz trmula, e cobriu o rosto com as mos.
        - Sente-se bem, menina?
        Era um homem idoso e simptico, que teve pena dela. Parecia uma menina fugindo de casa.
        - Sim - murmurou, lavada em lgrimas. 
        Dirigiram-se para o aeroporto, de onde sara h menos de uma hora, e s ento  que Allegra reparou que ainda tinha a chave do quarto na mo. Largou-a em 
cima do banco e espreitou pela janela, perguntando a si prpria h quanto tempo  que a sua vida assentaria numa mentira. Brandon dissera-lhe tantas vezes que tinha 
de ir ver as filhas ou que precisava de espao e de estar s! Naquele momento, porm, no sabia se ele a enganara desde o princpio ou se este era um velho truque 
que fazia parte do seu estilo de vida.
        Chegaram ao aeroporto em menos de vinte minutos e o motorista ajudou-a a sair do carro.
        - Para onde vai esta noite? - perguntou o homem afetuosamente.
        Era um velhote barrigudo e com um bigode farto. Allegra era jovem, muito bonita, e chorara at chegar ao aeroporto, e ele tinha pena dela e queria ajud-la.
        Volto para Los Angeles respondeu Allegra, tentando recuperar a compostura. Mas era intil. Tirou um leno da mala e assoou o nariz. Desculpe... Eu estou 
bem acrescentou, em tom evasivo.
        - Filha, no parece... Mas tudo vai correr bem. V para casa. Amanh ele vai arrepender-se do que fez disse o motorista carinhosamente, partindo do princpio 
de que ela tivera problemas com um homem. No entanto, Brandon nunca lamentaria tanto essa noite como ela.
        Agradeceu ao homem e dirigiu-se para o terminal, onde lhe disseram que perdera o ltimo vo, que partira para Los Angeles s nove horas. J passava da meia-noite, 
e restava-lhe ficar no aeroporto  espera do primeiro avio da manh. Nem sequer havia ningum que lhe tomasse conta das malas! Sugeriram-lhe que fosse para o hotel 
do aeroporto, mas recusou a oferta: no lhe agradava ir para lado nenhum, queria apenas ficar ali sentada. Tinha muito em que pensar e, por uma frao de segundo, 
lembrou-se de telefonar a Jeff, mas no lhe pareceu certo queixar-se a ele depois do que acontecera em Nova Iorque. Fizera-o suar por cada um dos seus beijos, enquanto 
Brandon talvez tivesse passado a semana na cama, divertindo-se. Allegra no podia deixar de perguntar a si prpria quem seria a mulher do Fairmont, mas ficara demasiado 
abalada para tentar procurar a sua identificao ou o nome em qualquer lado. O ambiente que encontrara era muito ntimo, com a roupa ntima e a camisola transparente 
espalhadas por todo o lado. Ainda no conseguia acreditar no que vira! Sentira-se uma intrusa, e ficara grata por eles no terem regressado quando se encontrava 
no quarto. Isso teria sido a gota de gua, Ou, pior ainda, se ela tivesse entrado quando eles estavam na cama. O simples fato de pensar nisso a fez estremecer.
        Alugou um  armrio e guardou as malas l dentro para poder ir beber um caf sem ter de arrastar a bagagem atrs. Pouco depois, comeou a sentir-se mais calma. 
De vez em quando a raiva vinha  superfcie, mas era quase sempre a tristeza que dominava. Pensou em telefonar  me a contar o sucedido, mas ela detestava de tal 
modo Brandon que no queria dar a satisfao de participar que ele sempre a enganara Ou no? Nunca viria a saber ao certo, e duvidava que Brandon fosse sincero para 
com ela. Nesse momento, nem sequer sabia que fora apanhado em flagrante.
        Allegra bebeu cinco cafs duplos e passou a noite acordada, lendo revistas, pensando nele e passeando de um lado para o outro. Por instantes ps a hiptese 
de escrever uma carta e dizer tudo o que sentia, mas a atitude no pareceu suficientemente enrgica. No sabia o que  faria. Podia ter voltado ao Fairmont ou telefonar 
para ele, para ver o que diria. Podia, alis, ter feito muitas coisas, mas, acima de tudo, queria ir para casa e meditar no assunto.
        Por fim sentou-se olhando o nascer do sol e desatou de novo a chorar ao pensar nele. s seis da manh, quando embarcou no primeiro avio, sentia-se a enlouquecer. 
Era sbado e o avio no estava cheio, transportava apenas alguns empresrios e duas famlias.
        A comissria serviu-lhe outro caf e um pozinho, em que nem sequer tocou: achava-se completamente destroada! Estava viajando h mais de vinte horas e sentia-o 
bem na pele quando finalmente saiu do avio. Eram sete e dez. Apanhou um txi. Aquele era o terceiro aeroporto por onde passava em menos de dois dias. Encostou a 
cabea ao banco do carro, fatigada; s oito horas entrou em casa. Estivera fora sete dias, quase se apaixonara por um homem a quatro mil e quinhentos quilmetros 
de distncia e descobrira que aquele a quem se dedicava h mais de dois anos a enganava. Fora uma semana dura, sobretudo desde a noite anterior, em So Francisco.
        Pousou a mala e olhou  sua volta. A empregada deixara-lhe uma pilha de correspondncia em cima da secretria e a secretria eletrnica estava quase cheia 
quando  ligou. Havia as mensagens habituais da lavanderia qualquer coisa acerca de um casaco que no podiam limpar e de umas fronhas que se tinham perdido, de um 
clube que solicitava a sua inscrio e da garagem onde comprava os pneus para o automvel. A me telefonara na vspera para saber se queria ir jantar com eles no 
domingo e Carmen ligara comunicando que estava na casa de uns amigos; deixara um nmero que Allegra j conhecia, mas no se lembrava de onde. O ltimo telefonema 
era de Brandon. Dizia que ia ver as filhas em So Francisco; haviam chegado a acordo no julgamento e este acabara cedo, e as garotas queriam mesmo que ele fosse. 
Tinha a certeza que estava cansada depois de uma semana em Nova Iorque e que precisava de se pr a par do que se passara durante a sua ausncia, por isso v-la-ia 
no domingo  noite, quando regressasse. Allegra perguntou a si prpria se ele se daria ao trabalho de voltar a ligar ou se pensaria que tinha cumprido a sua obrigao. 
Talvez ficasse  espera que ela o fizesse.
        Porm, Allegra no tencionava telefonar, nem a ele nem a ningum, nesse momento. Queria estar s, lamber as feridas e resolver o que havia de fazer. Ainda 
no sabia ao certo se iria falar com ele, mas a situao fora muito clara, no havia dvidas quanto ao que Brandon fizera, e no tencionava manter a relao.
        Desfez a mala e guardou as roupas; em seguida preparou uma torrada e um ch. Tomou uma ducha e lavou a cabea, tentando relaxar, mas sentia uma dor constante 
e quase fsica no peito. Era como se algo se tivesse partido l muito no fundo no momento em que vira o suti e a camisola transparente da namorada de Brandon.
        Telefonou para os pais s dez da manh, mas ficou aliviada por no estarem em casa. Segundo Sam, tinham ido jogar tnis no clube. Allegra disse apenas que 
estava bem e que tinha regressado de Nova Iorque nessa manh, mas no podia ir l jantar no domingo, porque tinha muito que fazer.
        - Explica  me, est bem, Sam?
        - Claro - respondeu a irm, maquinalmente. Allegra ficou preocupada, que a me no recebesse o recado. s vezes era o que acontecia, quando Samantha tinha 
coisas mais importantes em que pensar, como uma festa, um rapaz ou uma ida s compras com uma amiga. No te esqueas, por favor, est bem? No quero que julgue que 
no respondi ao telefonema dela. 
        - Ouve l, Miss Importante, o seu recado no  assim to especial, no acha?
        - Talvez sejam para a mame.
        - Acalme-se, que eu dou. A propsito, como estava Nova Iorque? Comprou alguma coisa?
        - Sim, um livro de um homem que conheci e com quem fui patinar -  pensou Allegra.
        - No tive tempo para fazer compras.
        - Bolas! Isso no tem graa nenhuma!...
        - No era propriamente uma viagem de turismo, estive trabalhando. Como est  mame?
        - Bem. Por qu?
        Sam ficou admirada com a pergunta, nunca lhe passara pela cabea que houvesse qualquer problema. Aos dezessete anos, todo o mundo girava em torno dos seus 
interesses e, naquela fase, os pais ocupavam uma posio muito marginal.
        - Ela est bem, apesar de no ter recebido o prmio?
        - Claro. Sam encolheu os ombros. Nem disse nada. No me parece que se preocupe com isso!
        Estas palavras s provaram a Allegra que Samantha conhecia mal a me. Blaire era uma perfeccionista e uma vencedora, que se preocupava com os mais nfimos 
pormenores. Tinha a certeza que sofrera muito por no haver ganhado o prmio, mas era demasiado orgulhosa para admitir, e era evidente que Sam, com os seus dezessete 
anos, no tinha conscincia dos sentimentos da me. Estava prestes a ingressar na universidade e s pensava em passagens de modelos e em fazer compras.
        - Diz que eu telefono quando tiver tempo e d beijinhos tambm no papai.
        - Baaa!... Quer que tome nota de mais alguma coisa?
        - Desliga.
        - Est com uma disposio pssima!
        - Passei a noite inteira no aeroporto.
        Nem falou do que sucedera com Brandon; no lhe agradava ouvir disparates da boca de uma menina de dezessete anos!
        - Desculpa...
        - Tchau, Sam.
        Allegra j tinha a sua dose e, depois de desligar e de refletir um pouco, resolveu telefonar a Alan, mas o amigo no estava em casa e ningum respondeu.
        Gostaria de trocar impresses com ele acerca do que acontecera. Alan no simpatizava com Brandon, mas era sempre justo, e tambm queria falar-lhe de Jeff, 
e ver se ele julgava que ela estava louca por se sentir to atrada por um homem que era praticamente um desconhecido.
        Por volta do meio-dia, estava de tal modo esgotada que no conseguia pensar como devia ser, por isso desistiu e deitou-se na cama. Ningum lhe telefonou 
e a campainha da porta no tocou. Brandon nem sequer ligou para saber se ela chegara bem de Nova Iorque. Acordou seis horas mais tarde. L fora j escurecera outra 
vez. Sentia-se como se tivesse um peso de dez toneladas em cima do peito e uma bola de boliche no estmago. Deixou-se ficar deitada durante muito tempo, a olhar 
para o teto, pensando em Brandon, e, ao recordar o que acontecera, as lgrimas rolaram-lhe lentamente pela face. A noite anterior fora desastrosa para ela, e nem 
sequer sabia o que faria. No queria continuar, nem recomear, nem voltar a confiar em ningum. Talvez Jeff fosse igual aos outros. Era s o que conseguia arranjar, 
homens que a evitavam e a magoavam, que no davam nada de si prprios e acabavam por fugir. O nico homem na sua vida que nunca a magoara nem fugira dela era Simon 
Steinberg. Era o nico em quem podia confiar e que se atrevia a amar. E tinha a certeza que ele nunca a trairia.
        Mas agora teria de se confrontar com Brandon. A situao era to desagradvel que nem suportava pensar nela. No queria ver a cara dele, sobretudo os olhos, 
quando ele  mentisse, odi-lo-ia por isso!
        Nessa noite nem se deu ao trabalho de comer e deixou-se ficar deitada, alternando as lgrimas com o sono. Meditou muito e s no dia seguinte, que era domingo, 
 que se levantou. Quando acordou, parecia que tinha levado uma sova; o corpo doa da cabea aos ps, nem sabia bem por que, estava magoada por fora e por dentro 
e continuava a sentir o mesmo peso no peito. No desejava conversar com ningum, e, quando Carmen ligou, nem sequer atendeu. Carmen fartou-se de rir, sinal de que 
estava bem. Allegra no atendeu um nico telefonema seno quando Brandon falou, s quatro da tarde de domingo.
        Levantou o fone assim que o ouviu; queria acabar com aquela situao. Ele dissera que podia ir ter com ela nessa noite, quando chegasse de So Francisco.
        - Ol, Brandon - disse, com calma.
        A mo tremia como vara verde, mas a voz no a traiu
        - Ol, querida, como est? Como foi o vo de Nova Iorque?
        - Bom, obrigada.
        Mostrou-se fria, mas no zangada, e ele pensou que estava distrada com o trabalho. s vezes sucedia o mesmo com ele, e por isso no estranhou. Telefonei 
na sexta-feira  tarde, mas ainda no tinha chegado continuou ele num tom descontrado. 
        - Recebi a mensagem. Onde est? Allegra comeava a ficar mais tensa. 
        - Ainda me encontro em So Francisco - explicou ele sem dificuldade. Passei uns dias formidveis com as meninas. Agora que o caso est resolvido, sinto que 
me tiraram um grande peso das costas.         
        -  timo! E, aparentemente, o fim-de-semana no ficara atrs... Ainda bem. Quando voltas para Los Angeles? 
        - Pensei em ir no vo das seis. Posso aparecer a por volta das oito.
        - Est bem assentiu, sentindo-se como um autmato. Por fim, ele percebeu que se passava qualquer coisa de anormal.
        - H algum problema? No se mostrou preocupado, mas surpreendido. Em geral, ela era to alegre! Ainda est cansada da viagem?
        - Sim, um pouco. Na verdade, nunca se sentira to fatigada na sua vida. At logo.
        - At logo.
        Brandon hesitou um pouco, como se sentisse que devia dizer mais qualquer coisa do que era habitual, e, por uma vez, disps-se a dar um pouco de si. Era muito 
hbil quando queria disfarar.
        - Allegra... Tive muitas saudades suas.
        - Tambm senti - respondeu ela, com os olhos marejados de lgrimas. At logo.
        - Quer ir jantar fora?
        Allegra ficou admirada com a energia dele depois de um fim-de-semana com a Miss Camisola Transparente, ou talvez se tratasse de uma chama antiga e no precisasse 
de tanto zelo como ela julgava.
        - Por acaso, prefiro ficar por aqui.
        No podia dizer-lhe o que queria num restaurante nem em qualquer outro lugar pblico. As quatro horas seguintes pareceram-lhe interminveis: precisava tirar 
aquele peso do peito o mais depressa possvel, para seu prprio bem.
         tarde foi dar um grande passeio a p e telefonou para os pais. Disse  me que tinha que ir ao escritrio e ficar estudando uns contratos at tarde.
        - No domingo? Isso  ridculo! - retorquiu Blaire, preocupada com ela. A filha trabalhava de mais e parecia exausta.
        - Estive ausente durante uma semana, me. Apareo a um destes dias.
        - Tome cuidado, insistiu Blaire, que, excepcionalmente, no perguntou por Brandon.
        Allegra ficou-lhe grata. Jantou um iogurte e deu uma olhadela ao noticirio, na televiso, mas depressa concluiu que nem sabia o que estava vendo e acabou 
por se ir deitar no sof, esperando. s oito e quinze ouviu-o subir a rampa e, quando o sentiu enfiar a chave na fechadura, sentou-se. Dera-lhe a chave h um ano.
        Brandon tinha um ar feliz e descontrado. Sorriu-lhe, aproximou-se dela e abraou-a, mas Allegra evitou-o completamente e surpreendeu-o ao levantar-se para 
cumpriment-lo. Recuou um passo para observ-lo melhor e procurou-lhe os olhos, mas no encontrou respostas s suas perguntas.
        Brandon ficou chocado. Em geral Allegra era to meiga e simptica que se admirou por ela evitar seu abrao. Durante algum tempo, Allegra no disse uma palavra, 
e ficaram olhando um para o outro em silncio.
        - H algum problema? - perguntou ele, por fim.
        - Eu acho que sim. Voc, no?
        Allegra no disse mais nada, mas reparou que um msculo do pescoo dele se retesara assim que ficara de sobreaviso.
        - O que isso quer dizer?
        - Talvez voc deva explicar-me. De repente, tenho a sensao que se passaram vrias coisas que eu no sabia, Brandon. Coisas de que devia ter me falado.
        - Por exemplo?... Ficou olhando para ela, j um pouco irritado, mas Allegra sabia que se tratava de uma defesa; fora apanhado e apercebeu-se disso antes 
de ela continuar a conversa. 
        - No sei do que est falando!
        Afastou-se para o outro lado da sala e, sem tirar os olhos dele, Allegra voltou a sentar-se.
        -  claro que sabe! Voc sabe muito bem do que eu estou falando, s no sabes exatamente o que eu sei, alis, nem eu. E  isso que quero saber agora! Quantas 
vezes e h quanto tempo? Com quantas mulheres tem ido para a cama? Anda enganando-me h dois anos ou comeou h pouco tempo? Quando  que foi, Brandon? De repente, 
lembro-me de todas as vezes que foi a So Francisco, que me disse que queria estar s com as meninas ou que tinha de conversar com a Joanie. Isso para no falar 
da tua ida a Chicago  e do acordo que teria te levado a Detroit... O que vem a ser isto? Encarou-o com frieza; de repente, todo o sofrimento dos dois ltimos dias 
se transformou em gelo. Por onde comeamos?
        - No fao a mnima idia do que est falando -  disse ele, tentando faz-la sentir-se ridcula, mas empalideceu e sentou-se, e Allegra reparou que tinha 
as mos tremendo quando acendeu um cigarro.
        - Isto deve deix-lo muito nervoso. Era como eu me sentiria, se estivesse no teu lugar continuou, sem tirar os olhos dele. A verdade  que no percebo o 
objetivo. Porque haveria de se incomodar? Nem sequer somos casados... Porque me enganou? Porque no telefonou na vspera e esclareceu tudo?
        - De que est falando? - insistiu Brandon, fingindo que no percebia. Gostaria de fazer sentir que estava a tresvariar, mas no se atreveu, pois percebeu 
logo que ela estava furiosa.
        - Estou falando do teu fim-de-semana no Fairmont. Com certeza que no quer me obrigar a dizer mais nada...
        Allegra nem imaginava como estava bela, com o cabelo louro cado sobre os ombros, umas  jeans e uma camiseta azul-marinho.
        - O que significa tudo isto?
        Brandon representava a farsa at ao fim, e Allegra olhou para ele com um desprezo total.
        - Muito bem, se quer eu que seja um pouco mais explcita... Se eu estivesse no seu lugar, acho que no faria o mesmo. Telefonei para o teu gabinete na sexta-feira, 
e a tua secretria disse-me que o julgamento terminara e que ia ver suas filhas em So Francisco. Estpida como sou, resolvi fazer uma surpresa e troquei a minha 
passagem.
        Brandon empalidecia  medida que ela falava, mas continuava aparentando calma e  fumando o seu cigarro, franzindo o sobrolho.
        - Peguei o avio para So Francisco - prosseguiu Allegra. O vo estava atrasado, mas poupo todos esses pormenores. Cheguei ao Fairmont por volta das onze 
e meia de sexta-feira e pensei que faria uma surpresa indo encontrar-me com voc. Deram-me a chave do teu quarto quando eu disse que era a Senhora Edwards.
        Brandon ficou aborrecido e apagou o cigarro.
        - No deviam ter feito isso!
        - Creio que no, concordou Allegra tristemente. A histria no era agradvel, e a fazia reviver tudo. De qualquer modo, entrei no quarto, e, pesando os prs 
e os contras, acho que tive sorte: voc e a sua amiga tinham sado. A princpio, julguei que me enganara, mas depois reconheci a sua pasta e o seu casaco. Mas no 
reconheci tudo o resto. No era meu, nem da Nicky, nem da Stephanie, nem da Joanie. De quem era ento, Brandon? Devo dar-me ao trabalho de perguntar, ou ficamos 
por aqui e esquecemos tudo?
        Olhou para ele, sem se levantar. Brandon encarou-a, em silncio,  procura das palavras para responder. Durante muito tempo, no as encontrou.
        - No tinha nada que ir l, Allegra - disse, por fim. 
        Ela ficou atnita. Nem podia acreditar no que estava ouvindo!
        - Por qu?
        - No foi convidada. Pensando melhor, talvez tenha tido o que merecia. Eu no venho a sua casa quando est fora em servio. No pertencemos um ao outro, 
no somos casados; temos direito  nossa prpria vida.
        - Ai sim? - Allegra ficou olhando para ele, pasmada. Julguei que fssemos mais ou menos namorados. Ou isso pertence ao passado. Se no vivemos juntos, ento 
o que somos? Pensei que ramos ambos monogmicos, mas parece que no!
        - No devo explicaes, no sou casado com voc! - retorquiu Brandon, levantando-se.
        - No, no  -  disse ela, observando-o.  casado com outra pessoa.
        - Isso  que te incomoda, no ? O fato de eu ter mantido a minha independncia No sou propriedade sua, nem de ningum! No  minha dona, Allegra! Nunca 
ser, nem voc, nem a sua famlia, nem ningum! Eu fao apenas o que quero!
        Allegra nunca compreendera a extenso do ressentimento de Brandon, jamais imaginara que era isto que ele sentia.
        - Nunca quis que fosse minha propriedade! Eu s desejava te amar e talvez vir a ser sua mulher.
        - No estou interessado nisso! Se estivesse, teria me divorciado. Mas nunca o fiz. No percebeu?
        Allegra no s se sentia magoada como estpida. A mensagem fora clara, tal como afirmara a Dr. Green, e ela a ignorara; no quisera ouvi-la, tal como no 
queria ouvi-la nesse instante. Porm, estavam ambos furiosos e, finalmente, tudo fora esclarecido. Era um momento muito doloroso.
        - Voc se aproveitou de mim! - exclamou do outro lado da sala, em tom de acusao. Mentiu, me enganou! No tinhas o direito de fazer isso! Eu fui decente 
com voc, Brandon, isso no  justo!
        - No sei o que  ser justo. Quem  que conhece que seja justo neste mundo? No me venha com essa conversa! Tem que aprender a olhar por voc, Allegra!
        - Foi para a cama com outra mulher e me disse que estava com as suas filhas! Que porcaria  ser essa?
        -  a minha vida, que s a mim diz respeito, so as minhas filhas! O que voc sempre pretendeu foi meter o nariz em tudo! Eu nunca quis, e voc sabia!
        - No, no sabia - replicou ela, queixosa. Nunca percebi isso. E talvez devesse ter explicado antes de chegarmos a este ponto. Desperdiamos dois anos da 
nossa vida!
        - Eu no desperdicei nada - disse ele, complacente, fiz exatamente o que quis.
        - Sai da minha casa! - exclamou Allegra, olhando para ele e falando a srio. Voc  uma pessoa miservel, um mentiroso, um impostor, e eu  que tenho agentado 
o teu peso morto emocional nos ltimos dois anos! No d nada a ningum, nem a mim, nem aos seus amigos, nem s pessoas que conhece, nem mesmo quelas por quem finge 
interessar-se! Nem sequer d nada s tuas filhas! Est muito preocupado que algum dependa de voc, te faa sentir alguma coisa ou te pea um compromisso!  um arremedo 
pattico de um ser humano! Agora, saia da minha casa!
        Brandon hesitou por instantes, olhando para o quarto dela. Allegra levantou-se, encaminhou-se para a porta principal e abriu-a.
        - Ouviu o que eu disse? Sai. No estou brincando.
        - Acho que ainda tenho algumas roupas no teu quarto
        - Eu envio-as pelo correio. Adeus
        Allegra ficou  porta,  espera que ele sasse. Brandon passou por ela como se quisesse estrangul-la, sem um beijo nem um pedido de desculpa, um ltimo 
olhar, uma ponta de remorso ou sequer um adeus. Era completamente insensvel e as coisas que lhe dissera tinham-na deixado destroada. Ao ouvi-lo Allegra percebera 
que nunca lhe havia sido fiel e que sempre fizera o que queria. Brandon fora egosta e toda a pacincia e ternura do mundo no chegariam para modific-lo. E o pior 
tinham sido as palavras que nunca escutara da boca dele, o fato de no a ter amado. Porm, a sua atitude provara que a Dr. Green tinha razo, e Allegra no percebia 
porque tinha sido to estpida.
        Depois que ele saiu, sentou-se e ficou pensando durante muito tempo, por fim, desatou a chorar. Brandon era realmente um miservel e um egosta, mas durante 
dois anos insistira em convencer-se que se amavam e doa-lhe terrivelmente ter-se enganado a respeito dele. Nem sequer se atreveu a telefonar  Dr. Green em busca 
de conforto, pois no a queria ouvir dizer que cometera o mesmo erro outra vez, e tambm no desejaria escutar da boca da me que o seu afastamento era uma bno. 
Sabia agora que estava melhor sem ele, mas ainda lhe doa muito pensar que fora usada e enganada. Brandon estivera desinteressado nela e admitira-o claramente, sentado 
no sof, fumando um cigarro e destruindo o que restava dos seus sentimentos. Allegra precisava de um ombro amigo para desabafar, algum a quem confessar que tudo 
aquilo era injusto, que ele era um filho da me, mas no tinha ningum. Estava sozinha tal como se encontrava quando o conhecera, rejeitada, s, abandonada pelo 
seu ltimo amante. Estava convencida de que aprendera a lio desde ento, mas aparentemente enganara-se, e isso era o pior. Nesse momento no era possvel esconder 
a verdade
        Deitou-se na cama e ali ficou durante muito tempo depois que Brandon saiu, pensando nele, convencendo-se de que era melhor assim, lembrando-se do que sentira 
no quarto do Fairmont, mas, ao olhar para a fotografia deles em Santa Brbara no ano anterior, quando as coisas corriam bem e estava to apaixonada por ele, teve 
uma sensao de perda incomensurvel.
        Por alguns momentos perguntou a si prpria se Brandon voltaria a telefonar, se  manifestaria o seu arrependimento, se reconheceria que tinha sido injusto 
para com ela, mas j passara duas vezes pelo mesmo, e ningum tomara essa atitude. Eles desapareciam depois  deixarem-na destroada e atiravam-se para os braos 
de outra qualquer. Allegra vira  dois anos da sua vida sarem pela porta fora com Brandon Edwards.
        Mais tarde, teve de fazer um grande esforo para levantar e apagar as luzes. Olhou l para fora e pensou nele. Sabia que podia ter telefonado a Jeff e dizer-lhe 
que estava livre, mas no quis. Precisava de tempo para fazer o luto de Brandon. Por muito que ele no prestasse nem fosse querido da sua famlia, continuava a am-lo.















CAPTULO 9

        Na segunda-feira depois da chegada de Nova Iorque, quando foi trabalhar, parecia que tinha passado por uma prensa. Estava plida e com um ar cansado, e Alice 
comentou que parecia exausta e mais magra.
        - O que lhe aconteceu? - perguntou a secretria discretamente.
        Allegra encolheu os ombros; a situao continuava a ser muito penosa. No podia deixar de pensar como fora tola. H quanto tempo Brandon estaria enganando-a? 
Parecia uma atrasada mental! Ao longo do dia, porm, comeou a perceber que, apesar de o seu orgulho ter sido ferido, no sabia exatamente at que ponto estava destroada 
nem sequer qual a dimenso do amor que dedicara a Brandon. Isso  que era estranho. Sentia-se triste, mas no lamentava que tudo tivesse acabado. Durante a ltima 
semana em Nova Iorque questionara a sua relao com ele e comeara a prestar ateno nas coisas de que as outras pessoas falavam, a distncia, o desinteresse, a 
falta de intimidade, a indisponibilidade, que j no era surpresa, tivesse ele dez namoradas ou apenas mais uma. Nunca saberia quantas tinham sido, nem qual a seriedade 
dessas relaes, mas o fato de elas terem existido no s a irritava como a fazia sentir-se ridcula.
        No entanto, por volta do meio-dia, estava to atarefada com o trabalho que se acumulara que j nem pensava em Brandon. Bram adorou a tourne que ela e os 
promotores tinham organizado e Malachi telefonou-lhe da clnica de reabilitao para pedir dinheiro, mas, por solicitao da mulher, Allegra recusou.
        - Desculpe, Mal. Faa-me o mesmo pedido um ms depois da sua desintoxicao, e ento falaremos nisso.
        - Para quem voc trabalha, afinal  - perguntou ele, furioso.
        Allegra sorriu, tomando nota para a reunio seguinte.
        - Para voc. Sabe muito bem que precisa fazer esse tratamento!
        Falou tambm da tourne e distraiu-o um pouco, antes de ele ir para a massagem e para a seo de terapia.
        -  Quem me dera ter tempo para essas coisas! Desabafou com Alice, enquanto engolia um iogurte e um caf e examinava um contrato para um filme de Carmen que 
acabara de chegar.
        Parecia fabuloso e Carmen iria ficar deslumbrada: era um filme que a tornaria definitivamente numa grande estrela. Contudo, quando telefonou para casa de 
Carmen, respondeu-lhe a secretria eletrnica.
        - Onde diabo ela anda? -  resmungou Allegra entre dentes.
        Tentara todos os nmeros de que dispunha, mas nenhum respondia. Fez um esforo para se lembrar de outros que Carmen lhe dera, de amigos, ou da av, em Portland. 
Nunca tinha desaparecido daquela maneira e, em geral, telefonava para Allegra uma dzia de vezes por dia, falando dos problemas mais comezinhos. Era um comportamento 
muito invulgar em Carmen Connors. Aparentemente, ningum sabia onde se encontrava.
        S o Chatter publicara uma notcia sobre ela depois da cerimnia do Globo de Ouro, com uma fotografia de Allegra de brao dado com Alan saindo do automvel 
e Carmen atrs. O jornal dava a entender que Allegra era apenas uma acompanhante e que existia um grande romance entre Alan Carr e Carmen Connors. O engraado  
que, por uma vez, talvez tivesse acertado.
        Ao ler aquilo, Allegra lembrou-se de uma mensagem que recebera na secretria eletrnica de sua casa quando estava em Nova Iorque, com um nmero de telefone 
que lhe parecia familiar. Procurou o bloco de apontamentos na pasta: tomara nota do nmero, junto com vrios outros, num pedao de papel e enfiara-o ali. Levou algum 
tempo procurando-o, mas, por fim, o encontrou. Esquecera-o completamente, porm, ao olhar para ele, reconheceu-o de imediato: era o nmero do telefone da casa de 
Alan em Malibu. Carmen estava l, e de sbito Allegra recordou-se que ele lhe oferecera a casa. Sorriu enquanto fazia a ligao. Foi Alan que atendeu.
        No fim-de-semana, Allegra telefonara para o apartamento  de Beverly Hills, mas ele no estava. Nem sequer se lembrara de ligar para Malibu, porque era raro 
o amigo ir para l, nem supusera que pudesse estar l com Carmen.
        - Ol... - disse num tom inocente, como se estivesse telefonando-lhe sem um motivo especial.
        - No me venhas com subterfgios  - disse ele, rindo. Conhecia-a muito bem. A resposta : no tens nada com isso!
        - Qual  a pergunta? - retorquiu ela, dando uma gargalhada.
        Alan parecia feliz e at um pouco pateta. Allegra ouviu algum a conversar e a rir do outro lado e teve a certeza de que era Carmen.
        - A pergunta  'onde  que esteve toda a semana'? A resposta  'no tens nada com isso'.
        - Deixe-me adivinhar... Em Malibu, com algum que ganhou um Globo de Ouro este ano. Acertei?
        - Em cheio. Ela telefonou e deixou o meu nmero, portanto no  um detetive assim to especial. Tinha uma pista.
        - E eu  no a aproveitei. Pareceu que conhecia o nmero, mas s agora vi a quem pertencia. Ento como vai a vida na praia?
        Era bom ouvir de novo a voz de Alan. Allegra tivera vontade de lhe contar o que se passara com Brandon, mas nesse momento no quis falar no assunto, e muito 
menos estando ele junto de Carmen. No gostava de partilhar os seus problemas pessoais com os clientes. Com Alan era diferente, eram amigos desde a infncia.
        - A vida vai tima  - Alan estava radiante, mesmo muito boa...
        Ao dizer isto, inclinou-se e beijou Carmen.
        - No devia estar trabalhando?
        Allegra perdera seus ltimos passos. Fora o agente de Alan na CAA que redigira o ltimo contrato.
        - No tenho inteno de trabalhar durante um ou dois meses. Continuo esperando a deciso final em relao ao filme.
        - Bem, tenho uma grande novidade para a Carmen. Talvez ela te passe  frente!...
        - Mesmo que aceitasse a proposta, Carmen s comearia a filmar em Junho.
        - Onde sero as filmagens?
        Alan tentou mostrar-se despreocupado, mas Allegra percebeu o seu interesse velado.
        - Aqui mesmo em Los Angeles, ao contrrio de voc. Os filmes dele eram sempre realizados em lugares muito distantes. O prximo seria na Sua, mas h pouco 
tempo tinham-lhe proposto outro cujas filmagens decorriam no Mxico, no Chile e no Alasca. Era um grande filme de aventuras, mas prometia ser muito trabalhoso e 
turbulento. O ltimo fora rodado na Tailndia, e dois dubls tinham morrido. Agora com Carmen talvez ele deixasse de fazer o seu prprio trabalho dubl.
        - A Carmen sabe para onde vai?
        - J lhe contei. Ela disse que iria comigo. Pelo menos a Sua era um pas civilizado, ao contrrio da maioria daqueles em que Alan trabalhava.
        - Talvez acabe a tempo de assistir  filmagem do filme dela.
        - Iria certamente ser um grande xito, e Allegra estava entusiasmada com a sua cliente.
        - Posso falar com a Carmen?
        - Ah  assim ? Quinze anos de amizade, um acompanhante para o Globo de Ouro, e agora me pe de lado como se eu fosse um trapo velho!
        - No exatamente - replicou ela, rindo, de repente mais animada do que durante o resto do dia. Ainda se sentia triste e estpida por causa de Brandon, mas 
o fato de ter esclarecido tudo e de se ter confrontado com ele dera-lhe mais fora. Gostaria de contar tudo a Alan, mas ainda no estava preparada para isso. Precisava 
de tempo para admitir perante os outros que Brandon a enganara e que o desmascarara. Mas pelo menos fora ela a acabar. No era mau...
        - Como estava Nova Iorque? Conseguiu bons acordos?
        - Alguns. Foi divertido. Havia montes de neve... E de Patinagem... E de beijos...
        - A neve no tem muita graa em Nova Iorque.
        Alan no percebeu por que motivo  que ela estava to satisfeita.
        - Por acaso, fui patinar.
        - Ai sim? Hum, deve haver alguma coisa nos ar. Teve algum caso com aquele velho escritor de que me falou? Como se chama ele?... Dickens?... Tolstoi?
        - Jason Haverton.  um homem formidvel! No, no tive nenhum caso com o Haverton, idiota, apesar de ter gostado muito dele, mas talvez a idia o agradasse.
        - Os velhos fazem qualquer coisa em troca de sexo, Al. J devia saber isso, com a sua idade.
        - Anda a preparar o terreno?  isso?
        - Antiptica! No te fica bem ser malcriada para o seu namorado do colgio!
        - J no  namorado de ningum, exceto talvez da Carmen.
        Para no falar de milhes de mulheres em todo o mundo, claro, mas eram amigos h tanto tempo que Allegra no teve dificuldade em ignorar este fato.
        - Deixe-me falar com ela, ou tenho de aturar esta conversa a tarde toda? - insistiu, rindo.
        - Alan era impossvel, mas adorava-o.
        - Vou perguntar se ela quer falar com voc. A propsito, quando  que te vemos?
        Alan falava como se Carmen e ele fossem casados, e Allegra gostou de ouvi-lo.
        - Talvez este fim-de-semana, se no tiver mais nada que fazer.
        - Eu fiz a pergunta no singular, e no no plural No inclu o morto.
        - No seja desagradvel para com o Brandon replicou, mais por hbito do que por sentimento. Ela tambm gostaria de ter oportunidade de ser dura para com 
Brandon, mas no estava preparada para falar nesse assunto a Alan.
        - Nunca sou antiptico para com os mortos. Bem, tenta ver se se livra dele antes de irmos jantar. Ou talvez ns fiquemos por aqui. Vou passar para a patroa 
retorquiu, entregando o telefone a Carmen e beijando-a.
        Fez-se um longo silncio e Allegra ficou  espera. 
        Passara nove dias formidveis com Alan, num isolamento total. Houve vrias pessoas do lugar a reconheceram quando foi  praia, mas nenhuma a incomodou. Eram 
mais ou menos to famosas como ela e estavam habituadas  presena de celebridades. Cruzavam-se com Nicholson, Streisand e Nick Nolte quase todos os dias, e com 
Cher, Tom Cruise e Nicole Kidman. Em Malibu, junto de Alan, Carmen Connors encontrava-se entre os seus pares, e a segurana era enorme.
        - Senti a sua falta - disse Carmen, apesar de ter andado muito ocupada.
        - Eu tambm. Nova Iorque estava uma loucura, mas adorei. Vamos a outro assunto: adivinhe o que eu consegui para voc... Allegra estava to entusiasmada que 
parecia uma menina.
        - No sei. O perfume? Falou com eles em Nova Iorque?
        - Falei.  horrvel. Voc iria detest-lo e teria de passar meses para vend-lo. Esquea! No... Fez uma pausa, despertando-lhe ainda mais a curiosidade. 
E que tal um grande,  novo e suculento filme, com um papel que lhe valer o Oscar da Academia? Aposto!
        - Uau! Quem  que entra?
        - Voc! E nomeou mais cinco atores que deixaram Carmen sem flego. E que tal trs milhes de dlares para a vencedora do Globo de Ouro deste ano? Que lhe 
parece?
        - No acredito!
        Carmen correu a dar a notcia a Alan e voltou ao telefone.
        - Voc merece - garantiu Allegra, perguntando a si prpria por que motivo pensava que toda pessoa que conhecia tinha direito de alcanar o melhor, desde 
relaes pessoais a filmes, e ela prpria nunca se considerava digna de coisa alguma. Era uma questo interessante. 
        - Gostaria que voltasse para falar com os produtores - acrescentou amavelmente.
        - Claro. Quando?
        - Diga-me qual a data que lhe convm, e eu marco a reunio. Olhou para o calendrio. 
        - Que tal na quinta-feira?
        - timo! O Alan pode ir?
        - Se ele quiser...
        Alan fez sinal afirmativo a Carmen.
        - Ele diz que sim... E, Allie... Carmen hesitou, mas a questo era importante para ela nesse momento. Talvez da prxima vez eu e o Alan possamos fazer um 
filme juntos.
        - Cus! - pensou Allegra. Seria um acordo de grande monta, e nem sempre era fcil concretizar contratos desse tipo. Alm disso, as americanas, para no falar 
das mulheres de todo o mundo, no iriam gostar que lhes atirassem  cara que o seu smbolo sexual preferido casara, e ainda por cima com Carmen Connors!
        - Podemos falar nisso. As coisas no so assim to simples, mas podemos tentar. Qualquer dia. Se for uma situao que vocs levam a srio...
        O que Allegra no queria era que se definisse um acordo da ordem dos sete ou oito milhes de dlares para ambos, ou mesmo de dez milhes, visto que Alan 
entrava, e depois eles se separassem e se recusassem a entrar no filme ou, pior ainda, que este viesse a tornar-se num fiasco. No precisava de mais dores de cabea.
        - Vamos aguardar algum tempo.
        - Eu sei, est convencida de que acabaremos por nos separar - disse Carmen, compreendendo o ponto de vista de Allegra Mas no. Tenho a certeza!  o homem 
mais incrvel que j conheci - continuou, baixando a voz num tom conspiratrio. No posso viver sem ele.
        - Como vo as ameaas? A situao acalmou?
        - Completamente. Carmen no fora para lado nenhum e, depois de ter ganhado o Globo de Ouro, at os tablides a haviam deixado em paz. Sinto-me to segura 
aqui
        Allegra sorriu. Quem no se sentiria seguro junto de Alan? Sam  que tinha razo, ele era uma 'brasa', e muito simptico.
        - Fico feliz pelos dois - disse Allegra sinceramente
        - Obrigada, Allie. Tudo isto se deve a voc. Quer vir jantar conosco este fim-de-semana para celebrar?
        - Gostaria muito. 
        - Que tal no sbado? No domingo o Alan gosta de ir jogar boliche.
        - Nesse caso, porque no vou no domingo? Adoraria venc-lo!
        - Ento vamos jogar boliche no sbado, se quiser. Mas tem de jantar conosco!
        - Quem  que cozinha? - gracejou. Carmen riu-se.
        - Ns os dois. Ele est me ensinando. E Allie... Carmen deu outra gargalhada nervosa. A sua vida estava apenas comeando. Obrigada pelo filme.
        - Agradea aos produtores, no a mim. Foram eles que me telefonaram. Estou convencida de que vai gostar.
        - Adorei!
- At sbado. A menos que nos encontremos com os produtores antes disso. 
- Telefone-me se precisar de alguma coisa.
        Mas Alan encarregaria de tudo. Carmen s ligara uma vez numa semana e deixara uma mensagem banal. A situao comeava a estabilizar, o que tambm era bom. 
Allegra precisava de algum tempo para si prpria, para lamber as feridas e compreender o que se passara.
        Dedicou a semana inteira ao trabalho e a encontros com os clientes. Carmen e Alan tinham ido a Los Angeles na quinta-feira e o acordo para o novo filme fora 
assinado. Nessa tarde, Allegra foi ao consultrio da Dr. Green, preparando-se para ouvir novas acusaes. Porm, teve uma agradvel surpresa: a psiquiatra ficou 
orgulhosa com o modo como ela gerira a situao e s a censurou por no ter telefonado.
        - Porque no me ligou para conversarmos no fim-de-semana? Essa fase deve ter sido muito dura para voc, sobretudo entre a sua ida a So Francisco e o regresso 
de Brandon, no domingo.
        - Tem razo, mas no havia muita coisa a dizer. O que mais me custou foi pensar que talvez ele sempre tenha feito o mesmo e que eu fui to estpida que nem 
dei por isso. Continuei a pensar que ele precisava de tempo, de espao e de amor, mas a verdade  que no se importava comigo.
        - Talvez ele estivesse interessado em si corrigiu a Dr. Green. Agora Allegra exagerava em sentido oposto, devido  raiva que sentia por ter sido trada 
e por t-lo encontrado com outra mulher Envolveu-se na medida das suas poucas possibilidades. No  muito, Allegra, mas  alguma coisa.
        - Mas porque fui to estpida? Como  que posso ter sido to idiota durante dois anos?
        - Porque quis ser. Voc precisava de companhia e de proteo,  pena  que ele fosse um companheiro to indisponvel e que fosse voc a proteg-lo. Foi um 
acordo muito desigual. E agora? Como est lidando com tudo isto?
        - Sinto-me irritada, estpida, furiosa, independente, inteira, livre, arrependida e, ao mesmo tempo, nada arrependida, e com medo que o prximo no seja 
diferente. Talvez os homens sejam todos iguais, ou pelo menos aqueles com quem me relaciono. Creio que o que me assusta mais  pensar que isto pode acontecer outra 
vez, e outra, e outra, que estou condenada a  me prender a homens que no prestam...
        - No tem de ser assim, e creio que desta vez voc aprendeu alguma coisa.
        A psicloga parecia mais confiante do que Allegra, o que a surpreendeu.
        - O que a leva a pensar dessa maneira?
        - Porque, assim que percebeu o que estava acontecendo, enfrentou a situao e deixou que a relao terminasse, quer tivesse sido ele a acabar ou voc. Mas 
foi voc. Voc desmascarou-o e o Brandon desapareceu, como um verme num buraco. Pelo menos no fingiu que ele continuava a estar disponvel, quando isso no acontecia. 
Foi um grande passo, Allegra.
        - Talvez - concordou, sem grande entusiasmo. E agora?
        - Voc  quem sabe. O que pretende? Seja o que for, est ao seu alcance, se tiver confiana em si prpria  com voc, bem sabe. Pode encontrar uma pessoa 
formidvel, se quiser.
        - Creio que conheci uma pessoa formidvel em Nova Iorque, mas no tenho a certeza - disse Allegra,  cautela.
        Desconfiava de Jeff, agora que voltara. Alis, duvidava de todas as pessoas, e talvez as recordaes que tinha de Jeff no fossem to fantsticas como tinham 
parecido. Se se sentira atrada, era porque ele era igual aos outros.
        - As relaes  distncia so outra maneira de evitar a intimidade lembrou-lhe a Dr. Green.
        Desta vez, Allegra sorriu.
        - Ele tambm trabalhando aqui. Embora seja de Nova Iorque, agora vive aqui.
        A Dr. Green apurou o ouvido.         
        - Que interessante! Fale-me dele.
        Allegra contou-lhe o que sabia e o que vira em Jeff, e o simples fato de lhe falar do passeio de carruagem e do rinque de patinagem deu-lhe a sensao de 
que tudo aquilo era irreal, mesmo aos seus prprios ouvidos, mas tinha saudades dele. No entanto, prometera a si prpria no telefonar, por enquanto, e no o fizera. 
Depois do que acontecera com Brandon, precisava de tempo para a poeira assentar.
        - Por qu? Talvez isso o leve a pensar que voc no est interessada nele disse a Dr. Green para encoraj-la. Parece ser muito simptico e normal. Porque 
no telefona?
        - Ainda no estou preparada. Allegra evitava a idia, e nada do que a Dr. Green disse nessa tarde a convenceu. Preciso de um tempo, depois do Brandon.
        - No, no precisa - replicou a Dr. Green, desarmando-a. Voc levou dois anos  desculpando-o para todas as pessoas, e acabou de passar uma semana em Nova 
Iorque beijando um homem sempre que podia. No me parece que esteja assim to triste por causa do Brandon...
        Allegra sorriu. A psicloga conhecia-a bem.
        - Talvez eu me ande escondendo.
        - Por qu?
        - Por estar assustada, creio eu - confessou Allegra. O Jeff parece to fora de srie que no quero sofrer outra desiluso. E se ele no for o que parece? 
Isso acabaria comigo!
        - No, de modo algum. E se ele for humano? O que acontecer? Ser uma grande desiluso? Prefere-o como fantasia ou como contraponto do Brandon?
        - No sei o que sinto por ele; s sei que, quando estou do seu lado, seria capaz de o seguir at ao fim do mundo. Confiei totalmente nele, e, agora que voltei 
para casa, acho que isso me assusta.
        -  compreensvel, mas ao menos podia v-lo.
        - Ele no me telefonou. Talvez tenha algum.
        - Ou talvez ande atarefado, talvez esteja escrevendo ou receie intrometer-se, por voc ter feito tanto alarido acerca da sua relao com o Brandon. Talvez 
tenha obrigao de lhe participar, pelo menos, que tudo acabou. J seria alguma coisa...
        Mas Allegra preferia esperar e queria ver se ele telefonava.
        E foi o que aconteceu, na sexta-feira. Jeff ligou no fim da tarde, e parecia hesitante quando pediu para falar com ela, como se no soubesse se devia ter 
telefonado para o escritrio. Quando Alice lhe disse que ele estava ao telefone, Allegra respirou fundo e pegou o aparelho com a mo trmula; foi como se tivesse 
comeado uma vida nova no momento em que ouviu sua voz.
        - Allegra?
        - Ol, Jeff. Como est?
        - Agora estou melhor. Eu sei que disse que no telefonaria, por enquanto, mas por voc tenho trepado pelas paredes, por isso conclu que tinha de falar e 
que depois a deixaria de novo em paz algum tempo. Sinto mesmo a sua falta!
        Durante dois anos, Allegra suara para ouvir estas palavras da boca de Brandon, e com Jeff era tudo to fcil! Teve remorsos por no ter telefonado, como 
sugerira a Dr. Green.
        - Tambm sinto a sua falta -  disse ela baixinho.
        - Como andam os seus protegidos, agora que voltou? Esto todos portando-se bem? Ou continua enfrentando ameaas de morte e afugentando tarados e paparazzi 
s quatro da manh?
        - Por acaso tem sido uma semana calma. Exceto na sua prpria vida, mas no se referiu ao assunto. E voc? Como vai o argumento?
        - Muito mal. No estou disposto a trabalhar desde que voltei. Acho que voc me distraiu bastante.
        Seguiu-se uma pausa, e depois Jeff fez-lhe a pergunta que tinha em mente desde que sara de Nova Iorque.
        - Como foi o seu fim-de-semana?
        - Muito interessante -  respondeu ela com frieza. Teremos de conversar sobre isso um dia.
        Allegra no queria falar do assunto no escritrio.
        - Isso me soa a um encontro num futuro muito distante - disse ele tristemente. Esperara toda a semana para telefonar e ela parecia estar to bem nesse momento. 
Morria de vontade de voltar a v-la!
        - No creio - respondeu Allegra tranquilamente. Tentou ser corajosa e lembrar-se das palavras da Dr. Green. O que vai fazer este fim-de-semana?
        Susteve o flego e ficou  espera. 'Oh!, Meu Deus, faz com que ele no seja igual aos outros... '
        - Isso  um convite?
        Jeff estava perplexo. O que fizera ela com Brandon? Mas teve receio de lhe perguntar e de estragar o momento.
        - Podia ser. Amanh vou jantar com uns amigos em Malibu. Quer vir?  uma ocasio muito informal, de jeans e camisetas velhas. Talvez vamos jogar boliche.
        - Adoraria! - Jeff parecia maravilhado. Nem conseguia acreditar que ela o convidara. 
        - Posso perguntar quem so os amigos, s por curiosidade, para no fazer figura de parvo quando l chegarmos? Sabia o tipo de pessoas com quem ela se dava 
e tinha razo.
        - Alan Carr e Carmen Connors, mas no pode dizer a ningum que os viu juntos. Esto escondidos em Malibu, para fugirem aos tablides.
        - Tenho a certeza que consigo guardar segredo - prometeu Jeff, rindo. Ningum lhe perguntaria tal coisa. Parece que vai ser uma noite deliciosa!
        - No, no - disse Allegra, bem disposta. Eles so os dois uns pssimos cozinheiros, mas boas pessoas. Com sorte, vo comprar macarro. Eu mesma vou fazer 
essa sugesto. A Carmen ainda no aprendeu a cozinhar e o Alan anda ensinando-a. Deve ser terrvel!
        Deu uma gargalhada, feliz s por estar falando com ele, e ficaram conversando durante algum tempo sobre a semana que tinham passado um sem o outro.
        - Estava tudo bem quando voc chegou? - perguntou Jeff, sinuoso.
        Allegra respondeu afirmativamente, embora tivesse percebido ao que ele se referia: queria saber de Brandon. Porm, parecia-lhe to estranho contar o que 
se passara pelo telefone! A idia no agradava. Seria mais fcil falarem do assunto no sbado, quando fossem para casa de Alan.
        A conversa durou mais alguns minutos e depois desligaram. Allegra passou o resto da noite pensando nele. Tencionava ir jantar com os pais nesse dia, mas 
eles tinham sado, por isso foi para casa, fez uns ovos mexidos e ficou pensando em Jeff e em Brandon. No queria voltar a cometer o mesmo erro, no estava disposta 
a iludir-se e a enganar-se a si prpria.
        No sbado, sentia-se muito calma quando Jeff chegou a sua casa, impecvel, com um jeans desbotado, mas bem engomados, uma camisa branca grossa e um casaco. 
Continuava  vestindo-se  moda do Leste, o que ela adorava. Parecia sado de um anncio de Ralph Lauren. Ela vestira umas jeans e uma blusa branca e pusera uma malha 
vermelha sobre os ombros.
        A princpio sentiu-se um pouco tmida na presena dele. Jeff olhou  sua volta, admirando a casa. Era como se recomeassem tudo de novo, at que ele a puxou 
para os seus braos e a beijou.
        - Assim  melhor  - disse Jeff, baixinho. Esperei muito por isto.
        - Nove dias  - respondeu ela, num sussurro. Jeff abanou a cabea.
        - Trinta e quatro anos. H muito que estou  sua espera, Srt. Allegra Steinberg.
        - Porque se demorou tanto? -  perguntou ela.         
        Jeff abraou-a e sentaram-se no sof admirando a vista. Allegra sentia-se completamente  vontade com ele, como se nunca se tivessem separado.
        - No quero ser indelicado  - disse Jeff por fim, com cautela.
        Allegra foi buscar uma Coca Diet na cozinha e ele seguiu-a, sempre olhando  sua volta, mas no havia sinais de Brandon.
        - Onde est ele?
        - Quem?
        Allegra no percebeu a pergunta. O encontro com Alan e Carmen era em Malibu, e no em sua casa.
        - O Brandon. O meu rival. Jeff tinha curiosidade em saber o que acontecera e qual o motivo por que ela estava disponvel numa noite de sbado: no lhe dera 
qualquer explicao ao telefone. Talvez Brandon estivesse em So Francisco. Ele foi-se embora?
        - Para sempre. Allegra sorriu com malcia. Parecia uma menina mimada que tivesse feito algo que no devia. Foi embora, sim. Acho que me esqueci de dizer.
        Jeff ficou olhando para ela e em seguida pousou o copo no balco de granito.
        - Espere a. Ele foi-se embora... Saiu de cena... Adeus... E voc no me disse nada? No acredito! Sua viborazinha! Abraou-a de novo e apertou-a com fora. 
Como se atreve a fazer-me uma coisa dessas? Desde ontem, quando telefonei e me convidou para jantar, que tenho tentado adivinhar. Porque no ligou para mim? Julguei 
que era esse o nosso acordo: telefonava-me se acontecesse alguma coisa.
        - Passou-se muita coisa desde que eu voltei, mas precisava de algum tempo para arrumar as idias antes de telefonar.
        Jeff compreendeu, mas passara a semana sofrendo por causa dela. Teria gostado muito de saber que rompera com Brandon, e agora tinha mil e uma perguntas para 
lhe fazer.
        - Qual a pulhice que tenho a agradecer-lhe, se alguma vez o vir?
        - Aparentemente, vrias de que eu no tinha conhecimento, mas a maior aconteceu quando fui a So Francisco e me apresentei no Fairmont, na sexta-feira  
noite. Essa foi boa! Ele estava com uma mulher! De repente, percebi que sempre fizera o mesmo, e ele no deixou de confirm-lo.
        - Bom tipo! Grandes princpios! Aprecio isso num homem! Boa fibra moral!
        Jeff estava brincando com ela, mas, no ntimo avaliava o que Allegra sofrera. Que humilhao! Que crueldade! No entanto, curiosamente, sentia-se satisfeito 
por isto ter acontecido, e to depressa. Era o destino.
        - O problema  que eu tambm gosto de todos esses belos princpios, como a tica, a fidelidade, coisas enfadonhas que hoje j no esto na moda  - comentou 
Allegra, e parece que me iludo, convencendo-me de que as outras pessoas os tm. Infelizmente, costumo enganar-me. Parece que quase nunca acerto. A verdade  que, 
at agora, tenho escolhido sempre errados.
        - Talvez as coisas tenham mudado, finalmente  - disse Jeff, puxando-a mais para si outra vez, talvez o seu golpe de vista tenha melhorado.
        - Melhorou?... - perguntou Allegra com medo, desejosa de respostas e de confirmaes.
        - O que acha?
        - Estou perguntando. No creio que consiga passar por isso de novo,  a terceira vez que me acontece. Trs fracassos! No posso mais!
        - No, Allegra  - disse ele, obrigando-a a virar o rosto para olhar para ela. Voc est apenas comeando,  um beb. Isso foi tudo para ganhar experincia. 
Agora vamos ao que interessa. Desta vez vai conseguir... Bem merece...
        Os olhos de Allegra encheram-se de lgrimas, e dessa vez, quando ele a beijou, retribuiu o beijo do fundo do corao, sentindo que at a desperdiara os 
seus sentimentos. Mas Jeff tinha razo: dessa vez ia tudo dar certo. Ele era sincero e no a enganaria, tinha a certeza.
        Deixaram-se ficar sentados durante algum tempo e depois Allegra perguntou-lhe se queria ver a casa. Tinha a impresso que ele passaria ali muito tempo. Era 
uma sensao estranha, como se estivesse mostrando o seu novo lar. 
        - Adorvel... - disse Jeff, admirando o que ela fizera, o ambiente simples e confortvel. Allegra tambm gostava muito da sua casa e sentia-se feliz por 
isso. Pouco depois, partiram para Malibu. Levaram quarenta e cinco minutos a chegar na casa de Alan. No caminho, Allegra falou sobre ele e das travessuras que ambos 
tinham feito juntos ao longo dos anos, e tambm de Carmen, mas, mesmo assim, Jeff ficou sem fala quando os viu. Carmen era de uma beleza invulgar, mesmo de camiseta 
e jeans. Tinha a mesma sensualidade sufocante de Marilyn, mas era muito mais bela, muito mais fascinante, e Jeff no estava preparado para conhec-la. Quanto a Alan, 
era o mesmo que estar olhando para uma tela de cinema, mas com a vantagem de o ator estar vivo e a fit-lo, rindo com aqueles dentes perfeitos, os olhos azuis incrveis 
e as feies to bem modeladas. Lembrou-se de Clark Gable. Mas que par! Imaginou o que diria a imprensa quando soubesse. Especialmente os tablides...
        Os anfitries levaram-nos para dentro. Alan tinha feito tamales e guacamole e serviu uma tequilla a Jeff mas, apesar de se mostrar muito hospitaleiro, notava-se 
que estava um pouco confuso ao olhar para o companheiro de Allegra. Por fim, quando se viram a ss, no se conseguiu conter, e ela fitou-o com uma expresso maliciosa.
        - O que se passa, sua marota? Quem  ele? Onde est o soda? - Alan nunca se referia a Brandon em termos agradveis ou amveis, porque nunca gostara dele, 
mas desta vez Allegra no disse nada em sua defesa, limitou-se a sorrir. Este me agrada. O que fez ao outro? Matou-o?
        - Mais ou menos. Estava me enganando h dois anos, mais coisa, menos coisa explicou, resumidamente. Fui encontr-lo com uma das namoradas no Fairmont, no 
fim-de-semana passado. Por acaso, no estavam no quarto, mas dei com o soutien, as calcinhas e a camisola transparente dela espalhados por todo o lado.
        - Porque no me disse, minha parva?
        Alan ficara magoado por ela no ter telefonado.
        - Precisava de tempo para me habituar  idia -  respondeu Allegra, muito sria. Liguei uma vez, mas  voc no estava em casa, e eu sentia-me to mal que 
no me agradaria falar do Brandon com ningum. Passei a semana  lambendo as feridas.
        - D graas a Deus! - disse Alan, com ar convicto, servindo-lhe uma soda. Allegra no queria tequilla. Esse sujeito a faria infeliz para o resto da vida, 
acredite.
        Allegra sabia agora que ele tinha razo; nesse momento, Carmen e Jeff foram ter com eles.
        - O que esto vocs tramando? -  perguntou Jeff, enlaando Allegra, que esboou um sorriso tmido. O que se passa aqui? Posso confiar neste homem? Diz a 
verdade, agora que eu sei ao que me arrisco. Receio no ter hipteses de competir com ele. Ser que constitui uma ameaa?
        Alan riu e apressou-se a sosseg-lo.
        - No fui nos ltimos quinze anos. Ela era muito louco aos catorze, mas s lhe consegui roubar meia dzia de beijos lambuzados. Espero que, pelo menos nisso, 
tenha melhorado  - disse Alan, virando-se para Allegra.
        - No tenho nada que agradecer. Voc arranhava-me com a barba e deixava sempre em confuso com a minha me, safado!
        - E continua a fazer o mesmo, sabe? - afirmou Carmen, olhando para Allegra com ar compreensivo.
        Era divertido estarem juntos, os quatro, e Allegra nunca vira nenhum deles to feliz.
        Alan fez tacos e tostadas para o jantar e Carmen preparou arroz-espanhol e uma boa salada.  sobremesa houve sorvete com creme de chocolate quente, e os 
quatro queimaram malvas na lareira, como se fossem crianas. Depois, foram dar um passeio pela praia, riram-se, conversaram e brincaram, entrando e saindo do mar, 
enquanto as ondas se espraiavam suavemente na areia, ao luar. Foi um sero encantador.
        Quando voltaram para casa, Carmen sorriu para Allegra e depois para Alan. Fitou-o com os seus grandes olhos azuis e segredou-lhe qualquer coisa. Perguntou 
se podia dar a notcia, e ele hesitou, olhando para a sua velha amiga e para Jeff, sem saber se ela aprovaria e se ele seria digno de confiana, mas concluiu que 
conseguiria enfrentar os dois, e Carmen mal conseguiu conter o seu entusiasmo.
        - Vamos casar em Las Vegas no Dia de So Valentim  - anunciou.
        Allegra fingiu que desmaiava e caiu para trs.
        O sonho de Cupido e o pesadelo de um advogado! Olhou para Alan com ateno, tentando apurar se aquilo era o que ele verdadeiramente desejava, e ficou convencida 
de que sim. Alan parecia seguro de si prprio e de Carmen, e Allegra nunca o vira to feliz. Com trinta anos, devia saber o que lhe convinha. 
        - Os jornais vo acabar com vocs! Espero sinceramente que usem outros nomes e vo incgnitos: ponham perucas, pintem o rosto, faam qualquer coisa. Vai 
ser a notcia do sculo! O casamento da princesa Di e do prncipe Charles no foi nada ao p disto! Por favor, tenham cuidado.
        - Claro que sim  - garantiu Alan, e de sbito teve uma idia: Quer ser a nossa dama de honra, ou testemunha, ou seja l o que ? Em seguida olhou para Jeff, 
afvel. Voc tambm pode vir, se conseguir atur-la at l. Gostaramos muito que estivesse presente.
        Alan fora generoso e Jeff ficou comovido com as suas palavras. Eram pessoas afetuosas e sinceras e passaram uma noite fabulosa. No tinha sido pretensioso, 
nem intelectual, nem parecido com os sales de Nova Iorque, fora muito mais p no cho, o que lhe agradara. Viera para a Califrnia precisamente por isso, mas esta 
gente era especial. Jeff gostava de ambos, e no conseguira tirar os olhos de Allegra durante toda a noite. Ainda no se convencera da sorte que tivera pelo fato 
de ela haver rompido to depressa com Brandon.
        Passaram uma hora a falar do casamento, que se realizaria da a duas semanas. Alan queria levar Carmen  pesca na Nova Zelndia, na lua-de-mel. Rodara l 
um filme e adorara aquelas paragens. E ela queria ir a Paris, que ainda no conhecia.
        - Eu levo-o  Nova Zelndia, Jeff  - disse Alan, esfuziante, acendendo um cigarro. As pequenas podem ficar em casa enquanto ns vamos s compras.
        Mas, no meio das brincadeiras, Allegra no deixou de lembrar mais uma vez que tivessem cuidado. A imprensa faria da vida deles um inferno assim que descobrisse. 
Era fundamental que ningum desconfiasse.
        - Como  que vocs vo para Las Vegas?
        - Pensei em irmos de carro  - respondeu Alan, com sentido prtico.
        - Porque no alugo um trailer? O Bram usa um dos grandes. Vou ver se consigo arranj-lo.  o meu Presente!
        Custaria cerca de cinco mil dlares irem nele para Las Vegas, mas o trailer era fabuloso e valia bem o dinheiro. Era como conduzir um iate ou um avio particular 
E, se o alugasse em seu nome, ningum desconfiaria de nada. 
        - Parece divertido  - admitiu Carmen. Alan cedeu e agradeceu  sua velha amiga
        Jeff e Allegra ajudaram-nos a arrumar a cozinha, puseram a loua na mquina, para a empregada tratar dela de manh, e foram-se embora s onze horas. A Lua 
brilhava no cu. Jeff perguntou a Allegra se queria passar pela casa dele para conhecer, ficava apenas a alguns quarteires. A princpio, Allegra hesitou, mas depois 
cedeu. Ainda era tudo muito novo para ela, e, de certo modo, sentia-se mais tmida com ele naquele momento do que em Nova Iorque. Fora tudo to rpido. Tinham de 
aproveitar o mximo, enquanto era possvel. Parecia que viviam um romance de sonho, mas temia que, de sbito, a realidade destrusse todas as suas esperanas. Allegra 
sabia que ambos levavam a srio a situao, mas era um pouco assustador, e ainda no se convencera de que Alan e Carmen iam casar
        - Apresentei-os h duas semanas  - explicou a Jeff, incrdula, ao pararem junto de uma casinha de praia bem conservada.
        - Isto  Hollywood. - exclamou ele, dando uma gargalhada.
        A verdade  que Alan e Carmen pareciam realmente talhados um para o outro. Casarem um ms depois de se conhecerem era arriscado, mas Jeff tinha a sensao 
de que a sua relao iria resultar, assim como Allegra.
        - So ambos pessoas formidveis, embora eu preferisse que tivessem andado um pouco mais devagar
        A deciso no a surpreendia vinda de Carmen, mas sim de Alan. Em geral, era to cauteloso. Talvez tivesse percebido que era a deciso certa para ele
        - Voc vai mesmo ao casamento? -  perguntou a Jeff, seguindo-o em direo  porta.
        Jeff abriu-a e virou-se para Allegra, sem saber se havia de lhe pegar ao colo e entrar. Gostaria de faz-lo, mas tinha receio de assust-la com a seriedade 
do gesto, sobretudo depois de os amigos terem resolvido casar-se aps quatro semanas de namoro.
        - Claro, se voc quiser. Nunca fui a Las Vegas...
        - Vai ver! - exclamou Allegra, rindo-se. Ao lado de Las Vegas, Los Angeles parece Boston.
        - Estou ansioso  - disse ele, soltando uma gargalhada. Jeff estava ansioso por vrias coisas, por tudo o que queria fazer e provar-lhe. Estavam apenas no 
princpio.
        Mostrou-lhe a casa: era pequena e asseada, e estava muito arrumada para um escritor. Havia um tapete de sisal no cho e sofs confortveis forrados de sarja. 
Jeff alugara-a e, tal como ele, tambm a casa tinha um cunho muito oriental. Fazia-lhe lembrar Cape Cod, ou as casas de Vero de New England. Era perfeita para ele, 
um timo lugar para escrever ou para ler um bom livro num dia cinzento, em frente  lareira, sentado numa das poltronas de couro. No quarto, havia uma grande cama 
de colunas feita de toras de madeira, muito  moda do Oeste.
        O banheiro era enorme, com uma banheira de mrmore com hidromassagem, e a cozinha rstica ampla, com uma mesa onde cabiam doze pessoas. Alm disso, havia 
um escritrio e um pequeno quarto de hspedes. Era perfeita.
        - Como  que a descobriu?
        Allegra estava impressionada: arranjar uma casa em Malibu era quase o mesmo que encontrar uma agulha num palheiro.
        - Por sinal, pertence a um amigo que voltou para o Leste no Vero passado. Ele ficou contente por me alugar e eu fiquei satisfeito por a ter conseguido. 
Foi para Boston, e creio que acabar por vend-la. Talvez eu a compre. Por enquanto,  alugada. 
        Allegra olhou  sua volta, com um sorriso; a casa agradava a ambos e era muito diferente da de Alan, que lembrava mais Los Angeles e tinha um toque do Sudoeste.
        Foram dar um passeio pela praia, mas pouco depois a brisa obrigou-os a voltar para dentro. Sentaram-se no sof e ali ficaram durante algum tempo, alternando 
a conversa com carcias. Era uma da manh quando Allegra pensou em regressar  cidade. Detestava obrig-lo a ir lev-la, mas tinham ido a casa de Alan no carro de 
Jeff e Allegra no tinha outra maneira de regressar a Beverly Hills.
        - Que estupidez a minha! - disse ela, desculpando-se. Devia ter vindo me encontrar com voc aqui.  horrvel obrig-lo  ir levar-me!
        - Eu no me importo.  disso que  feita a Califrnia: conduzir.
        Era de trato fcil e bem-humorado, ao contrrio de Brandon, que estava sempre irritado com qualquer coisa. A companhia de Jeff era to agradvel! Era como 
se j vivessem juntos h muitos anos. Tal como Carmen e Alan, tambm eles se sentiam completamente  vontade um com o outro.
        Beijaram-se outra vez, com mais fervor, e Allegra correspondeu. Era formidvel estar sozinha com ele, com tempo, sem ter que ir para lado nenhum, sem pensar 
em mais ningum... Era um verdadeiro luxo estarem juntos.
        - Se eu no me levantar j, nunca mais saio  - disse Allegra baixinho, quando ele a beijou de novo.
        -  essa a minha esperana  - respondeu ele em surdina.
        - Tambm a minha, mas acho que me devo ir embora -  insistiu ela, rindo.
        - Por qu? - perguntou Jeff, deitando-se a seu lado no sof, sem que Allegra levantasse qualquer objeo.
        Durante algum tempo ficaram olhando para a lareira, que ele acendera ao entrar em casa. Era um ambiente acolhedor, com o mar banhando o areal, l fora, e 
o brilho intenso do luar, mas Allegra s pensava em Jeff.
        - Julgaria que eu estava doido se lhe dissesse que a amava? - perguntou, fitando-a.
        Parecia tudo to natural entre eles, como se estivessem destinados um ao outro... Fora isso mesmo que Allegra sentira assim que o vira em casa dos Weissman.
        - No, de modo algum. Isso parece-lhe estranho? Para mim,  como se sempre o tivesse conhecido, como o Alan.
        - Quem me dera que nos tivssemos cruzado nesse tempo! Aposto que era gira com catorze anos. - exclamou Jeff, imaginando-a com sardas, rabos-de-cavalo  e 
um aparelho nos dentes.
        - Eu tambm e os meus beijos lambuzados... Ns divertamos-nos, e era tudo to simples!...
        - Agora tambm   - disse Jeff. S  complicado quando est errado, e no  este o caso. A nossa relao est certa, e voc sabe.
        - ? - perguntou Allegra, olhando para ele. Jeff puxou-a para si e beijou-a ainda com mais fervor. s vezes sinto-me to assustada! - confessou,  luz tnue 
da lareira.
        - Por qu?
        - Tenho receio de cometer novos erros ou de no estar com a pessoa certa. No quero destruir a minha vida, como... Como algumas mulheres que casam com o 
homem errado e se arrependem para o resto da vida ou se consomem tentando alterar a situao. No quero fazer uma coisa dessas!
        - Ento no faa  - disse ele com naturalidade. Se ainda no o fez, porque havia de faz-lo agora?
        - Tenho tanto receio de fazer o que est errado como o que est certo.
        Ao ouvir as suas palavras, Jeff teve a certeza de que aquela relao estava certa para ambos, que era o que eles precisavam. Chegara o momento; no valia 
a pena torturarem-se. Pegou nela ao colo com cuidado, levou-a para o quarto e deitou-a na cama de colunas, em cima da colcha de sarja. Era muito confortvel. Allegra 
sentia-se segura junto dele e no fez qualquer gesto para se afastar. Ficou ali a observ-lo, com os seus grandes olhos verdes, e reagiu instantaneamente quando 
ele a beijou. A pouco e pouco, Jeff despiu-a, admirou o seu corpo, abraou-a, beijou-a. A sua lngua, as mos, os olhos deleitaram-se com ela, e ela com ele. Fizeram 
amor durante horas e, por fim, Allegra adormeceu como um beb nos braos de Jeff e s acordou no dia seguinte, quando o Sol ia alto no cu.
        Jeff levantou-se e foi preparar-lhe caf da manh. Levou  cama e em seguida acordou-a ternamente com beijos. Allegra abriu os olhos e fitou-o, sorrindo, 
deleitada. Nunca esqueceria aquela noite. Jeff tinha razo: chegara a hora de ambos.
        Tomaram o caf da manh e conversaram durante muito tempo. Depois levantaram-se, partilharam um banho longo e ocioso no Jacuzzi e foram dar um passeio pela 
praia. Avistaram Carmen e Alan ao longe, mas, antes que eles os vissem, voltaram para casa e fizeram amor outra vez. Passaram a tarde de domingo nos braos um do 
outro. Em casa de Alan, Carmen foi categrica:
        - Tenho a certeza que vi a Allegra esta manh, a passear com o Jeff.
        - Eles foram-se embora ontem  noite  - disse Alan, corrigindo-a, j com os tiques de um marido. A Allegra no faria isso, pelo menos por enquanto. Ela leva 
algum tempo a fazer estas coisas, e creio que ainda est assustada por causa do Brandon
        - Garanto que os vi!
        Carmen tinha certeza. Ao fim da tarde, quando Jeff foi levar Allegra  cidade, passou pela casa deles. Estavam no jardim e Alan ficou admirado ao v-los.
        - Olha! - apontou Carmen, quando o casal lhes acenou do carro.
        - Raios me partam! -  exclamou Alan ao v-los. Desejou-lhes boa sorte. Jeff parecia ser bom homem e Allegra merecia o melhor que a vida tinha a oferecer. 
Gostava dela como de uma irm.
        - Talvez tenhamos uma cerimnia dupla em Las Vegas  - disse Carmen, dando uma gargalhada, ao voltarem para dentro.
        Mas Alan duvidava.



























CAPTULO 10

        No incio de Fevereiro, o volume de trabalho de Allegra era enorme. Tinha a tourne de Bram para preparar, o contrato do novo filme de Carmen para redigir, 
vrias outras propostas de filmes para negociar e uma srie de projetos pequenos e mais triviais da empresa para acompanhar. No entanto, estava sempre sorridente, 
e Alice nunca a vira to feliz.
        s vezes, quando tinha um intervalo ou um encontro ali perto, Jeff ia busc-la para almoar. Outras vezes, desapareciam misteriosamente na casa de Allegra, 
 hora do almoo. E quando regressava ao escritrio, tinha de fazer um esforo enorme para se manter sria e se concentrar no trabalho: s pensava em Jeff. Nunca 
se sentira to feliz. Pareciam talhados um para o outro, gostavam das mesmas coisas, dos mesmos livros, e partilhavam muitas idias e interesses. Ele mostrava-se 
sempre amvel e flexvel e tinha um delicioso sentido de humor.
Depois da primeira semana de felicidade, quase toda passada na acolhedora casa de Jeff em Malibu, Allegra sugeriu que ele fosse jantar na casa dos pais, embora ainda 
no lhes tivesse participado a ruptura com Brandon.
        - Tem certeza? - perguntou Jeff, cauteloso.
        Estava louco por ela, mas no queria pressionar os acontecimentos. Sabia que era muito ligada  famlia e tinha receio que o seu aparecimento pudesse ser 
considerado uma intromisso.
        - No seja palerma! A minha me adora que ns levemos amigos l a casa! 
        Sempre fora assim, desde que eram crianas. Os Steinberg gostavam de se ver rodeados pelos amigos dos filhos e sabiam fazer-lhes sentir que eram bem-vindos.
        - So pessoas to ocupadas!
        Jeff hesitou; a idia de estar sujeito  aprovao dos pais de Allegra deixava-o um pouco nervoso. Conhecer os pais de uma mulher nunca fora um dos seus 
passatempos favoritos e na sua idade, isso o fazia sentir um pouco ridculo.
        - Eu sei que eles vo gostar muito de te conhecer  - assegurou Allegra, com ternura.
        Apesar de todas as suas apreenses, Allegra conseguiu convenc-lo a ir jantar a casa dos Steinberg na sexta-feira.
        Quando foi busc-la, Jeff apresentou-se de terno completo, muito  semelhana do que vestia quando o conhecera, em Nova Iorque: conservador, com um ar respeitvel 
e muito elegante. No caminho para Bel Air, Allegra sorria-lhe de vez em quando: Jeff estava mesmo nervoso!
        -  por o meu pai ser uma pessoa importante ou s porque eles so meus pais? - gracejou Allegra.
        Parecia que voltara aos dezesseis anos, e a situao divertia-a. Allegra sabia que os pais iriam gostar muito de Jeff, tanto mais que detestavam Brandon. 
O pai tentava mostrar-se indiferente, mas a me odiava-o, e a verdade  que no se enganara a seu respeito.
        - Nunca me esqueo do que senti quando lhe enviei o meu primeiro livro. E se ele julga que  por isso que eu apareo?
        Jeff parecia um menino. Allegra riu e deu-lhe alguns conselhos.
        - Acho que ele vai descobrir e, em ltimo caso, a minha me explica-lhe. Ela  muito inteligente  - disse Allegra. Era uma descrio acertada da me.
        Quando chegaram, Blaire estava examinando a planta da nova cozinha. Os papis encontravam-se espalhados no cho da sala, e ela, agachada, explicava o seu 
contedo a Simon.
Blaire levantou-se, com um lpis enfiado no cabelo, e contemplou a filha mais velha com um sorriso carinhoso. Ficou admirada ao ver o seu companheiro, mas no fez 
comentrios.
        - Ol, querida. Estou mostrando ao pai como vai ficar a cozinha  - disse, levantando-se e cumprimentando Jeff.
        Allegra avisara-a de que levaria outra pessoa para jantar e ela partira do princpio que era Brandon, mas teve o cuidado de disfarar a sua surpresa. No 
entanto, queria saber quem era o companheiro de Allegra e estava morrendo de vontade de  fazer perguntas a respeito dele.
        Simon levantou-se e beijou a filha com um sorriso desolado.
        - Ela est mostrando-me o buraco que teremos no quintal nos prximos seis meses e a diviso vazia das traseiras, onde costumvamos tomar o caf da manh. 
O Vero vai ser um desastre nesta casa!
        Em seguida, apresentou-se a Jeff, com um ar natural, mas interessado. O sorriso afetuoso e o aperto de mo firme agradaram-lhe.
        - Conhecemo-nos h um ano  - explicou Jeff. O senhor teve a amabilidade de me receber por causa de um argumento que eu queria criar a partir de um livro 
que escrevi, Birds of Summer. Tenho a certeza de que no se lembra  - acrescentou, despretensioso e agradvel.
        - Por acaso lembro-me. Simon abanou a cabea com ar pensativo e sorriu. As suas idias para o argumento eram muito boas, mas o plano tinha de ser mais trabalhado, 
tanto quanto me recordo. Acontece o mesmo com todos os livros.
        - Tenho trabalhado nele  - disse Jeff, um pouco pesaroso.
        Apertou a mo de Blaire com muita delicadeza. Em tudo se notava a sua boa educao.
        Pouco depois, Sam entrou na sala e sentaram-se todos conversando antes do jantar. Falaram da carreira de Jeff, da nova cozinha que Blaire planejava e de 
Hollywood em comparao com Nova Iorque. Jeff foi obrigado a admitir que sentia falta da vida nova-iorquina, mas havia muitas coisas na Califrnia que o atraam; 
Allegra, sobretudo. A princpio, pensara em ficar por um ano e regressar a Nova Iorque para escrever o livro seguinte, e chegara mesmo a pensar em mudar-se para 
New England ou Cape Cod, mas, antes de ir fosse para onde fosse, tinha de iniciar o filme em Maio e talvez no o acabasse antes de Setembro. Allegra ficou ligeiramente 
preocupada quando ele explicou os seus planos. S ento se apercebeu de que Jeff poderia regressar ao Leste e ficou desanimada ao ouvir as suas palavras.
        - No  uma boa notcia  - disse-lhe em voz baixa, quando foram jantar.
        Preocupava-a pensar na partida dele nesse momento, to pouco tempo depois de se conhecerem e quando tudo parecia correr to bem.
        - Estou aberto a sugestes... - segredou ele, e os seus lbios afloraram o pescoo de Allegra.
        - Espero que sim.
        Durante o jantar, Allegra divertiu-se ao ver que a me os observava. Queria saber quem ele era e onde tinha estado, o que era feito de Brandon e o que significava 
aquele homem para Allegra. No entanto, enquanto Jeff ali estivesse, no poderia perguntar nada  filha. O grupo era muito convival. Allegra reparou que Sam tambm 
olhava Jeff com ateno. Por fim, quando voltaram para a sala, a me chamou-a de parte e fez-lhe algumas perguntas.
        - Houve alguma mudana na sua vida, Allegra? - perguntou ela, quando Jeff e Simon se afastaram para trocar impresses sobre a indstria cinematogrfica.
        Falavam de sindicatos, de quantias envolvidas na produo e de outros problemas, e Blaire sorriu, olhando para a filha. Queria saber toda a histria. Era 
evidente que saltara alguns captulos.
        - O que quer dizer com isso, me? - gracejou Allegra. As duas mulheres soltaram uma gargalhada e Sam rolou os olhos nas rbitas. Era fcil perceber que ele 
estava doido por Allegra.
        - Nunca julguei que assistssemos ao fim do Brandon -  disse a me. Ele est em So Francisco este fim-de-semana, ou isto significa aquilo que eu julgo?
        Blaire no se atrevia a acalentar grandes esperanas.
        - Talvez...
        Allegra parecia uma Mona Lisa loura. Ainda no decidira nada, era demasiado cedo para fazer afirmaes. Quisera apenas que os pais o conhecessem.
        - Podia ter dito alguma coisa. -. observou a me em tom de censura.
        Sam estendeu-se no sof. Estava exausta e considerava que a vida sentimental da irm era enfadonha, embora gostasse muito mais de Jeff que de Brandon.
        - Ele  muito mais legal que o Brandon  - declarou, com um interesse polido. O que aconteceu, Allie? O Brandon deu com os ps?
        - Isso no  maneira de falar! - repreendeu a me, franzindo o sobrolho e virando-se para Allegra. O que  que se passou, querida?
        No conseguiu resistir  tentao de fazer a pergunta. Esperava que no tivesse acontecido nada de muito desagradvel e sentia-se satisfeita por ele, aparentemente, 
se ter ido embora. Alis, nunca acreditara que Brandon se interessasse verdadeiramente por Allegra. Sempre lhe parecera muito indiferente, distante e mesmo reprovador, 
e o fato de nunca se ter divorciado perturbava-a.
        - Acho que foi apenas o tempo... - respondeu Allegra, misteriosa.
        - Quando  que foi isso? - perguntou Sam, curiosa. Sentia que a irm no estava a contar toda a histria.
        - H umas semanas. Conheci o Jeff em Nova Iorque. Allegra resolveu atirar-lhes um osso, a me ficou satisfeita. Gostava de Jeff e Simon tambm.
        -  muito bem-parecido  - apressou-se a dizer Blaire. Pouco depois, Jeff e Simon voltaram para dentro, ainda embrenhados na conversa sobre o filme.
        - Gostaria de ler o seu novo livro  - disse Simon, muito srio. Alis, vou compr-lo. J saiu, no  verdade?
        - Sim, h pouco tempo. Acabei de fazer uma breve viagem promocional. No percebo como tem tempo para ler, com tudo o que faz  - afirmou Jeff, impressionado 
com a conversa.
        - Eu me arranjo...
        Nesse momento, Simon fitou a mulher e Allegra percebeu de que ambos trocavam um olhar estranho; no era animosidade nem raiva, apenas um pequeno sopro de 
frieza. Allegra nunca vira nada daquilo e perguntou a si prpria se algum deles estaria aborrecido, por causa da cozinha, por exemplo. O pai detestava o incmodo 
e a me adorava remodelaes, o que provocava algumas frices domsticas de vez em quando.
        Allegra no disse nada, mas quando entrou na cozinha,  frente da me, observou-a atentamente e no lhe pareceu que houvesse nada de grave entre eles. No 
entanto, Blaire andava muito cansada nos ltimos tempos; estava preocupada com o programa, que a absorvia por completo.
        - O pai est bem? - perguntou tranquilamente, sem querer intrometer-se.
        Todos os casais tinham as suas discusses, de vez em quando, e talvez os pais estivessem aborrecidos.
        - Claro, querida. Por qu?
        - No sei... Pareceu-me um pouco frio, esta noite. Deve ser a minha imaginao a trabalhar.
        - Talvez  - admitiu Blaire, despreocupada. Anda furioso por causa do jardim; gosta dele como est e no acredita que o que eu quero fazer o v beneficiar.
        Era uma velha luta entre eles, e Allegra sorriu. Admitira que se tratasse de qualquer coisa desse gnero. Nunca havia nada mais grave entre eles.
        - A propsito, gosto do teu amigo.  inteligente, simptico e natural. Tambm  bonito. Blaire sorriu, enchendo um copo de gua. Estou muito contente.
        Allegra riu. Sabia o que a me queria dizer. Estava aliviada por ver Brandon pelas costas.
        - Foi o que eu calculei  - disse Allegra.
        No deixava de ser triste que todos estivessem to satisfeitos por ela ter rompido com Brandon; parecia-lhe estranho que toda as pessoas tivesse visto o 
que ela no vira.
        - Isto foi uma espcie de furaco nas ltimas semanas. Conhecemo-nos em Nova Iorque, na casa de um agente com quem me encontrei, e desde ento temos estado 
quase sempre juntos. Olhou a medo para a me, que ficou comovida. O Jeff  to bom para mim... Nunca conheci ningum como ele... Exceto o pai.
        - Cus! - exclamou Blaire, fitando-a. Isto  mesmo a srio. As mulheres s comparam o pai ao homem com quem se casam!
        - No exagere, me... - retorquiu Allegra, corando, envergonhada. Conhecemo-nos h trs semanas!
        -  surpreendente como as coisas correm depressa quando aparece o homem certo!
        Ao ouvir estas palavras, Allegra lembrou-se de Alan e de Carmen, e sentiu-se tentada a falar deles  me, mas concluiu que no devia faz-lo.
        Voltaram para a sala, para junto dos homens, e Sam foi telefonar a uns amigos. Jeff e Allegra ficaram at s onze horas. Conversaram, riram e passaram momentos 
muito agradveis com os pais dela.
        Assim que eles saram, Blaire sorriu para o marido.
        - Ora, v l, Blaire... No tem importncia... No inventes... Ela mal o conhece!
        Simon riu-se, apercebendo-se do entusiasmo da mulher com o romance de Allegra.
        - Isso foi o que ela disse, mas voc no est percebendo... O Jeff est louco por ela!
        - Tenho a certeza que sim, mas d-lhe uma oportunidade antes de por um lao ao pescoo. Simon disse isto a brincar, mas no mesmo instante apercebeu-se de 
que no o devia ter feito. No era isso que eu queria dizer... - acrescentou, tentando corrigir-se, mas era demasiado tarde.
        Blaire virou-lhe as costas, encolhendo os ombros; percebera exatamente o alcance das palavras do marido. Ele no costumava fazer aquele gnero de comentrios, 
nem ela, mas, nos ltimos tempos, reparara que faziam ambos o mesmo. Simon insistira que no era aquilo que queria dizer, mas ela no se deixava enganar. Ainda no 
houvera nenhum problema grave, mas de repente comeavam a surgir pequenas sombras no casamento de ambos. Blaire estava convencida que sabia por qu, mas no tinha 
a certeza. E, quando olhou para o marido, sentiu-se desfalecer: no era nada definvel, mas estava l, como um fantasma que pairava sobre a casa e que lhe provocava 
um calafrio na espinha.
        - Vai para cima? - perguntou tranquilamente, com a planta da cozinha debaixo do brao.
        - J vou -  respondeu ele.
        Depois, ao ver a expresso dela, Simon corrigiu:
        - No me demoro nada.
        Blaire fez um gesto de cabea e subiu as escadas, desolada. No se abrira qualquer brecha grave, mas ultimamente surgira aquela estranha frieza entre ambos. 
Blaire perguntou a si prpria se seria apenas uma fase passageira, uma pequena lombada na estrada, ou um sinal de que algo no estava bem. Porm, ainda no tinha 
a certeza.
        - Ento, gostou dos meus pais? -  perguntou Allegra sem cerimnia, no caminho. 
        Nessa noite ficavam em casa dela, porque era mais perto.
        - Acho que so formidveis! - respondeu Jeff, sem disfarar a sua admirao. Os pais de Allegra eram simples, afetuosos, simpticos, interessados e uns timos 
companheiros. Contou a Allegra a conversa que tivera com Simon no quintal: Ele diz que quer ler o meu livro, mas pareceu-me que estava apenas a ser delicado.  agradvel 
da sua parte.
        Ele adora fazer essas coisas. Est sempre encorajando os meus amigos com os seus filmes, as suas peas e os seus novos projetos. Essa atitude entusiasma-o 
e mantm-no jovem.
Com sessenta anos, Simon parecia dez anos mais novo. Ao pensar na me, Allegra franziu ligeiramente o sobrolho e acrescentou:
        - Por acaso,  a minha me que me preocupa.
        - Por qu? -  perguntou Jeff, admirado. Blaire era uma mulher bela, jovial, talentosa e bem sucedida, que dificilmente poderia suscitar preocupaes. Alm 
disso, gozava de boa sade. No percebia a inquietao de Allegra. Ela pareceu-me bem.
        - Sim, mas no tenho a certeza. Creio que o fato de no ter ganhado o Globo de Ouro este ano a afetou. O programa tem-lhe dado muitas dores de cabea e... 
No sei,  apenas uma sensao. Parece-me triste, por trs daquele sorriso e de todo o seu desportivismo. 
        - H qualquer coisa que a preocupa.
        - Perguntou-lhe?
        Pareceu-lhe uma boa soluo, mas Allegra abanou a cabea.
        - Sinceramente, no acredito que ela me diga. Perguntei-lhe se havia algum problema com o meu pai, porque ele me pareceu um pouco srio esta noite, mas respondeu-me 
que est furioso por causa do jardim.
        - Talvez seja s por isso  - disse Jeff, tranqilizando-a. Eles trabalham muito, e isso tem um preo. So pessoas extraordinrias!
        Simon era o produtor mais importante de Hollywood e Blaire tinha um dos programas televisivos de maior xito. Havia um nvel a manter e no era de admirar 
que nenhum dos filhos tivesse optado por lhes fazer concorrncia.
        - Eu gostei da Sam, a propsito.
        Sam tinha um aspecto espetacular e as suas opinies, de to jovens, eram revigorantes.
        - Tambm eu, s vezes  - respondeu Allegra, sorrindo, mas ultimamente anda muito sada da casca. No  bom estar sempre sozinha com os pais; eles estragam-na 
com mimos. Era prefervel quando eu e o Scott ainda vivamos em casa, mas esse tempo j se foi. O meu pai derrete-se com a Sam, e ela sabe. A minha me  mais firme, 
mas a Sam d-lhe a volta e faz o que quer. Eu nunca me atreveria a isso.
        - Creio que os pais se comportam sempre assim para com os filhos mais novos; tornam-se mais brandos depois de os mais velhos terem pago a sua fatura. Mas 
ela no me parece demasiado caprichosa; por sinal, foi muito educada.
        - Isso foi s porque te acha legal  - disse Allegra, sorrindo outra vez.
        - E se no achasse?
        Ignorava-te.
        - Ento me sinto lisonjeado.
        Quando chegaram a casa de Allegra, foram logo para a cama. Estavam cansados e ela adorava ficar deitada a seu lado. As carcias raramente se ficavam pela 
castidade e depressa davam lugar  paixo. Eram momentos felizes e de manh Allegra gostava de acordar junto dele. s vezes, Jeff j se levantara para fazer caf. 
Era a existncia perfeita para os dois.
        No sbado de manh, Alan telefonou e convidou-os para jantar.
        - Que vida esta! - comentou Jeff, enquanto Allegra, nua e com um avental de renda branca, lhe servia pezinhos quentes com manteiga. Agora, aqui vai uma 
fotografia para os tablides -  acrescentou, fingindo disparar uma mquina fotogrfica, enquanto ela fazia uma pose provocante.
        Jeff puxou-a para o colo, o que teve resultados imediatos; pouco depois voltaram os dois para o quarto.
        Levantaram-se de novo ao meio-dia. Allegra no sabia o que havia de preparar para o almoo e Jeff comentou que no faziam mais nada alm de comer e fazer 
amor.
        - Est lamentando-se? -  perguntou ela, mordendo uma ma.
        - Claro que no! Adoro!
        - Tambm eu  - disse Allegra. Depois se lembrou do convite de Alan. E quanto ao jantar desta noite? Desejaria ir?
        Allegra no queria for-lo. Sabia que Jeff tinha os seus prprios amigos, mas a verdade  que engraara com Alan e Carmen, o que a deixava muito satisfeita.
        - Por acaso, gostaria de ir  - respondeu ele, partilhando a ma com ela. Era um fruto grande e sumarento. Jeff deu-lhe uma dentada e depois beijou Allegra. 
Os lbios dela tinham a cor da ma e os seus beijos quase os iam levando de novo para o quarto.
        - Nunca conseguiremos fazer nada se continuarmos assim  - disse ela, rindo, enquanto ele lhe beijava o pescoo e a abraava. No faz mal. Vou telefonar ao 
Alan.
        Combinaram ir  casa de Alan em Malibu; mais tarde talvez fossem jogar boliche. s sete horas, quando chegaram, Carmen estava a fazer pasta e Alan preparava 
o molho, fingindo que cantava pera ao mesmo tempo. A cena provocou o riso geral e Jeff foi pr a msica para tocar.
        Estava uma noite bonita e perfumada, que convidava a comer l fora, mas optaram por se sentar  mesa da cozinha, e, no fim do jantar, todos se queixaram 
por ter comido de mais. O molho do fettucane preparado por Alan estava delicioso.
        - Um dia destes, vou comear de novo a passar fome  - disse ele, com um gemido. 
        - Iniciamos os ensaios no fim de Maro e depois as filmagens em meados de Abril. Vamos para a Sua, para os Alpes, como cabras-monteses.
        Era mais um filme de aventuras, com uma parte de leo para ele, e pagavam-lhe uma verdadeira fortuna.
        - Isso no vai ser perigoso? - perguntou Carmen, preocupada.
        - No, a menos que eu escorregue  - respondeu Alan, mas Carmen no pareceu muito satisfeita, e Allegra ficou apreensiva ao ouvi-la dizer que queria acompanh-lo. 
Iria criar-se uma situao difcil se ela insistisse em ir atrs dele; as mulheres que o faziam tornavam-se um autntico estorvo e Alan era demasiado independente 
para aceitar tal coisa. Alm disso, a maior parte dos locais de filmagem eram muito violentos para Carmen.
        - Mas, de qualquer modo, voc estar filmando em Junho  - disse Allegra, tentando distra-la, no ter tempo para ir com ele.
        - Eu podia ir passar l seis semanas, antes de comearmos as filmagens.
        - Adoraria! -  afirmou Alan, encorajando-a.
        Allegra tinha quase a certeza de que ele se iria arrepender, mas a conversa derivou para outros assuntos. Depois da sobremesa banana split, desta vez, o 
suficiente para arruinar a dieta de qualquer pessoa Alan props que fossem jogar boliche  cidade. Adorava vaguear pelos bares e jogar pingue-pongue, como uma pessoa 
vulgar, e o boliche era um dos seus passatempos favoritos. Conseguiu convenc-los a sair e, no caminho para Santa Mnica, a conversa e as gargalhadas enchiam o Lamborghini. 
Era um carro blindado, construdo como se fosse um tanque de guerra encomendado por um rabe importante. Havia apenas cerca de uma dzia como aquele e Alan descobrira 
um exemplar vermelho e reluzente em So Francisco. O interior era todo em madeira e cabedal fino; na conduo parecia um Ferrari e conseguia atravessar dunas de 
areia a mais de duzentos quilmetros por hora. Era um dos seus brinquedos preferidos e Alan era louco por ele. Era muito mais distinto do que a seu velho carrinho 
Chevrolet, mas tambm muito mais cmodo, e possua uma sofisticada aparelhagem estereofnica. As pessoas ficavam espantadas ao v-lo.
        - Onde  que arranjou esta coisa? -  perguntou Jeff. Nunca vira um automvel como aquele.
        - No Norte. Foi construdo para um prncipe do Kuwait que nunca lhe pegou.  completamente  prova de bala e as partes laterais so blindadas.
        Era uma bela mquina e Alan apreciava-a mais pela velocidade e pelo aspecto do que pela proteo que oferecia.
        Estacionaram junto do Hangtown Bowl e entraram para alugar os sapatos e reservar uma pista. Ficaram admirados ao ver que o recinto de boliche estava repleto. 
Disseram-lhes que esperassem, mas eles resolveram ir tomar uma cerveja.
        Vinte minutos depois, tinham uma pista disponvel, e aproveitaram-na bem.
        Alan era muito bom e Carmen pssima, mas divertia-se sempre muito; Allegra no se saa mal e Jeff era um parceiro  altura de Alan. Enfim, todos gostavam 
daquele jogo, mas nenhum o tomava to a srio como Alan. Adorava ganhar e reclamava constantemente a ateno de Carmen.
        - Estou atenta, querido, estou atenta  - dizia ela. Allegra reparou que as outras pessoas os observavam.
        A pouco e pouco se tinha juntado  volta deles, e era bvio que no s haviam reconhecido Alan como Carmen.
        - Ol  - disse Carmen a um deles, totalmente inconsciente do seu aspecto.
        Vestira umas jeans brancas coladas  pele e uma camiseta tambm branca e justa, que lhe moldava o corpo. Apesar dos sapatos de boliche azuis-turquesa e castanhos, 
que eram feios, parecia uma rainha de beleza, e vrios homens j com umas cervejas a mais se mostravam desejosos de agarr-la.
        Sem dizer nada, Alan apercebera-se da situao e mantinha Carmen entre ele prprio e Jeff, mas a assistncia tambm o observava e, pelo canto do olho, viu 
aproximar-se um rapaz forte de cabelo ensopado em gel que meteu conversa com Allegra.
        Allegra manteve a calma e no lhe deu grande importncia. O rapaz fez-lhe perguntas sobre o carro que estava l fora e ela disse que o tinham alugado para 
irem passear nessa noite; eram revendedores em Los Angeles, onde se fretavam automveis antigos, Rolls-Royces ou Bentleys. Alis, era possvel alugar quase tudo, 
e era perfeitamente natural que fosse esse o caso do Lamborghini que se encontrava l fora.
        - Aquela tem a mania que  esperta, no tem? - perguntou outro homem a Allegra, olhando para Carmen, que tentava ignor-lo e concentrar-se no jogo. Ns sabemos 
quem ela . O que  que julga que veio visitar os pobrezinhos esta noite?  um nojo!
        Allegra no respondeu e afastou-se, mas no quis irrit-los mais; estavam ambos embriagados e comeavam a atrair as atenes das outras pessoas que se encontravam 
na pista. 
        De repente, uma mulher pediu um autgrafo. Seguiram-se mais algumas e, num pice, dezenas de pessoas empurravam Carmen contra uma mesa; antes que Alan se 
conseguisse virar para trs, um homem agarrou-o e deu-lhe um murro, mas estava demasiado bbado para acertar no alvo, e, aplicando um golpe de karat que aprendera 
com um dos duplos no seu ltimo filme, Alan afastou-o facilmente.
        Porm, Allegra sabia muito bem como seria a seqncia daquele "filme". Freqentava o meio h tempo suficiente para ter conscincia de que estavam em apuros 
e, afastando-se de Jeff, dirigiu-se a um telefone pblico e ligou o 911. Ningum reparou nela quando disse ao agente quem era, onde estava, quem a acompanhava e 
o que acontecera.
        - Falta pouco para que se arme uma desordem, e a Srt. Connors pode ficar ferida - afirmou tranquilamente. Juntaram-se aqui umas cem pessoas que querem agarr-la.
        - Vamos j para a  - assegurou o agente, dando rapidamente as suas ordens a algum atravs da rdio. Fique na linha, Srt.  Steinberg. Como est o Sr. Carr?
        - Agentando-se como pode neste momento... - Allegra vigiava-os do lugar onde estava. No houvera mais agresses, mas a multido, agitada, fechava o crculo 
 sua volta; queriam estar com eles, tocar-lhes, despi-los, empurr-los. Enquanto Allegra observava a cena, Jeff apercebeu-se do que ela estava fazendo. Tentou aproximar-se, 
mas tinha receio de abandonar Carmen; havia muitos homens encostados nela, procurando agarr-la, e algum tentou arrancar-lhe uma manga da camiseta.
        Nesse momento entraram no bar trs policiais, que se dirigiram para a pista de boliche. Percebendo o que se estava passando, agarraram os bastes, sem querer 
aumentar a confuso. Um aproximou-se de Carmen e o outro disse qualquer coisa a Alan. Pouco depois conseguiram afastar a multido, mas algumas pessoas continuavam 
a puxar os cabelos de Carmen, tentando agarr-la ou, pelo menos, tocar-lhe. Pouco faltou para se desencadear uma luta corpo-a-corpo entre os rufies e a polcia; 
foram precisos dois agentes para  libertarem-na daquilo que parecia ser um charco de areia movedia. Nesse momento, uma mulher comeou a gritar e atirou-se para 
os braos de Alan, suplicando-lhe que a beijasse. Era jovem, estava embriagada e tinha excesso de peso. Aquele era o sonho da sua vida, aproximar-se de Alan Carr, 
tal como arrancar a roupa a Carmen parecia ser o sonho de todos os homens que se encontravam no bar. Foram necessrios os trs polcias para libertar Carmen, Alan 
e Jeff, que se juntaram para sair do bar. Allegra tentou acompanh-los, mas um dos bastes obrigou-a a recuar, e a multido interps-se de novo entre eles. Jeff 
acenava freneticamente, mas ela no conseguia passar e ele tentava aproximar-se, sem conseguir. Os fs, enlouquecidos pelo entusiasmo, no ajudavam.
        - Allegra! - gritou Jeff. Ela via-o, mas no o conseguia ouvir. Ela est conosco! -  bradou a um dos polcias
        Os dois homens obrigaram a multido a recuar, formaram um cordo  volta de Allegra e conseguiram empurr-la para a porta, atrs de Carmen e de Alan. L 
fora os aguardava outro policial. As mos de Alan tremiam ao abrir a porta do carro. Os quatro agentes rodearam-nos, para eles entrarem, e, assim que os viram l 
dentro, fizeram-lhes sinal para que se fossem embora o mais depressa possvel. O susto acabara, e os quatro amigos mal tiveram tempo de lhes agradecer.
        O carro arrancou; pelo retrovisor, Alan viu a multido enfurecida, enganada pelos alvos do seu afeto.
        - Cus, isto  sempre assim? -  perguntou Jeff, tentando endireitar a camisa e o casaco; pareciam nufragos, com a roupa rasgada e o cabelo em desalinho. 
Algum arrancara o chapu de Alan e lhe roubara os culos escuros; Jeff perdera um sapato. Como  que vocs agentam.
        Carmen choramingava e Allegra tentava consol-la. Aquilo estava na natureza da besta que os idolatrava, e que os odiava, tambm: apoderava-se deles, devorava-os 
e, se no tivessem cuidado, destrua-os.
        -  assustador... -  disse Allegra, em voz baixa. Aquelas situaes enervavam-na sempre, e Carmen detestava-as: ficava aterrada.
        - Parecem animais. Viram aquela gente? - perguntou com as lgrimas nos olhos, fitando Alan. Pouco faltou para me violarem! Um deles agarrou-se aos meus seios, 
e juro que senti a mo de algum dentro da minhas calcinha. Que nojentos!
        Parecia completamente inocente ao queixar-se da invaso. Tinha enfrentado uma multido esfomeada, lbrica e furiosa: furiosa por no se ter apoderado deles. 
Aquela gente queria lev-los para casa, misturar-se com eles, tocar-lhes no corpo, roubar-lhes a alma.
        - Nunca mais vou jogar boliche... -  disse Carmen com um ar infantil. Detesto estas coisas!
        - Tambm eu  - admitiu Alan. Quem no detesta? Mas a verdade  que estava contrariado: gostava tanto de ir jogar boliche... Era por isso que muitas estrelas 
de cinema tinham pistas em casa, e recintos desportivos, rinques de patinagem e cinemas, porque no podiam ir a parte alguma, nem sair com os filhos, era impossvel 
levar uma vida igual  das pessoas normais.
        - Vocs haviam de ver o que o Bram Morrison sofre nos concertos... - disse Allegra em jeito de consolao.
        Jeff continuava admirado por ela ter tido a presena de esprito de telefonar para a polcia, mas Allegra estava muito habituada quelas situaes e sabia 
o que fazia; apercebia-se quase instantaneamente de que as coisas iam correr mal, e em geral no se enganava, sobretudo se havia uma mulher pelo meio. Avisara Carmen 
disso tudo, dissera-lhe o que tinha a fazer e contratara uma pessoa para lhe ensinar a defender-se, mas nem por isso a situao era menos assustadora.
        - Obrigado por ter chamado a polcia, Al  - agradeceu Alan, um pouco deprimido. Era sempre degradante ser maltratado daquela maneira, ainda que as intenes 
fossem boas, a princpio.
        Nessa noite, quando regressavam, Allegra sentiu que causara uma boa impresso a Jeff, apesar de os acontecimentos no bar terem sido desanimadores. Alan deixou-os 
na casa de Jeff e pediu-lhes mais uma vez desculpa pela agitao dessa noite, mas Jeff e Allegra asseguraram-lhe que compreendiam, que lamentavam tanto como ele, 
e agradeceram o jantar a ambos.
        - No sei como  que eles conseguem viver assim! Eles podem sair? Como pessoas normais? - perguntou Jeff, depois de Alan e Carmen se irem embora.
        - Vo s estrias, mas tambm a tm de ser cautelosos.
        Em grandes acontecimentos, muito publicados, correm o risco de serem atacados com gravidade, e podem at nem sobreviver. Por vezes ficam feridos no meio 
de uma multido como aquela. E de resto, se tentarem levar uma vida normal, acontece o mesmo desta noite, a menos que escolham lugares como o Spago. L  diferente
        Allegra sorriu. O Spago era o seu restaurante preferido e estava sempre cheio de estrelas. A ningum se atreveria a incomod-los, limitar-se-iam a admir-los 
 distncia.
        Mas num local como uma pista de boliche no havia fronteiras, e s vezes as coisas corriam mal. Felizmente, Allegra gerira a situao de uma forma admirvel, 
pois estava habituada, desde os tempos em que vivia com os pais. Estes nunca tinham alcanado aquele tipo de fama, porque trabalhavam nos bastidores, mas as pessoas 
que eles conheciam, os atores, passavam sempre por cenas como as que Jeff presenciara nessa noite, e o mesmo acontecia com os seus clientes.
        - Fiquei morto de medo ao pensar que te podia perder no meio daquela gente  - disse ele.
        Entraram no quarto e comearam a despir-se. Era desagradvel terem as roupas rasgadas e Jeff riu-se ao olhar para o p
        - Que idiotas! Devem julgar que o meu sapato  do Alan!
        - Talvez um dia o recupere num leilo  - gracejou Allegra. Tambm estava aborrecida; multides como aquelas eram sempre assustadoras, porque nunca se sabia 
se a situao se descontrolava antes de ser possvel fugir.
        - Nem posso acreditar! Sinto-me uma verdadeira estrela. E francamente, Scarlett, cedo-te os louros  - declarou Jeff, deixando-se cair na cama com abandono.
        - Nem penses! - retorquiu Allegra.  por isso que sou advogada e no atriz. No conseguirias vender-me essa treta por nada deste mundo. Eu no aturava aquilo 
nem por um minuto!
        - Mas desenvencilhaste-te bem  - disse ele, elogiando-a. Foi a nica que se lembrou de chamar a polcia. Eu fiquei de boca aberta, pensando como havamos 
de sair dali com vida.
        - O segredo est em telefonar depressa. Assim que vi aquilo, percebi imediatamente no que ia dar.
        Mas quando se deitou e se abraaram, ainda afetados pelo que sucedera na pista de boliche, Jeff no pde deixar de perguntar a si prprio o que iria acontecer 
quando fosse o casamento.
        - Se esta noite foi uma amostra do que pode acontecer, o que eles deviam fazer era casar numa ilha deserta.
        - Nos casamentos costuma ser pior.  a que os fs se excedem; ficam frenticos. Os casamentos das celebridades so um pesadelo, quase to maus como os concertos. 
Allegra riu, porm, ambos sabiam que a situao no era para brincar. Mas tenta falar nisso  Carmen! Recusa-se a acreditar em mim, e o Alan diz que ela deve casar-se 
como desejar. Tenho trocado impresses com vrios peritos em segurana desde que nos participaram que vo casar.
        - E o que dizem?
        - Voc ver -  respondeu ela com um sorriso enigmtico; parecia a Mata Hari. Mas a segurana vai ser apertada, garanto-te. Bem, tanto quanto  possvel em 
Las Vegas...
        - Porque ser que comeo a ter medo? - perguntou ele, puxando-a ainda mais para si por baixo da coberta.
        - Porque  inteligente. E se eles fossem espertos... Escapavam-se para outro lado qualquer, um lugar que no passasse pela cabea de ningum... Para uma 
cidadezinha perdida em alguma parte de South Dakota, por exemplo. O problema  que no seria muito divertido. A ningum  importunado por desconhecidos.
        - Para a prxima, levo sapatos com cadaros disse ele, mais prudente depois daquela experincia.
        Mas, mesmo assim, Jeff ainda no estava preparado para o casamento de Alan Carr e Carmen Connors.











CAPTULO 11

        O trailer que Allegra alugara foi buscar Alan e Carmen na casa de Jeff em Malibu. Ambos usavam  jeans e camisetas velhas; Carmen levava uma peruca castanha 
e um leno e Alan escolhera uma preta. De culos escuros, a mascar chiclete, simulavam um sotaque sulista. Jeff e Allegra, a condizer, tambm de perucas e com roupas 
leves de polister, iam muito mais bem vestidos do que os amigos, e quase tudo o que Allegra usava estava repleto de diamantes falsos.
        - No sabia que a roupa era to importante neste caso  - disse Jeff, divertido, ao vestir o traje. Mas uma coisa era certa,  ningum reconheceria Alan nem 
Carmen.
        Sentaram-se numa grande sala apainelada, na parte traseira do trailer, contando anedotas e comendo sorvete. Sempre que se viam ao espelho, davam uma gargalhada. 
De vez em quando iam at  cozinha, onde havia queijo, fruta e sanduches, e as senhoras usavam o banheiro de mrmore rosa, mas nunca da banheira. Era o tipo de 
trailer geralmente utilizado por estrelas de cinema ou de rock; por sinal, estava muito bem conservado, pois pertencia a um particular. Allegra recorria a ele com 
freqncia; alugara-o uma vez como camarim para um dos seus clientes e para diversas viagens de estrada. Era um dos mais bem conservados e luxuosos, embora no se 
comparasse com o trailer de dois pisos do Eddie Murphy, cheio de antigidades e de objetos preciosos, mas era bastante confortvel, e os quatro amigos sentiam-se 
no 'cu', como diziam de vez em quando, a caminho de Las Vegas.
        Quando chegaram, foram diretamente para o hotel. Ficaram hospedados no MGM Grand, e, assim que os viram, os seis guarda-costas que os aguardavam no trio 
misturaram-se com a multido sem rosto que os envolvia. Eram duas mulheres e quatro homens e nem sequer se fizeram notados quando se instalaram nas sutes contguas 
 de Alan e Carmen.
        Jeff e Allegra ficaram do outro lado do corredor. Allegra mantinha-se atenta aos tablides, mas no vira um nico fotgrafo  chegada. A relao de Alan 
e Carmen fora ventilada durante algum tempo no mais do que um ms e ningum desconfiava que eles iam casar.
        Trocaram de peruca no hotel e ficaram todos ruivos, exceto Alan, que se transformou num louro oxigenado, o que o encantou.
        - Meu Deus! - exclamou Allegra, irnica. Fica horrvel!
        - Mas eu gosto  - replicou ele, fingindo que brigava com ela e que lhe dava uma palmadinha. Em seguida voltou a pr a peruca preta e imitou o Elvis.
        - Ainda bem que j tem a sua carreira  - disse Allegra, desapontada. No creio que conseguisse emprego com esse aspecto!
        - Nunca se sabe, filha, nunca se sabe...
        Carmen desapareceu no quarto com o grande saco de plstico que trouxera; meia hora depois surgiu com um vestido de cetim branco curto e o cabelo penteado 
numa 'banana' fofa e coberto por um pequeno vu. A maquiagem, impecvel, realava-lhe o rosto, e as pernas compridas e esguias que a saia deixava ver eram ainda 
melhores. A transformao fora total e estava encantadora. Calava uns sapatos de cetim branco de salto alto e o vestido era bastante decotado. Estava irresistvel, 
e Alan ficou verdadeiramente emocionado ao olhar para ela. Ainda de jeans e peruca, foi troc-las por um terno de linho e por uns sapatos 'a srio', mas resolvera 
casar com a peruca loura; assim teriam filhos louros, como ele dizia.
        - Est doido! - exclamou Carmen, beijando-o.
        Meia hora mais tarde apareceu o juiz de paz que Allegra contratara. Sabia que, se tivesse pedido ao hotel que o fizesse, a notcia surgiria nos jornais, 
o que ainda era possvel, se o juiz reconhecesse Carmen. Os nomes de ambos teriam de figurar na certido de casamento, mas ento j seria demasiado tarde para prevenir 
algum.
        Allegra resolvera manter o seu traje divertido. Por sinal, trouxera uma saia felpuda; vestira-a, pusera a cabeleira ruiva e calara umas sandlias: ficara 
um mimo!
        - Estou ansioso por ver as fotografias do casamento... - disse Jeff, olhando para Alan.
        Allegra ficou comovida com o fato de Alan o ter convidado.
        - Tambm no est formoso!... -  retorquiu Alan, cortando as vazas a Jeff.
        Este vestira um casaco Ralph Lauren por cima de uma camisa de boliche e, tal como Alan, usava uma cabeleira loura.
        O juiz de paz no os reconheceu, mas pensou que eram completamente doidos. Despachou a cerimnia em menos de trs minutos, declarou-os marido e mulher e 
assinou a certido sem olhar sequer para os nomes. Chamara duas vezes 'Carla' a Carmen durante a cerimnia e 'Adam' a Alan. Assim que tudo acabou, Allegra serviu 
champanhe, encomendaram caviar e o casamento foi oficializado.
        - Carmen Carr... Gosto
        Allegra foi a primeira a pronunciar o nome da noiva e a segunda a beij-la, depois de Alan.
        - Eu tambm  - disse Carmen, com lgrimas nos olhos.
        Continuava a desejar casar na igreja em regon, mas imaginava o circo que no seria, com paparazzi e helicpteros, fs aos gritos e cordes de polcia. No 
era possvel.
        - Boa sorte  - disse o juiz de paz j  porta. Entregou a Alan a certido de casamento e saiu correndo para ir celebrar mais umas dzias de casamentos. No 
fazia idia de quem acabara de unir pelo matrimnio; para ele, eram apenas o Adam e a Carla.
        Uma hora depois desceram os quatro para ir jogar nos caa-nqueis. Allegra bateu discretamente  porta dos guarda-costas,  sada, e eles seguiram-nos. Foi 
uma operao sem mcula, e no houve problemas at quase  meia-noite, quando algum reconheceu Carmen e lhe pediu um autgrafo. Carmen era sempre muito atenciosa 
nessas ocasies e j tirara o vu, mas conservava o vestido de noiva. Pouco depois, algum a fotografou, e Allegra percebeu que se aproximava o assalto.
        - Chegou a hora de partir, Cinderela  - disse em voz baixa. O coche te espera.
        Havia mais dois guarda-costas junto do trailer, onde ningum voltara a entrar, exceto o motorista, que no sabia de nada.
        -  muito cedo... - lamentou-se Carmen, mas o cassino estava enchendo e a perspectiva de uma fuga precipitada, ou mesmo de uma aglomerao, no agradava 
a ningum. 
        "Olhem! A Carmen Connors casou-se agora mesmo... E o Alan Carr... Fotografias... Gritos... Guinchos... Apertos..." Nem pensar!
        - Venha da, Sr. Carr, mexa esse traseiro! Esta  a minha noite de npcias, e no vou ficar  jogando bingo!
        Alan beijou-a com firmeza e deu-lhe uma palmadinha. O grupo encaminhou-se para o trailer, que estava  espera. Ao subir os degraus, Carmen virou-se para 
Allegra e Jeff. Allegra ofereceu-lhe um ramo de flores brancas de plstico que deixara  guarda do motorista; Carmen atirou-o graciosamente do ltimo degrau e Allegra 
apanhou-o. Apesar de toda aquela loucura e dos fatos estapafrdios, estava de fato encantadora, e todo o grupo sorriu ao olhar para o casal. O motorista comentou 
que, com aquele vestido, ela parecia mesmo a Carmen Connors. Se no fosse o sotaque e o fato de ser um pouco mais alta, bem podia ser a atriz, confidenciara o homem 
a Allegra.
        - Sim, talvez  - disse ela, mostrando-se pouco convencida.
        Depois fecharam as portas. O trailer arrancou e os noivos disseram adeus a Jeff e a Allegra, que ficaram para trs com os guarda-costas. Ponto final. Tinham 
conseguido. Estavam em segurana. E no houvera problemas nem aparecera um nico reprter. Allegra fizera um trabalho magnfico e Jeff estava mais impressionado 
do que nunca.
        -  um gnio - disse ele em jeito de cumprimento, ao verem o trailer desaparecer ao longe.
        s quatro da manh os noivos chegariam na casa de Alan. Restava-lhes pegar nas malas, mudar de roupa e partir para o Taiti no vo das nove.
        - Foi legal, no foi? - disse Allegra, sorrindo. Estava satisfeita por tudo ter corrido to bem; no queria que os tablides estragassem a festa nem que 
os paparazzi os perseguissem
        - Eles no podiam ter feito um casamento a srio, no  mesmo? - perguntou Jeff, pensativo. Teria sido impossvel, sem os disfarces e as perucas a privacidade 
da sute, os guarda-costas ou mesmo o trailer das estrelas de rock. Fora tudo perfeito
        - Podiam  - admitiu Allegra, fora ela que afastara a idia, em conversa com Alan, que convencera Carmen, mas teria sido um pesadelo, com helicpteros por 
toda a parte, fotgrafos e a comunicao social subornando os fornecedores. Daria mal resultado e a Carmen teria detestado
        Jeff fez um sinal afirmativo, j no se atrevia a discordar dela, pois a experincia na pista de boliche ensinara-lhe muita coisa acerca da maneira como 
viviam as estrelas. Apesar das vidas que todos invejavam e queriam para si prprios, nenhuma era fcil.
        - Pensei que assim seria mais divertido - acrescentou Allegra, lembrando-se de Carmen, to bonita com o seu vu curto, e depois a atirar-lhe o ramo. Tenho 
de ir guardar isto -  gracejou, agitando o ramo na mo, quando regressaram ao hotel.
        Os guarda-costas haviam-se retirado discretamente. J no eram necessrios e a fatura seria apresentada  firma de advogados. Allegra agradecera-lhes no 
trailer, e depois eles tinham ido embora. Ela ficara s com Jeff e mais umas centenas de pessoas que se encontravam no trio do hotel
        Voltaram para a sute, passavam a noite em Las Vegas e de manh regressavam a Los Angeles, numa limusine. A essa hora, Alan e Carmen j iriam no avio, a 
caminho do Taiti. Haviam combinado cuidadosamente como seria feito o anncio do casamento, no diriam nada seno depois da lua-de-mel, para que no os descobrissem. 
Talvez algum do hotel avisasse a imprensa, mas Bora Bora era muito longe e, na opinio de Alan, l estariam a salvo. Quando voltassem, haveria uma conferncia de 
imprensa de cinco minutos, com a presena de ambos, para anunciar o enlace e tirar fotografias. Dem umas migalhas aos tubares, um dedo do p ou da mo, para eles 
ficarem satisfeitos, aconselhara Allegra.
        Nessa noite, aninhou-se nos braos de Jeff, feliz, pensando em Carmen e Alan. Ele era um dos seus melhores amigos, e era engraado imagin-lo casado.
        - Feliz Dia de So Valentim! - disse Jeff, baixinho.
        - Igualmente  - respondeu Allegra, virando-se e deixando que ele a abraasse.
        No se mexeu at de manh. Sonhou que estava apanhando o ramo e que se ria por ele ser de plstico; porm, quando o agarrou, Jeff partiu num trailer e ela 
passou a noite inteira correndo para o alcanar. Nos seus sonhos, tal como na sua vida, as pessoas fugiam sempre dela. Mas isso acabara, pensou, ao acordar. No 
nesse momento... E no com Jeff... Ele estava ali.





CAPTULO 12

        Carmen e Alan regressaram de Bora Bora em meados de maro, e dessa vez no conseguiram evitar os tablides. A lista das nomeaes para o Oscar da Academia 
fora publicada durante a sua ausncia, e l vinham os nomes de ambos. A imprensa estava presente em fora quando saram do avio, algum da companhia area prevenira 
os jornalistas, mas os recm-casados estavam preparados. Muito bronzeados, tinham um aspecto fabuloso quando as mquinas fotogrficas dispararam. Atravessaram lentamente 
a pequena multido que os fora esperar ao aeroporto.
        Allegra alugara um carro para  ir busc-los, e eles refugiaram-se l dentro o mais depressa possvel, depois de posarem para meia dzia de fotografias Partiram 
na limusine e dois guarda-costas ficaram  espera da bagagem.
        Allegra tambm mandara comprar uma garrafa de champanhe para pr no carro, e quando os noivos chegaram a casa de Alan, em Beverly Hills, encontraram-na cheia 
de flores. Porm, da a uns dias a comunicao social comeou a infernizar-lhes a vida, os fotgrafos vociferavam junto dos portes, enquanto os helicpteros pairavam 
sobre as suas cabeas, tentando captar imagens deles no jardim ou na piscina, e os tablides contrataram pessoas para vasculharem o lixo. A situao era insuportvel, 
o que os obrigou a mudar para Malibu, mas aqui ainda foi pior, e por fim esconderam-se em casa de Allegra por uns tempos. Jeff e Allegra foram passar uns dias com 
eles, e os quatro, de cabeleira postia, freqentavam restaurantes pequenos e pouco conhecidos no vale.
        - No posso acreditar numa coisa destas -  disse Jeff, assustado com as intromisses que eram obrigados a enfrentar
        Continuava a dar os ltimos retoques no seu guio. Ele e Allegra tinham passado um ms muito tranqilo, interrompido apenas por mais uma ameaa a Bram Morrison, 
que dera que fazer a Allegra. A famlia dele fora de novo para Palm Springs, e Bram pedira a casa emprestada a um amigo, num lugar desconhecido. Nunca mais dispensara 
os guarda-costas, e uma srie de artigos onde se lia que estava ganhando cem milhes de dlares com a tourne s contribuiu para agravar a situao. Todos queriam 
um pouco de ao, em troca fosse do que fosse, incluindo o rapto ou a chantagem.
        Alan e Carmen tinham regressado h duas semanas. Na tarde de primeiro de abril, Allegra e Carmen passaram duas horas discutindo os pormenores do novo contrato. 
Carmen deixara-o j assinado antes de partir para a lua-de-mel, mas havia alguns pontos sensveis que Allegra pretendia analisar com ela, para apurar exatamente 
quais seriam as suas expectativas quando comeasse a filmar. Precisavam falar do tipo de camarim que teria, dos horrios, e havia que burilar todos os pequenos pormenores, 
para evitar crises desnecessrias.
        J estavam quase acabando quando Carmen olhou para a sua advogada com um sorriso travesso, e Allegra lembrou-se que era o Dia da Mentira. Ao longo do tempo, 
tanto ela como Alan tinham pregado toda a espcie de partidas um ao outro nesse dia, e Scott, o irmo de Allegra, gostava particularmente de torturar a famlia nessa 
data. Alis, estava admirada por ele no ter telefonado, pois todos os anos lhe pregava um susto, dizendo que estava no Mxico, na priso, casado com uma prostituta 
ou em So Francisco, fazendo sexo de grupo. Mas ela retribura-lhe na mesma moeda ao longo dos anos e, ao olhar para Carmen nesse momento, ocorreu-lhe que vinha 
a caminho mais uma mentira.
        - H uma coisa que te quero contar  - disse Carmen com um grande sorriso.
        Allegra riu ainda antes de ouvir o que ela tinha para lhe comunicar.
        - Deixa-me adivinhar: voc e o Alan vo-se divorciar. Ah, ah, hoje  o Dia da Mentira!
        Carmen sorriu; Alan j lhe pregara duas partidas nessa manh. Primeiro dissera que estava  porta um ex-namorado dela, e depois que a me dele ia viver com 
eles durante seis meses. Ambas as novidades tinham provocado um choque em Carmen logo de manh.
        - No, no  nada disso  - objetou, subitamente envergonhada.
        Mas Allegra continuava desconfiada.  sua maneira, era muito parecida com Alan.
        - Vamos ter um beb  - anunciou Carmen, radiante
        - Vo? J? Allegra sabia que eles queriam ter filhos, mas julgava que esperariam um pouco mais. Carmen comeava a trabalhar em junho; as filmagens duravam 
apenas trs meses, mas agora a situao no seria fcil. De quanto tempo? - perguntou, sustendo a respirao, aterrada com a perspectiva de perderem o filme.
        - S de um ms  - respondeu Carmen, embaraada. O Alan disse que ainda era muito cedo para contar, mas eu quis dar-te a notcia E lembrei-me que talvez isso 
seja importante para o estdio; estarei grvida de trs meses quando comearmos, mas de seis quando acabarmos. Achas que eles vo rescindir o contrato?
        - No tenho certeza -  respondeu Allegra, honestamente. Pode ser que consigam contornar a situao. Talvez no aparea mesmo at ao fim. Ainda bem que as 
filmagens no demoram mais tempo!
        Algumas levavam oito ou nove meses, o que, neste caso, teria sido um desastre, e Carmen era a personagem central, apesar de no aparecer sempre.
        - Talvez arranjem uma forma de solucionar as coisas. Faro tudo para consegui-lo... Bem sei como querem desesperadamente que voc entre. Vou telefonar-lhes 
esta tarde -  prometeu Allegra, sorrindo. Parabns... O Alan deve estar radiante!... Alan adorava crianas e sempre desejara ter uma mulher, uma famlia e um beb. 
Que boa notcia! E no  mentira, espero!
        Carmen deu uma gargalhada.
        - Acho que no; pelo menos foi o que o mdico disse... Fui l ontem, para fazer uma ecografia. Havias de ver o coraozinho batendo: parece um feijo gelatinoso. 
Estou grvida de cinco semanas  - afirmou, com orgulho.
        - Custa a acreditar... - disse Allegra, sentindo-se de sbito muito velha.
        Carmen, com apenas vinte e trs anos, tinha a perspectiva de uma grande carreira no cinema, e agora estava casada e ia ter um beb; Allegra, por sua vez, 
quase com trinta, possua apenas uma carreira que adorava e um homem que conhecia h pouco mais de dois meses, que ela amava, sem dvida, mas quem sabia at onde 
iria aquela relao? Ainda estava tudo muito fresco, e a vida era incerta, traioeira.
        Sentou-se  secretria, sentindo-se melanclica e mesmo um pouco invejosa depois de Carmen sair, mas depressa concluiu que estava a ser estpida; os amigos 
tinham direito  felicidade, e ainda havia muitas coisas para ela fazer na vida. Pelo menos j no estava com Brandon,  espera que ele tivesse a coragem de se divorciar 
de Joanie! Brandon s lhe telefonara uma vez desde que partira, para perguntar onde estava a sua raquete de tnis e a bicicleta de Nicky, pois as deixara na casa 
dela, e fora busc-las no fim-de-semana seguinte. Jeff estava l e Brandon mirara-o com curiosidade, mas no dissera nada. Parecia muito zangado com Allegra, agradeceu-lhe 
com frieza e saiu com  pressa. Assim mesmo! Dois anos, e o que restara fora uma bicicleta de criana e uma raquete de tnis, alm de um grande vazio. Mas agora tinha 
Jeff, e a sua relao com ele era muito mais compensadora. Allegra encontrara em Jeff o que sempre desejara num homem compreenso, companhia, apoio emocional. Ele 
interessava-se pelo seu trabalho, gostava dos seus amigos e no tinha receio de se aproximar nem de am-la. Passados dois meses, havia entre eles uma ligao profunda 
que Allegra nunca experimentara com ningum, e muito menos com Brandon.
        Telefonou a Alan para lhe dar os parabns, e ele mostrou-se satisfeito, mas um pouco envergonhado.
        - Eu disse-lhe que no contasse a ningum por enquanto, mas acho que ela ficou entusiasmada quando viu o beb ontem, na ecografia. Queria ir comprar um bero 
correndo...
        - Mas  prefervel que eu saiba; tenho de avisar o estdio.  melhor eles ficarem ao corrente da situao com antecedncia -  disse ela com naturalidade, 
puxando os cabelos louros para trs e tentando esquecer o vazio e a inveja que sentira quando Carmen lhe dera a notcia. No sabia o que se passava consigo; em geral, 
no era to sentimental em relao a bebs. Talvez fosse apenas porque se tratava de Alan.
        - Acha que vai haver problema com eles?
        Alan estava preocupado; no queria estragar o contrato, mas agora era demasiado tarde; o beb nascia em dezembro.
        - Espero que no. Eu aviso assim que lhes telefonar. Creio que, no caso especial deste filme, eles podem dar a volta. Se tencionassem mostr-la em trajes 
de banho durante trs meses, estaramos em apuros, mas o guarda-roupa inclui uma srie de casacos e de roupas largas.
        A ao decorria no Inverno. Havia algumas filmagens locais, e quase todas em interiores, mas, ainda assim, Carmen no seria obrigada a usar muitas roupas 
justas ao corpo.
        - Ela est mesmo entusiasmada, Al  - declarou o amigo, satisfeito, como se fossem o primeiro casal a realizar tal proeza.
        - Eu sei, foi uma ternura. Fez-me sentir velha, para ser sincera.
        E um pouco abandonada. Allegra conhecia Alan h muito mais tempo do que Carmen.
        - Qualquer dia te acontece o mesmo  - disse ele para consol-la.
        - Espero que no. Riu e acrescentou, sem hesitar: Prefiro esperar pelo casamento, se puder.
        - Acho que devia agarrar o Jeff, antes que volte para o Leste. Ele  dos bons!
        - Obrigada, papai -  replicou Allegra, divertida com o conselho. Jeff era realmente dos bons, mas a deciso no cabia a Alan.
        - Fica  vontade... A propsito, ontem vi a Sam com uma pedra que at feria a vista!
        - Que pedra? - perguntou Allegra, empalidecendo.
        - O anel. O anel de noivado... Porque no me contaste? Ela parecia muito orgulhosa.
        - A Sam? - Allegra estava horrorizada. Ela no me disse nada. Est noiva. Desde, quando?
        - Desde ontem, segundo afirmou  - respondeu Alan com ar ingnuo.
        - De repente. - Allegra lembrou-se.
        - Raios!  mentira, no ? - perguntou, ansiosa, e ele riu. Te odeio!
        - Mas acreditaste em mim! Eu devia ter-te feito sofrer mais.  terrvel!
        - E tu s parvo! Espero que tenha quadrigmeos! - retorquiu com veemncia.
        Alan enganava-a todos os anos, e ela acreditava sempre nele.
        Em seguida, telefonou para o estdio e deu a novidade. No ficaram loucos de alegria, mas agradeceram o aviso atempado e garantiram-lhe que o contrato se 
manteria, o que era uma boa notcia; iriam ter uma reunio com o diretor logo que possvel para combinar como seriam as filmagens e tornear o 'problema'.
        - Agradecemos muito  - disse Allegra.
        - Obrigada por nos ter avisado cedo -  afirmou a produtora. Era uma mulher de quem Allegra gostava muito e com quem j contatara vrias vezes, embora no 
por causa de Carmen.
        - Vou dizer  Carmen que est tudo bem. Sei que ela vai ficar satisfeita, pois me pareceu muito preocupada.
        - s vezes, temos de dar a volta  me-natureza. No ms passado trabalhei com a Allyson Jarvis, e ela tinha-se esquecido de nos dizer que estava a amamentar. 
Devia usar um quarenta e oito, e juro-lhe que julguei que nem sequer fssemos capazes de meter o peito dela no filme!
        Riram. Em seguida Allegra telefonou para Carmen, garantindo-lhe que no perdera o filme.
        No entanto, ao fim do dia, quando foi para casa, sentia-se triste sem saber porqu. No fora um mau dia, e as coisas tinham corrido bem para Carmen, apesar 
da gravidez, mas, mesmo assim, Allegra sentia-se abatida, e perguntou a si prpria se no seria por causa do beb. Talvez tivesse inveja deles, pensou, quando se 
dirigia para casa ao volante do carro, mas a idia pareceu-lhe estpida. O problema  que as vidas dos amigos pareciam to realizadas, to completas, enquanto a 
sua se assemelhava a uma obra em curso: continuava a ir ao consultrio da Dr. Green, como sempre, ainda que a mdica se mostrasse muito satisfeita com ela e impressionada 
com a sua relao com Jeff. Allegra ia meditando em tudo isto e reconheceu que se sentia feliz com ele, ao entrar na casa de Malibu. Nunca tivera uma relao como 
esta, nunca amara ningum assim. Jeff era o homem que ela sempre desejara.
        - Tem algum em casa? - gritou para o interior da casa, onde ficava o gabinete dele.
        Segundos depois Jeff apareceu, com um lpis atrs da orelha e um sorriso no rosto. Sentira a falta dela durante todo o dia; fartara-se de trabalhar e estava 
ansioso por voltar a v-la.
Puxou-a para si e beijou-a longamente; qualquer frustrao que Allegra pudesse ter sentido desvaneceu-se nesse mesmo instante.
        - Uau! Para que foi isso? Ou tiveste um grande dia  mquina de escrever, ou um muito mau.
        - Um pouco de ambos, como de costume. Senti saudades suas. Como foi o seu dia?
        - Bastante bom.
        Tirou uma Evian do frigorfico e deu-lhe uma cola. Depois lhe falou de Alan, do beb e de Carmen.
        - J? Foram rpidos! Deve ter havido farra em Bora Bora. Talvez devssemos tentar fazer o mesmo na nossa lua-de-mel...
        - Quando eu me casar, serei to velha que precisarei de uma cadeira de rodas, e no de um carrinho de beb  - retorquiu ela, sorrindo. Sentia-se muito melhor 
e sabia que ele estava apenas brincando ao falar da lua-de-mel.
        - O que te leva a dizer isso?
        Jeff parecia interessado, quando se sentaram nos bancos da cozinha.
        - Tenho quase trinta anos, levei muito tempo construindo a minha carreira e ainda no cheguei onde quero, no sou scia participante e tenho muito a fazer. 
No sei... H muito tempo que no penso em casamento  - respondeu, honestamente.
        Allegra limitava-se a viver o dia-a-dia e aceitava o que ia acontecendo. Parecia-lhe uma maneira mais realista de encarar a vida do que ficar sentada  espera 
do prncipe encantado e de casar de branco.
        - Sinto-me um pouco desiludido ao ouvi-la falar assim  - disse Jeff admirado, e com uma certa malcia.
        Allegra imaginou-se apanhada noutra partida do Dia da Mentira.
        - Por qu? Tencionas pedir hoje a minha mo? - perguntou, sorrindo. Ah! Hoje  Dia da Mentira!
        Jeff riu.
        - Por acaso, sim. Acho que o Dia da Mentira  uma boa ocasio para ficarmos noivos: ningum sabe ao certo se estamos falando a srio ou no. Isso me agrada.
        - Que engraadinho! O Alan j se antecipou -  redargiu, muito descontrada, a beber a sua Evian. Era sempre divertido voltar para casa. Sentiam-se to bem 
juntos!
        - O qu? Pediu-te em casamento hoje? Acho que  de muito mau gosto, se a mulher dele est grvida.
        - No, parvo. Allegra riu de novo. Ele disse-me que a Sam tinha ficado noiva ontem. E eu acreditei. Devia conhec-lo melhor, ao fim de todo este tempo. Faz-me 
o mesmo todos os anos e eu acredito sempre nele.
        Jeff sorriu. Estavam confortavelmente sentados na cozinha, ao pr do sol.
        - Acreditava em mim se eu te pedisse hoje para casar comigo? - perguntou, inclinando-se mais para ela, quase a beij-la.
        Allegra sorriu ternamente, pensando no que ele dissera.
        - No, no acreditava  - respondeu, entrando no jogo de Jeff que abanou a cabea.
        - Nesse caso, acho que terei de voltar a pedir amanh  - disse ele, fingindo-se esmagado.
        Allegra riu outra vez e beijou-o, mas, de sbito, algo no olhar dele a levou a inclinar a cabea para o lado e a fit-lo com um ar intrigado.
        - No est falando a srio, no  mesmo? Isto  tudo uma brincadeira, no  verdade?
        - Por acaso, seres casada comigo talvez tivesse o seu qu de brincadeira... Mas sim, estou falando srio. O que acha? Est fora de questo, ou gostaria de 
fazer a experincia durante cinqenta ou sessenta anos? Eu tenho tempo, se quiser tentar...
        Jeff fitava-a com tal ternura que Allegra ficou sem flego ao perceber que ele estava a falar a srio.
        - Oh! meu Deus... Oh! meu Deus... - Levou as mos  cabea e por pouco no gritou ao olhar para ele. Est falando a srio?
        -  claro que estou falando a srio. Nunca propus casamento  a ningum na minha vida. Pensei apenas que este seria um bom dia para faz-lo. Assim nunca mais 
te esquecerias.
        - Tu s doido! - exclamou, atirando-se ao pescoo. Era incrvel. Allegra conhecia-o h pouco mais de dois meses e, no entanto, aquela soluo assentava-lhes 
que nem uma luva. Tivera outras relaes de vrios anos, que haviam derrapado, marcadas pelo afastamento, pela ausncia de uma verdadeira intimidade, e agora estava 
ali com Jeff, e tudo parecia natural. Era espantoso!
        - Amo-te tanto murmurou, abraando-o e beijando-o. Nunca fora to feliz. Nesse momento, at o beb de Carmen deixara de ter importncia. Aquela situao 
era muito melhor; Jeff queria passar o resto da vida a seu lado e isso era o que ela sempre desejara. Era um sonho que se realizava, e parecia tudo to fcil... 
No se tratava de 'funcionar' ou de algo que tivesse que ser 'resolvido', nem to-pouco necessitavam de 'tentar' ou de 'pensar no assunto'. Allegra no precisava 
de psicoterapia para perceber que o desejava nem ele de dez, de dois ou de quatro anos para compreender que a adorava. Amavam-se, disso tinham a certeza, e iam casar-se.
        - No me respondeu, sabe? -  lembrou-lhe ele. Allegra soltou um gritinho, deleitada, e desatou a correr pela cozinha como uma criana. Jeff deu uma gargalhada 
e ficou a observ-la.
        - Sim, respondi. A resposta  sim... Sim... Sim... Sim... Sim! - gritou, aproximando-se dele e beijando-o.
        -  Dia da Mentira. Eu estava a brincar  - disse Jeff, mas ela riu e no acreditou.
Nem tentes sequer escapar!
        Nesse momento, o telefone tocou. Era o irmo de Allegra.
        - Ol, Scott saudou, com naturalidade. O que h de novo? Pouca coisa.. Oh!, nada.. Eu e o Jeff ficamos noivos... No, a srio! No  mentira, juro!
        Allegra pareceu-lhe to natural, que Scott no acreditou nela. Jeff ria ao ouvir a conversa.
        - s um monstro -  disse ele, em tom de reprimenda.
        - A srio! Estvamos aqui sentados e resolvemos casar... Sim, claro anuiu, quando o irmo lhe anunciou que tambm  ficara noivo. Escusado ser dizer que 
no acreditara nela. A srio que no  mentira, a srio!...
        Mas Allegra ria, como se estivesse a fazer troa dele. 
        - Bem, no te esqueas de me convidar para o casamento  - concluiu Scott com sarcasmo. A irm estragara completamente o seu telefonema anual com o pretexto 
de se casar e ele tinha de regressar s aulas em Stanford.
        - No acreditou numa nica palavra, aposto disse Jeff, rindo-se.
        - Pois no, e vai resmungar quando perceber que eu estava falando verdade, ou j mudou de idias? -  perguntou, fingindo-se preocupada.
        Jeff beijou-a.
        - D-me um dia ou dois. Nunca estive noivo, estou a gozar o momento.
        - Pois, tambm eu.
        Enquanto se beijavam, esqueceram o noivado e pensaram apenas um no outro. Ele despiu-lhe as calas e a blusa de seda e ela tirou-lhe os cales e a camiseta. 
Jeff tinha umas pernas grandes e morenas. s vezes, a meio do dia, estendia-se na praia, quando precisava fazer um intervalo no trabalho. Allegra, por seu lado, 
era muito branca, magra e elegante. J anoitecera quando acabaram de fazer amor na carpete da sala. Allegra riu ao olhar  sua volta.
        - Podemos continuar a fazer isto quando estivermos casados?
        - Estou contando com isso -  respondeu ele, com uma voz sensual.
        Levantaram-se no meio das roupas amontoadas e voltaram para o quarto. A noite j ia adiantada quando pensaram em jantar, em ir a qualquer lado ou mesmo no 
casamento.
        - Gosto de estar noiva  - disse Allegra.
        Levou uma embalagem de biscoitos para a cama e Jeff abriu uma garrafa de champanhe para comemorar.
        - No devamos telefonar a algum? No te parece necessrio pedir a tua mo ao seu pai? -  perguntou, formal, fazendo um brinde.
        - Mais tarde. Saboreemos primeiro o momento, antes que fiquem todos loucos com a notcia.
        Em seguida, comeou a pensar na logstica.
        - Quando quer casar? - perguntou. A situao era mesmo divertida. Tambm ela nunca estivera noiva.
        - No  da tradio ser em Junho? Eu gosto de tradies. Ainda devo estar filmando nessa altura, mas talvez seja possvel. Desde que no te importe que a 
lua-de-mel fique para setembro... Seria muito mau? Prefiro no esperar tanto tempo pelo casamento.
        Dois meses j lhe pareciam de mais; estava ansioso por se ligar oficialmente a ela. Quanto a Allegra, a idia de casar com Jeff da a to pouco tempo no 
a assustava, pelo contrrio. Praticamente j viviam juntos; para qu esperar mais? J desperdiara muito tempo com pessoas que no lhe haviam dado nada em troca. 
Com Jeff no precisava aguardar: casaria nesse mesmo instante, se ele lhe pedisse.
        - Podamos ir passar a lua-de-mel em Bora Bora. Talvez fssemos to felizes como o Alan e a Carmen disse ele, sorrindo.
        - Quer filhos assim to depressa? - perguntou ela, admirada.
        - Sim, se estiver de acordo. Tenho trinta e quatro anos e voc vinte e nove; no gostaria de esperar muito mais tempo. Quando te sentires preparada. Seria 
bom t-los enquanto somos relativamente jovens, embora voc seja mais nova do que eu, mas acho que seria formidvel ter o meu primeiro filho aos trinta e cinco anos.
        - Talvez fosse melhor comearmos j. Faz aniversrio daqui a seis meses e eu posso levar algum tempo para engravidar... Allegra estava a arreli-lo, mas 
a verdade  que gostara de tudo o que ele dissera. Por sinal, adorara. Os meus pais convidaram-nos para jantar amanh, a propsito. Podamos aproveitar a oportunidade 
para dar a notcia, ou quer esperar mais um pouco?
        - Para qu? No preciso de um perodo de nojo, conselheira. No que me diz respeito, a deciso est tomada, se estiver de acordo.
        - Talvez seja prefervel experimentarmos outra vez, para nos certificarmos de que resulta. Uma espcie de exame de conduo -  insistiu, arreliadora. Inclinou-se 
e beijou-o outra vez, enchendo a cama de migalhas, mas Jeff no se importou.
        - Tenciono fazer esse exame durante os prximos anos  - disse ele, beijando-a de novo.
        Pousou a taa de champanhe na mesa-de-cabeceira e recomearam a fazer amor. Por volta da meia-noite, sentiam-se felizes e exaustos.
        - Acho que vai dar cabo de mim antes do casamento -  queixou-se ele. Talvez seja melhor reconsiderar.
        - No se atreva! - exclamou Allegra. Agora no pode voltar atrs; passa um minuto da meia-noite e o Dia da Mentira j acabou. Comprometeu-se comigo, Sr. 
Hamilton.
        - Aleluia! - exclamou Jeff, beijando-a.
        - Quer um casamento grande ou pequeno? - perguntou ela sorrindo, deitada na cama.
        - No creio que tenhamos tempo para uma festa muito grande, porque s faltam dois meses, no acha?
        - Concordo. Quarenta ou cinqenta pessoas no jardim da minha me seria o ideal.  tudo o que desejo. Ou talvez ainda menos... Calou-se e olhou para Jeff, 
envergonhada por no o ter consultado. A menos que queira convidar muitos amigos. Eu no tencionava decidir sozinha desculpou-se.
        - No faz mal disse ele, sorrindo. A nica pessoa que eu quero mesmo que esteja presente  a minha me. Tenho alguns amigos por aqui, mas no muitos, e os 
outros esto espalhados pelo Leste e pela Europa; seria um exagero esperar que venham de propsito  Califrnia. Acho que quarenta pessoas est bem. Tenho de telefonar 
 minha me para lhe dizer. Todos os anos vai  Europa em Junho e gosta de ser avisada com antecedncia quando tem alteraes a fazer.
        - Acha que vai ficar satisfeita? - perguntou Allegra, muito sria e um pouco inquieta. A fotografia da mulher que vira no apartamento de Nova Iorque assustara-a: 
tinha um ar to austero e frio, to diferente de Jeff ou do pai...
        - Tenho certeza. H quatro anos que deixou de me perguntar quando  que eu me casava. Acho que desistiu quando passei dos trinta.
        Alm de ter detestado todas as namoradas do filho nos ltimos vinte anos... Mas Jeff sabia que a me iria gostar de Allegra. Quem no gostaria?
        - Estou ansiosa por contar  minha me -  disse Allegra esfuziante. Vai ficar to feliz! Eles gostam mesmo de voc.
        - Espero que sim. Virou-se para Allegra, muito srio, e beijou-a ternamente. Tomarei muito, muito bem conta de voc para o resto da vida. Prometo.
        - Tambm eu. Prometo, Jeff. Estarei sempre a seu lado E de repente, quando estavam deitados na cama, lado a lado, de mos dadas e falando dos seus planos, 
Jeff riu.
        - Porque no vamos de trailer a Las Vegas? Podamos voltar a usar peruca e voc atirava um ramo de orqudeas de plstico...
        A me dele morreria de susto, mas o casamento de Alan e Carmen fora muito divertido.
        - Tenho uma coisa a confessar a esse respeito  - disse Allegra. Se a minha me puder animar este casamento, f-lo-. Conta com isso. Talvez sejamos obrigados 
a ir a Las Vegas.
        Riram, felizes, e aninharam-se na cama, como duas crianas que planejassem uma grande aventura.
        No dia seguinte, quando foi para o emprego, Allegra estava to entusiasmada que se esqueceu das chaves e teve de voltar atrs para busc-las. Ganhou mais 
um beijo, e Jeff quase teve que a pr na rua para ela no chegar atrasada  primeira reunio.
        - Vai-te embora... Vai! -  gritou. Desaparece! Vai. Disse-lhe adeus da pequena rampa, e ela ainda se estava a rir quando entrou na estrada. Nunca se sentira 
to feliz!
        Passou a manh a sorrir, parecia aquele gato proverbial que engolira o canrio, mas no queria dar a notcia a ningum seno depois de jantar com os pais 
nessa noite. Foi particularmente difcil encarar Alice e no contar nada a Carmen quando esta lhe telefonou. Carmen continuava nas nuvens por causa do beb, mas, 
na opinio de Allegra, a sua notcia era ainda mais empolgante.
        Tentou que Jeff fosse almoar com ela  cidade, mas ele disse que no podia; tinha que trabalhar muito no argumento.
        - Mas eu no posso almoar com mais ningum  - queixou-se. No suportaria no dar a notcia. Tem de vir ter comigo.
        - No, se quer que eu v consigo esta noite, Sr. Hamilton.
        - Allegra gostou de ouvir estas palavras, e Jeff tambm. Escrevera 'Allegra Hamilton' vrias vezes no seu bloco de apontamentos. No brincava assim desde 
os catorze ou quinze anos, quando namorava com Alan.
        Por fim, resolveu descer Rodeo Drive e ir fazer umas compras, para ver se encontrava vestidos brancos bonitos ou trajes apropriados para um casamento no 
jardim da me. Foi s lojas Ferre, Dior, Valentino, Fred Hayman e Chanel, s para dar uma vista de olhos e ficar com uma idia do que havia em branco, mas no encontrou 
nada. A Valentino tinha um belo traje de linho branco, mas no lhe pareceu suficientemente vistoso, e a Ferre uma blusa de organdi fabulosa, mas nada que desse com 
ela. No entanto, divertira-se. Nem podia acreditar: andava  procura do seu vestido de casamento, passados apenas dois meses de ter conhecido Jeff 
        Apeteceu-lhe telefonar a Andreas Weissman, em Nova Iorque, para lhe agradecer.
        Pensou em no almoar, mas depois resolveu passar pelo Grill para comer um sanduche e beber um caf. Em geral, encontrava gente conhecida, advogados da 
firma ou agentes da ICM, da CAA ou da William Morris. Tambm costumavam estar l alguns atores e amigos. A comida era boa, o servio rpido e a localizao perfeita.
        Ao chegar, olhou em volta,  procura de um compartimento, e de repente avistou o pai ao fundo da sala; estava a rir, mas Allegra no via quem o acompanhava. 
Sentiu-se verdadeiramente tentada a ir contar-lhe a novidade, mas sabia que a me nunca lhe perdoaria tal coisa; tinha de esperar por essa noite, quando fosse jantar 
com Jeff a casa dos pais. De qualquer modo, podia ir cumpriment-lo, e foi o que fez. Ps o casaco azul em cima de uma cadeira da sua mesa e foi ter com ele. Vestia 
uma saia bege curta e uma camisa azul-clara e calava uns sapatos Chanel beges, de salto raso, a condizer com a bolsa. Estava muito elegante e  moda, e como era 
habitual, mais parecia um modelo do que uma advogada.
        Assim que se aproximou do compartimento onde se encontrava Simon, este levantou a cabea; ao deparar com a filha, ficou radiante. S ento Allegra viu com 
quem ele estava a almoar. A princpio pareceu-lhe que j a encontrara antes e depois concluiu que se tratava da diretora com quem o pai estivera conversando na 
cerimnia do Globo de Ouro, Lady Elizabeth Coleson. Era uma mulher alta, muito jovem e bastante atraente. Tinha um riso profundo e sensual e era pouco mais velha 
do que Allegra.
        - Ol! Mas que surpresa! - exclamou o pai. Levantou-se, beijou-a e apresentou-a a Lady Elizabeth. Era uma mulher de talento e muito terra-a-terra, embora 
nada pretensiosa, e parecia estar a divertir-se na companhia de Simon. Esta  a minha filha Allegra  - disse ele a Elizabeth com um sorriso, explicando a Allegra 
que estavam falando acerca de um filme. H meses que ando tentando convencer a Elizabeth a trabalhar comigo, mas at agora ainda no consegui lamentou-se, voltando 
a sentar-se.
        Allegra observou-os; pareciam completamente  vontade, como se fossem velhos amigos e tivessem passado muito tempo juntos. Simon perguntou-lhe se queria 
fazer-lhes companhia, mas Allegra respondeu que no desejava interromper a reunio.
        - Obrigada, pai. Tenho de voltar para o escritrio daqui a pouco; passei por aqui s para comer um sanduche.
        - O que andavas a fazer por estes lados? - perguntou ele. Allegra sorriu, morta por lhe contar, mas no podia.
        - Digo-lhe esta noite.
        - Combinado  - concordou Simon.
        Allegra apertou a mo de Elizabeth e voltou para a sua mesa. Pediu uma Salada Csar e um caf, e um quarto de hora depois regressou ao escritrio. Ao volante, 
deu consigo pensando no pai e em Elizabeth Coleson. No sabia por que, mas sentira o mesmo que da ltima vez em que os vira juntos que se conheciam muito bem e que 
pareciam gostar muito da companhia um do outro. Perguntou a si prpria se a me tambm simpatizaria com Elizabeth e resolveu perguntar. Em seguida, os seus pensamentos 
viraram-se de novo para o casamento. Tinha a cabea cheia de idias e nessa tarde telefonou trs vezes para Jeff, s para rirem e conversarem sobre o seu segredo. 
Mal podia esperar e, nessa noite, quando ia a chegar na casa dos pais, sentiu-se prestes a explodir de entusiasmo.
        - Tenha calma... Tenha calma... -  disse Jeff para tranqiliz-la.
        No entanto, tambm estava muito nervoso. E se levantassem objees, ou pensassem que era demasiado cedo, ou no gostassem dele? Antes de sarem de Malibu, 
transmitira as suas preocupaes a Allegra, que o achara ridculo, mas, mesmo assim, continuava apreensivo.
        O pai veio receb-los  porta principal e explicou que Blaire estava ao telefone, na cozinha, a falar com o arquiteto. Pelo que Allegra podia ouvir, a conversa 
no era agradvel: o homem acabara de lhe comunicar que, devido aos armrios e aos azulejos que ela escolhera, seriam necessrios pelo menos sete meses para acabar 
as obras, e Blaire no estava gritando com ele, mas pouco faltava.
        - Talvez tenhamos de passar seis meses em Bel Air disse Simon, meio a srio, meio a rir.
        Perguntou a Jeff o que queria beber e este pediu um usque com gua. Ao fim de alguns minutos de conversa agradvel, apareceu Blaire, irritada e nervosa.
        - Mas que absurdo! - gritou ela ao marido, recusando uma bebida. Sete meses! Ele deve estar doido! Desculpa, querida... disse a Allegra; em seguida beijou-a 
e cumprimentou Jeff, tentando manter a compostura. No posso acreditar!
        - Porque no deixamos a cozinha assim? - sugeriu Simon, com cautela, mas Blaire replicou que a achava fora de moda e que isso estava completamente fora de 
questo. Vou-me embora  - disse ele, baixinho.
        A mulher deu um olhar de censura e mudaram de assunto, mas Allegra mal se podia conter. Quando estavam sentados tranquilamente, antes do jantar, Jeff pousou 
os culos e olhou para os pais dela.
        - Allegra e eu temos uma coisa a dizer... Ou melhor, a pedir-vos... Eu... Eu sei que no nos conhecemos h muito tempo, mas...
        Jeff nunca se sentira to desajeitado na sua vida, parecia um menino, e Blaire fitava-o, incrdula, enquanto Simon lhe dava um sorriso; estava com pena dele.
        - Quer pedir-me o que eu julgo? - perguntou, tentando dar-lhe uma ajuda.
        Jeff lanou-lhe um olhar agradecido.
        - Sim, senhor. Parecia um menino de cinco anos sentado ali ao lado de Allegra, para pedir a mo dela aos pais. Ns gostaramos... Ns vamos... Casar disse, 
tentando parecer de novo um adulto.
        - Oh, querida!
        Blaire correu a abraar a filha, com lgrimas nos olhos. Depois Allegra olhou para o pai, que tambm tinha os olhos brilhantes, mas que parecia feliz pelos 
dois.
        - Papai?...
        Allegra tambm queria a bno dele e percebeu que a tinha.
        - Aprovo do fundo do corao
        Simon deu um aperto de mo firme a Jeff. Os dois homens pareciam satisfeitos, como se tivessem acabado de fechar um negcio importante... Tratava-se do resto 
da vida de Jeff e de Allegra.
        - Obrigado  - agradeceu Jeff, sentindo um alvio enorme. Fora muito mais difcil do que julgara, apesar de os pais de Allegra terem facilitado muito a tarefa. 
No entanto, fora um momento assustador, que nunca mais esqueceria.
        Em seguida comearam todos a falar ao mesmo tempo, e quase no deram pelo anncio do jantar. No falaram de outra coisa durante a refeio. Samantha tinha 
sado com uns amigos, e o casamento foi o nico tema de conversa.
        - Est bem, est bem  - disse Blaire depois do primeiro prato. Agora vamos aos pormenores. Quantas pessoas, quando, onde, que gnero de vestido, vu comprido 
ou curto.. 
        - Oh, meu Deus! - exclamou, enxugando os olhos com o guardanapo. Era uma das noites mais felizes da vida deles, e certamente tambm da de Allegra, que se 
esforava por responder a todas as perguntas da me.
        - Queremos umas quarenta ou cinqenta pessoas aqui em casa, no jardim. Nada de muito sofisticado, uma coisa ntima. Em junho  - disse Allegra, radiante, 
olhando para Jeff e depois para a me.
        - Deve estar brincando, querida, com certeza... - respondeu a me, sorrindo, mas Allegra deitou-lhe um olhar inocente, sem perceber o comentrio.
        - No. Falamos nisso ontem  noite e  assim que queremos.
        - Est fora de questo! - cortou Blaire, que mais parecia estar desempenhando o seu papel de produtora. Esquece! No h contrato.
        - Me, isto no  o seu programa,  o meu casamento  - lembrou-lhe Allegra com delicadeza. O que quer dizer com isso de 'esquece'?
        - Quero dizer que o jardim vai ficar completamente virado do avesso nas prximas duas semanas. No haver nada no quintal seno terra e a piscina at ao 
Outono, portanto o jardim no existe. E no pode estar falando a srio quando te referes a quarenta ou a cinqenta convidados... Imaginas quantas pessoas conhecemos? 
Allegra, isso  uma loucura! Pensa nos seus clientes e em todos os seus amigos de escola, j para no falar dos amigos da famlia. E  claro que os pais do Jeff 
tambm ho de querer fazer os seus convites. Francamente, no vejo como conseguiremos ter menos de quatrocentas ou quinhentas pessoas! Talvez mais perto de seiscentas... 
O que significa que no pode ser aqui. E deve estar brincando quanto a junho; no se consegue organizar um casamento desses em dois meses. Allegra, agora falemos 
a srio, querida. Onde e quando  que vai ser?
        - Me, eu estou falando a srio  - insistiu Allegra, que comeava a ficar tensa. Este  o nosso casamento, no  o seu, e ns no queremos mais de cinqenta 
pessoas.  tudo. Para fazer uma coisa grande, temos de convidar muitas pessoas. Com quarenta ou cinqenta, juntamos apenas os nossos amigos mais ntimos, o que ter 
mais significado para ns, e no so necessrios seis meses para organizar um casamento de cinqenta pessoas.
        - Para que me hei de eu incomodar? -  resmungou Blaire, aborrecida como Simon nunca a vira. A mulher exagerava em tudo, primeiro com o arquiteto e agora 
com o casamento da filha.
        - Me, por favor! - disse Allegra,  beira das lgrimas. Porque no deixa que sejamos ns a organiz-lo? No  obrigada a faz-lo.
        - Isso  ridculo! E onde se realiza o casamento. No seu gabinete?
        - Talvez. Podia ser na casa do Jeff, em Malibu. Seria o ideal.
        - Voc no  uma hippie,  uma advogada, com uma srie de clientes distintos, e os nossos amigos so muito importantes para ns, e para voc. Voltou-se para 
Jeff, apelando  sua interveno. Tm de pensar melhor no assunto...
        Jeff fez um sinal afirmativo e virou-se para Allegra.
        - Porque no falamos nisso esta noite e vemos o que podemos alterar? - disse ele tranquilamente, sob o olhar atento de Simon.
        - Eu no tenciono mudar nada. Ns j falamos no assunto e queremos um casamento com poucas pessoas, em junho, no jardim -  retorquiu Allegra, com veemncia.
        - No h jardim! - disparou a me. E eu estou filmando em Junho. Pelo amor de Deus, Allegra, porque est dificultando as coisas?
        - No tem importncia, me. Allegra afastou o guardanapo e levantou-se da mesa, olhando para Jeff com as lgrimas nos olhos. Ns vamos a Las Vegas. No preciso 
que me faa isso. S quero um casamento ntimo. Esperei trinta anos por ele, e quero faz-lo  minha vontade e  do Jeff. Me. Ns  que vamos casar!
        Blaire ficou agitada ao ver como Allegra estava aborrecida e Simon tentou acalmar as duas
        - Porque no falamos nisso depois do jantar? No  preciso enervarem-se dessa maneira  - disse ele, com calma.
        Me e filha acalmaram-se e Allegra voltou a sentar-se, mas era bvio que a questo no ia ser to simples.
        O resto da refeio foi um pouco tensa, e as duas mulheres mal falaram. Quando o caf foi servido, na sala de estar, a discusso reacendeu-se. Allegra queria 
quarenta amigos e Blaire pensava que deviam ser quinhentos ou seiscentos convidados. Propunha o clube ou o Hotel Bel Air, e Allegra considerava que desse modo o 
seu casamento seria vulgar. Desejava que fosse em casa, ao que Blaire contraps que no conseguiria organizar um programa e um casamento ao mesmo tempo e que tentar 
faz-lo em junho era ridculo. Pelo menos durante duas horas no se vislumbrou qualquer compromisso. Por fim, depois de as duas partes se terem desgastado mutuamente, 
Allegra, contrafeita, aceitou cento e cinqenta pessoas, enquanto a me propunha duzentas e dizia que, se esperassem at setembro, durante as frias do programa, 
e quando as obras no jardim j estivessem concludas, conseguiria faz-lo em casa. Allegra hesitou durante muito tempo e consultou Jeff em voz baixa. A verdade  
que no queriam esperar seis meses para se casarem, mas ele lembrou-lhe que estaria acabando o seu filme por essa altura e que poderiam partir imediatamente para 
a lua-de-mel, em vez de esperarem trs meses aps a boda; havia certa vantagem nisso. Muito contrariada, Allegra concordou, a pedido de Jeff.
        - Mas vai ser assim, me, no me pressione mais! Cento e cinqenta convidados no jardim, em setembro. Ponto final! Nem mais uma pessoa! E s fao isto por 
si...
        Parecia que estavam a jogar ao Monoplio na presena dos dois homens. Simon deitou um olhar ansioso a Blaire.
        - Isso significa que posso ficar com a minha cozinha? Pelo que eles disseram esta noite, no conseguem instalar a nova at setembro.
        - Oh, cala-te! - disse Blaire ao marido, de novo furiosa. Mete-te na tua vida! Mas depois sorriu, acanhada.
        No entanto, da a pouco, todos pareciam mais descontrados; fora uma noite esgotante.
        - No sabia que os casamentos eram to importantes para a sua famlia  - desabafou Jeff, aceitando outro usque, enquanto Simon se servia de um brande.
        - Nem eu  - admitiu Simon. O nosso foi bem simples, mas eu sei que a Blaire sempre desejou dar o melhor s nossas filhas.
        - Ela que faa isso com a Sam  - acrescentou Allegra ainda abalada pela discusso com a me. Eram ambas teimosas e o compromisso no fora fcil, mas, acima 
de tudo, detestava a idia de esperar cinco meses pelo casamento.
        - Ns vamos nos arranjar... -  tranqilizou-a Jeff, beijando-a.
        Allegra foi ter com a me  cozinha. Quando entrou, encontrou Blaire a assoar-se; estivera a chorar.
        - Desculpe, me  - disse Allegra, arrependida das palavras duras que proferira. Eu sei o que quero, mas no era minha inteno aborrec-la.
        - Eu quero que o teu casamento seja bonito, que seja especial!...
        - Vai ser  - respondeu Allegra.
        O que importava era que Jeff estivesse a seu lado. Nesse momento, tudo aquilo lhe parecia uma estupidez e s lamentava que no tivessem fugido, como Carmen. 
Teria sido muito mais simples, e Allegra desconfiava que a situao fosse piorar.
        - E o vestido? - perguntou a me, mudando de assunto. Espero que me deixes ajudar-te a escolh-lo...
        - Comecei a procurar hoje,  hora do almoo. Allegra sorriu e contou-lhe onde estivera, o que vira e o que queria. Na opinio da me, um vestido curto era 
uma boa idia, mas a filha devia estar elegante, talvez com um grande chapu, ou um pequeno vu.
        - Hoje, quando andava a ver as vitrines, encontrei o pai. Tive de morder a lngua para no lhe dar a novidade, mas queria contar-lhe na sua presena, e na 
do Jeff, por isso no o fiz.
        - O que andava ele a fazer em Rodeo Drive? Blaire sabia que o marido detestava compras; era ela que lhas fazia.
        - Nada de especial. Estava no Grill, almoando com a Elizabeth Coleson. Creio que o pai anda a tentar contrat-la para um dos seus filmes.
        Em seguida a conversa derivou para a presena, ou no, de damas de honra no casamento. Allegra ainda no tomara uma deciso, mas notou algo estranho no semblante 
da me. Quando voltaram para a sala, reparou que Blaire olhou de soslaio para Simon. Continuaram a falar do casamento e s onze horas o jovem casal foi-se embora. 
 sada, Blaire segredou qualquer coisa  filha, e Jeff, que tambm a ouviu, estranhou:
        - Tem de telefonar ao teu pai  - disse em voz baixa, quando estavam  porta.
        Allegra olhou para ela, pouco  vontade, e fez um sinal afirmativo. Pouco depois partiu com Jeff para Malibu. Estavam ambos exaustos com a primeira dose 
de preparativos para o casamento; fora um sero difcil.
        - O que queria a tua me dizer com aquilo? -  perguntou Jeff a caminho da auto-estrada.
        Allegra recostou a cabea no banco e fechou os olhos.
        Devamos ter ido a Las Vegas e telefonvamos depois observou, com ar exausto.
        - O que queria ela dizer com aquilo de 'telefonar ao teu pai'? O que se passa?
        Allegra no respondeu. Ficou sentada, de olhos fechados, fingindo que estava a dormir, mas Jeff olhou para ela e apercebeu-se da tenso do seu silncio. 
No compreendia o que se estava a passar e tocou-lhe ao de leve na face.
        - Ouve, no me ignores. O que queria ela dizer? - Instintivamente sentira que se tratava de um assunto doloroso.
        Allegra abriu os olhos e fitou-o.
        - No quero falar disso agora. J basta por esta noite. Durante algum tempo, reinou o silncio, mas Jeff recusava-se a ser posto  margem.
        - Allegra, o Simon no  teu pai?
        Seguiu-se uma longa pausa. Allegra procurava um escape, uma maneira de no lhe dizer. Detestava falar naquilo, mesmo com ele; era demasiado penoso. Abanou 
a cabea tristemente, mas no olhou para Jeff limitou-se a espreitar pela janela.
        - A minha me casou com ele quando eu tinha sete anos.
        Para Allegra, era uma confisso terrvel, algo que detestava aflorar ou admitir.
        - No sabia -  respondeu ele, com cautela, sem pretender violar antigos segredos, mas ia casar com ela e queria ajud-la, se pudesse, j que o assunto era 
to doloroso como parecia, a avaliar pelo seu silncio.
        - O meu 'verdadeiro' pai  mdico e vive em Boston. Odeio-o e o sentimento  recproco  - disse ela, olhando finalmente para Jeff.
        Era um assunto difcil e Jeff optou por no continuar a conversa naquele momento. Limitou-se a acarici-la na face e, quando passou pelo semforo seguinte, 
inclinou-se e beijou-a.
        - Seja o que for que tenha acontecido, quero que saibas que estou ao teu lado e que te amo. Nunca mais ningum voltar a te magoar, Allegra.
        Ela tinha os olhos cheios de lgrimas quando ele a beijou e disse-lhe 'obrigada' em voz baixa. No trocaram mais uma palavra at chegarem a Malibu
        Em Bel Air, os Steinberg encontravam-se no quarto, e Blaire observava Simon, que tirava a gravata.
        - Soube que almoou hoje com a Elizabeth  - disse Blaire com frieza, fingindo folhear uma revista. Depois levantou a cabea e olhou de novo para o marido. 
Julguei que isso tinha acabado.
        - Nunca comeou  - respondeu ele tranquilamente, desabotoando a camisa e entrando no banheiro. Mas sentia a mulher atrs de si. Blaire seguira-o, e os seus 
olhos trespassaram-no quando se virou e deu de cara com ela. J te disse que  uma relao estritamente profissional.
        Simon pronunciou estas palavras com muita calma, mas Blaire ficou desconsolada. Sentia-se to velha s de olhar para o marido! Ele almoava com mulheres 
da idade da filha, e continuava a ser to atraente! E ela sentia-se to gasta e to pouco feminina! Era uma sombra do passado, mesmo em termos profissionais. E agora 
era a 'me da noiva'... Sentia-se muito velha!
        - Tambm andavas a trabalhar com ela em Palm Springs? -  perguntou Blaire sem perder a calma.
        - No me faas isso! - exclamou Simon, virando-lhe as costas. Recusava-se a entrar de novo no jogo dela; aquelas cenas comeavam a tornar-se demasiado freqentes. 
Estvamos apenas conversando, mais nada. Somos amigos. Acaba com a conversa, Blaire, por mim e por voc. Deve-me isso!
        - Eu no te devo nada! -  retorquiu ela com os olhos cheios de lgrimas. Quando ia a sair dado banheiro, virou-se para trs e fitou-o de novo. Andas a propor-lhe 
fazer um filme? Foi o que a Allegra disse.
        - Foi o que eu lhe disse. Ns estvamos apenas conversando, mais nada. Ela vai regressar a Inglaterra.
        - E voc? - perguntou Blaire, desolada. Vais filmar l o seu prximo filme?
        - Vamos rodar o prximo filme no Novo Mxico  - respondeu Simon. Saiu lentamente da banheiro e abraou a mulher. Amo-te, Blaire, no te esqueas disso... 
Por favor, no me pressiones mais... Sairemos ambos feridos disto.
        Mas Blaire queria precisamente feri-lo, tal como ele a ferira quando descobrira que o marido tinha um caso com Elizabeth Coleson h seis meses. Simon fora 
muito discreto; mais ningum soubera, a no ser ela. Blaire descobrira por acaso, quando algum os viu em Palm Springs e lhe contou, sem se aperceber do que estava 
fazendo. Blaire compreendera imediatamente. Sentira um calafrio na espinha. E ele negara, claro, mas quando os viu  conversando um com o outro numa festa, durante 
alguns minutos, no lhe restaram dvidas: tinham o aspecto daquelas pessoas que trocavam segredos na cama,  noite, e aparentavam a cumplicidade que nascia no quarto. 
Quando insistiu de novo com ele, Simon no disse nada, e ela percebeu que as suas suspeitas tinham fundamento.
        Allegra no soube. Ningum soube. Blaire nunca contara a ningum. Guardou o segredo, enquanto a sua alma definhava lentamente, como voltara a acontecer nessa 
noite, quando a filha lhe dissera que os vira juntos.
        - Porque tens de ir com ela para um restaurante? Porque no a recebes no teu escritrio?
        - Porque, se o fizer, voc pensaria que eu andava dormindo com ela. Achei que seria prefervel v-la em pblico.
        - O que seria prefervel era no a ver, quaisquer que fossem as circunstncias  - retorquiu Blaire sem perder a calma, sentindo uma lassido apoderar-se-lhe 
do corpo e da alma, quando se sentou na cama. Talvez isso j no tenha importncia... - acrescentou em voz baixa.
        Levantou-se, encaminhando-se para o seu quarto de dormir, e Simon no foi atrs dela. A situao estava to difcil! H meses que no dormiam juntos. Mesmo 
sem falarem no assunto, deixaram de faz-lo assim que ela soube que ele tinha uma aventura. Blaire comeava a envelhecer e sentia que o marido no a amava nem a 
desejava.
        Simon estava lendo quando ela voltou para o quarto, de camisola. Olhou-a com afeto. Sabia como a situao fora dolorosa para a mulher e lamentara-a terrivelmente, 
mas eram coisas que aconteciam, e no era possvel anul-las. Pesaroso, compreendia que Blaire nunca permitiria que ele esquecesse o que se passara. Talvez o merecesse. 
Aceitava o destino e mantinha a esperana de encontrar uma maneira de faz-la sentir que continuava a am-la. Porm, ela nunca acreditaria; agora, todas as suas 
atenes estavam concentradas em Elizabeth Coleson, ainda mais do que no seu programa de televiso. Simon perguntou a si prprio se o casamento de Allegra iria alterar 
a situao e deix-la mais animada. Esperava que sim.
        - Estou contente pela Allegra -  disse, apaziguador. O Jeff  um tipo correto. Creio que ser um bom companheiro para ela.
        Blaire encolheu os ombros; Simon tambm fora bom para si, durante mais de vinte anos, e agora tudo mudara. Haviam sido to felizes, to unidos! Consideravam-se 
especiais, includos no grupo dos que tinham alcanado a felicidade pela mo do destino, e, afinal, este acabara por lhes pregar uma partida. Agora tudo era diferente, 
a sua vida nunca mais seria a mesma, e Simon sabia isso, ainda que tivesse posto termo  relao depois de Palm Springs. Mas era demasiado tarde.
        Blaire enfiou-se na cama e pegou num livro; era o novo livro de Jeff. Comprara-o na semana anterior, e agora ele ia ser seu genro, embora mal pensasse nisso; 
o encontro de Simon com Elizabeth Coleson obcecava-a. Que mais teriam eles andado a fazer? Seria o almoo em pblico um disfarce descarado e enganador? Virou-se 
e olhou para o marido: Simon tinha adormecido de culos e com o livro nas mos. Ficou a observ-lo, sentindo que o sofrimento ocupava agora o lugar do amor de outrora. 
H meses que era assim. Fechou-lhe o livro e tirou-lhe os culos, perguntando a si prpria se ele tambm adormeceria to facilmente quando estava junto de Elizabeth 
Coleson.
        Guardou o seu livro e apagou a luz. Estava habituando-se  dor e  solido. Aprendera a viver com elas, mas lembrava-se muito bem do passado, antes de as 
coisas terem mudado entre eles. E, ali deitada, ao recordar esse passado, fez um esforo para pensar no casamento de Allegra. Talvez fossem mais felizes do que ela 
e Simon, talvez a mo do destino nunca os tocasse. Blaire desejava-o sinceramente e, em silncio, rezou pela filha.

CAPTULO 13

        Na semana seguinte ao anncio do noivado, a vida de Allegra no escritrio parecia ter sido varrida por um furaco. Praticamente todas as pessoas que representava 
tiveram um problema qualquer, um novo acordo para fazer ou uma proposta de licenciamento que precisava ser analisada. Era como se algum tivesse puxado uma corda 
em algum lugar e tentasse afog-la.
        E quando Jeff telefonou  me para anunciar o noivado, a situao complicou-se ainda mais. O nico comentrio de Sr.Hamilton foi que a deciso parecia demasiado 
apressada, visto que nunca o ouvira falar de Allegra, e esperava que ele no viesse a arrepender-se. Depois de falar com Allegra durante alguns minutos, disse ao 
filho que gostaria que fossem a Nova Iorque, pelo menos por uns dias, para conhec-la.
        - Devamos l ir antes de as filmagens comearem, em Maio  - sugeriu ele, depois de desligarem, mas Allegra no vislumbrava quando, pois tinha muito que 
fazer no escritrio; no entanto, prometeu que arranjaria uma oportunidade nas semanas seguintes, desse por onde desse.
        A nica coisa que no fez nessa semana, mais uma vez com o pretexto de que tinha muito trabalho, foi telefonar ao pai. Jeff evitava pression-la, mas ela 
j adiantara que os pais se haviam divorciado e que existia uma grande amargura entre eles. Vira-o poucas vezes nos ltimos vinte anos, e nenhum dos encontros fora 
agradvel. O pai parecia responsabiliz-la pelos atos da me.
        - Diz-me sempre que sou parecida com ela, que somos as duas insuportveis e que no aprova o nosso 'estilo de vida hollywoodesco'. Comporta-se como se eu 
fosse uma bailarina de rock e no uma advogada.
        - Talvez no saiba estabelecer a diferena...
        Jeff tentou introduzir uma nota de humor, mas era bvio que Allegra no estava receptiva. A me dele tambm no simpatizava muito com Hollywood nem com aquilo 
que esse mundo, em sua opinio, representava, mas a situao com o pai de Allegra parecia ser muito mais grave, e Jeff tinha a impresso de que havia algo mais de 
que ela no falava. Contudo, teve o bom senso de esperar que desabafasse quando estivesse disposta a isso. No podia deixar de perguntar a si prprio se fora por 
este motivo que Allegra sempre se envolvera com homens difceis. Se o pai a rejeitara, talvez procurasse homens que fizessem o mesmo, e, se assim fosse, sofreria 
uma grande decepo com ele. A verdade  que no tencionava abandon-la, pelo contrrio, adorava os dias tranqilos que passavam juntos, as tardes na cama, as muito 
raras manhs de lazer.
        No fim-de-semana seguinte ao anncio do noivado aos pais de Allegra, conseguiram finalmente passar uma noite tranqila em casa, e no sbado at foram ao 
cinema. Deitaram-se assim que chegaram; nunca conseguiam resistir a fazer amor, e estavam quase a adormecer nos braos um do outro quando o telefone tocou.
        Jeff sentiu-se tentado a ignor-lo, mas Allegra no conseguiu. Receava sempre que tivesse surgido algum problema grave a um dos seus clientes, e isso acontecia, 
s vezes, mas quase sempre era engano.
        -Al? - disse, sonolenta, e por instantes reinou o silncio do outro lado da linha. Ia a desligar quando ouviu um soluo. Al? - repetiu, e ficou  espera. 
Quem fala? Fez-se de novo silncio, a que se seguiu mais um soluo, e depois uma voz estrangulada do outro lado. 
        -  a Carmen.
        - Est bem?
        Teria havido um acidente? Teria acontecido alguma coisa muito grave? Estaria ela ferida? T-la-ia Alan deixado? O que poderia ter sucedido?
        - Carmen, fala comigo  - disse Allegra, tentando no denunciar a irritao que sentia, enquanto Jeff suspirava a seu lado: sempre que Carmen e Alan discutiam, 
Carmen telefonava, histrica, e Jeff no gostava. Era muito amigo deles, mas considerava que no competia a Allegra resolver os seus problemas conjugais menores. 
Afinal, toda as pessoas os tinha, e a maioria no telefonavam aos advogados para estes os resolverem.
        - Ele vai-se embora... - conseguiu balbuciar Carmen Em seguida desatou a soluar, e Allegra ouviu algum a gritar
        - O que se passa? - perguntou, tentando transmitir-lhe calma atravs do telefone, mas sem xito. Ele vai deixar-te
        - Sim...
        Carmen engasgou-se. Depois algum lhe tirou o telefone da mo e Alan falou, irritado e exausto.
        - Eu no a vou deixar, pelo amor de Deus! Vou para a Sua rodar um filme, e no vou morrer, nem ter uma aventura amorosa  - repetiu pela milsima vez nessa 
noite Vou trabalhar, mais nada! E, quando acabar, volto para casa! A minha vida  esta!
        Dizendo isto, devolveu o telefone  mulher, que, com um ataque de histerismo, chorava ainda mais.
        - Mas eu estou grvida...
        Allegra suspirou; agora entendia. Carmen no queria que ele partisse para ir rodar o filme, mas Alan tinha um contrato a cumprir, e dos bons. No havia alternativa.
        - Ora, ora, Carmen, seja razovel, ele tem de ir. Tu podes ir l visit-lo antes de comeares a trabalhar, em junho. Vai agora, pelo amor de Deus. Pode ir 
passar um ms antes de comearem as filmagens.
        De repente, os soluos pararam e fez-se silncio.
        - Podia, no podia? Oh, meu Deus, obrigada, Allegra, gosto muito de ti!
        Talvez gostasse, mas Allegra no tinha a certeza de que Alan estivesse to entusiasmado; quando queria, Carmen sabia ser cansativa e absorvente.
        - Amanh telefono  -  disse Carmen com pressa, e desligou-lhe literalmente o telefone na cara.
        Allegra abanou a cabea, apagou a luz e voltou para a cama, mas Jeff resmungou qualquer coisa para a almofada quando ela se aconchegou a ele.
        - Tem de dizer a essa gente que no te telefone de cinco em cinco minutos.  ridculo! No sei como suportas uma coisa destas!
        Allegra percebia que a situao o incomodava, mas Jeff sabia que os seus clientes faziam aquilo h anos: Carmen, sem dvida, e a mulher de Bram Morrison, 
e at Bram, quando precisava, e Malachi, sempre que estava pedrado ou embriagado e se convencia de que tinha um sbito distrbio mental, e sobretudo quando se metia 
em confuso. E mesmo Alan. E os outros, tambm. Era assim em Los Angeles, e, se no telefonassem aos advogados, ligavam aos agentes.
        - Aqui  assim, Jeff.  difcil demov-los.
        - Isso  neurtico! Afinal, o que aconteceu? Discutiram outra vez? Vai ser um casamento muito longo, se recebermos um telefonema  meia-noite sempre que 
discutirem acerca de quem vai pr o lixo l fora!
        Mas a verdade  que o lixo deles tinha que ser desfibrado e depois bem fechado num cofre com segredo, para ningum o roubar.
        - Se voc  no disser nada  Carmen, digo eu.
        - Ela no quer que o Alan v para a Sua na prxima semana, insiste para que fique em casa com ela e com o beb.
        - Ainda no h beb nenhum! - exclamou Jeff mais aborrecido do que nunca. Que estupidez! Est grvida h dez minutos e espera que ele fique em casa a fazer-lhe 
companhia durante nove meses?
        - Faltam s sete meses e trs semanas. Ela est grvida de cinco semanas.
        Jeff gemeu outra vez e Allegra riu. Era, de fato, uma estupidez, mas era a realidade para Carmen.
        - Talvez fosse melhor dedicar-se ao direito da concorrncia... - sugeriu.
        Por fim, resolveram no desperdiar a oportunidade, j que estavam acordados. Jeff virou-se para Allegra e comeou a fazer srios avanos. Pelo menos, recuperou 
o bom humor. E dessa vez, quando adormeceram, no houve mais interrupes.
        Na semana seguinte, o Oscar absorveu a ateno de todos os clientes de Allegra, e Carmen andava atarefada fazendo planos para a viagem: ela e Alan partiam 
da a dois dias. 
        Tinham sido nomeados, e, apesar de nenhum deles estar esperando ganhar, a verdade  que a nomeao era importante para a carreira de ambos, mas Carmen estava 
completamente desinteressada da sua: nesse momento, s se preocupava com o beb, e com Alan,  claro.
        Allegra e Jeff viram os Steinberg na cerimnia. O filme de Simon conquistou cinco Oscar, incluindo o de melhor filme, o que deliciou Allegra. A me tambm 
ficou radiante, mas Allegra continuava a notar nela certa tenso. No sabia se era por causa do programa, se era apenas um estado de esprito ou imaginao sua, 
mas era mais uma sensao do que uma evidncia. Quando falava nisso a Jeff, este jurava que no dava por nada.
        - Ela parece-me aborrecida, perturbada, triste ou outra coisa qualquer afirmava Allegra com convico.
        - Talvez no se sinta bem ou esteja doente  - sugeriu ele, com sentido prtico, mas Allegra ficou ainda mais preocupada.
        - Espero que no.
        Como era de prever, Alan e Carmen no ganharam qualquer Oscar, mas, aparentemente, nenhum deu importncia ao assunto.
        Depois da cerimnia, Blaire no deixou de perguntar a Allegra se tinha telefonado ao pai para lhe comunicar o seu casamento.
        - No, me, ainda no -  respondeu ela, com ar carrancudo.
        Escolhera um vestido prateado que lhe moldava o corpo e estava espetacular. A ltima coisa que lhe apetecia era ouvir falar do pai ou pensar sequer em telefonar-lhe.
        - Preciso saber, por causa dos convites insistiu Blaire.
        Allegra rolou os olhos nas rbitas.
        - Est bem, est bem, eu telefono-lhe. Depois pensou melhor e acrescentou:
        - Porque no liga para ele me e no l pergunta se ele quer que o seu nome figure nos convites? Por mim, no  essa a minha vontade, o Simon  que  o meu 
pai. No preciso dele para nada! Porque no resolvemos no lhe telefonar? Devem ser vocs os dois a convidar. Eu j nem sequer uso o nome dele, portanto de que serve? 
        As pessoas conheciam-na apenas por Allegra Steinberg, apesar de Simon nunca ter conseguido adot-la oficialmente. Blaire no quisera discutir o assunto com 
o verdadeiro pai de Allegra, Charles Stanton. O nome Allegra Stanton nunca seduzira a filha.
        - E fique sabendo que no  ele que  vai me levar ao altar,  o pai!
        Antes que Blaire pudesse comentar as palavras da filha, a multido separou-as. A imprensa e as pessoas que queriam felicitar Simon aglomeraram-se  sua volta.
        Mais tarde, quando os convidados comearam a dispersar, Allegra viu que Lady Elizabeth Coleson se aproximara do pai para cumpriment-lo. Conversavam com 
-vontade no meio de um grupo de pessoas e Blaire retirara-se discretamente para ir falar a uns amigos, mas Allegra reparou que ela olhava para Simon por cima do 
ombro e estava tensa. Comeava a pensar se Jeff teria razo e a me no se sentiria bem.
        Em seguida dispersaram-se por diferentes festas. Allegra e Jeff foram a uma de Sherry Lansing, no Bistr, logo a seguir  cerimnia, e depois a outra no 
Spago, mas nenhuma foi to boa como as que Irving Lazar costumava dar nos bons velhos tempos. No entanto, divertiram-se bastante.
        Da a dois dias, Carmen e Alan partiram para a Sua, com um monte de malas, sacos e caixas. Parecia um circo ambulante a sair da cidade, mas, no meio daquilo 
tudo, Carmen estava em xtase, porque ia com ele.
        - No te esquea de voltar a tempo  - lembrou-lhe Allegra, quando foi lev-los ao aeroporto.
        Alan parecia irritado com a quantidade de coisas que Carmen comprara, e a imprensa aparecera, depois de ter sido prevenida, como era habitual, o que s aumentava 
a tenso que rodeava aquela partida j de si catica.
        Por fim, os representantes VIP da companhia area conduziram-nos at ao avio. Allegra conseguiu que Alan assinasse os ltimos documentos que trazia na pasta 
e regressou  cidade em paz, na limusine, e at arranjou tempo para telefonar a Jeff. Que sossego!
        - Como foi? - perguntou Jeff quando atendeu.
        - Inacreditvel, como de costume.
        - Levavam os trajes de polister e as perucas? Deviam t-lo feito.
        - Tem razo  - concordou, rindo. O Alan levava uma espcie de urso que acompanha Carmen para todo o lado, e ela uma parka cor de areia e um traje colado 
ao corpo que fazia saltar os olhos das rbitas a qualquer pessoa. Continuo pensando que devamos casar em Las Vegas, como eles fizeram.
        - Tambm eu. A propsito, hoje falei com a minha me  - disse Jeff, com cautela. Ela quer que vamos visit-la. Gostaria de l ir antes de comear o filme.
        A filmagem das primeiras cenas teria incio da a duas semanas e Allegra no sabia o que havia de fazer. Andava tratando de todos os pormenores de ltima 
hora para a tourne de Bram Morrison e a verificao dos acordos e dos contratos absorvia-a completamente. Alm disso, conhecera Tony Jacobson, um amigo de Jeff 
dos tempos de Harvard; era co-produtor do filme, e estava ciente de que os dois tinham muito trabalho a fazer antes de iniciarem as filmagens. No sabia como poderiam 
ir ao Leste, ainda que fosse para conhecer a me de Jeff.
        - No vejo como, Jeff... Mas vou tentar, prometo.
        - Eu disse-lhe que iramos l no ltimo fim-de-semana de Abril. Susteve o flego, rezando para que ela concordasse. A me j ficara aborrecida por ter pedido 
Allegra em casamento antes de ela a conhecer. Pode?
        - Hei-de poder, hei-de poder..
        Dois dias depois comeava a tourne de Bram. Felizmente era local, mas, mesmo assim, a viagem iria obrig-la a um grande esforo.
        - Aproveitamos o fim-de-semana. Vamos num dia e voltamos no outro, se preferir. Jeff queria fazer tudo o que fosse ao encontro da convenincia dela, mas 
essa ida era muito importante para ele, e Allegra no lhe podia negar tal coisa. Ele sempre a ajudara e se mostrara compreensivo. Allegra devia-lhe isso. Se quiser, 
no regresso podemos passar por Boston para ir ver o seu pai  - sugeriu, tentando ser eqitativo.
        Fez-se silncio, e depois Allegra disse:
        - Charles Stanton no  meu pai.
        Jeff estava ansioso por saber o porqu de tanto ressentimento e Allegra ainda no lhe contara, mas, nessa noite, o comentrio dela deu-lhe oportunidade de 
fazer a pergunta, quando estavam a preparar o jantar. Haviam-se tornado uns verdadeiros especialistas. Ele cozinhava a carne e ela tratava dos acompanhamentos; era 
boa em legumes, saladas e toda a espcie de guloseimas saborosas e decorativas. Jeff adorava fazer bifes, costeletas e pratos de frango. Quando lhe voltou a pr 
a questo, seguiu-se o silncio habitual.
        - Talvez eu devesse deixar de te perguntar  - admitiu. H duas semanas que Allegra evitava tocar naquele assunto, desde que ele ouvira falar no pai dela. 
Mas gostava de saber por que motivo  que isso  to traumtico para voc. Talvez precisemos conversar. O que pensa a tua psicloga? J lhe perguntaste? -  insistiu 
Jeff com delicadeza.
        Allegra fez um sinal afirmativo.
        - Disse-me para eu te contar.
        Fez-se de novo silncio, enquanto o servia de arroz e de brcolos; Jeff acrescentou o peixe cozido. Era um jantar muito agradvel. Allegra fizera tambm 
po de alho e uma salada.
        - Nem mais! - exclamou ele com um gesto exuberante, quando se sentaram.
        Allegra esboou um sorriso triste. Estava pensando em Charles Stanton. Era como se Jeff lhe tivesse lido os pensamentos.
        - Porque o odeia tanto, Alie? O que te fez ele, ou  tua me?
        Jeff calculava que tivesse sido uma coisa terrvel, mas Allegra encolheu os ombros e comeou a comer.
        - Ele no fez verdadeiramente nada... Depois...  mais o que no fez... Eu tive um irmo chamado Patrick... Paddy. Sorriu, olhando para Jeff. Era o meu heri! 
Tinha mais cinco anos do que eu e fazia tudo por mim... Eu era a sua princesinha. A maior parte dos irmos batem nas irms... O Paddy nunca o fez. Arranjava-me as 
bonecas quando se partiam, calava-me as luvas, atava-me os atacadores, at...
        Os olhos encheram-se-lhe de lgrimas; era sempre assim quando falava de Paddy. Ainda tinha uma fotografia dele. Guardava-a numa gaveta fechada  chave, no 
seu gabinete. No conseguia p-la em cima da secretria, passados quase vinte anos, a situao ainda era muito dolorosa.
        - Ele morreu quando eu tinha cinco anos  - continuou, com uma voz estrangulada. Sofria de uma variante rara de leucemia, que nesse tempo no tinha cura, 
e ainda hoje os mdicos nem sempre so bem sucedidos. O Paddy sabia que ia morrer e costumava dizer-me que ia para o cu e que ficaria  minha espera
        Os olhos de Allegra voltaram a encher-se de lgrimas. Jeff parou de comer e estendeu a mo para acarici-la.
        - Lamento disse, com um n na garganta. Allegra abanou a cabea, mas continuou a falar. Talvez a Dr. Green tivesse razo: era melhor contar-lhe e esclarecer 
tudo.
        - Eu costumava pedir-lhe que no me deixasse, mas ele dizia que tinha de ser. Por fim, estava to doente! Ainda me lembro... Em geral, no nos recordamos 
do que nos aconteceu aos cinco anos, mas eu lembro-me de tudo o que diz respeito ao Paddy, principalmente do dia em que ele morreu.
        A sua voz fraquejou, mas continuou a falar. Jeff estendeu-lhe um guardanapo de papel. Allegra sorriu-lhe atravs das lgrimas e desejou que Jeff tivesse 
conhecido o irmo, que Paddy ainda estivesse vivo. Esta idia assaltava-a tantas vezes!
        - Creio que o meu pai perdeu o juzo quando ele morreu. Tentara trat-lo no fim, ao que parece. Eu no sabia, a minha me contou-me mais tarde. Mas ele nada 
podia fazer. Ningum podia. O pior  que aquela era a especialidade do meu pai, e ficou desesperado por no o ter conseguido salvar. Nunca me deu muita importncia, 
talvez por eu ser to pequena, ou por ser menina, ou... No sei. No me lembro bem dele, s do Paddy. O meu pai nunca se encontrava presente, estava sempre trabalhando. 
Depois o meu irmo morreu, ele ficou destroado e atirou a culpa para cima da minha me. Estava sempre a gritar com ela, acusava-a de tudo, e, como todas as crianas, 
eu pensava que a culpa era minha, julguei que tinha feito qualquer coisa de mal que provocara a morte do Paddy e despertara o dio do meu pai. S me lembro dele 
a gritar! Aquilo durou um ano. Creio que ele bebia muito. Os meus pais estavam sempre discutindo e o casamento desfez-se. Eu costumava esconder-me no roupeiro a 
chorar,  noite, para no os ouvir discutir.
        - Que horror! - exclamou Jeff, compreensivo.
        - E foi. Pouco depois, comeou a bater-lhe. Eu tinha medo que ele me batesse tambm, e sempre me senti culpada por no conseguir impedi-lo, mas nada podia 
fazer. E continuava a pensar que, se o Paddy no tivesse morrido, nada daquilo teria acontecido, embora hoje j tenha as minhas dvidas... Depois comeou a acusar 
a minha me de tudo, e at dizia que o Paddy morrera por culpa dela, at que ela no agentou mais e disse que o ia deixar. Ento o meu pai avisou-a de que, se o 
fizesse, nos voltava as costas e nos deixava morrer de fome. A minha me no tinha famlia, e aposto que tambm no tinha dinheiro. Muito mais tarde, contou-me que 
esboou um plano e comeou a enviar contos para revistas. Poupou alguns milhares de dlares e uma noite, depois de ele lhe dar uma sova, pegou a mim e saiu de casa. 
Lembro-me que ficamos num hotel onde fazia muito frio, de ter muita fome e de ela me comprar donuts. Talvez tivesse medo de gastar muito dinheiro...
'Creio que passamos algum tempo ali escondidas, e ele nunca nos descobriu, mas a minha me foi falar-lhe ao consultrio e levou-me. L, todos se comportavam como 
se ele fosse um deus, ou coisa parecida, e era considerado uma sumidade na Faculdade de Medicina de Harvard. Ningum sabia que costumava bater na minha me. Tinham 
pena dele por causa do Paddy.
'A minha me disse-lhe que queria ir embora, e ele avisou-a de que, se o fizesse, nunca mais o veramos, e eu podia morrer que no se importava; se nos fssemos 
embora, eu deixava de ser filha dele... Os olhos de Allegra encheram-se de lgrimas mais uma vez; Jeff continuou a apertar-lhe a mo, mas manteve-se silencioso. 
Foi o que ele disse, que eu j no era sua filha. A minha me respondeu que nos amos embora, de qualquer maneira; quando samos do consultrio, afirmou que tnhamos 
morrido para ele. E eu fiquei  espera de morrer. No se despediu, nem me deu um beijo, nada; reagiu como se nos odiasse. Acho que odiava mesmo a minha me, nessa 
poca, e, na sua mente, arrastava-me. A minha me disse que ele havia de mudar de idia com o tempo e que eu seria sempre sua filha, que ficara destroado com a 
morte do Paddy e s fazia disparates, e que amos para a Califrnia. Viemos de nibus, e de vez em quando he telefonava, mas ele nunca falava com ela e chegava a 
desligar-lhe o telefone.
'Quando chegamos a Los Angeles, a minha me comeou logo a escrever para a televiso. 'Creio que teve sorte, porque gostaram do trabalho dela. Um dia, contou a sua 
histria a um homem da estao na minha presena, e ele at chorou. Creio que lhe arranjou muito trabalho. Seis meses depois da nossa chegada, conheceu o Simon. 
Eu tinha seis anos e meio; havamos sado de Boston pouco depois de ter feito seis anos. Passei o dia do meu aniversrio naquele hotel gelado, e no tive bolo nem 
prendas. O meu pai nunca me deu os parabns... Mas, depois de tudo o que se passara no ano anterior, eu achava que no merecia nada. Sentia-me culpada, embora no 
soubesse por qu; limitava-me a considerar que a culpa era minha.
'Durante anos escrevi ao meu pai, pedindo-lhe que nos perdoasse, mas ele nunca me respondeu. Por fim, enviou-me uma carta a dizer que aquilo que a minha me fizera 
era lamentvel e imperdovel e que nunca o devia ter deixado. Fora para Hollywood como qualquer prostituta e abandonara-o, e eu levava uma vida de pecado e de deboche 
na Califrnia, portanto no queria saber de mim. Rasguei a carta, para nunca mais a ler, e chorei durante semanas a fio. Nessa altura o Simon foi como um pai para 
mim e, pouco depois, desisti de Charles Stanton. Ele veio ver-me, ou esteve na Califrnia quando eu tinha quinze anos, e telefonou por qualquer motivo. Perguntei-lhe 
se nos podamos encontrar, e ele concordou. Tinha curiosidade em relao a ele e queria ver como estava, mas aconteceu exatamente a mesma coisa. Lanchamos em Bel 
Air. A minha me foi-me levar, e ele limitou-se a dizer uma srie de coisas terrveis acerca dela. No perguntou como eu estava, nem disse que lamentava no me ter 
visto nem escrito durante dez anos; afirmou apenas que eu era tal e qual a minha me, o que era uma pena, disse que eu e ela tnhamos sido muito injustas para com 
ele e que um dia havamos de pagar por isso. Foi uma tarde horrvel! Voltei a correr para casa e nem esperei que a minha me me fosse buscar. S queria afastar-me 
daquele monstro! E nunca mais ouvi falar dele, at que ca na asneira de convid-lo para a cerimnia final do colgio, sete anos mais tarde. Ele foi a Yale e voltou 
a acusar-me de tudo, mas nessa altura eu j estava farta de atur-lo, por isso respondi-lhe que nunca mais o queria voltar a ver depois de ele ter insultado a minha 
me.
'Uma vez, pelo Natal, enviou-me um carto de boas-festas, sabe Deus por que, e eu escrevi-lhe a dizer que andava na Faculdade de Direito. Depois disso nunca mais 
tive notcias dele, ignorou-me e rejeitou-me por completo. A minha me podia t-lo abandonado, mas eu continuava a ser sua filha, no me devia ter riscado da sua 
vida, mas f-lo. E durante anos eu mantive aquela obsesso de querer v-lo, ter notcias dele, correr atrs dele, mas agora isso acabou, j no me interessa. Ponto 
final. Foi-se embora e no  meu pai! E agora a minha me anda sugerindo que eu inclua o nome dele nos convites para o nosso casamento... No posso acreditar! Mas 
eu no quero o meu nome ao lado do dele, garanto-te! Ele no  meu pai! Nem quer ser... A nica coisa decente que podia ter feito por mim era libertar-me completamente 
e deixar que o Simon me adotasse, mas quando lhe pedi isso, naquele dia em Bel Air, foi mal-educado, humilhou-me e disse que nunca autorizaria tal coisa. O tipo 
 um filho da me, um egosta, e no me interessa que seja uma pessoa respeitvel, nem um bom mdico, porque  um miservel como ser humano. E j no  meu pai!
        Ele abandonara-a emocionalmente e Allegra pagara por isso durante cerca de vinte e cinco anos. Ainda no estava preparada para lhe perdoar e duvidava que 
algum dia tal viesse a acontecer.
        - Compreendo o que sente, Allie. Por que convid-lo para o casamento? No  obrigada a isso.
        Depois de ouvir aquilo tudo, Jeff tinha pena dela, apesar de saber que tivera uma vida boa e uma infncia muito mais feliz em casa de Simon Steinberg, porm, 
a perda precoce do irmo e a rejeio do pai natural tinham-na magoado profundamente, e, durante vrios anos, procurara repudiar outros homens, para que a histria 
continuasse. Por fim, com a ajuda da Dr. Green, quebrara o enguio.
        - A minha me acha que eu o devo incluir. Acredita nisto? Eu penso que ela ficou doida. Est tentando atirar para cima de mim a sua velha culpa e a relao 
desastrosa que teve com ele, e espera que eu consinta, mas est enganada. No me interessa que aquele patife morra  minha porta! No o quero no nosso casamento!
        - Ento no o convide.
        - Vai dizer isso  minha me! Ela est me deixando doida! Continua perguntando se eu lhe telefonei, e eu respondi-lhe que no o farei
        - O que diz o Simon?
        - No lhe pus a questo, mas ele  um obcecado com a delicadeza; foi por isso que convidei o meu pai para a cerimnia de fim de curso. O Simon andava sempre 
a dizer que era desagradvel eu no o convidar, que devia orgulhar-se muito de mim, mas ele no se ralou: veio e foi malcriado para toda a gente, at para a Sam, 
que tinha dez anos nessa altura. O Scott detestou-o assim que o viu. Alis, no percebeu quem ele era. Eu no deixei que a minha me e o Simon lhe contassem nada, 
por isso disseram-lhe que era um velho amigo. Agora sabem ambos, mas eu nunca admiti perante os meus irmos que o Simon no era meu pai. Receei sempre que isso me 
transformasse numa cidad de segunda classe e que eles no me estimassem tanto, mas a verdade  que o Simon nunca me tratou de modo diferente. Quanto muito, tratou-me 
melhor. Allegra sorriu e depois suspirou, remexendo no peixe. Tenho sido muito feliz, exceto nos primeiros anos de vida. O que acha que devo fazer? - perguntou, 
mais calma. Era bvio que os pais a tinham traumatizado e que levara anos a recuperar.
        - O que quiser -  repetiu ele. Este  o nosso casamento Faa o que quiser e no o que a tua me acha que deve fazer.
        - Creio que s vezes ela sente remorsos de t-lo deixado e quer atirar-lhe um osso, para compens-lo, mas eu no lhe devo isso, Jeff. Ele nunca, nunca foi 
decente comigo!
        - Voc no lhe deve nada. Se fosse eu, diria  tua me Que o exclusse dos convites! - declarou Jeff com firmeza.
        - Concordo contigo -  respondeu, aliviada; pelo menos ele compreendia-a. E no me interessa se  correto ou no p-lo de lado; ele foi correto para mim nos 
ltimos vinte anos?
        - Ele nunca voltou a casar? -  perguntou Jeff, curioso. A verdade  que se tratava de uma histria trgica, e a morte do irmo de Allegra devia ter destroado 
todos, ao ponto de nunca mais recuperarem do desgosto.
        - No  - confirmou Allegra. Quem  que o queria?
        - Talvez j no esteja to perturbado como naquela altura, sabe? Tudo isso deve ter sido muito traumtico.
        - Os primeiros anos da minha infncia foram pssimos. Allegra reclinou-se na cadeira e suspirou, aliviada por ter desabafado. Agora conheces todos os meus 
segredos desagradveis. Sou Allegra Charlotte Stanton, mas, se me tratares assim, te mato. O nome Steinberg agrada-me mais - rematou, abruptamente.
        - Tambm acho  - concordou Jeff, pensando na histria dela. Contornou a mesa e deu-lhe um beijo.
        Nessa noite, nenhum deles acabou o jantar. Foram dar um passeio pela praia para falarem do pai dela. Allegra sentia-se aliviada, como se lhe tivessem tirado 
uma tonelada de cima, e agradava-lhe que Jeff soubesse como fora a sua infncia. E, apesar da raiva que o pai continuava a despertar-lhe, o fato de ter falado do 
seu relacionamento naquele momento fazia-a sentir-se muito distante dele. Tinha Jeff e a sua prpria vida. Pelo menos, estava se recuperando.
        Ficou sentada na varanda durante muito tempo, encostada em Jeff, gozando a beleza da noite. Beberam um pouco de vinho e sentiram-se mais descontrados. J 
passava da meia-noite quando o telefone tocou.
        - No atenda -  suplicou Jeff, mas ela no conseguiu resistir. Deve ser algum que est com uma crise de hemorridas ou que foi parar  cadeia e est  espera 
que voc  resolva a situao.
        - No posso deixar de atender  o meu trabalho e talvez algum precise de mim.
        No entanto no era nenhum cliente, mas Sam, a perguntar-lhe se no dia seguinte poderiam encontrar-se.
        Allegra ficou um pouco admirada com o telefonema. De vez em quando, Sam recorria a ela, em geral quando precisava que convencesse os pais de alguma coisa.
        - Discutiu com a me? No pde deixar de perguntar, com um sorriso.
        - No, ela anda demasiado atarefada gritando com todos por causa do jardim e da cozinha. At admira que no tenha um ataque cardaco  - replicou Sam, sem 
sentido de humor. Ultimamente, a me andava insuportvel.
        J para no falar do casamento acrescentou Allegra
        - Sim, eu sei  - disse Sam, num tom ainda mais grave. Onde me posso te encontrar?
        - De que se trata? Allegra queria saber com antecedncia. De algum contrato para um desfile?
        - Sim... Mais ou menos respondeu Sam, enigmtica.
        - Vou te buscar ao meio-dia. O Jeff vai almoar com Tony Jacobson, o co-produtor dele. Podamos ir a um lugar divertido, como The Ivy ou o Nate N Al's.
        - Vamos a qualquer lado onde possamos conversar  - retorquiu Sam tranquilamente.
        Allegra sorriu.
        - Est bem. O assunto parece srio. Deve ser o amor
        -  admitiu Sam, de mau humor.
        - Bem, j estou mais descansada. Farei o que puder.
        - Obrigada, Al  - disse a irm.
        Allegra reiterou a promessa de i-la buscar ao meio-dia de domingo. Sentia-se comovida por Sam lhe ter telefonado.
        - Ningum liga para ns em horas normais? - lamentou-se Jeff, quando Allegra lhe falou do telefonema de Sam.
        - Ela pareceu-me preocupada. Deve ter um namorado novo.
        - Pelo menos  da famlia -  admitiu Jeff. Em sua opinio, isto fazia muito mais sentido do que Malachi O'Donovan telefonar a Allegra de uma taberna qualquer.
        - No se importa que eu almoce com ela amanh? - perguntou Allegra quando foram para a cama, pouco depois.
        Jeff gostaria que ela o acompanhasse no almoo com Tony e Allegra simpatizava com ele: era inteligente, muito  maneira da Costa Leste. Nascera em Nova Iorque 
e o pai era administrador de um dos maiores bancos de investimentos de Wall Street. Tony era muito diferente de Jeff, mas Allegra gostava verdadeiramente dele.
        - De modo nenhum. Vou ter contigo mais tarde. Talvez possamos ir todos jogar tnis. Eu compreendo, e o Tony tambm. Ele vai adorar a Sam acrescentou.
        - O meu pai vai gostar de saber  - replicou Allegra, fulminando-o com o olhar.
        Estava tudo correndo bem, e Jeff tinha razo: no precisava convidar Charles Stanton para o casamento e s tinha que transmitir a sua deciso  me. Poderia 
faz-lo no dia seguinte, depois do almoo com Samantha. Sorriu, pensando no telefonema de Sam, e perguntou a si prpria qual seria o conselho de que a irm precisava 
por causa do namorado. Allegra no era uma especialista na matria, mas sentiu-se lisonjeada por Sam ter recorrido a ela. A sua relao era muito importante para 
ambas, embora s vezes Sam fosse impertinente, mas, mesmo assim, Allegra adorava-a.

CAPTULO 14

        Tal como prometera, no domingo Allegra foi buscar a irm  hora combinada. Lembrou-se que talvez fosse divertido lev-la a almoar ao Ivy. Depois poderiam 
deambular pelas lojas de velharias em North Robertson, estar  vontade uma com a outra e divertir-se. Ultimamente Sam andava bastante irreverente e Allegra estava 
ansiosa por passar algum tempo com ela.
        Mas nesse dia Sam no se mostrou impertinente; por sinal, mal abriu a boca quando a irm saiu da rampa. Allegra no pde deixar de lhe perguntar o que a 
preocupava, porm, durante o almoo Sam quase nem falou.
        - Ento o que h? - insistiu Allegra, quando o empregado trouxe os cafs. A refeio estava deliciosa, como era habitual, mas Sam mal tocara na comida. V 
l, Sam... Desabafa... Seja o que for, no ser to mau depois de o partilhar comigo.
        Mas aparentemente era, porque Sam ps a cabea entre as mos e comeou a chorar baixinho.
        - Oh!, Sam... Allegra passou-lhe a mo pelos ombros. Anda, querida, conta-me o que aconteceu disse em voz baixa, mas, quando a irm levantou a cabea, percebeu 
que ela estava profundamente desesperada.
        - Estou grvida. Sam quase sufocou ao pronunciar estas palavras. Vou ter um beb...
        Sam ficou sentada chorando em silncio; Allegra olhou para ela e abraou-a.
        - Oh!, querida... Oh!, meu Deus... Como  que isso aconteceu? Quem foi? -  perguntou, como se aquilo fosse algo que algum tivesse feito  irm e no o fruto 
de uma situao partilhada. No entanto nunca a ouvira referir-se a nenhum homem e muito menos a um namorado certo.
        - Fui eu  - respondeu Sam, chamando a si todas a culpa. Estava desolada, e puxou os cabelos platinados e brilhantes para trs das costas.
        - No foi voc sozinha, a menos que as coisas tenham mudado muito nestes ltimos tempos disse Allegra. Quem  o pai? Quem  o rapaz?
        Que palavras estranhas para uma criana de dezessete anos... 'Pai'... 'Me'... Mas a verdade  que Sam trazia dentro de si um beb, um ser vivo, que respirava.
        - Isso no interessa  - respondeu Sam com ar carrancudo.
        - Isso  que interessa! -  insistiu Allegra. Anda com algum do colgio?
        Mesmo sem o conhecer, tinha vontade de mat-lo, contudo fingiu-se calma, para no perturbar a irm. S de ouvi-la, o seu corao galopava e a sua mente avanava 
ao mesmo ritmo, mas Sam limitou-se a abanar a cabea.
        - V l, Sam. Quem ?
        - Se eu te disser, no quero que faa nada.
        - Foi violada? - perguntou Allegra em voz baixa, mas Sam voltou a abanar a cabea.
        - No, no fui. A culpa  minha. Fi-lo de livre vontade. Fiquei to impressionada com ele... Pensei... No sei... - murmurou, com os olhos marejados de lgrimas. 
Acho que me senti adulada. Ele era to experiente, to adulto... Tinha trinta anos.
        Um homem de trinta anos com uma moa de dezessete... Tinha obrigao de saber o que fazia, pelo menos, e era bvio que no tivera a decncia de usar proteo.
        - Era virgem? -  perguntou Allegra, muito preocupada com ela.
        Sam abanou a cabea, mas no deu mais pormenores. Allegra sabia que a irm no era leviana, mas tinha quase dezoito anos, e existira algum antes que fora 
importante para ela. No queria pression-la a no ser com o presente.
        - Como  que o conheceu?
        - Ele era o fotgrafo de um desfile em que eu participei  - explicou, desolada.  francs. Atraiu-me por ser de Paris. Tratou-me como uma mulher experiente 
e era muito elegante.
        - J contou a ele?
        Allegra estava ansiosa por pr as mos em cima daquele homem: teria muita sorte se no fosse deportado! Podiam mand-lo prender por violao. Qual seria 
a reao de Simon? 
        Mas Sam parecia destroada quando abanou a cabea outra vez.
        - Eu no quero fazer isso. Telefonei para a agncia e disseram-me que ele foi para o Japo, ou para outro lado qualquer; estava apenas de passagem, e no 
sabem verdadeiramente quem . Ele quis as fotografias para a sua prpria coleo antes de partir para Tquio. Ningum sabe como contat-lo, mas isso no interessa: 
no quero voltar a v-lo. Ele foi bestial, mas no fim tornou-se um bocado parvo: ofereceu-me drogas, e, quando eu disse que no queria, chamou-me beb. O seu nome 
era Jean-Luc, mas ningum sabe qual  o sobrenome dele.
        - Cus! - exclamou Allegra, furiosa.  assim que eles gerem a agncia? Tambm deviam ir para a cadeia, se  desse modo que lidam com menores!
        - Eu tenho quase dezoito anos, Al. Pelo menos, devia ser capaz de ter uma relao ocasional sem me deixar apanhar.
        - Aparentemente, no  -  replicou Allegra, com firmeza, mas depois pensou que no devia mostrar-se demasiado dura para com a irm: Sam estava sofrendo e 
ela queria ajud-la. No podia esquecer que era este o seu objetivo, e pelo menos Sam tivera a coragem de ir ter com ela para lhe falar do seu problema.
        - Presumo que ainda no disseste nada  me..
        - No quero -  respondeu Sam.
        Allegra abanou a cabea; tambm ela reagiria da mesma forma se tivesse a idade de Sam, apesar de a me ser, em geral, muito compreensiva e algumas das suas 
amigas sempre terem recorrido a ela quando tinham problemas, mas ultimamente andava to perturbada com o casamento e com o programa que Sam no conseguira falar 
com ela.
        - Ento como vamos resolver esta confuso? - perguntou Allegra, sentindo-se fraquejar. No seu caso, se tivesse a idade de Sam, s havia uma soluo. No 
conseguia imaginar a irm a estragar a sua vida com uma criana nos braos. Amanh vou levar-te  minha mdica; talvez nem sequer tenhamos que contar nada  me. 
Quero pensar melhor antes de tomarmos uma deciso acrescentou.
        - No posso retorquiu Sam, com obstinao. Allegra olhou para a irm, confusa.
        - No pode o qu?
        - Ir  mdica com voc... Livrar-me dele.
        - Por qu? Allegra estava aterrada. No vai ficar com ele, pois no? Sam, voc nem sequer sabe quem  esse homem. No podes ter o beb sozinha.  uma estupidez!
        Porque agia Sam com tal sentimentalismo? De repente, lembrou-se de Carmen, que se comportava como se o beb j tivesse nascido s de ter visto o feto numa 
ecografia. Estaria  acontecendo o mesmo a Sam?
        - No me posso ver livre dele, Al, nem fazendo um aborto.
        - Por qu?
        A famlia Steinberg tinha fortes convices morais, mas em geral era razovel e no era catlica. Allegra no compreendia.
        - Estou grvida de cinco meses.
        - O qu? Allegra ia caindo da cadeira ao ouvir estas palavras. Porque diabo no me disseste mais cedo? O que andou fazendo nos ltimos seis meses? Sonhando?
        - Eu no sabia  - respondeu Sam, com as lgrimas a correrem-lhe pela face e a carem em cima da mesa. Juro. Os meus perodos so muito irregulares, e julguei 
que era excesso de exerccio, da dieta, dos exames ou da preocupao com a entrada na faculdade...
        - E nem sequer desconfiou? Ele no se mexia? No se notava?
        Allegra olhou para a irm, mas Sam era muito magra e usava roupas largas, por isso no notou nada.
        - Pensei que estava ganhando peso e tenho tido um apetite devorador.
        Depois acrescentou, com um ar ainda mais infeliz:
        - Ele s se mexeu na semana passada, e foi ento que eu o senti. Admiti que tivesse um cancro e que ele estivesse a explodir dentro de mim.
        A pobrezinha no fazia idia... Ali estavam elas no mundo civilizado, numa das cidades mais sofisticadas do pas, e a pobre Sam julgava que tinha um tumor! 
Allegra sentiu muita pena dela, mas o problema complicara-se e exigia uma sria ponderao.
        - Vai ter de desistir dele, creio eu.
        Sam ficou olhando para a irm, atordoada. Nem sequer imaginava quem era 'ele'! Tinham-lhe proposto v-lo na ecografia, mas recusara. No queria saber o sexo, 
nem nada acerca dele; no queria que ele estivesse ali.
        - O que vou fazer, Al? Terei de fugir, para no dizer nada ao pai nem  me.
        Era um pensamento assustador. Toda aquela situao era um desastre.
        - No pode fazer isso.
        - No sei o que fazer. Na semana passada no pensei noutra coisa seno em fugir, mas queria conversar contigo primeiro.
        S de falar nisso, Sam estremeceu.
        - Temos de contar  me. Se ela tiver um ataque, ou se te expulsarem de casa, podes ficar comigo. Allegra fitou de novo Sam. Quando  que ele nasce?
        A situao era pssima, e no se tratava de Carmen, mas sim da sua irm de dezessete anos.
        - Em Agosto. Al... Ajuda-me a dar-lhes a notcia? - Allegra fez um sinal afirmativo e as duas irms apertaram as mos por cima da mesa. Pouco depois, Allegra 
reparou que duas mulheres cochichavam e lhes sorriam com um ar aprovador; julgavam que elas eram amantes. S isso a faria rir naquele momento... Comentou o assunto 
com Sam enquanto pagava a conta. Fora um almoo muito especial. Allegra estava  beira de uma indigesto.
        - Quando lhes queres dizer.
        - Nunca  - respondeu ela, honestamente, mas acho que  melhor contar-lhes depressa, antes que se comece a notar. A me olhou duas vezes para mim com um ar 
esquisito quando eu enchi o prato no caf da manh, porm, tem andado to atarefada com o programa, com o quintal e com voc, que no creio que tenha reparado, e 
o pai nem sonha. Ele continua a pensar que eu tenho cinco anos e que devia usar rabo-de-cavalo...
        Na verdade, ambas adoravam esta caracterstica nele; apesar  da sua experincia em tantos domnios, havia no pai uma inocncia que as comovia. Ele pensava 
o melhor a respeito das filhas e da maioria das pessoas que conhecia, era raro ser desagradvel para algum, e Sam sabia que a notcia iria deix-lo destroado. 
Faria tudo para no ter de lhe contar, embora soubesse que isso no era possvel.
        - Amanh apareo l em casa e falamos com eles  - disse Allegra, como se fossem juntas para a guilhotina. E depois? O que resolveria quanto ao beb? Essa 
era a verdadeira questo. O que  que tenciona fazer, Sam? Queres d-lo? Ficar com ele?
        Allegra tinha de fazer estas perguntas  irm; faltavam quatro meses para o beb nascer e era preciso que ela enfrentasse a situao, mas no conseguia.
        - Sempre que penso nisso, fico to assustada! S queria que ele se fosse embora e que nada tivesse acontecido.
        - Isso  impossvel disse a irm mais velha, mas, quanto ao resto, Sam no estava  altura de tomar decises.
        Depois de sarem do restaurante foram dar um passeio, mas no entraram em nenhum estabelecimento; no lhes agradou. Em seguida Allegra foi levar a irm a 
casa. Deu-lhe um grande abrao e disse-lhe que tentasse manter a calma at  tarde do dia seguinte; depois tratariam do assunto juntas.
        - E nem fale em fugir, est ouvindo? - exclamou Allegra com energia. No se pode fugir de certas coisas. Vamos enfrentar juntas a situao.
        - Obrigada, Al  - agradeceu Sam com sinceridade. Allegra sentiu-se desfalecer ao v-la entrar em casa, mas pelo menos ainda no se notava nada. No entanto, 
comeou a imaginar qual seria a reao dos pais. A tarde do dia seguinte no ia ser fcil; por muito compreensivos que fossem, aquilo seria um terrvel golpe para 
eles, e era o gnero de problema que no poderia ter uma resoluo feliz. Se Sam desistisse do beb, talvez viesse arrepender-se mais tarde, ou pelo menos sofrer 
com isso de vez em quando; se ficasse com ele, essa deciso poderia alterar negativamente a sua vida para sempre. A verdade  que Allegra no vislumbrava quaisquer 
aspectos positivos. Nas circunstncias de Sam, era um verdadeiro desastre.
        Era to estranho pensar que a mesma situao era uma grande alegria para Carmen e que tambm poderia ser para si prpria... Jeff falava mesmo em terem um 
beb quanto antes, e essa idia deixava-os muito felizes; no entanto, na vida de outra pessoa, a mesma circunstncia era uma tragdia em vez de uma bno. Era tudo 
to complicado!
        Allegra regressou a Malibu muito deprimida, e ainda estava sentada na praia com os braos  volta dos joelhos quando Jeff chegou, duas horas depois. O almoo 
com o co-produtor prolongara-se muito para alm do que previra; tinham tantas coisas para discutir acerca do filme... Mas, s de olhar para ela, percebeu que algo 
no correra bem nessa tarde. Allegra parecia completamente ausente, como se estivesse no seu mundo privado. Jeff admitiu mesmo que tivesse telefonado ao pai.
        - Ol  - disse, sentando-se a seu lado. Allegra virou-se para ele, mas no respondeu. 
        - Voc e Sam discutiram? - perguntou, acariciando-lhe os longos cabelos louros.
        - No  - respondeu, com um sorriso triste.
        Jeff era to bom para ela e,  sua maneira, muito parecido com Simon. Era estranho que, durante tantos anos, tivesse que combater os demnios da sua alma 
e agora, depois de apazigu-los, fosse livre de amar algum como ele!
        - No parece muito feliz. Ms notcias?
        Ela fez um sinal afirmativo e olhou para o mar.
        - Posso ajudar.
        Allegra calculava que Sam no quisesse que ela contasse a Jeff por enquanto, mas o segredo no poderia durar muito, se o beb nascia em Agosto.
        - No sei se algum pode. Allegra fitou-o. A Sam est grvida de cinco meses.
        - Oh, merda! - exclamou ele. Quem  o pai? Jeff no sabia que ela tinha um namorado.
        - O pai  um francs qualquer de trinta anos, sem sobrenome, que passou aqui h cinco meses, ao que parece a caminho de Tquio. A agncia no possui dados 
sobre ele, nem a Sam. Apareceu na cidade, tirou umas fotografias e deixou-a com um beb.
        - Bonito! Ainda pode fazer um aborto aos cinco meses? Est disposta a isso?
        - Nem uma coisa nem outra.  demasiado tarde, e ela no quer. Amanh vamos dizer aos meus pais.
        - E vai ficar com o beb?
        - No sei. Acho que est demasiado afetada para tomar qualquer deciso. Em minha opinio, no  boa idia;  muito nova e isso arruinaria sua vida. No entanto, 
no tenho o direito de lhe dizer o que deve fazer.  uma deliberao de grande importncia para a vida dela.
        - L isso   - reconheceu Jeff, um pouco assustado com o que os esperava. Se eu puder fazer alguma coisa para ajudar... - acrescentou, sentindo-se intil. 
Ningum podia fazer fosse o que fosse, exceto apoi-la.
        - Eu disse que, se se criar uma situao insustentvel com os meus pais, ela vem viver comigo. Eu posso voltar para a minha casa durante quatro meses continuou 
Allegra, deprimida perante esta perspectiva, mas era o mnimo que podia fazer pela irm.
        - Ela pode ficar aqui conosco  - sugeriu Jeff. Falta pouco para eu comear a trabalhar no cenrio a tempo inteiro. Posso ceder-lhe o meu escritrio.
        -  mesmo bom -  retorquiu ela, beijando-o. Foram dar um longo passeio pela praia e  noite ficaram a conversar at tarde.
        No dia seguinte, depois de sair do emprego, Allegra foi a casa dos pais, tal como prometera. Passava pouco das cinco, e ambas ficaram  espera que os pais 
voltassem do trabalho. Em geral, chegavam por volta das seis e meia. As duas irms estavam sentadas quando Blaire e Simon entraram, com cinco minutos de diferena 
um do outro. Pareciam bem-dispostos e ficaram agradavelmente surpreendidos ao ver Allegra, mas, assim que Blaire reparou no modo como as filhas olhavam para ela, 
o seu corao alvoroou-se. Era Scott. Acontecera-lhe alguma coisa, tinha certeza; pensou que haviam telefonado a Allegra e o seu olhar fixou-se na filha mais velha.
        - O que se passa?
        Allegra adivinhou logo o que ela estava a pensar e apressou-se a tranqiliz-la.
        - Nada, me. Ningum se feriu, esto todos bem. S queremos falar com voc.
        - Oh, graas a Deus. Blaire deixou-se cair numa cadeira, enquanto Simon as observava com ar preocupado. At ele sentia que havia algo grave no ar, e era 
muito menos pessimista do que a mulher. Julguei que o Scott estava ferido confessou Blaire, lembrando-se de Paddy.  alguma coisa acerca do casamento, no .
        Allegra tinha aquele ar obstinado que era prprio dela quando estava pensando numa coisa importante. Talvez fosse pedir para reduzir de novo o nmero de 
convidados, mas Blaire no tinha foras para discutir com ela.
        - O que ?
        - Preciso de falar com voc, me  - balbuciou Sam
        O pai olhou para ela de sobrolho carregado, nunca a vira assim
        - Aconteceu alguma coisa -  perguntou, sentando-se
        - Mais ou menos -  admitiu Sam
        Fez-se um longo silncio e depois, com os olhos cheios de lgrimas, ela virou-se para Allegra. No conseguia falar
        - Quer que seja eu a dizer-lhes, Sam? - perguntou Allegra a meia voz
        A irm mais nova fez um sinal afirmativo. Ento Allegra olhou para os pais e deu-lhes a notcia mais difcil de todas as que se lembrava, mas era prefervel 
ir direita ao assunto.
        A Sam est grvida de cinco meses disse, com muita calma
        Blaire ficou to plida que Allegra julgou que a me ia perder os sentidos, mas Simon no parecia melhor
        - O qu? -  limitou-se ele a dizer
        Fez-se um silncio pesado na sala, com certeza no tinham ouvido bem.
        - Como  que  possvel. Foi uma violao, ou qualquer coisa do gnero. Porque no nos contaste.
        Era inconcebvel para ele que a filha tivesse colaborado naquele disparate, mas fora o que acontecera, e Blaire compreendeu isso ao olhar para as duas filhas. 
No estava na sua maneira de ser oferecer compreenso ou conforto naquele momento, sentia-se demasiado chocada e ainda no se habituara  idia.
        - No foi uma violao, pai, foi uma coisa muito estpida   - respondeu Sam, limpando as lgrimas da face com a mo. Tinha um aspecto que metia d.
        -  algum de quem goste? - perguntou Simon, ainda tentando imaginar o que se passara.
        - No - respondeu Sam, com sinceridade. Eu julgava que sim, mas senti-me essencialmente adulada. Ele rojou-se aos meus ps e depois se foi embora.
        Quem  ele? - insistiu o pai, comeando a ficar irritado.
        - Um fotgrafo que eu conheci. E no pode mandar prend-lo, ele foi-se embora, pai. Nem eu o consigo encontrar!
        Allegra explicou-lhes a situao, e Blaire desatou a chorar ao olhar para a filha mais nova.
        - Eu no sabia, me, nem sequer desconfiava at  semana passada. Depois fui ao mdico, e a seguir fiquei demasiado assustada para contar fosse a quem fosse. 
Estava disposta a fugir e a desaparecer, ou a morrer, ou qualquer coisa, mas resolvi telefonar  Allegra.
        - Graas a Deus!
        Blaire deitou um olhar de gratido a Allegra. Em seguida sentou-se junto de Sam e abraou-a. Do outro lado da sala, Simon reprimia as lgrimas. Allegra agarrou-se 
a ele.
        - Adoro-o, pai  - disse-lhe, em voz baixa.
        Simon abraou-a e desatou a chorar. Aquilo era um desastre, mas pelo menos tinham-se uns aos outros.
        - O que vamos fazer? - perguntou, assoando-se e enxugando as lgrimas. Sentou-se ao lado de Allegra, em frente de Sam e de Blaire.
        - No temos muitas opes  - retorquiu Blaire, pragmtica. Olhou para Sam e ficou desolada: ela era to bonita, to jovem e to destemida em relao  vida! 
Mas agora chegara a sua vez. A primeira cicatriz. A primeira grande experincia. A primeira tragdia, ou o primeiro desgosto. E Blaire nada podia fazer para proteg-la.
        - Vais ter esse beb, Sam  - disse ela com doura.  demasiado tarde para evit-lo.
        - Eu sei, me  - murmurou Sam. Ignorava o que tal acontecimento acarretaria para o seu corao ou para o seu corpo. At a, tudo fora muito fcil: no estivera 
doente, no tivera nada, apenas fome, e agora estava assustada, mas o resto continuava a ser um mistrio, e teria de desvend-lo nos quatro meses seguintes. Ningum 
o podia evitar.
        - E depois ter de desistir dele. No h outra soluo, a menos que estragues a tua vida. No precisas de um beb aos dezessete anos. Vais para a universidade 
no Outono. Quando nasce essa criana? - perguntou Blaire, cujo esprito de organizao comeava a entrar rapidamente em ao.
        - Em Agosto.
        - Pode t-lo, d-lo e entrar na universidade em Setembro. A nica coisa que perders, infelizmente, ser talvez o fim do ano letivo e a entrega do diploma.
        Sam no disse nada; estava a pensar noutra coisa.
        - Terei dezoito anos quando ele nascer, me. Sam fazia anos em Julho. H muitas mulheres que tm um beb com essa idade.
        - Quase todas so casadas, e, neste caso, seria desastroso: nem sequer conhece o pai da criana! Como ser esse beb? Quem ser?
        - Ser metade de mim, me -  respondeu Sam com os olhos cheios de lgrimas. E ter uma parte de si... Outra parte do pai... E outra do Scott e da Allegra... 
No podemos p-lo de parte como um par de botas velhas.
        De sbito, o estado de Sam comeava a apoderar-se do seu corao, e Allegra teve muita pena dela.
        - Pois no, mas podes d-lo a pessoas que querem desesperadamente um beb, que so casadas e que tentaram ter um, mas no conseguiram. H pessoas assim, 
 espera de bebs, que no destruiro as suas vidas. Para elas, essa criana ser uma bno.
        - E ns? Talvez ele fosse tambm uma bno para ns. Sam lutava pela sua vida e pelo seu beb. Era um instinto mais antigo do que o prprio tempo, que nem 
ela entendia, mas no era o caso de Blaire, que dera  luz quatro filhos.
        - Est dizendo-me que quer ficar com ele? - Blaire estava aterrada. Voc nem sabe quem  o pai, e agora queres ficar com esse beb, Sam? Nem sequer  um 
filho do amor, no  nada.
        - No  'nada',  um beb! -  respondeu ela com veemncia, e desatou a chorar outra vez. As emoes eram demasiado fortes para todos, mas Blaire no permitiria 
que Sam a abalasse.
        - Tem que desistir desse beb, Sam. Ns sabemos o que  melhor para voc, confia em ns. Vais arrepender-te para o resto da vida se te amarrar agora a um 
beb. No  o momento adequado insistiu Blaire com calma, tentando restabelecer a serenidade. O abalo seria demasiado se Sam tivesse de criar um filho naquela idade.
        - Isso no  motivo suficiente para desistir de um beb  -  retorquiu Sam.
        Por fim, Allegra achou que era altura de intervir: tinha de ser honesta para consigo mesma e para com a irm.
        - Isso  verdade, Sam disse, serenamente, tens de ser voc a querer desistir desse beb. Tem de ser voc a tomar essa deciso, porque ter de viver com ela 
at ao fim dos seus dias, e no ns.
        - A sua irm tem razo -  interps o pai num tom afvel. Mas, dito isto, concordo com a tua me.  demasiado jovem para ter um beb. E ns somos demasiado 
velhos. No seria razovel para a criana que fssemos ns a ficar com ela. Nada disto  justo, nem para voc, nem para a criana. Pode dar uma melhor oportunidade 
ao beb se o entregar para adoo  pessoa certa.
        Blaire deu um olhar de gratido ao marido. Como sempre, ele dizia o que ela queria dizer, mas com mais ternura, e melhor.
        - Como sabemos que essas pessoas o trataro bem? E se assim no for? - Sam desatou a chorar desesperadamente.
        Allegra interveio de novo.
        - H advogados que s tratam de adoes deste gnero, Sam, no  obrigada a ir a uma agncia estatal. Pessoas com muito dinheiro, com boas casas, recorrem 
a advogados e pagam uma fortuna para encontrar mulheres como voc. S tem de escolher. Pode optar pelo casal de que mais gostar, a deciso  tua. Creio que ser 
mais confortvel para voc. No  uma opo agradvel, mas, como diz o pai, h pessoas que gostariam muito de adotar uma criana. Tenho uma amiga que s trata de 
adoes. Posso telefonar-lhe amanh, se quiser.
        Por sinal, Allegra deixara-lhe uma mensagem nessa manh.
        Seguiu-se uma pausa interminvel, e por fim Sam acedeu; no tinha alternativa e confiava na famlia. Estavam a dizer-lhe que seria prefervel para o beb 
que o entregasse, e ela acreditava neles. O que lhe custava era no ter mais ningum com quem conversar, em quem se apoiar ou com quem chorar. No queria contar 
s amigas do colgio, nem sequer tinha namorado nesse momento! S tinha os pais e Allegra, e eles aconselhavam-na a dar o beb. Sam sabia que desejavam o melhor 
para ela e para a criana.
        Allegra prometeu telefonar  advogada no dia seguinte e Sam foi para o quarto, deitar-se; estava enjoada e exausta. Depois de ela sair da sala, Blaire desatou 
a chorar. Allegra sentou-se a seu lado, tentando consol-la. Simon parecia um moribundo, e era como se a casa estivesse envolvida numa mortalha. At o casamento 
fora esquecido!
        - Pobre criana! - exclamou Simon, abanando a cabea. Como pde ser to estpida?
        - Agradaria-me matar o filho da me que fez isto! - exclamou Blaire. Ele  que tem sorte... Anda pelo Japo, a montar outra qualquer, e a vida da Sam est 
arruinada!
        - No  foroso que assim seja  - lembrou-lhe Allegra, mas a me sabia melhor do que ela.
        Ela nunca se esquecer disto. Ir sempre lembrar-se, com mgoa, que teve este beb, que o deu  luz, que lhe pegou ao colo e que depois se afastou dele para 
sempre. No era a mesma coisa, mas Blaire pensava em Paddy. Vinte e cinco anos depois da sua morte, ainda sentia a falta dele; sabia que seria assim at morrer. 
E Sam nunca se esqueceria do recm-nascido que entregara a uns desconhecidos. Mas no h alternativa.
        - No acha que ela devia ficar com o beb, me? - perguntou Allegra,  com cautela.
        No seu ntimo, no estava convencida de que dar o beb fosse a deciso acertada. Como Sam afirmara, havia outras mulheres que tinham filhos aos dezoito anos 
e sobreviviam; algumas at se tornavam boas mes.
        - No, de maneira alguma respondeu Blaire tristemente. Acho que isso seria apenas insistir na estupidez. E no mundo atual h tantas pessoas decentes ansiosas 
por adotar uma criana, com toda a infertilidade que existe, que penso que  um erro ela destruir a sua vida e arrastar algum nesse processo. Como  que toma conta 
dele? Leva-o para a residncia universitria? No vai para a universidade? Deixa-o em casa comigo? O que fao eu com um beb nesta fase das nossas vidas? Somos demasiado 
velhos para tomar conta de uma criana, e ela  demasiado nova.
        Allegra sorriu, pesarosa.
        A me no tem lido os tablides. H muitas mulheres da sua idade que recebem vulos doados e esperma e recorrem  fertilizao in vitro, e sabe-se l mais 
o qu... A me no  demasiado velha, bem sabe.
        Blaire quase estremeceu.
        Certas mulheres podem fazer tudo isso, mas eu no. Tive quatro filhos. Tive essa sorte. E no vou criar mais um beb na minha idade. Teria setenta e tal 
anos quando ele fosse adolescente... Isso acabaria comigo!
        Todos sorriram tristemente e concordaram que a melhor soluo era dar o beb para adoo, sobretudo por causa de Sam. Ela precisava de uma ficha limpa, e 
depois poderia ir para a universidade no Outono e comearia uma vida nova. J era uma vergonha que no pudesse estar presente na cerimnia de entrega dos diplomas 
do colgio. Blaire disse que teria de expor discretamente a situao  diretora do colgio; no era com certeza a primeira vez que tal coisa acontecia. Sam era uma 
boa aluna e o ano letivo estava quase no fim. Nisso, pelo menos, tinha sorte.
        - Amanh vou telefonar  Suzanne Pearlman, aquela advogada de quem eu estava falando. Andamos juntas na faculdade e vejo-a de vez em quando. Ela  boa neste 
domnio e  muito exigente em relao aos seus clientes. Sempre lhe importunei o juzo por causa do ramo que escolhera, nunca julguei vir a ser sua cliente. Hoje 
lhe deixei uma mensagem e amanh de manh telefono-lhe.
        - Obrigada, Allie  - disse Simon, agradecido. Quanto mais depressa nos virmos livres disto, melhor. Talvez seja uma bno ela estar to adiantada. Daqui 
a quatro meses, tudo ter acabado, e pode esquecer o que aconteceu. 'Se esquecer...', pensou Allegra tristemente. Eram nove horas quando saiu de casa dos pais e 
regressou a Malibu, onde Jeff a esperava para saber como havia corrido a conversa. Tinha muita pena de Sam e ficou triste quando Allegra lhe contou tudo o que acontecera.
        - Pobrezinha! Deve sentir que a vida est se desmoronando. Mas que pssimo comeo! Conheci uma garota na faculdade que engravidou -  disse ele, recordando 
tristemente o que sucedera h quinze anos. Foi terrvel! Fez um aborto, mas foi tudo muito traumtico. Ela era catlica, de Boston, e os pais no souberam, evidentemente. 
Teve um esgotamento nervoso depois disso. Acabamos no psiclogo, e escusado ser dizer que a relao no sobreviveu, mas ns tambm no amos escapando. Talvez o 
que vocs esto a fazer com a Sam seja um caminho melhor. No creio que a garota que conheci alguma vez tenha perdoado a si prpria o fato de ter feito um aborto.
        - No tenho a certeza de que isto seja melhor disse Allegra. No seu ntimo, tinha a sensao de que seria ainda pior, ou que ambos iriam pagar um preo demasiado 
alto pelo erro. Fosse qual fosse o caminho, Sam sofreria sempre. Tenho tanta pena dela!
        Nessa noite telefonou a Sam, que no estava nada bem; passara a noite inteira com enjos e nem conseguira jantar. Allegra pediu-lhe que tivesse cuidado consigo 
e que tentasse acalmar-se. Blaire j dissera que a levaria ao mdico no dia seguinte, para ter a certeza de que estava tudo bem; no valia a pena continuar a ignorar 
a situao. Agora tudo fora esclarecido e Sam tinha de se convencer de que ia ter um beb. Dava-o  luz e separava-se dele, e tinha que fazer o que outros consideravam 
estar certo para ela. Era como se lhes tivesse confiado a sua prpria vida, mas no queria ser m nem faz-los sofrer; sabia que defendiam o que julgavam ser melhor 
para ela e, apesar de tudo, a famlia dera-lhe o maior apoio. Mesmo assim, sentia-se muito mal.
        Allegra telefonou  advogada s oito da manh do dia seguinte, e Suzanne disps-se a receb-las s nove, antes da sua primeira consulta.
        - No me diga que queres adotar uma criana!... - exclamou, admirada, quando Allegra entrou no seu gabinete. No usava aliana, e Suzanne sabia que no era 
casada, mas podiam acontecer as coisas mais estranhas.
        - No, estou no outro extremo da situao, infelizmente  - respondeu Allegra com ar sofrido, olhando para a velha amiga.
        Suzanne era pequena e frgil; tinha o cabelo preto, que usava curto, e um sorriso afvel. Todos os clientes a adoravam. Conseguia impossveis e, graas aos 
mdicos, aos advogados e a outras pessoas que conhecia, os bebs pareciam ir ao encontro dela. Allegra foi direita ao assunto.
        - A minha irm, de dezessete anos, est grvida.
        - Oh, meu Deus! Desculpa. Isso  terrvel! Mas que deciso difcil!  demasiado tarde para fazer um aborto?
        - . Ela s se apercebeu na semana passada, mas est grvida de cinco meses.
        - Isso no  raro, sabe? - explicou Suzanne, quando se sentaram no sof do seu gabinete. Muitas vezes, nessas idades, os perodos so irregulares, e elas 
no desconfiam seno quando  demasiado tarde. E a sua figura  de tal modo boa que no se nota nada. Tm vindo aqui garotas grvidas de sete meses, que nunca desconfiaram 
de nada. Depois surge sempre a negao. 'No  possvel isto estar a acontecer-me! Como  que foi suceder logo  primeira vez?' -  Suzanne suspirou. Era uma profisso 
sedimentada no sofrimento e na alegria; o segredo do seu xito estava em saber misturar estas duas componentes. Ela quer d-lo? - perguntou a Allegra com toda a 
franqueza.
        - No creio que a Sam saiba o que quer, para ser honesta, mas sabe o que  melhor fazer na sua idade.
        - No necessariamente. Tenho visto garotas de quinze anos que so mes formidveis e mulheres da nossa idade que os do porque sabem que no podem dedicar-se 
a mais ningum e no os querem. Qual  o desejo dela? A soluo est a!
        Creio que, em parte, gostaria de ficar com o beb. Talvez seja o instinto... Mas acho que tambm sabe que no pode tratar dele. Quer d-lo.
        - Mas quer mesmo?
        - Algum quer? - perguntou Allegra tristemente, e Suzanne concordou. Era boa no que fazia, e Allegra respeitava-a por isso; sempre gostara dela.
        - Algumas pessoas, sim. Certas mulheres, ou mesmo garotas, no tm instinto maternal, outras tomam decises baseadas em motivos pragmticos. Essa  a parte 
difcil. Gostaria de falar pessoalmente com a tua irm, para me certificar de que ela se compromete a prescindir do beb. No quero fazer ningum sofrer. No me 
agrada a idia de entregar o beb  a um casal que tenta gerar um filho h dez anos e vir a descobrir que eles no se adaptam  situao, ou depois ver que a tua 
irm, ou seja l quem for, muda de idias  ltima hora. Isso sucede s vezes, e nunca podemos prever totalmente como  que algum se sente quando v o seu beb, 
mas quase sempre conseguimos avaliar se a pessoa est segura quanto  inteno de renunciar a uma criana
        - Penso sinceramente que ela o dar  - afirmou Allegra. Parecia ser a nica soluo para Sam.
        - Porque no a traz aqui?
        Marcaram uma reunio para a semana seguinte, e Allegra telefonou para o escritrio da me. Blaire agradeceu a Allegra por se ter encarregado do assunto e 
depois lhe lembrou que tinha de comear a pensar em coisas como o vestido de noiva e as damas de honra.
        - Oh, me, passamos do sublime para o ridculo! - insurgiu-se Allegra. Como  que pode pensar nisso agora?
        - Tenho que pensar. Graas a Deus, o assunto do beb j estar resolvido quando voc se casar. Os prximos meses vo ser um pesadelo!
        Sobretudo para Sam, como ambas reconheceram. A me no estava zangada com ela, apenas a lamentava. Em seguida Allegra foi categrica e comunicou-lhe que, 
fosse ou no correto, no queria que o nome do pai figurasse nos convites. Poderia ir ao casamento, se quisesse, mas no o participaria. Era um compromisso razovel 
para ambas. Allegra prometeu que iria  procura de um vestido de noiva assim que Sam se entendesse com a advogada
        Allegra e Sam encontraram-se com Suzanne no fim da semana. Blaire no pde estar presente, devido a um compromisso na estao; alm disso, Sam disse que 
preferia ir com a irm. Gostou da jovem advogada. Falaram a ss durante algum tempo, enquanto Allegra aguardava na sala de espera e fazia algumas chamadas do seu 
telefone celular. Pouco depois, Suzanne convidou-a a entrar e anunciou que a irm resolvera dar o beb para adoo. Explicou algumas das condies a ambas, o que 
era necessrio que Sam fizesse e o que alguns pais adotivos esperavam dela, mas acrescentou que Sam teria uma palavra a dizer quanto ao casal que escolhesse. Havia 
sete excelentes casais  espera em Los Angeles, um na Flrida e dois em Nova Iorque. Todos eles eram candidatos que, em sua opinio, os Steinberg aprovariam, com 
certeza, mas para Sam era tudo muito confuso, e Allegra reparou que a irm parecia um pouco atordoada. Em termos emocionais, aquilo era de mais para ela, embora 
no tivesse alternativa, por muito infeliz que se sentisse. Parecia resignada a dar o beb, e no fez mais perguntas acerca do que aconteceria se ficasse com ele.
        Depois de sair do escritrio da advogada, ligou o rdio no carro de Allegra e ps a msica to alta que ia ensurdecendo no caminho para casa. Era como se 
no quisesse ouvir mais nada; naquele momento, a vida real atingira para ela os limites do tolervel. Agora era uma aluna independente e no teria de voltar para 
o colgio; bastava-lhe enviar os testes e fazer os exames numa sala especial para o efeito, mas tinha a sensao que, da a pouco tempo, toda a gente saberia por 
que motivo deixara de ir s aulas. S contara a duas amigas mais ntimas e obrigara-as a jurar que no diriam a mais ningum, todavia, nenhuma a fora visitar durante 
toda a semana e ningum telefonara, exceto Jimmy Mazzoleri, um rapaz que conhecera no terceiro ano e com quem sara, mas de quem agora era apenas amiga. Jimmy ligara 
duas vezes, mas ela no atendera, no lhe desejava falar com ningum. Por isso, Sam e Allegra ficaram admiradas ao v-lo na rampa quando chegaram a casa. Jimmy tinha 
passado por ali para saber se ela estava, e j se ia embora quando Allegra parou para deixar a irm.
        - Tenho andado a semana inteira a telefonar-te. Ficou com o meu livro de Cincias, e disseram-me que no volta -  disse ele, observando-a com cuidado, sob 
o olhar atento de Allegra.
        Eram os dois to jovens e inocentes! Era uma dor de alma que Sam tivesse que sofrer tanto. Quando partiu, lembrou-se de si prpria e de Alan com aquela idade. 
Tambm eles pareciam partilhar aquela espcie de amizade singela, que, no seu caso, durara dezesseis anos.
        No entanto, Sam mostrou-se fria na resposta.
        - Eu ia devolver o livro  - explicou, subitamente envergonhada e esperando que ele no tivesse ouvido dizer por que motivo sara do colgio. Era bom rapaz 
e gostava dele, mas no tencionava contar-lhe que estava grvida.
        - Ento o que aconteceu?
        - Ainda no o li  - respondeu, dirigindo-se lentamente para casa, ao lado dele.
        - No me refiro ao livro. Porque no voltas para o colgio at ao fim do ano?
        Sam procurou inventar uma desculpa.
        - Problemas familiares. Os meus pais vo-se divorciar. Eu fiquei muito deprimida e tive de tomar uma srie de medicamentos.. Prozac, por exemplo. A minha 
me estava com medo que eu matasse algum no colgio, acha que ando muito estranha...
        Percebeu que fora longe de mais e sorriu. At Jimmy reconheceu que a histria era absurda.
        - Acaba com isso, est bem? No  obrigada a dizer-me porqu.
        - Na verdade todas as pessoas sabiam, ou adivinharam. Era o nico motivo pelo qual algum abandonava o colgio, exceto para fazer uma cura de reabilitao, 
e Sam nunca se drogara. No entanto, Jimmy no lhe disse que desconfiava e, alm disso, Sam no parecia estar grvida, portanto talvez estivessem todos enganados, 
talvez tivesse outro problema qualquer. Ele s queria certificar-se de que Sam no tinha nada de grave, como uma leucemia, por exemplo. Havia perdido uma amiga no 
segundo ano e entrara em pnico quando soubera que Sam no voltava s aulas. Fora assim que tudo comeara com Maria.
        - Est bem? Era s isso que eu queria saber  - disse ele com ternura.
        Jimmy andava com algum h uns tempos, mas sempre tivera um fraquinho por Sam, e ela tinha conscincia disso.
        - Estou tima  - respondeu, mas o olhar denunciou a tristeza que lhe ia na alma, e Jimmy percebeu.
        - Seja o que for, coragem! Sempre vais para a UCLA no Outono?
        Iam ambos para a universidade, e Jimmy ficou aliviado quando ela fez um sinal afirmativo.
        - Vou buscar o seu livro. Entra.
        Jimmy foi atrs dela e ficou  espera na cozinha enquanto Sam subiu ao primeiro andar. Ainda no a tinham esvaziado, e Simon continuava a pedir a Blaire 
que no o fizesse. 
        - Talvez agora ela mudasse de idia.
        Cinco minutos depois, Sam desceu com o livro e entregou-o. Jimmy pegou-lhe na mo e ela fitou-o, corando. Ultimamente sentia-se muito vulnervel, no sabia 
por qu. Nunca pensara que poderia ser por estar grvida.
        - Ouve... Se precisares de alguma coisa, telefona... Est bem?... Podemos ir andar de bicicleta... Ou comer alguma coisa. s vezes, os problemas parecem 
diferentes quando conversamos  - disse ele com meiguice.
        Sam respondeu com um gesto de cabea. Jimmy ia fazer dezoito anos e era muito maduro para a sua idade. O pai morrera h dois anos e ele ajudava a me a criar 
as trs irms mais novas. Era invulgarmente responsvel e muito carinhoso.
        - No tenho nada para conversar  - respondeu Sam, olhando para o cho e depois para ele. Encolheu os ombros; era muito difcil dizer mais alguma coisa, e 
o rapaz compreendeu.
        Jimmy tocou-lhe apenas no ombro e depois foi-se embora. Da janela da cozinha, Sam viu-o partir no seu velho Volvo. A famlia vivia em Beverly Hills. Eram 
pessoas respeitveis e viviam com conforto, embora no fossem muito abastadas. Continuavam a viver do dinheiro do seguro e do que o pai lhes deixara. Jimmy trabalhava 
aos fins-de-semana e candidatara-se a uma bolsa de estudo para ir para a universidade. 
        Queria ser advogado, como o pai. Sam tinha a certeza de que conseguiria; entre outras qualidades, era muito determinado.
        Depois de ele ir embora, Sam sentou-se numa cadeira da cozinha e ficou a olhar para o teto. Tinha tanto em que pensar e tantas decises a tomar! Suzanne 
Pearlman explicara-lhe exatamente como funcionava a adoo, e agora tinha de arranjar uns novos pais para o seu beb. Parecia to simples... Para todos, exceto para 
Samantha.






        
CAPTULO 15

        As coisas acalmaram bastante nas duas semanas seguintes, ao contrrio do previsto, sobretudo dadas as circunstncias. Sam fora ao mdico da me, e este confirmara 
que estava tudo em ordem. O beb tinha um bom tamanho e parecia saudvel. Sam estudava em casa e continuava muito silenciosa e distante. Tivera mais duas reunies 
com Suzanne, e o nmero de casais estava agora restringido a quatro. Da a dois meses tomaria novas decises no sentido de reduzi-lo ainda mais. Suzanne dar-lhe-ia 
todas as informaes possveis, e no pretendia apress-la. Queria que Sam estivesse segura de que tomava a deciso certa.
        Allegra tentava adiantar o mximo de trabalho possvel para conseguir ir a Nova Iorque no fim-de-semana. No estava particularmente ansiosa por conhecer 
a me de Jeff. Tinham falado ao telefone e Sr. Hamilton fizera uma srie de perguntas concretas, como se estivesse a entrevist-la para um emprego e ela no fosse 
uma candidata elegvel. Allegra considerou a sua atitude um pouco estranha e insultuosa, mas no disse nada a Jeff. Entretanto procurava organizar tudo para a tourne 
de Bram. Comeava em So Francisco na segunda-feira, e Allegra queria estar presente na noite da estria, pelo menos. Nos meses seguintes fariam um percurso em ziguezague 
pelo pas, e no 4 de Julho atuariam no Great Western Forum, em Ingleside, nos arredores de Los Angeles. Depois partiriam para o Japo, dariam a volta ao mundo e 
terminariam na Europa. Allegra prometera que apareceria de vez em quando, aqui e ali, se pudesse. A tourne iria render-lhe cem milhes de dlares, 'uma boa pipa 
de massa', como afirmara Jeff com humor quando ela lhe falara em nmeros. Allegra nunca teria referido a quantia se esta no tivesse j aparecido em todos os jornais 
h vrios meses e Bram no houvesse cometido a asneira de confirm-la.
        No entanto, tudo parecia sob controle at  vspera do dia em que Jeff e Allegra partiriam para Nova Iorque. Os promotores tinham tratado de tudo, desde 
o pessoal ao itinerrio. 
        E depois,  meia-noite, na vspera de ir para Nova Iorque com Jeff, recebeu um telefonema: o baterista suicidara-se, intencionalmente ou por acidente, com 
uma overdose. Estavam todos em estado de choque. A comunicao social apoderara-se do acontecimento, a namorada encontrava-se detida e a tourne fora suspensa at 
conseguirem arranjar outro baterista.
        s duas da manh ainda Allegra estava ao telefone com Bram, que fora  necrotrio identificar o corpo do seu amigo de longa data e se sentia muito deprimido. 
O mesmo sucedia com os promotores; haviam ligado para Allegra dez minutos antes de Bram. O telefone no parou de tocar at s seis da manh, e Jeff estava desesperado 
quando se sentaram os dois a tomar o caf da manh. Fora impossvel dormir com o telefone a tocar durante toda a noite, e ele tinha reunies importantes nessa manh.
        - Desculpa  - disse Allegra serenamente, servindo-lhe o caf. Fizera uma declarao  imprensa na noite anterior e a notcia vinha na primeira pgina dos 
jornais de Los Angeles. Foi uma noite tremenda para todos
        - Devia ter sido polcia, motorista de ambulncia ou qualquer coisa desse gnero! - replicou Jeff olhando para ela com irritao. Tem o perfil ideal! Eu, 
pelo contrrio, no: preciso dormir de vez em quando, entre os telefonemas!
        - Eu sei. Desculpe, no pude evitar. A tourne do Bram est prestes a desfazer-se em fumo. Hoje tenho de ver se arranjo maneira de ajud-lo.
        A mente de Allegra no parara desde manh; Bram conhecia vrios bateristas que poderia contratar, mas isso levaria tempo e quase todos tinham outros compromissos.
        - No te esqueas que o avio parte s seis horas  - disse Jeff, veemente.
        - Eu sei -  respondeu Allegra, sentindo-se tensa.
        Hora e meia depois foi para o escritrio, e no parou durante todo o dia. Esteve sentada com Bram, a ajud-lo a reorganizar a tourne, e s quatro horas, 
quando olhou para o relgio, percebeu que ia haver confuso: no podia abandonar Bram numa situao daquelas e tinha de sair naquele momento,  se quisesse apanhar 
o avio; combinara encontrar-se com Jeff no aeroporto.
        Ligou para casa, mas ele j sara e no acreditava em telefones no automvel, que considerava demasiado californianos para o seu gosto. Restava a Allegra 
enviar-lhe uma mensagem pelo pager; o to ridicularizado aparelho acabou por dar jeito.
        Allegra tentara contat-lo s cinco horas, quando deveriam estar a fazer o check-in, e um quarto de hora depois Jeff telefonou-lhe para o escritrio. Alice 
disse-lhe que ele estava na linha e Allegra apressou-se a atender. O namorado no parecia satisfeito.
        - Onde est? Creio que temos um problema, visto que te liguei para o escritrio. O que se passa?
        Os promotores ameaam cancelar a tourne. Afirmam que  uma quebra de contrato e, at agora, no conseguimos arranjar outro baterista. No sei como te hei-de 
dizer isto, Jeff, mas no posso deix-lo sozinho; a tourne comea na segunda-feira.
        Allegra tencionava ir a So Francisco na segunda-feira seguinte, para o ver atuar no Oakland Coliseum, mas agora isso estava fora de questo; no podiam 
ir para lado nenhum sem um baterista.
        - No compete ao agente dele resolver essa trapalhada?
        - Se conseguir, mas eu estou envolvida nisto, e vo precisar de mim para redigir novos contratos.
        - No lhes podes enviar um fax de Nova Iorque?
        Allegra queria responder afirmativamente. Detestava desiludi-lo, mas estava em causa um assunto da sua responsabilidade, e no podia descartar-se. Tinha 
de lhe dizer a verdade, por muito que isso desapontasse a me de Jeff.
        - Preciso mesmo de ficar aqui.
        - Est bem, compreendo  - respondeu ele com calma, mas a sua voz parecia gelo.
        Seguiu-se um longo silncio.
        - O que vai fazer agora? - Allegra estava em pnico. E se ele acabasse tudo? E se o perdesse? Vai assim mesmo? - perguntou com nervosismo.
        - Vou apresentar-te  minha me, Allegra. Eu j a conheo  - retorquiu Jeff com frieza.
        - Desculpe -  disse ela, desesperada por no o acompanhar. Tentei apanhar-te em casa, mas no consegui. Posso telefonar  tua me a dar uma explicao?
        Eu trato disso; ela no iria compreender. Vou dizer-lhe qualquer coisa descabelada. Que houve uma morte na famlia, uma intoxicao alimentar, qualquer coisa... 
Ela no percebe nada de tournes de cantores de rock.
        - Jeff, estou desolada...
        - Eu sei.  inevitvel. E quanto ao jantar? Pode safar-se, ou tambm vai fazer jejum?
        - Adoraria  - assegurou, agradecida por ele estar disposto a perdoar-lhe, ou, pelo menos, a dar-lhe de comer. Era um bom sinal. Jeff era uma pessoa fabulosa.
        - A culpa no  sua, Allegra, eu sei, mas  muito aborrecido sermos constantemente obrigados a modificar os nossos planos para ir ao encontro das convenincias 
dos outros. Quando nos casarmos, talvez consiga alterar um pouco isso. Desta vez faz sentido, mesmo para mim, mas quase sempre essas pessoas ficam  espera que voc 
limpe-lhes o rabo e que decida por ela.
        -  para isso que me pagam...
        - Julguei que era pelo teu apoio jurdico...
        - Isso  o que nos dizem na Faculdade de Direito, mas, como tudo o resto que nos ensinam,  mentira. Pagam-nos para limparmos rabos.
        Allegra soltou uma gargalhada e Jeff acabou por sorrir.
        - Amo-te, minha tontinha. Vou sair do aeroporto e apareo a no escritrio para irmos tomar um copo, e, se o Morrison no te puder dispensar durante duas 
horas, dou-lhe um murro no queixo! Pode dizer-lhe isto mesmo.
        - Direi. Literalmente.
        - Est tudo bem? -  perguntou Bram Morrison quando ela acabou de falar com Jeff.
        Allegra parecia aliviada. Ficara aterrada com a hiptese de Jeff desfazer o noivado por ela no poder ir a Nova Iorque para conhecer a me dele.
        - Sim  - respondeu, com um sorriso. Este fim-de-semana devia ir a Nova Iorque para conhecer a minha futura sogra, e acabei de cancelar a viagem. O Jeff j 
estava no aeroporto.
        - Peo muita desculpa.
        Bram era brando e amvel e um dos homens mais trabalhadores que Allegra conhecia. Tal como a maioria dos msicos com quem trabalhara, tivera uma histria 
de drogas na juventude, mas, ao contrrio de muitos, afastara-se delas h vrios anos. Era um homem de famlia e um verdadeiro gnio da msica. Alm disso, era raro 
aproveitar-se do tempo de Allegra, exceto quando precisava verdadeiramente dela, como agora. No entanto, uma estrela da sua grandeza tinha problemas freqentes e 
sbitos, como ameaas aos filhos e agora a morte do baterista.
        Bram usava os cabelos compridos e desgrenhados, barbas e uns culos minsculos com armaes metlicas; parecia um homem das cavernas. Tinham acabado de lhe 
falar noutro baterista que talvez estivesse disponvel, um dos bons. A situao parecia que comeava a melhorar.
        Jeff chegou por volta das sete, e Allegra interrompeu a reunio com Bram por umas horas. O msico tinha de se agarrar ao telefone para ver se encontrava 
o baterista e disse-lhe que dispusesse da noite; voltariam a encontrar-se s nove da manh do dia seguinte.
        Allegra e Jeff foram comer alguma coisa ao Pan e Vino. Allegra sentia-se incomodada e exausta, e at Jeff parecia um pouco abatido. A me ficara furiosa 
com o cancelamento. Fizera uma reserva no Twenty-One para o jantar de sbado e era uma pessoa que no gostava que ningum lhe alterasse os planos, sobretudo uma 
garota da Califrnia que nem sequer conhecia.
        - O que disse ela? -  perguntou Allegra com nervosismo, convencida de que Sr. Hamilton a odiaria para sempre.
        - Aconselhou-me a desistir do casamento respondeu Jeff, muito srio.
        Allegra ficou sem flego. Jeff riu-se e acrescentou:
        - Disse que no se pode confiar na nossa gerao, que no se pode contar com ningum, e que lamentava a morte da tua tia-av, mas podia l ter ido por um 
dia, s para a conheceres. Expliquei-lhe que estavas muito desgostosa e que o funeral  no domingo. No creio que tenha acreditado numa nica palavra, mas o que 
havia ela de dizer? 'Mostra-me o corpo. Envia-me um carto com a hora da missa'? Telefonei a uma florista de Nova Iorque antes do fecho, e prometeram que lhe enviavam 
um grande ramo de flores da nossa parte logo de manh.
        - Eu no te mereo  - disse Allegra com sinceridade
        - Ela tambm  da mesma opinio, mas eu garanti-lhe que estava enganada. Prometi-lhe que iramos l no fim-de-semana do Dia dos Combatentes.  muito importante 
para ela, porque abre a casa de Southampton nesse fim-de-semana, por isso, acontea o que acontecer, teremos de l ir nessa data.
        - E o teu filme?
        - No trabalhamos no fim-de-semana do feriado. Jeff comeava as filmagens da a trs dias, por isso  que deveriam ter ido a Nova Iorque nesse fim-de-semana
        Afinal, tudo acabou bem. Alegra passou os trs dias seguintes atarefada resolvendo a questo da tourne com Bram Morrison e, no domingo  noite, estava tudo 
reorganizado e os promotores satisfeitos. Como era habitual, Allegra fizera um bom trabalho, e Bram ficara contente. Misso cumprida. No domingo  noite, Jeff apanhou-a 
de surpresa com um pequeno estojo de camura preta que tencionava oferecer-lhe em Nova Iorque, mas ainda faltava um ms para l irem, e no queria esperar tanto 
tempo.
        Allegra abriu-o com cuidado, depois do jantar. O pr do sol na praia fora esplendoroso e era a ltima noite livre de ambos antes de Jeff comear a rodar 
o filme. Allegra tinha as mos tremendo quando desembrulhou o estojo. Era impossvel no adivinhar o que estava l dentro, mas, quando o viu, perdeu o flego; era 
um belo anel antigo, com uma esmeralda cercada de diamantes.
        - Oh, Jeff,  to bonito -  exclamou, com as lgrimas nos olhos
        No era um vulgar anel de noivado, tinha uma personalidade prpria e uma concepo maravilhosa. Allegra nem se importava de no ter anel de noivado, nunca 
haviam falado nisso.
        - Tencionava levar voc comigo a uma ourivesaria, mas depois vi este, que  parecido com um que a minha av tinha. 
        - Comprei-o no David Webb, mas, se no gostar, podemos devolv-lo ou troc-lo por outra coisa que aprecie. Jeff sorriu e Allegra beijou-o.
        - Adoro... Eu no mereo isto. Amo-te tanto!
        - Gosta dele?
        - Gosto, a srio.
        Era uma jia perfeita. Jeff enfiou-lha no dedo: acertara no tamanho, e Allegra ficou radiante; no tirava os olhos dele. O anel impressionava na mo dela, 
mas, como era antigo, no parecia espalhafatosa, apesar do seu tamanho. Era muito distinto.
        Nessa noite passaram horas sentados conversando sobre a famlia, das suas vidas, dos seus planos e do casamento. Parecia que o tempo voava; j estavam no 
primeiro dia de Maio e faltavam apenas quatro meses para a boda. Allegra ainda tinha mil e uma coisas para fazer, e a me estava constantemente a telefonar-lhe e 
a insistir com ela: queria que contratasse um consultor especializado em casamentos, para que se ocupasse dos pormenores. Na opinio de Allegra, era uma idia ridcula, 
mas a verdade  que nem ela nem a me tinham tempo para organizar a cerimnia. Blaire andava mais atarefada do que nunca com o seu programa e os clientes de Allegra 
quase no a deixavam respirar.
        Nessa noite foram para a cama cedo. Jeff queria estar no estdio s quatro da manh, para ver se todos se encontravam presentes e certificar-se de que o 
mais nfimo pormenor tinha sido acautelado. Allegra lembrou-lhe que Tony e o diretor tambm estariam l e que a responsabilidade no assentava totalmente nos seus 
ombros, no entanto, era o seu livro, o seu primeiro filme, e Jeff queria estar l, no caso de surgir algum problema.
        - Quem  que est agora a ser escravo das suas obrigaes? - perguntou, arreliadora, fazendo faiscar o anel na direo de Jeff. No despregava os olhos dele, 
e nem sequer o tirou quando foram para a cama, muito cedo, porque Jeff tinha de se levantar s duas e meia.
        Adormeceram por volta das dez horas, e Allegra ficou atordoada quando o telefone tocou,  meia-noite. Estava dormindo profundamente e levou algum tempo a 
perceber que algum falava com ela numa lngua estrangeira.
        - 'Mademoiselle Steinberg, on vous appelle de la Suisse, de la part de Madame Alan Carr.'
        Allegra no fazia idia do que estavam a dizer, mas reconheceu o nome de Alan no fim. Estaria perguntando se ela aceitava a chamada a pagar no destino?
        - Aceito! - gritou ao telefone. Jeff acordou sobressaltado e depois reclinou-se na cama, ao lado dela. Est? Est?
        Parecia que a chamada ia cair. Por fim, voltaram  linha. Ouviu-se uma srie de rudos provocados pela eletricidade esttica e, de repente, a voz de Carmen.
        - Carmen? O que ? O que se passa? Havia uma diferena horria de nove horas, e na Sua eram nove da manh, mas Allegra percebeu que acontecera alguma coisa 
a Carmen para que ela lhe telefonasse  meia-noite. Sentiu um calafrio na espinha ao pensar que Alan poderia ter sofrido um acidente durante as filmagens. S ouvia 
Carmen a chorar do outro lado da linha. Diz qualquer coisa, com os diabos! Comeava a perder a pacincia com ela; j que lhe pregara um susto de morte ao acord-la 
quela hora, queria saber a histria. Jeff tambm acordara por completo. Acendera a luz e estava a ouvir a conversa. Carmen, o que aconteceu?
        Ouviu-se um choro agudo e prolongado do outro lado da linha.
        - Estou no hospital...
        - Oh, no! Por qu?
        - Perdi o beb.
        Desatou a chorar convulsivamente, e s meia hora depois  que Allegra conseguiu acalm-la. Entretanto, passara para a sala, para que Jeff pudesse dormir, 
mas ele estava bem acordado e no conseguira voltar a adormecer.
        Segundo parecia, Carmen no cara, no acontecera nada dramtico; sofrera um aborto natural, pura e simplesmente. Encontrava-se no local das filmagens, junto 
de Alan, e tivera uma forte hemorragia. Haviam mandado chamar uma ambulncia e, segundo Carmen, Alan tambm ficara muito afetado. Carmen disse que no queria voltar 
para casa sem ele, o que fez estremecer Allegra, ambos tinham contratos a cumprir.
        - Agora ouve, Carmen  - disse Allegra, tentando manter a calma. Eu sei que  terrvel, mas voltar a engravidar, e o Alan tem de acabar esse filme. Se falar 
em voltar para casa com voc , eles nunca mais o contratam, no se esquea disso. Voc prpria tem de estar aqui no dia quinze, por causa das filmagens.
        - Eu sei, mas sinto-me to infeliz! E no quero deix-lo. Carmen chorou at  uma da madrugada. Por fim Allegra conseguiu desligar, pensando nas ironias 
do destino: Carmen, to ansiosa por ter um beb, perdera-o, enquanto Sam estava a destruir a sua vida por causa de um beb. Talvez pudesse d-lo a Carmen, pensou, 
um pouco atordoada. Voltou para a cama e reparou que Jeff estava acordado e com cara de poucos amigos.
        - A Carmen perdeu o beb  -  disse ela, em jeito de desculpa, enfiando-se na cama.
        - Calculei, mas eu estou quase a perder o juzo. No posso viver neste ambiente de urgncia de hospital, com telefonemas todas as noites, suicdios, overdoses, 
abortos, divrcios, tournes... Pelo amor de Deus, Allie, quem  voc? Uma advogada ou uma assistente de psiquiatria?
        -  uma boa pergunta. Ouve, eu sei, desculpa. Talvez ela tenha calculado mal a diferena horria.
        - Tretas! Ela no se importa! Ningum se importa! Telefonam-te a qualquer hora do dia ou da noite. Eu preciso dormir, tenho um filme para fazer. Tambm tenho 
um emprego, Allegra. Precisa dizer aos seus clientes que acabem com estes telefonemas.
        - Eu sei, eu sei... Desculpa... Juro que isto no volta a acontecer.
        - Mentirosa  - disse ele, puxando-a para si e encostando o corpo nu de Allegra ao seu. Far de mim um velho, se no der fim a esta situao.
        - Eu vou avis-los, prometo.
        Mas ambos sabiam que nunca o faria. Allegra era assim mesmo, estava sempre disponvel para eles, fossem quais fossem os seus problemas.
        Duas horas mais tarde, Jeff saiu de casa, sonolento e de mau humor. Allegra fez-lhe um caf antes de ele se ir embora. Depois voltou a deitar-se e telefonou 
a Carmen para o nmero que ela lhe dera. Foi Alan que atendeu. Estava num intervalo das filmagens e era bvio que ficara muito transtornado por causa de Carmen e 
do beb.
        - Lamento, querido  -  disse ela.
        Alan agradeceu e em seguida levou o telefone para o banheiro. Segundo ele, Carmen estava muito mal; ficara muito deprimida com a perda do beb.
        - Tem de tomar conta dela quando voltar para casa  - disse, em tom de splica.
        - Sim, juro, mas no saia da e acaba o seu filme.
        - Eu sei  - respondeu Alan, atrapalhado. J lhe disse isso, mas ela quer que eu a acompanhe.
        - Mato-te se fizer tal coisa! No pode!
        - Eu sei, mas promete-me que toma conta dela quando chegar a, depois de amanh.
        - Prometo, no te preocupe -  garantiu Allegra, e desligou, pensando como s vezes a vida era complicada para todos.
        Carmen, Alan, Bram, Jeff: nenhum deles escolhera carreiras fceis, e, contudo, por motivos diferentes, todos gostavam do que faziam. Allegra lembrou-se do 
que se passara nessa madrugada, quando se encontrava sentada, a enregelar, nos bastidores do Oakland Coliseum: Bram mandara busc-la no seu avio particular e ela 
fora assistir  estria. O grande recinto estava completamente esgotado; a multido entrou em delrio mal viu Bram e aplaudiu longamente quando este apresentou o 
novo baterista. Depois cantaram uma cano especial e guardaram um minuto de silncio pelo homem que morrera. E, no final do espetculo, vinte mil fs aplaudiram-no 
de p. Allegra nunca vira uma coisa assim, nem sequer nos outros concertos de Bram. Os seguranas ficaram sem pele nas mos para o protegerem das admiradoras. Acabaram 
por tocar sete extras e Bram estava ensopado em suor quando saiu do palco e abraou Allegra.
        - Voc  incrvel  - gritou ela no meio da vozearia. Bram sorriu, fez um gesto de agradecimento, abraou a mulher e beijou-a. A multido continuava a chamar 
por ele e recusava-se a sair da sala.
        - Obrigado por nos ter salvo -  bradou Bram.
        Allegra sorriu. Todos juntos, tinham salvo a tourne; era para isso que lhe pagavam.
        Em seguida havia uma festa, mas Allegra precisava de regressar a Los Angeles. Quando entrou em casa eram trs da manh, mesmo a tempo de fazer um caf para 
Jeff. Foi lev-lo  cama quando o despertador comeou a tocar. Ele olhou para ela, estremunhado, e sorriu.
        - Mas que belo servio de despertar. Como correu?
        - Foi fantstico! - Allegra inclinou-se e beijou-o. O Bram esteve melhor do que nunca! Preparou-se muito bem para esta tourne. Ainda bem que conseguiu rematou, 
deitando-se na cama ao lado de Jeff, exausta.
        Aposto que ele tambm est satisfeito disse Jeff, sorrindo e admirando a beleza dela, apesar do cansao.
        - Como correram as coisas ontem? - perguntou Allegra, referindo-se ao filme dele e afastando um bocejo.
        - Foi assustador, mas divertido -  admitiu.  uma sensao incrvel estar ali, a rodar o meu primeiro filme! Graas a Deus que o Tony sabe o que est fazendo. 
Jeff sorriu. Tony trabalhava naquilo h dez anos, desde que terminara o colgio, e ganhara quatro prmios com curtas-metragens, alm de ter sido muito elogiado por 
dois longas-metragens. Quando puder, vai l ver-nos. S Deus sabe quando o fars...
        Jeff nem a vira nas ltimas vinte e quatro horas, e ela mal teve tempo de dormir um pouco antes de ir buscar Carmen ao aeroporto.
        Mas nem mesmo Allegra estava preparada para o estado em que ela se encontrava. Carmen sentia-se completamente deprimida com a perda do beb . Tinha certeza 
de que nunca mais voltaria a engravidar e a ausncia de Alan despertava nela pensamentos suicidas. Allegra precisou de toda a sua energia e concentrao para lev-la 
a casa e a convencer de que tinha de ir aos ensaios. Passou a semana seguinte a tratar de Carmen como se esta fosse um beb. Mal tinha tempo para ir ver Jeff ao 
estdio, mas todos os dias conseguia alguns minutos, e o filme parecia estar a correr bem. Melhor do que os ensaios de Carmen no fim da semana... Pelo menos Bram 
Morrison j ia na estrada com a sua tourne, que estava a ter um xito estrondoso, assim como o novo baterista. Allegra comeava a sentir-se como se os trouxesse 
todos s costas e Jeff passou a primeira semana das filmagens com os nervos em franja. No fim dessa semana teve que refazer algumas partes do guio, porque dois 
dos atores no gostaram do dilogo; passava dias e noites com Tony e Allegra mal o via
        Felizmente foi obrigado a adiar a visita  me e s conseguiu prometer-lhe que voltaria ao Leste dentro de pouco tempo. Agora Sr.  Hamilton tinha de esperar 
pelo filme do filho, o que no lhe agradou.
        Quando Carmen comeou a filmar, no dia 1 de Junho, Allegra estava to atarefada e exausta que parecia  beira de um esgotamento nervoso. Carmen telefonava-lhe 
de cinco em cinco minutos a queixar-se de qualquer coisa e passava o resto do tempo a chorar, jurando que nunca mais voltaria a trabalhar num filme em que Alan no 
entrasse tambm. Estava a comportar-se de uma forma completamente absurda. Allegra perdeu trs quilos na primeira semana do filme de Carmen. Tambm recebia mensagens 
da tourne de Bram e, sempre que o grupo tinha problemas em algum lugar, era ela que os resolvia. Era como se nunca mais visse Jeff: poucas vezes estavam em casa 
ao mesmo tempo, exceto quando um deles se encontrava  dormindo.
        Sam estava grvida de sete meses, mas parecia um pouco mais animada. Trabalhava em estreita colaborao com Suzanne Pearlman e, sempre que Allegra ia ver 
a irm a casa dos pais, reparava que Jimmy Mazzolen tambm l se encontrava, ou porque passara para a ver, ou porque a ajudava a fazer os trabalhos de casa... Por 
fim, Sam confessara-lhe que estava grvida, e ele mostrara-se surpreendentemente compreensivo e disposto a apoi-la. No namoravam, mas Jimmy parecia ser muito dedicado 
a Sam. Ela j usava roupa de grvida e o beb crescera de repente. s vezes, Jimmy gostava de pousar a mo na barriga de Sam e senti-lo a dar pontaps. Era freqente 
lev-la a passear na praia ou a um restaurante, ou ajud-la a fazer os trabalhos de casa. Tinha pena dela e considerava que no merecia o azar de ter engravidado. 
s vezes Sam trocava impresses com ele acerca das pessoas que se candidatavam  adoo do beb. Inclinava-se bastante para um casal de Santa Brbara. Tinham perto 
de quarenta anos e diziam que adoravam crianas e a mulher lembrava-lhe um pouco Allegra. Tambm era advogada. Ele era mdico. As suas qualificaes eram excelentes 
e pareciam ter bastante dinheiro. Sam no queria que o seu beb passasse privaes ou que no tivesse uma boa educao. Alm disso, afirmavam-se dispostos a adotar 
mais crianas. Chamavam-se Katherine e John Whitman.
        E, no meio de tudo isto, Blaire continuava a lembrar  filha que precisava de pensar no seu casamento. Allegra encomendara os convites  Carrier e experimentara 
vestidos de noiva na Saks, I. Magini e Neiman's, mas nenhum a cativara. No entanto, o maior choque surgiu quando a me lhe participou que contratara Delilah Williams.
        - Quem  essa? Sorriu ao ouvir aquele nome, perguntando a si prpria quais seriam as intenes da me.
        - Veio rodeada das maiores recomendaes.  consultora matrimonial e vai tratar-nos de tudo o que respeita ao casamento. Disse-lhe que te telefonasse para 
o escritrio.
        - No posso acreditar! - exclamou Allegra quando contou a Jeff o sucedido, com ar divertido.
        A verdade  que no estava preparada para a mulher que foi ter com ela ao escritrio da a trs dias. Delilah ia equipada com lbuns e fotografias, listas 
e dossis, e parecia que no se calava. Tinha mais de um metro e oitenta de altura, e quando Allegra tentou descrev-la a Jeff, s soube dizer que parecia um travesti. 
Levara um vestido cor de alfazema com um chapu a condizer e ametistas por todo o lado. Tinha o cabelo oxigenado e os braos to compridos que parecia um grande 
pssaro pronto a levantar vo do sof do gabinete de Allegra. O seu prprio escritrio ficava em alguma parte no vale.
        - Vamos confirmar, - querida disse ela, dando palmadinhas na mo de Allegra, que a fitava, incrdula. Custava-lhe a acreditar que a me contratara aquela 
mulher. Devia estar desesperada... Tem de escolher as damas de honra, tratar-lhes do vestido, e do seu tambm, evidentemente... Sapatos... No se esquea dos sapatos... 
Temos de falar acerca do bolo... E das flores... Eu disse  sua me que vo precisar de uma tenda no jardim... A ementa... A orquestra... No nos podemos esquecer 
da orquestra... Fotografias.. Vdeo... Vu comprido ou curto...
        A mulher continuou a falar e Allegra escutava-a, horrorizada. As palavras 'Las Vegas' continuavam a retinir na sua mente. No conseguia perceber por que 
motivo Jeff e ela tinham optado por um casamento em casa, com uma multido de convidados.
        - Voltamos a encontrar-nos aqui de hoje a uma semana  - declarou Delilah, levantando-se do sof com as suas pernas de girafa. Allegra tentou no olhar para 
ela. Quero que me prometa que far o seu trabalho de casa.
        - Com certeza  - respondeu Allegra solenemente, aceitando o lbum, os livros e as listas. At havia um vdeo para escolher o bolo!
        - Voc  uma querida. Agora v s compras! Tem muito que fazer!
        Delilah disse-lhe adeus e desapareceu como uma personagem cmica numa pea nova-iorquina. Allegra ficou ali, a olhar, atnita. Dois minutos depois, aproximou-se 
do telefone e ligou  me. Blaire estava numa reunio, como era habitual, mas, por uma vez, Allegra pediu que a chamassem.
        - Allegra? O que se passa?
        - Est brincando? - perguntou Allegra, sentando-se  secretria. Estava petrificada.
        - Com qu, querida?
        - Aquela mulher! No posso acreditar que me tenha feito uma coisa destas!
        - Refere-se  Delilah? Todos que recorreram aos seus servios dizem que  fabulosa. Acho que vamos ficar satisfeitos com ela.
        A me deve estar brincando. Eu no posso com isto! Pelo menos, ria de todo aquele absurdo. A cada dia que passava o casamento tornava-se mais ridculo. Talvez 
ela e Jeff pudessem apenas viver juntos.
        - Querida, tem pacincia, a Delilah vai te ajudar. Vai gostar dela.
        Era bvio que a me perdera o juzo.
        - Nunca na minha vida vi ningum como ela. De sbito, no conseguiu conter o riso. Riu at as lgrimas lhe correrem pela face, e Blaire tambm desatou a 
rir. No posso acreditar que a tenha contratado! - repetiu, no meio de um riso convulsivo.
        - Ela  eficiente, no acha?
        - Espere que o pai a veja! E, me, s quero que saiba que gosto muito de voc.
        Tambm gosto muito de voc. E vai ser um lindo casamento.
        Mas o casamento parecia agora to insignificante, no meio de tudo o resto! O que lhe interessava era Jeff, e no o casamento. E tinham que pensar em Sam 
e no seu beb. O tipo de bolo, ou a cor do vestido das damas de honra, j para no falar dos sapatos, como Delilah dissera, pareciam totalmente irrelevantes.
        Ainda Allegra estava rindo quando o telefone voltou a tocar. Era Jeff.
        - Boas notcias! Foi a primeira coisa que ele disse. Estou livre este fim-de-semana. O Tony consegue agentar o barco sem mim, e eu liguei para a minha me 
a avisar que iramos ter com ela. Podemos aterrissar em Kennedy e ir direitos a Southampton. O corao de Allegra parou por instantes; julgara que estava definitivamente 
livre de tal responsabilidade. Jeff parecia to atarefado com o seu filme... Ela ficou muito contente. H tanto tempo que andamos a prometer-lhe isto, que creio 
que nem acreditou em mim. Pode ir, no pode?
        Jeff reparara no seu silncio. Allegra tentava adaptar-se de novo  idia de ter de conhecer a me dele. No sabia por que, mas continuava a ter a sensao 
de que Sr.  Hamilton no gostava dela.
        - Por uma vez, no vejo qualquer obstculo -  respondeu, um pouco desapontada. Ningum estava em crise, nem sequer Carmen.
        - No diga isso muito alto... Partimos na sexta-feira anunciou com ar solene. Queria apresent-la  me.
        L estarei respondeu Allegra, rezando em silncio para que dessa vez no acontecesse nada que os impedisse de ir, caso contrrio a me dele nunca lhe perdoaria. 
Sabia por Jeff como ficara zangada da ltima vez que tinham cancelado a ida, mas Allegra s podia rezar para que nada acontecesse e ganhar foras para acompanh-lo. 
Pelo menos, iriam passar um fim-de-semana fora, e bem precisavam. O nico problema era que Allegra desconfiava h muito que no haveria nada de relaxante nesse fim-de-semana. 
S pensava no rosto que vira na fotografia que Jeff lhe mostrara no apartamento de Nova Iorque, e essa recordao era suficiente para assust-la.
















CAPTULO 16

        Allegra andava com o corao nas mos na semana anterior  sua ida a Nova Iorque. Sabia que Jeff ficaria furioso se ela no pudesse ir. Mas at quinta-feira 
no acontecera nada, e nessa noite, enquanto faziam as malas, suspirou de alvio e concluiu que se preocupara inutilmente. No surgira crise alguma que interferisse 
com a viagem, e reconheceu que era um disparate estar to nervosa com a perspectiva de conhecer a me dele. Era tambm essa a opinio de Jeff: assegurava-lhe que 
a me ia gostar muito dela.
        Estavam ambos cansados, depois de longas semanas de presso, mas tudo parecia correr bem para eles e para os clientes de Allegra. At Carmen melhorara nos 
ltimos dias; pelo menos, tinha a mente ocupada, agora que comeara as filmagens. Continuava a sentir-se muito s sem Alan, mas falava-lhe constantemente, sobretudo 
pelo celular, que trazia na algibeira da bata. Na verdade, telefonava-lhe a toda a hora, quer de dia quer de noite, ainda mais do que a Allegra, que finalmente lhe 
pedira, pelo menos, para tentar no lhe telefonar muito tarde. E Carmen prometera no o fazer. Agora telefonava quase sempre a Alan.
        - No posso acreditar que vamos mesmo! - exclamou Jeff quando pousaram as malas no vestbulo, nessa noite. Ambos tinham reunies de manh e partiam logo 
a seguir. Southampton  fabuloso nesta poca do ano acrescentou; mas no era Southampton que preocupava Allegra, o que a inquietava era ir conhecer a me de Jeff, 
apesar de este tentar tranqiliz-la.
        Tratou do cabelo e das unhas e resolveu levar um traje de linho azul Givenchy na viagem. Queria ter um aspecto respeitvel quando a visse. Tencionava at 
atar o cabelo atrs. Nessa noite, quando foram para a cama, Jeff sorrindo, falou de Southampton, de que tanto gostava em criana, e de Vermont, para onde a famlia 
costumava ir quando a av era viva. Adormeceram como duas crianas e Allegra julgou que estava a sonhar quando ouviu campainhas. Algo tocava ao longe, mas no sabia 
o qu. Talvez fossem sinos em Vermont, admitiu, embrenhada ainda nas brumas dos sonhos. De repente, com um sobressalto, percebeu que era o telefone. Saltou da cama, 
como sempre fazia, para Jeff no ouvir, mas, como era habitual, ele j acordara. Quando atendeu, verificou no relgio da mesa-de-cabeceira que eram quatro e meia 
da madrugada.
        Se for a Carmen, diz-lhe que a mato  - resmungou Jeff, virando-se para o outro lado. No se pode dormir nesta casa, desde que est aqui!
        Jeff no estava brincando e Allegra falou ao telefone em voz baixa, certa, tal como Jeff, de que era Carmen do outro lado da linha.
        - Est? Quem ? - perguntou Allegra, furiosa com a intromisso quela hora e aterrada com a hiptese de se tratar de algo que a impedisse de ir a Nova Iorque.
        -  Malachi O'Donovan, querida  - respondeu Mal com o seu sotaque irlands, arrotando em seguida. Estava perdido de bbado.
        - No me telefone a esta hora, Mal. So quatro e meia da manh!
        -  a melhor hora para si, minha querida E fique sabendo que estou na cadeia. Disseram-me que me deixavam telefonar ao meu advogado, por isso, aqui estou 
eu. Agora seja uma menina bonita e venha c pagar a fiana.
        - Oh!, pelo amor de Deus, outra vez? Que chatice! O'Donovan colecionava infraes por conduo sob a influncia de drogas ou do lcool, tal como outras pessoas 
colecionavam caixas de fsforos, e Allegra estava sempre a avis-lo de que um dia ainda era preso, e perdia a carta de conduo, mas, at ento, ele mexera todos 
os cordelinhos que podia e tivera muita sorte. As estadas freqentes em clnicas de reabilitao levavam as autoridades a fechar os olhos ao seu histrico, mas Allegra 
tinha  certeza de que dessa vez lhe iriam tirar a carta.
        - Eu sei, eu sei, desculpe.
        O'Donovan parecia arrependido, mas tambm esperava que Allegra o fosse tirar da cadeia. Afinal, era a advogada dele.
        - No h mais ningum que possa ir busc-lo, Mal?  que eu estou em Malibu, e  de madrugada.
        Jeff tinha razo: se no tivesse atendido o telefone quela hora, O'Donovan teria esperado pela manh seguinte para lhe falar. Mas atendera, e agora ele 
estava  espera que o fosse buscar. Era difcil fugir  situao, e Mal insistia que queria que Allegra fosse imediatamente pagar a fiana para ele sair.
        - Est bem - disse ela, por fim. Onde est voc? Mal se encontrava em Beverly Hills. Seguia pela faixa contrria da rua que descia at Beverly, e a polcia 
apanhara-o com uma garrafa aberta de Jack Daniel entre as pernas e um saco de erva no porta-luvas. Era uma sorte que no tivessem encontrado mais nada, mas tambm 
no haviam procurado muito. Os agentes que o tinham detido sabiam quem ele era.
        - Estarei a dentro de meia hora.
        Desligou o telefone e olhou para o corpo imvel de Jeff. Parecia que tinha voltado a adormecer, mas desconfiava que estivesse acordado, e, ao sair do quarto 
em bicos de ps, verificou que tinha razo.
        - Se no apanhares hoje aquele avio, Allegra, no haver casamento  - disse ele tranquilamente por debaixo dos cobertores.
        Allegra parou e olhou para ele com um ar aborrecido.
        - No me ameaces, Jeff. Eu fao o melhor que posso. L estarei.
        - Faz por isso.
        Jeff no disse mais nada. Allegra vestiu umas jeans e uma blusa branca. Ao descer a auto-estrada, sentia-se furiosa com todos eles: com Malachi O'Donovan, 
que julgava que podia fazer tudo o que lhe apetecia e depois ficava  espera que ela o fosse libertar, com Carmen, que se servia dela como se fosse um leno de assoar, 
de dia e de noite, e com Alan, que lhe telefonava constantemente a pedir-lhe que tomasse conta da mulher. E at com Jeff, que s vezes ficava to aborrecido, como 
se ele no tivesse tambm os seus momentos, entre levantar-se s trs da manh para chegar ao estdio antes dos outros ou ter de voltar a escrever o seu argumento 
noite aps noite. Todos esperavam que ela fosse compreensiva e s faziam o que lhes apetecia. Allegra comeava a ficar furiosa, sobretudo com Jeff.  claro que apanharia 
o avio... Esperava... A menos que Malachi tivesse cometido uma infrao muito grave. Alm disso, tinha de ser ela a enfrentar os tablides. Cus, tambm estava 
ficando cansada dessa parte! Todos esperavam que ela os livrasse das confuses, como se tivesse nascido para lhes resolver os problemas.
        Bateu com a porta do carro ao chegar  esquadra de Beverly Hills e, quando entrou, viu um agente que j conhecia. Explicou-lhe porque estava ali e ele fez 
um sinal afirmativo. Foi l dentro e pouco depois saiu com Mal. Allegra teve de pagar a fiana, o que no constituiu problema, e dessa vez Mal foi obrigado a deixar 
a carta de conduo. A polcia indicou-lhe a data na qual deveria apresentar-se em tribunal, e Allegra ficou aliviada ao ver que seria ainda nesse ms. Em seguida, 
com uma expresso firme, levou-o a casa. Mal tresandava a lcool e tentava constantemente beij-la, para lhe agradecer o fato de t-lo tirado da priso, mas ela 
ordenou-lhe que se portasse bem. Quando chegaram, a mulher estava dormindo; Allegra perguntou a si prpria por que motivo Mal no lhe telefonara, mas, assim que 
ela comeou a praguejar quando soube o que acontecera, percebeu imediatamente.
        Rainbow O'Donovan quase o atirou para o quarto, e gritou tanto que devia ter acordado a vizinhana. Pouco depois, Allegra saiu, e quando chegou a casa eram 
sete horas. Jeff estava a tomar ducha; havia caf no fogo. Serviu-se de uma chvena e sentou-se em cima da cama. Sentia-se absolutamente exausta, mas tinha muitas 
noites como aquela. Era disso que Jeff se queixava, e sabia que ele tinha razo. No entanto, pouco podia fazer e precisava que ele compreendesse a situao.
        Depois de sair da ducha, Jeff comeou a secar o cabelo e assustou-se quando a viu; no a ouvira entrar. No era difcil perceber como Allegra estava cansada.
        - Que tal correu?
        - Bem. Tiraram-lhe a carta  - respondeu com um gemido, deitando-se na cama.
        Jeff aproximou-se e sentou-se a seu lado.
        - Desculpa a minha irritao desta noite, mas estou cansado de ver os outros a abusarem de voc.  como se quisessem te engolir. No  justo!
        - Tambm no  justo para voc. Vou ter de definir outros limites. Quando o levei a casa, percebi que ele podia ter telefonado  mulher. Acho que teve medo.
        - Mete-lhes medo tambm  - retorquiu Jeff, beijando-a. Tinha de estar no estdio dentro de uma hora, e depois partiam no vo das duas. Fica bem? - perguntou, 
ao sair de casa.
        - Sim, no te preocupe.
        - Vou te buscar ao meio-dia.
        Estarei pronta prometeu.
        Allegra chegou ao escritrio s nove horas e deixou as malas no carro; Alice tinha uma pilha de mensagens e de documentos  sua espera. Verificou tudo e 
estava precisamente a afastar os dossis quando a secretria entrou no gabinete com um exemplar do Chatter.
        - Por favor, no me diga que tenho de me preocupar com o que isso diz! -  exclamou, assustada. Se fosse qualquer coisa que importunasse algum dos seus clientes, 
o mais provvel era nem sair da cidade.
        Alice pousou o jornal em cima da secretria como se o papel a queimasse, e Allegra percebeu por que: as fotografias eram terrveis e o ttulo muito desagradvel. 
Carmen ficaria furiosa quando o visse.
        - Oh, bolas! - praguejou, olhando para Alice.  melhor eu ligar para ela.
        Tinha o aparelho na mo quando a telefonista entrou na linha: Sr. Connors estava ao telefone. No disse que ela estava histrica, mas Allegra percebeu assim 
que lhe ouviu a voz.
        - Acabei agora de o ver antecipou-se, sem perder a calma.
        - Eu quero process-los!
        - No me parece que seja uma atitude inteligente. Contudo, Allegra compreendia o que ela sentia e sabia que Alan tambm ficaria lvido: o jornal dizia que 
Carmen Connors, a mulher de Alan Carr, fora fazer um aborto  Europa, e havia algumas fotografias horrveis com ela saindo do hospital, como se fosse s escondidas, 
mas a verdade  que se tratava de um truque fotogrfico.
        - Isto  uma calnia! Como podem publicar uma coisa destas? - Carmen soluava, e Allegra no sabia o que havia de dizer, mas processar os tablides s contribuiria 
para agravar a situao. Eram venenosos e tinham bons advogados, que os ensinavam a proteger-se e que nunca falhavam. Porque me fazem isto? -  Chorava ela
        Allegra sentiu-se impotente, no podia fazer absolutamente nada para alterar a situao.
        - Para vender jornais, bem sabe. Joga isso fora e esquece.
        - E se a minha av v isto?
        - Ela vai compreender. Ningum acredita nessa porcaria.
        - Ela acredita. Carmen riu no meio das lgrimas.
        - Julga que as mulheres de oitenta e sete anos do  luz quntuplos...
        - Bem, diz-lhe que so um bando de mentirosos. Lamento, Carmen, acredita.
        Allegra estava a ser sincera. Podia imaginar como era doloroso lidar com mentiras a toda a hora.
        O jornal local tambm publicava a notcia da deteno de Malachi O'Donovan. 
        Decididamente, o dia era de exposio pblica para alguns dos seus clientes.
        -  melhor avisares o Alan antes que algum lhe telefone  - sugeriu Allegra. Tambm lem porcarias dessas na Europa.
        Mas, assim que desligou, Alan telefonou-lhe da Sua. O seu agente ligara para ele e lera-lhe o artigo.
        - Quero processar esses patifes -  vociferou. A pobrezinha esvaiu-se em sangue na ambulncia, chorou durante seis semanas, e eles afirmam que fez um aborto! 
Vou dar cabo deles! A Carmen j sabe?
        - Acabamos de falar ao telefone agora mesmo  - respondeu Allegra, sentindo-se muito cansada. Dormira quatro horas na noite anterior e a manh estava a ser 
muito agitada.
        - Ela tambm quer process-los, mas eu digo-te o mesmo que lhe disse: no vale a pena. Ainda os ajuda a vender mais papel. Eles que se lixem! Era raro Allegra 
utilizar esta linguagem, mas os tablides mereciam-na. Esquece! No gastes o teu dinheiro com advogados!
        - Uns valem mais do que outros  - anuiu, um pouco mais calmo. Allegra era sempre to sensata! Por isso  que lhe telefonara. A propsito, como est?
        - Deus  que sabe! Isto por aqui tem andado muito agitado, e daqui a duas horas parto para Nova Iorque. Vou conhecer a minha sogra, que est em Southampton.
        - Boa sorte. Diz a essa velha atrevida que  uma felizarda por o filho te ter escolhido.
        Allegra riu-se da imagem.
        - Quando volta, a propsito?
        - S em Agosto, mas vai ser estupendo  - disse ele. Como est a Carmen? s vezes no me parece nada bem. Estou sempre dizendo-lhe que haver mais oportunidades, 
mas no acredita.
        - Eu sei, digo-lhe a mesma coisa. Est a agentar-se. Acho que o filme a absorve, pelo menos, mas sente muito a tua falta.
        Allegra tivera de recorrer a todos os seus dotes de persuaso para impedir Carmen de fugir para a Sua, e o artigo do tablide no ia ajudar. Tinha pena 
de no estar em Los Angeles no fim-de-semana para cham-la  razo e a distrair.
        - Tambm sinto a falta dela  - disse Alan tristemente.
        - Como vai o filme? - perguntou Allegra, interessada.
        - timo. Deixam-me fazer uma grande parte do trabalho do meu duplo.
        - No diga isso  tua mulher, seno ela mete-se no prximo avio!
        Riram ambos. Alan assegurou que a voltaria a ver da a dois meses, mas Allegra sabia que falaria com ele muito antes. Assim que desligaram, Jeff entrou no 
gabinete.
        - Est pronta para sair? -  perguntou, apressado. Allegra estava pronta. E dessa vez nada a impediria.
        - Prontssima.
        Jeff deu uma olhadela no jornal que estava em cima da secretria e reparou no ttulo.
        - Muito bonito... - resmungou, abanando a cabea; no havia nada que fizesse vergar aquela gente dos jornais. Haviam entrevistado duas enfermeiras, que talvez 
tivessem recebido uma boa quantia para vender os segredos de Carmen e destorc-los. Eles j viram isto?
        - Acabei de falar ao telefone com os dois. Querem processar o jornal, mas aconselhei-os a no o fazerem. Isso s contribui para aumentar as tiragens.
        - Coitados! Detestava viver assim!
        - Existem outras compensaes  - observou Allegra, pensativa, mas perguntou a si prpria se elas seriam suficientes; era um preo muito alto a pagar pela 
fama.
        Deixaram os dois carros na garagem do escritrio e apanharam um txi para o aeroporto. Jeff nem podia acreditar que no tivesse acontecido nada que os retivesse 
dessa vez. Nenhum deles tivera uma emergncia, um problema, uma reunio. No haviam sido obrigados a cancelar a viagem outra vez; a me no ficaria furiosa com ele.
        Conseguiram chegar ao aeroporto na hora e instalaram-se nos seus lugares sem problemas. Era espantoso!
        Jeff olhou para Allegra com um sorriso quando o avio se elevou no ar
        - No posso acreditar! E voc? Tinham resolvido ir na primeira classe e recostaram-se nos bancos com um ar vitorioso, de mos dadas. Pediram champanhe com 
sumo de laranja. 
        - Conseguimos! - exclamou Jeff, beijando-a. A minha me vai ficar to contente!
        Allegra sentia-se feliz s de estar com ele, de irem para fora juntos. Ainda no haviam resolvido onde passariam a lua-de-mel. Tinham trs semanas de licena 
e falavam na Europa. Itlia era linda no Outono, sobretudo Veneza. E depois Paris, e talvez Londres, para visitarem uns amigos. Jeff tambm gostava da idia de irem 
para uma praia, talvez nas Bahamas ou em Bora Bora, como Carmen e Alan, mas Allegra no queria viajar para to longe. Foi uma conversa animada, que durou quase uma 
hora, e s o fato de pensarem nisso era um verdadeiro luxo. Em seguida falaram do casamento. Jeff estava pensando em Alan para seu padrinho, e no irmo de Allegra, 
em Tony Jacobson e no diretor do seu filme para testemunhas. Allegra tinha o mesmo problema. Queria que Sam e Carmen fossem suas damas de honra, mas sentia que no 
devia esquecer outras amigas. Sempre pensara em convidar a sua colega de quarto em Yale, Nancy Towers, se ela tivesse chegado a casar, mas no a via h cinco anos 
e Nancy vivia em Londres.
        - Talvez ela viesse. Pergunta-lhe, pelo menos  - disse Jeff.
        E havia outra velha amiga, dos tempos da escola, Jessica Farrisworth, que fora viver no Leste h uns anos. Nunca mais se tinham visto, mas em crianas eram 
como irms. Allegra resolveu entrar em contato com ambas depois de falar com Jeff. Iam convidar os Weissman, evidentemente, e outras pessoas de quem gostavam e com 
quem trabalhavam. Allegra sugeriu a Jeff que convidasse alguns dos seus amigos do Leste, mas ele duvidava que viessem: eram pobres ou trabalhavam muito, mas, de 
qualquer modo, no deixaria de faz-lo.
        No atravessaram zonas de turbulncia, e pouco depois comearam ambos a ler. Jeff continuava a tomar apontamentos acerca do guio e Allegra trouxera vrios 
documentos numa pasta, assim como um novo romance, que teve a aprovao do namorado, mas, antes de chegar ao fim da primeira pgina, estava quase a dormir, com a 
cabea encostada ao ombro de Jeff, que olhou para ela com ternura e a cobriu com uma manta.
        - Te amo  - segredou, beijando-a.
        - Eu tambm-  respondeu ela.
        Em seguida adormeceu e s voltou a acordar quando o avio aterrissou. Jeff teve de sacudi-la; dormia to profundamente que a princpio nem sabia onde se 
encontrava. Estava exausta, depois da noite em claro para tirar Malachi da priso e de ter ido a correr para o escritrio.
        - Trabalha de mais  - disse Jeff quando desembarcaram e se dirigiam para a esteira rolante das bagagens.
        - Alugara uma limusine para i-los buscar ao aeroporto e os levar a Southampton. Queria que a viagem fosse o mais agradvel possvel para Allegra, porque 
seria uma das primeiras recordaes felizes que conservariam do seu casamento. Havia champanhe e um balde de gelo na limusine, um daqueles absurdos modelos compridos, 
que nunca mais acabavam.
        - No sabia que havia disto no Leste  - observou Allegra, rindo. Julguei que as nicas pessoas que alugavam estes carros eram as estrelas de rock.
        Apesar dos seus hbitos discretos, Bram Morrison adorava limusines, quanto mais compridas melhor, e Allegra arreliava-o sempre por causa disso. Chegara a 
ter uma com uma cama de casal. Fora um espetculo!
        - Os traficantes de droga  que costumam alug-las aqui  - explicou Jeff com um sorriso
        Lembrou que se tinham conhecido no Leste h cinco meses, que estavam agora de volta e que se casariam dentro de pouco tempo. Faltavam apenas dois meses e 
meio. Era inacreditvel!
        A viagem entre o aeroporto e Southampton durou duas horas. Estava uma noite quente de Junho, mas o carro tinha ar condicionado e o ambiente era agradvel. 
Jeff tirou o casaco e a gravata e arregaou as mangas da camisa azul, impecavelmente engomada. Tinha sempre um aspecto imaculado e aprumado, mesmo depois de uma 
viagem de avio, exceto quando usava as suas famosas camisetas e  jeans em Malibu, mas, mesmo assim, mantinha um ar propositadamente informal, e Allegra gracejava 
porque os jeans estavam sempre muito bem engomados. Era uma das suas poucas obsesses
        - Em comparao cm voc, estou com um aspecto desalinhado. Allegra penteou-se e atou o cabelo atrs, com nervosismo. O traje azul-marinho amarrotara-se bastante 
no avio, sobretudo quando adormecera no ombro de Jeff. Devia ter despido a saia comentou com um sorriso.
        - Teria sido um sucesso... - gracejou ele. Serviu-lhe uma taa de champanhe e beijou-a.
        - J sei... Vou embebedar-me antes de conhecer a tua me, para lhe causar uma boa impresso.
        - No se preocupe, ela vai te adorar  - assegurou, com ar confiante, olhando com enlevo para a noiva, que fez cintilar o anel na sua direo.
        Beijaram-se longamente e com ardor, at que o carro virou  direita para sair da auto-estrada.
        Seguiu-se mais meia hora de caminho, e era quase meia-noite quando descreveram a ltima curva da estrada. Allegra avistou uma casa antiga e imponente, com 
um alpendre a toda a volta. Mesmo no escuro, viu os mveis de vime dispostos em pequenos grupos e as rvores magnficas, que davam sombra  casa durante o dia. Havia 
uma cerca branca  volta da propriedade. O motorista levou-os at  porta e ajudou-os a transportar as malas. Devido ao adiantado da hora, tentaram no fazer barulho; 
Jeff desconfiava que a me no esperara por eles e se fora deitar. Com a diferena horria, era impossvel terem chegado mais cedo, visto que ainda haviam aproveitado 
meio dia de trabalho.
        Jeff sabia onde a chave estava escondida. Pagou ao motorista e deu-lhe uma boa gorjeta; em seguida entraram os dois em casa com todo o cuidado. Havia um 
bilhete na sala da frente, em cima de uma bela mesa inglesa antiga. A me saudava-os, dizia a Jeff que ficasse no seu quarto e pedia a Allegra que ocupasse o grande 
quarto de hspedes virado para o mar. A mensagem era clara, e Jeff sorriu, como se pedisse desculpa a Allegra.
        - Espero que no te importe  - disse, em voz baixa. A minha me  muito conservadora. Podemos deixar aqui as nossas malas e voc vai dormir comigo, ou ento 
durmo eu contigo, desde que voltemos para os nossos quartos de manh.
        - Allegra estava divertida com o decoro, mas disposta a seguir as instrues.
        - Exatamente como na universidade  - retorquiu, sorrindo.
        Jeff fingiu-se escandalizado.
        - Era assim que fazias na universidade? No sabia! Levou as malas dela para cima e Allegra subiu as escadas atrs dele, em bicos de ps. Era divertido estar 
em casa de Jeff, a cochichar e a tentar encontrar os quartos; parecia uma aventura. Allegra riu-se quando passaram pelo quarto da me. Era uma diviso enorme e arejada, 
decorada com chintz azul e branco, uma cama de colunas e reposteiros pesados, mas no puderam v-la, porque a porta estava bem fechada. Ficou admirada por a me 
de Jeff no ter esperado por eles, vindos de to longe para v-la. Era apenas meia-noite, e Blaire decerto no teria feito o mesmo, embora Sr.  Hamilton  fosse 
muito mais velha. Tinha setenta e um anos e, segundo o filho, deitava-se sempre cedo.
        Jeff conduziu-a ao quarto de hspedes a que a me se referira. Dava para o Atlntico e Allegra via as ondas a espraiarem-se na areia. Em cima de uma mesa, 
ao p da cama, estava um jarro de gua gelada e um prato com biscoitos de manteiga. Jeff ofereceu-lhe um e ela aceitou. Ficou admirada ao ver como era delicioso 
e se derretia na boca.
        -  a tua me que os faz? - perguntou, impressionada. Jeff riu e abanou a cabea.
        -  a cozinheira.
        O quarto em que se encontravam estava forrado de um tecido cor-de-rosa com motivos florais e as cortinas da janela eram de renda. Ao lado de uma grande cama 
de ferro forjado branco viam-se tapetes de l cardada. Era um ambiente muito caracterstico de New England.
        - Onde  o teu quarto  - perguntou Allegra em voz baixa, comendo mais um biscoito. Estava esfomeada.
        - No fundo do corredor  - respondeu ele, tambm em surdina, para a me no ouvir
        A Sr. Hamilton tinha o sono leve e Jeff lembrou-se dos Veres da sua juventude, quando introduzia amigos em casa s escondidas, de noite, e roubavam uma 
ou duas cervejas. O pai mostrava-se sempre indulgente para com eles, mas a me admoestava-o na manh seguinte.
        Foi mostrar o seu quarto a Allegra. Sobre uma cama estreita com uma bela cabeceira antiga via-se uma colcha verde-escura, a condizer com os cortinados. Em 
cima das cmodas e da secretria havia essencialmente fotografias do pai e nas paredes vrios quadros com motivos martimos, que o pai colecionara ao longo dos anos. 
Era um quarto totalmente masculino, e, de certo modo, lembrava a casa de Malibu, na medida em que tinha um toque de New England e do mar, mas era muito mais austero. 
E, apesar dos belos tecidos e dos mveis antigos, havia ali certa frieza, tal como nas fotografias da me de Jeff, no apartamento de Nova Iorque.
        Jeff voltou para o quarto de Allegra depois de ter deixado as malas no seu, fechou a porta devagarinho e levou um dedo aos lbios: fechara a porta do seu 
quarto antes de sair e no queria que a me os ouvisse a conversar naquele extremo da casa. Allegra compreendeu. Andaram em bicos de ps e no levantaram a voz. 
Ao chegar  janela, Allegra desejou poder ir para a praia. Estava to bonita ao luar!
        - Adoro nadar aqui  noite. Talvez amanh... - segredou ele, num tom quase inaudvel. No queria que a me os ouvisse nessa noite, e, de qualquer modo, estavam 
os dois muito cansados.
        Sentou-se na cama com Allegra e beijaram-se. Depois ela foi lavar o rosto e os dentes e vestiu a camisola. Trouxera uma camisola vaporosa e um robe clssico, 
no fosse a me de Jeff v-la. No sabia ao certo o que havia de usar. Escolhera umas calas brancas e uma blusa de seda de cores vivas para sbado, um vestido de 
linho preto para a noite e um branco, para o caso de acontecer alguma coisa ao outro, um traje de banho, cales e camisetas e um conjunto de casaco e calas de 
riscas para a viagem de regresso que lembrava um pouco os uniformes dos colgios do Leste. Tudo parecia estar devidamente acautelado. Allegra no sabia como era 
a me dele. Sempre imaginara que as outras mes eram iguais  sua, mas no aquela. As fotografias que vira falavam por si e, embora no tivesse dito nada a Jeff, 
Sr. Hamilton assustava-a.
        Jeff enfiou-se na cama com ela. Os lenis estavam um pouco midos, como sempre acontece em qualquer casa de praia, mas eram da melhor qualidade e tinham 
flores bordadas. Jeff sentia-se feliz por estar ali com ela. Tinha medo de fazer amor no silncio da casa, com receio de que a me os ouvisse, por isso abraou-a 
e adormeceram, envolvidos pela atmosfera balsmica do mar. Dormiram como duas crianas. O nico problema  que s acordaram de manh. Jeff esperava despertar com 
o nascer do sol, mas o seu relgio biolgico devia estar regulado pela hora da Califrnia, porque acordou s nove e meia, e Allegra ainda estava a dormir. O pior 
 que Jeff no podia voltar para o seu quarto sem se arriscar a cruzar-se com a me.
        Espreitou para o corredor antes de sair e depois, como uma criana travessa, desatou a correr e desapareceu no interior do seu quarto, mas teve a sensao 
de que toda a casa sabia que ele vinha a fugir do quarto de hspedes. E, como que para provar, a me apareceu  porta do quarto pouco depois. Jeff tinha acabado 
de vestir o roupo e preparava-se para abrir a mala.
        - Dormiu bem, querido? - perguntou ela.
        Jeff virou-se, sobressaltado, e viu a me com um vestido azul de flores e um chapu de sol. Para uma mulher da sua idade, estava muito elegante. Fora bela, 
mas no durante muito tempo, e no havia ternura no seu olhar, exceto quando via o filho; mantinha sempre a distncia.
        - Ol, me  - disse ele, aproximando-se para a abraar. Tinha a afabilidade e o trato fcil do pai. Sempre fora parecido com ele. A me era muito mais ianque. 
Desculpe termos chegado to tarde ontem  noite. Com a diferena horria,  difcil fazer melhor, e fomos ambos trabalhar de manh.
        - No h problema, eu no vos ouvi entrar. Sorriu e depois olhou para a cama do filho, que estava como na vspera. Jeff esquecera-se de abri-la e de amachucar 
os lenis, e ela reparou. Obrigada por ter feito a cama, querido.  um dono de casa perfeito.
        - Obrigado, me agradeceu delicadamente, sabendo muito bem que fora apanhado em falta.
        - Onde est a tua noiva?
        Jeff ia a responder que ela ficara a dormir quando a deixara, mas calou-se. De certo modo, voltar quela casa era difcil; h muito tempo que no se encontrava 
com a me e s vezes esquecia-se da sua inflexibilidade. Estava mais habituado quando era mais novo.
        - No sei, ainda no a vi  - respondeu, num tom afetado. Quer que eu v acord-la?
        Eram dez horas e sabia que a me no gostava que os convidados passassem a manh na cama.
        Foi bater  porta do quarto cor-de-rosa sob o olhar atento da me. Pouco depois Allegra apareceu, com o robe por cima da camisola de renda. Vinha descala, 
mas penteara-se; estava to jovem e bonita. Dirigiu-se imediatamente a Sr. Hamilton, apertou-lhe a mo e sorriu a Jeff.
        - Como est? Sou Allegra Steinberg
        Durante algum tempo, a me de Jeff no disse nada. Depois correspondeu com um gesto de cabea. Era notrio que inspecionava a futura nora. Allegra sentiu-se 
muito acanhada, mas encheu-se de coragem e continuou a sorrir.
        - Ainda bem que pde vir desta vez  - disse Sr. Hamilton com frieza.
        No houve um abrao, um beijo, um desejo de felicidades nem qualquer referncia ao casamento.
        - Ficamos desolados por cancelar a nossa vinda da ltima vez afirmou Allegra, sem rodeios. Tambm conhecia aquele jogo, se fosse obrigada a isso. No pudemos 
evitar.
        - Jeff disse-me. Bem, hoje est calor  - acrescentou, olhando l para fora, para o mar. Estava um dia claro, luminoso e muito quente, mesmo quela hora da 
manh. Talvez queiram ir jogar tnis para o clube antes que o tempo aquea mais.
        Mas Jeff no estava interessado.
        - Podemos jogar na Califrnia. Viemos c para estar com voc. Precisa que lhe faamos algum recado esta manh?
        - No, obrigada  - respondeu Sr. Hamilton secamente. O almoo  ao meio-dia. Calculo que no queira tomar um grande caf da manh a esta hora... Srt. Allegra, 
mas h caf e ch na cozinha, quando estiver vestida.
        Por outras palavras, no ande pela minha casa de camisola... A mensagem era clara, embora no verbalizada. No fique a manh inteira na cama. No durma com 
o meu filho debaixo do meu teto. No seja to familiar. No se aproxime mais.
        - s vezes, a minha me  um pouco fria, a princpio  - tentou explicar-lhe Jeff quando desceram juntos, meia hora mais tarde. Allegra vestira uns cales 
cor-de-rosa e uma camiseta a condizer e calara tnis. No sei se ela  tmida ou apenas distante. Leva bastante tempo a conhecer as pessoas.
        - Compreendo. Allegra olhou para ele, enlevada, e sorriu. Voc  o seu nico filho. No deve ser fcil para ela 'perder-te' e ver-te casado.
        - Acho  que vai ficar aliviada! - disse ele, soltando uma gargalhada. Costumava arreliar-me por causa disso, mas desistiu h muito tempo.
        Allegra teve vontade de lhe perguntar se ela tambm desistira  de rir ou mesmo de sorrir; parecia que no o fazia desde os tempos da Inquisio espanhola.
        Quando desceram, a Sr. Hamilton encontrava-se na cozinha  dando instrues  velha cozinheira irlandesa. Lizzie trabalhava para os Hamilton h quarenta 
anos e fazia tudo exatamente como ela queria, conforme explicava a todas as pessoas que a ouvia. Sobretudo as ementas.
        Estavam falando do almoo nesse preciso momento. A  Sr. Hamilton dissera-lhe para fazer uma salada de camaro e um aspic de tomate. Havia po quente e farfias 
para a sobremesa. Para Allegra, era uma refeio muito caracterstica do Leste.        
        - Comemos l fora explicou Sr. Hamilton.
        - No se incomode, me. No precisa de fazer cerimnia conosco: no somos visitas, somos da famlia.
        A me deu-lhe um olhar surpreso e glido, como se no fizesse idia do que ele estava dizendo.
        Depois do caf e dos pezinhos, Allegra e Jeff foram dar um passeio pela propriedade e em seguida desceram  praia. Allegra fez um esforo para se libertar 
da tenso que sentia. Sr.  Hamilton parecia criar um ambiente de mal-estar  sua volta, e aparentemente Jeff no dava por isso, como se considerasse que o seu rigor 
espartano e frio era normal. Talvez o fato de ter sido criado assim o tornasse mais tolerante, mas no percebia como  que ele podia ser to carinhoso e afvel com 
uma me que parecia um icebergue.
        Quando voltaram para casa, Sr. Hamilton estava  espera deles no alpendre, onde se encontravam dois jarros com ch gelado e limonada. No havia vinho nem 
sinais de bebidas alcolicas, embora Allegra no lhes sentisse a falta. Sentou-se numa das velhas cadeiras de vime e conversou com a futura sogra acerca da casa. 
Pertencera  tia do marido, que a herdara quando ela morrera, h trinta e nove anos, antes do nascimento de Jeff. Ele sempre fora para ali, explicou, e um dia a 
casa seria dele, acrescentou, com um ar pensativo e uma expresso dura.
        - Tenho a certeza de que a vender  - declarou Sr. Hamilton.
        - Porque diz uma coisa dessas?
        Jeff ficara magoado por ela o considerar to pouco sentimental.
        - No te imagino vivendo outra vez no Leste, sobretudo agora, que vais casar com uma pessoa da Califrnia.
        - Era uma acusao, que no foi acompanhada de votos de felicidade.
        - No fao idia onde iremos viver  - respondeu Jeff com diplomacia, sem querer ferir os sentimentos da me.
        Para Allegra a situao comeava a tornar-se impossvel, era como se estivesse dentro de uma camisa-de-fora. Nunca conhecera ningum assim. Sr. Hamilton 
era completamente diferente dos pais.
        - Acabo o filme em Setembro, antes do casamento, e vou comear outro. Quem sabe onde iremos parar?
        Jeff sorriu vagamente e Allegra ficou a olhar para ele. O que estava a dizer? Ela exercia advocacia na Califrnia, e o seu ramo no tinha aplicao noutro 
lado exceto em Hollywood, e ele bem sabia. De qualquer modo, a me no se mostrou impressionada com as suas palavras. Pouco depois foram chamados para almoar. Foi 
uma refeio formal e estranha, servida por Lizzie, durante a qual Jeff e Allegra se esforaram por arranjar motivos de conversa.
        Depois, quando voltaram  praia, Allegra perguntou a Jeff o que quisera ele dizer quando afirmara que no sabia onde iriam viver.
        O que eu fao no  propriamente transportvel, como sabes, tenho uma profisso muito especfica.
        Jeff aborrecera-a com o que dissera e tinha conscincia disso, mas tentara mostrar-se condescendente para com a me.
        - Eu no queria que a minha me sentisse que o nico filho a abandonara para sempre. Alm disso, tu podias exercer em Nova Iorque, se quisesses. H a Broadway 
e certas personalidades da msica e tambm da televiso.
        - Pois, as dos noticirios... Jeff, s realista: o que eu fao s existe em Los Angeles. Eu sou advogada de artistas!
        - Compreendo, mas podia alargar os seus horizontes, se quiser.
        Jeff estava sendo obstinado e Allegra entrou em pnico.
        - Isso no seria alargar, mas sim estreitar respondeu, pouco  vontade. Eu perderia mais de metade dos meus clientes.
        - E todos aqueles telefonemas de madrugada... As pessoas de Nova Iorque no fazem coisas dessas, so mais profissionais - insistiu ele.
        De sbito, Allegra apercebeu-se de que Jeff parecia outra pessoa em Southampton.
        - No sei se compreendo o que est me dizer, mas quero que saiba que adoro o meu trabalho e que no tenciono desistir dele e mudar-me para Nova Iorque. Isso 
nunca fez parte do nosso acordo. Que conversa  essa agora?
        Fez-se um longo silncio e Jeff olhou para ela cautelosamente.
        - Eu sei que adora o teu trabalho e que  muito eficiente, mas eu sou do Leste, e seria agradvel saber que um dia poderamos voltar para aqui, se conclussemos 
que era esse o nosso desejo.
        -  isso que voc quer? - perguntou Allegra. Jeff nunca lhe falara com tanta clareza. Julguei que estava tentando adaptar-te a Los Angeles e que tinha compreendido 
que, quando casasse comigo, viveramos l. Essa soluo j no te serve? Porque, se  esse o caso, talvez seja melhor falarmos do assunto agora, antes de um de ns 
cometer um erro terrvel.
        Allegra estava em pnico com o que ouvira. O fim-de-semana ameaava tornar-se muito desagradvel.
        - Eu compreendo, sei que tens razes em Los Angeles, Allegra  - disse ele devagar.
        Furiosa, Allegra retrucou:
        - Deixa de ser condescendente comigo, raios! Eu no sou uma criana, eu compreendo, mas no vou mudar-me para Nova Iorque, e, se a surpresa  assim to grande, 
 melhor reconsiderarmos o que estamos fazendo. Talvez seja prefervel vivermos juntos por uns tempos, at voc perceber o que sente pela Califrnia.
        - Eu gosto muito da Califrnia  - respondeu Jeff, tenso. No compreendia o que lhe passara pela cabea. Tambm para si o fim-de-semana no estava sendo fcil. 
Sabia como a me era inflexvel e como fora pouco acolhedora. Ouve, no est em causa desistires da tua carreira. Estamos falando de hipteses, e eu no queria que 
ela pensasse que eu ia vender a casa assim que ela fechasse os olhos, Deus me livre! A casa  muito importante para a minha me e, quem sabe? Talvez pudssemos trazer 
os nossos filhos para aqui no Vero. Isso agradar-me-ia.
        Jeff olhou para ela com ar pesaroso e Allegra acalmou-se e encolheu as garras.
        - Eu tambm gostaria, mas julguei que estava tentando dizer-me que esperava que me mudasse para o Leste assim que nos casssemos.
        - No! Vamos esperar um ou dois meses, est bem? Talvez em Novembro... -  Jeff riu-se. Desculpe, querida, no queria te ameaar. Sei que trabalha muito e 
que  extremamente eficiente. Pouco falta para chegares a scia, a menos que forme a tua prpria empresa, mas... Como hei-de explicar?... As pessoas do Leste so 
lentas para desistir. Eu nunca me convenci de que partiria para sempre, disse apenas a mim prprio, e a todas as pessoas, que ia para a Califrnia escrever um argumento, 
e talvez outro... E a seguir um livro... E um dia acabo por reparar que se passaram vinte anos e ainda continuo l. Mas isso acontece a pouco e pouco; no consigo 
jogar fora a minha costela do Leste em cinco minutos.
        - Nunca h-de conseguir. Allegra beijou-o quando atravessavam as dunas atrs da casa. Agradava-lhe a idia de possu-la para os seus filhos, um dia, sobretudo 
sem a presena da me de Jeff. Continua a parecer um colegial gracejou.
        - O que deveria eu parecer?
        - Apenas o que .
        Beijou-o outra vez e reparou no olhar de censura que a me de Jeff lhe deu do alpendre. Parecia muito inflexvel, o que no era agradvel. A sua presena 
gerava tenso em ambos, em Jeff, supostamente porque tinha de arcar com a responsabilidade por todos, e em Allegra, porque se sentia obrigada a conquistar a aprovao 
de Sr.  Hamilton.
        - Cuidado com as queimaduras avisou-a Sr. Hamilton, que tinha uma pele sensvel, quando se serviam de limonada no alpendre.
        - Obrigada. Eu uso um protetor solar  - respondeu Allegra com delicadeza.
        A Sr. Hamilton observou a noiva do filho quando esta se sentou num confortvel balano a bebericar o refresco.
        - Parece que toda a sua famlia est ligada ao mundo do espetculo... Allegra  - disse a Sr. Hamilton, como se no conseguisse acreditar.
        - Exceto o meu irmo  - respondeu a jovem, com um sorriso prazenteiro. Est a estudar Medicina em Stanford.
        Esta foi a primeira coisa que fez sorrir genuinamente a me de Jeff desde que haviam chegado.
        - O meu pai era mdico. Por sinal, quase toda a famlia, exceto a minha me, evidentemente. Eram todos mdicos.
        - O Scott quer ser cirurgio ortopdico. Ns, os restantes, fomos apanhados pelo 'mundo do espetculo', como a senhora disse. A minha me escreve, dirige 
e produz, tem muito talento. O meu pai  produtor de cinema e eu dou apoio jurdico a artistas.
        - O que significa exatamente isso?
        A Sr.  Hamilton fitou Allegra como se ela viesse de outro planeta e fosse humana apenas na aparncia.
        - Significa que distribuo muitos cumprimentos e que recebo uma srie de telefonemas s quatro da manh
        Sr. Hamilton ficou escandalizada com as palavras de Allegra e preparou a pergunta seguinte:
        - So todos assim to mal-educados no mundo do espetculo?
        - S quando so presos  - respondeu Allegra com naturalidade, gozando o efeito do que acabara de dizer. A Sr. Hamilton merecia. Merecia muito mais! Allegra 
resolvera dar-lhe uma boa sacudida. Era a pessoa menos hospitaleira, menos agradvel e menos terna que conhecia. E agora tinha pena de Jeff: era bvio que s herdara 
os genes do pai, e nenhum da me.
        - Muitos dos seus clientes so presos? - perguntou Sr. Hamilton de olhos esbugalhados.
        At Jeff estava divertido, mas Allegra j no.
        - Alguns.  por isso que precisam de mim. Eu pago-lhes as fianas, escrevo-lhes os testamentos, redijo-lhes os contratos, reorganizo as suas vidas e ajudo-os 
a resolver os problemas.  muito interessante e eu gosto muito.
        - A maioria dos clientes dela so grandes estrelas de cinema, me. Havia de ficar impressionada se os conhecesse!
        Mas Jeff no se ofereceu para enumer-los; isso adensava o mistrio.
        - No duvido que seja um trabalho muito interessante. E tambm tem uma irm?
        Allegra respondeu com um aceno de cabea, pensando na pobre Sam, barriguda, e no beb de que seria obrigada a desistir em Agosto.
        - Tenho, com dezessete anos. Ainda anda no colgio -  respondeu, e no 'faz passagens de modelos de vez em quando e est grvida'. Pouco faltou para dar 
uma gargalhada. Vai para a universidade no Outono, estudar Teatro.
        - Mas que famlia estranha...
        Seguiu-se um breve silncio, quando o balano chiou, e a pergunta seguinte quase fez Allegra desistir da conversa; nunca esperara que ela fosse to descarada!
        - Diga-me, Allegra,  judia?
        Jeff ia caindo da cadeira ao ouvir a resposta de Allegra.
        - Por acaso, no replicou friamente. Sou episcopaliana. Mas o meu pai , e eu percebo muito de judasmo. Queria saber alguma coisa acerca da religio judaica? 
- rematou, com delicadeza.
        No entanto, a Sr. Hamilton no lhe deu troco; era uma velha sabida e no se importava que Allegra no gostasse dela. Jeff estava horrorizado.
        - Tambm no pensei que fosse. No tem aspecto -  disso retorquiu com desenvoltura.
        - Nem a senhora. Mas ? - continuou Allegra, imperturbvel.
        Jeff ia-se engasgando e foi obrigado a virar-se para o lado, para que a me no o visse rir-se. Sr. Hamilton estava completamente escandalizada; nunca lhe 
haviam perguntado tal coisa.
        - Claro que no. 'Hamilton'? Voc est doida?
        - De modo algum. Porque no? Allegra parecia muito  vontade, e a me de Jeff continuava a no perceber; mas Jeff percebia, e estava mortificado.
        - Ento depreendo que a sua me no  judia insistiu, aliviada pelo fato de os futuros netos no serem conspurcados. Mesmo assim, Allegra devia ser metade 
judia, por causa do pai.
        - No, e o pai dela tambm no   - interveio Jeff, decidido a libertar a me daquela agonia e a poupar-se a si mesmo e a Allegra aos seus comentrios venenosos. 
Era como se estivesse traindo Allegra, mas era obrigado a isso, para seu prprio bem. O pai de Allegra  mdico em Boston e chama-se Charles Stanton.
        - Ento porque no usa o sobrenome dele? - perguntou Sr. Hamilton, olhando para Allegra com ar de censura.
        - Porque o detesto e no o vejo h anos  - respondeu Allegra serenamente. Quatro anos de psicoterapia tinham surtido algum efeito. Aquela era a conversa 
mais desagradvel em que participara, e pouco faltava para dizer isso mesmo. Francamente, depois do que vi na minha famlia ao longo de todos estes anos, gostaria 
de criar os meus filhos na religio judaica. O meu irmo e a minha irm so judeus, e eu acho que  uma coisa formidvel para toda a gente.
        Jeff admitiu ter de reanimar a me e deu um olhar cido a Allegra, que o retribuiu imediatamente: ele trara-a s para cal-la! No fundo, os seus olhos diziam 
'est bem, est bem, desculpa, sabe que no foi por mal'. Mas havia de pag-las... A me dele no s era afetada e desagradvel, com gua gelada nas veias, mas tambm 
anti-semita. Como  que Jeff sara to humano?
        - Calculo que esteja brincando  - retorquiu Sr.  Hamilton com frieza, mudando de assunto.
        Pouco depois, Allegra e Jeff foram vestir-se para o almoo. Cada um dirigiu-se para o seu quarto, mas, assim que mudou de roupa, Jeff saiu do seu sem ser 
visto e foi ter com Allegra.
        - Antes de me atirares uma cadeira  cabea, quero pedir desculpa. Eu sei que te tra, mas foi s para te calar; esqueo-me sempre como ela  limitada em 
coisas deste gnero. A minha me pertence a um clube no qual no deixam entrar judeus h dois sculos. Para ela, isso  importante.
        - Tambm era importante para Hitler e para os amigos dele.
        - Este caso  diferente;  mesquinho, estpido e 'social'. A minha me considera que  aristocrtica odiando todas as pessoas que no so como ela, mas isso 
no quer dizer nada, e voc sabe que eu no penso dessa maneira. No me interessa que eduque os nossos filhos no judasmo ou no budismo. Amo-te, seja qual for o 
teu nome. Ser Hamilton dentro de muito pouco tempo, portanto, porque nos havemos de preocupar?
        A me fazia-o sentir-se muito embaraado e Allegra apercebia-se disso. Na realidade tinha pena dele e no estava to zangada como devia, por causa de Simon. 
A situao era essencialmente ridcula.
        - Como  que tens suportado isto, Jeff? Ela no  aberta, nem meiga, nem de trato fcil.
        - Mas era, ou pelo menos era um pouco mais... -  disse ele, tentando defend-la. Fechou-se em si mesma quando o meu pai morreu... Ficou destroada sem ele.
        No entanto, Allegra no conseguia imagin-la mais simptica do que era agora. Era uma vbora!
        - No te sentia s com ela?
        - s vezes, mas ns habituamo-nos. A famlia dela era toda assim. J morreram...
        - E o que faziam quando se reuniam? Cubos de gelo?
        - Ela no  to m como isso  - disse Jeff, puxando para cima o fecho do vestido preto de Allegra.
        Nesse momento, a me bateu  porta, e ele percebeu que no devia estar ali. Esgueirou-se para o banheiro, depois de lhe fazer sinal para que no o denunciasse. 
Allegra foi abrir a porta a Sr. Hamilton, que viera avis-la que o jantar estava na mesa e que, talvez para atenuar o efeito dos seus comentrios anteriores, lhe 
disse que ela estava muito bonita. A verdade  que passara a gostar muito mais de Allegra depois de saber que o seu verdadeiro sobrenome no era Steinberg.
        Allegra desceu as escadas atrs dela e Jeff apareceu, vindo no se sabia de onde. Como que por milagre, sobreviveram ao jantar, sobretudo porque se concentraram 
em temas seguros, como as viagens  Europa, arte e pera. Foi a conversa mais enfadonha que Allegra se lembrava de ter mantido e, felizmente, a Sr. Hamilton foi 
para a cama depois do jantar. Nessa noite, Jeff e Allegra desceram at  praia e tomaram banho. Depois se estenderam na areia e ele abraou-a.
        - No se divertiu muito aqui, pois no?
        Allegra deitou-se de costas e suspirou, ao luar. Jeff queria realmente que ela fosse sincera ou no. Levou algum tempo a decidir o que havia de responder.
        - Foi diferente. Foi a resposta mais diplomtica que encontrou.
        - Muito diferente da tua famlia  - reconheceu. Sentia-se culpado por t-la trazido, mas tinha de apresent-la  me. A tua famlia  muito terna, afvel 
e extrovertida. Esto sempre todos a rir, a conversar ou a contar uma histria engraada. Gostei deles assim que os vi!
        Jeff sentia-se envergonhado por causa da me; at ele tinha de admitir que Sr.  Hamilton fora terrvel para Allegra. Ao olhar para Jeff, ao ver como se 
sentia mal, Allegra tentou desdramatizar a situao.
        - Ela faz-me lembrar muito o meu pai. No  que ele seja como a tua me, mas tem a mesma falta de capacidade de sentir, de exprimir ou de dar que  tpica 
da classe alta do Leste. Reprovam tudo. O meu pai nunca gostou de nada em mim, e isso me matou. Agora no me importo... E a tua me tambm  assim; eu teria de lutar, 
suplicar e rastejar para conseguir a aprovao dela, se a quisesse, e talvez nunca a conseguisse. Estas pessoas divertem-se a impor restries,  uma arte especial. 
E ela tem-na, tal como o meu pai.
        - Tambm era severa comigo, mas nada como foi para ti este fim-de-semana. Nunca a vi assim! -  confessou, desolado.
        - Eu sou uma grande ameaa. Te roubei Nova Iorque e agora a ela. A sua me no deve ter muito mais com que se entreter. Era compreensvel, mas nem por isso 
Allegra gostava mais dela. Talvez melhore... - acrescentou, mais para animar Jeff do que por convico
        Nessa noite dormiram outra vez os dois no quarto cor-de-rosa, mas dessa vez Jeff ps o despertador para as sete e meia. Assim que acordou, voltou para o 
seu quarto, tomou uma ducha, vestiu-se e fez a mala. Em seguida foi acordar Allegra. J bastava! J tinham feito o que os trouxera ali e marcara o regresso para 
um dos primeiros vos do dia. Depois de descer com Allegra para tomar o caf da manh, avisou as duas mulheres de que se iam embora no avio da uma, o que os obrigava 
a partir de Southampton s dez da manh. Explicou-lhes que telefonara ao diretor e que havia problemas com o filme, por isso precisava regressar cedo.
        - O que se passa? - perguntou Allegra, preocupada com ele. Dormira como um beb e sentia-se de novo forte e capaz de suportar as ofensas de a Sr. Hamilton.
        Quando saiu do quarto, Jeff explicou-lhe em voz baixa que j ali estavam h muito tempo e que j haviam cumprido o seu dever. Ele prprio no suportava aquele 
ambiente nem mais um minuto.
        - Tem certeza? -  perguntou em surdina, inclinando-se sobre os bolinhos de canela.
        Jeff fez um sinal afirmativo. Allegra no queria afast-lo da me, mas ele ainda estava mais ansioso por se ir embora.
         sada, recordou  me a data do casamento e disse-lhe que esperavam v-la nessa altura. Abraou-a com fora, embora no fosse correspondido na mesma medida, 
e deu uma pequena gratificao a Lizzie. Allegra mal pde conter o riso quando viu o carro que ele mandara chamar: alugara a limusine mais comprida da agncia! Era 
branca e tinha um bar, televiso e sabe Deus mais o qu l dentro. A Sr. Hamilton preferia morrer a ter aquilo  entrada da sua casa, mas Jeff parecia muito satisfeito.
        - So comuns na Califrnia, me. Vamos arranjar-lhe uma para o casamento  - disse, muito srio, dando-lhe um beijo de despedida.
        Entregou as malas ao motorista e partiram com um ltimo adeus. A Sr. Hamilton parecia uma figura trgica na rampa da sua casa. Era a mais s das mulheres, 
mas tambm a mais mesquinha, e, na opinio de Allegra, no valia o trabalho que dera.
        Jeff tinha uma vida passada com ela, mas Allegra sabia que isso nunca aconteceria consigo. E tambm sabia que, depois daquele fim-de-semana, Jeff nunca mais 
a convenceria a ir l. Haviam feito tudo o que podiam, tinham cumprido a sua obrigao, mas era intil.
        - Estava pensando se no seria melhor usarmos solidus no casamento  - disse ele quando iam na auto-estrada.
        - Voc  atrevido e irreverente... Acaba com isso? E onde arranjou este carro? Allegra riu. No tem respeito por nada!
        Riram e Jeff beijou-a. Estava ansioso por chegar em casa para ir para a cama com ela; s o seu forte sentido de posse  que o impedia de fazer amor naquela 
incrvel limusine branca
No entanto ambos reconheceram em silncio, pelo modo como se agarraram um ao outro e se acariciaram, que fora um fim-de-semana horrvel.
        - Desculpa, Allegra, no sei como no imaginei que iria ser assim. Devo ter tido um problema de rejeio. Talvez devesse ir consultar a Dr. Green durante 
uns tempos, para me penitenciar.
        - Acho extraordinrio que tenha sobrevivido a ela todos estes anos! - exclamou Allegra com admirao. Mary Hamilton era a mulher mais fria que conhecera, 
e Jeff era completamente diferente.
        - Eu nunca lhe dei muita ateno, e o meu pai era um pouco como o Simon.
        - Deve ter sido isso que se salvou  - disse ela com naturalidade
        Durante o resto do caminho falaram de outras coisas. Apeteceu-lhes ajoelhar e beijar o cho quando regressaram  Califrnia, e ainda mais quando chegaram 
a Malibu. A primeira coisa que fizeram foi rasgar a roupa um ao outro. Nem sequer foram para a cama, enroscaram-se no sof da sala e nunca fizeram amor com tal intensidade. 
O ambiente repressivo em que tinham vivido nos dois ltimos dias quase os levara  loucura. Allegra nunca se sentira to feliz por regressar a casa. No tencionava 
voltar a ver a me dele to cedo.

CAPTULO 17

        Na manh de segunda-feira, depois do fim-de-semana em Nova Iorque, Jeff foi para o estdio s trs da manh, como de costume, e Allegra comeou o dia a ler 
uma pilha de faxes e de jornais. Estavam ambos bem-dispostos e satisfeitos por regressar, sobretudo depois da noite anterior, mas Allegra franziu o sobrolho ao deparar 
com um fax urgente do produtor de Carmen. Dizia que ela andava de tal modo deprimida que mal conseguia trabalhar no estdio, e, na sexta-feira, ficara completamente 
alterada com o artigo sobre o aborto publicado nos tablides.
        Eram seis horas quando Allegra leu o fax. Como, pelos seus clculos, Carmen ainda devia estar no estdio a essa hora, resolveu ir ter com ela.
        Organizou os seus documentos, de modo a levar alguns para ler l, se fosse necessrio, e por volta das seis e meia saiu. s sete estava junto de Carmen. 
O produtor no exagerara: o seu estado era lastimoso. Passara o fim-de-semana em casa, a chorar por causa do artigo, e continuava profundamente deprimida com a perda 
do beb.
        - Precisa ir a um psicoterapeuta  - disse Allegra em tom sereno, enquanto Carmen se assoava pela milsima vez nessa manh.
        - Eles no fazem milagres! O meu beb morreu e esta gente horrvel publica mentiras a meu respeito!
        - Os jornais publicam mentiras a respeito de todos, mas no pode permitir que isso destrua a tua vida e a do Alan. Tens de lhes mostrar que no se importa, 
e tem de provar ao Alan que  capaz de faz-lo. Julga que ele quer passar o resto da vida agarrado a uma incapaz, que se vai abaixo sempre que algum a maltratar 
com crticas? Carmen, isso  ridculo!
        Allegra passou horas a anim-la e assistiu s filmagens. Carmen estava deprimida, mas continuava a fazer um bom trabalho em estdio, isso era indiscutvel.
        Eram dez horas, e Allegra ainda l estava, quando foram avis-la, ao estdio fechado, de que tinha um telefonema urgente do escritrio. Foi atender a chamada 
numa sala  prova de som. Era Alice, que disse ter uma chamada urgente de Delilah Williams, a consultora matrimonial.
        - Ela telefona-me para aqui? -  perguntou Allegra, incrdula.
        - No, fui eu  - respondeu Alice, desculpando-se. Ela disse que tinha a mxima urgncia em falar com voc.
        - A mulher perdeu a cabea?
        -  bem possvel. Passo a chamada?
        - Est bem, mas quando eu estiver aqui, nunca mais o faa, tome nota da mensagem.
        - Allegra? - disse a gara gigante vestida de prpura, mais medonha do que nunca. Voc no respondeu a um nico dos meus telefonemas! O seu tom de censura 
lembrava o de um amante furioso. No sei nada do bolo, nem da msica na igreja, nem da recepo, nem to-pouco da cor do vestido das damas de honra!
        Delilah estava claramente fora de si, mas no tanto como Allegra, que ficara lvida.
        - Voc apercebe-se de que me telefonou para um estdio fechado? Imagina quanto isso  inconveniente, para no dizer imprprio? E se eu no liguei para voc 
foi porque tenho andado demasiado ocupada tirando clientes da cadeia e a acompanh-los em tournes ou em filmagens E a ltima coisa de que preciso  que me andem 
me alfinetando por causa das damas de honra!
        - Ao menos j sabe quem elas so?
        Parecia furiosa, mas Allegra estava ainda mais. Tinha que trabalhar e que prestar assistncia aos seus clientes, no se podia incomodar com coisas absurdas!
        - Eu j escolhi as damas de honra -  respondeu, condescendendo um pouco, mas sem querer acreditar que aquela conversa era da 'mxima urgncia'. Estaria ela 
a pensar no bolo ou na msica? Vou dar instrues  minha secretria para lhe enviar uma lista com os nomes  - acrescentou, furiosa por ter sido incomodada.
        - Precisamos de saber as medidas delas  - insistiu Delilah Williams com igual determinao. Estava habituada a lidar com pessoas como Allegra, mdicos, advogados, 
psiquiatras, celebridades, atrizes, nenhum deles capaz de organizar um casamento. Todos se julgavam demasiado ocupados e importantes para isso, mas esse era o seu 
papel, e sabia obrig-los a terem maneiras, se fosse preciso. Tem as medidas delas? - perguntou, com uma voz que Allegra s imaginava nas atrizes.
        - Diga  minha secretria que lhes pea.
        - Com certeza  - retorquiu Delilah, satisfeita com a comunicao. A propsito, no posso acreditar que ainda no tenha encontrado um vestido! Precisa de 
se esforar mais!
        - Tenho de regressar ao trabalho  - vociferou Allegra, frustrada com o estado de nervos em que a mulher a deixara. No queria ser indelicada, mas em certas 
ocasies no havia alternativa.
        Assim que desligaram, telefonou  me, para a estao, e apercebeu-se de que estava a tremer.
        - Se no me tira aquela mulher do meu caminho, me, eu mato-a!
        - Qual mulher? Na mente de Blaire, a nica mulher que merecia tal coisa era Elizabeth Coleson, mas no lhe parecia que Allegra a conhecesse.
        - Qual mulher? Aquela idiota que a me ps atrs de mim para organizar o casamento. Preferia mil vezes festej-lo no parque e servir cachorros-quentes e 
Twinkies do que ter esta mulher a telefonar-me para um estdio fechado para discutir a msica, o bolo e a 'cor do vestido das damas de honra'. Me, no me faa uma 
coisa destas!
        - Confia em mim, querida. Ela vai fazer um magnfico trabalho e voc vai ficar muito satisfeita.
        Era inimaginvel! Allegra rolou os olhos nas rbitas, despediu-se de Blaire e voltou para junto de Carmen.
        - Est tudo bem?
        Por uma vez, Carmen parecia interessar-se por algo que no fossem os seus prprios problemas.
        - Nem vai acreditar! - exclamou Allegra, exasperada.
        - Conta.
        - A consultora matrimonial que a minha me contratou telefonou para importunar-me!
        - O qu? - admirou-se Carmen, enquanto tirava a maquiagem. Consultora matrimonial? O que  isso?
        - O que eu fiz quando comprei as cabeleiras e os trajes de polister, e o ramo de flores de plstico, para Las Vegas
        -  isso que ela anda fazendo? -  Excepcionalmente, Carmen estava divertida, e Allegra riu.
        - Espero que no, mas nunca se sabe. Vocs  que foram espertos, ao escolherem Las Vegas.
        - Vocs podem fazer o mesmo  - disse Carmen. Todos tinham adorado, e essa soluo cada vez fazia mais sentido para Allegra e para Jeff, para evitarem todo 
o aparato do casamento.
        - A minha me ficaria destroada se eu a privasse de uma festa no meu casamento.
        No entanto teria valido a pena, s para no voltar a ver Mary Hamilton. De certa maneira, era uma tentao, pensou Allegra.
        Acabou por ficar junto de Carmen at ao almoo. Depois regressou ao escritrio para organizar e assinar vrios documentos. Tinha de estar no gabinete de 
Suzanne Pearlman s duas e meia; iam conhecer outro grupo de pais, que tinham vindo de Chicago. Era espantoso como as pessoas percorriam o pas de avio,  procura 
de bebs, entrevistando garotas que queriam dar os seus filhos para adoo e a ser interrogados por elas; parecia ser uma preocupao enorme. Contudo, ao ver como 
Carmen ficara obcecada com a perda de um feto de dois meses, Allegra comeava a perceber: ter, manter e conseguir bebs transformara-se numa obsesso.
        Prometera a Sam que iria busc-la a casa, e atravessou Bel Air, a caminho do escritrio de Suzanne Pearlman. Ficou admirada ao ver como a irm aumentara 
de volume em poucos dias. Estava grvida de sete meses e enorme e, de certo modo, o estranho contraste fazia que parecesse ainda mais jovem.
        - Como tens passado? -  perguntou Allegra quando a irm entrou no carro.
        Sam trazia um vestido cor-de-rosa curto que lhe acomodava  a barriga, sandlias de atilhos, o cabelo louro penteado em um rabo-de-cavalo e uns grandes culos 
escuros. Parecia a Lolita de Nabokov.
        - Bem  - respondeu ela, com um gesto de cabea, dando um beijo  irm. Estava-lhe agradecida pela sua companhia. J conhecera vrios casais e detestava essas 
situaes; sentia-se sempre mal e no gostara de nenhum. Talvez os Whitman... Mas tambm no eram perfeitos. E Nova Iorque?
        - Interessante -  respondeu Allegra, lacnica. Sam riu; conhecia a irm.
        - Ol... Isso no me soa bem.
        - No correu bem.
        - Ela era uma cabra?
        - Completamente! Um icebergue humano. Estava com medo que eu fosse judia. Acreditas?
        - Espera que o pai a conhea... Ele vai adorar!
        - Nem posso pensar que  volto a v-la, mas tem de ser. No sei como  que o Jeff saiu to normal!
        - Talvez tenha sido adotado  - disse Sam tristemente. Apesar do gracejo, no se esquecia do stio aonde iam nem do motivo: ia conhecer outro casal que poderia 
vir a adotar o seu beb, e s de pensar nisso ficava deprimida. Tentara explicar a Jimmy o que sentira da ltima vez que l fora, e ele oferecera-se para acompanh-la, 
mas Sam recusara; o casal poderia ficar confuso e julgar que Jimmy era o pai do beb. Ela estava sempre disposta a contar aos potenciais pais adotivos o pouco que 
sabia de Jean-Luc, embora isso a fizesse sentir-se muito mal: era alto, bem-parecido e louro, era fotgrafo, francs e tinha cerca de trinta anos, o que significava 
que era estrangeiro, talvez com talento e atraente. Alm disso, no podia dizer-lhes mais nada. Paradeiro: desconhecido. Sam no tinha uma histria para lhes oferecer.
        Chegaram ao escritrio de Suzanne dez minutos depois de Allegra ter ido buscar Sam em casa e subiram no elevador, em silncio.
        Suzanne tinha uma sala de espera agradvel, com gravuras artsticas de cores alegres e pilhas de revistas, que eram de dois tipos: World of Interiors, Parenting 
Magazine, Vogue, Connaissance ds Arts, Town & Country, Architectural Digest, para os futuros pais, e Seventeen, Rolling Stone, Elk, Young and Modem e at Mad, para 
as mes. Porm, nem Allegra nem a irm pegaram numa revista, ficaram ali sentadas,  espera, com ar abatido. Cinco minutos depois, a recepcionista mandou-as entrar. 
O casal de Chicago j estava com Miss Pearlman. Assim que Sam os viu, percebeu que no gostava deles; eram nervosos e falavam muito das viagens que queriam continuar 
a fazer, de esqui e da sua ltima ida  Europa. Ela era assistente de bordo e ele trabalhava numa companhia de seguros e tinha a seu cargo uma grande rea do Midwest. 
No tinham filhos e haviam tentado a fertilizao in vitro, mas o mtodo era demasiado dispendioso a longo prazo, e estavam cansados de tentar. Sam j ouvira muitas 
histrias semelhantes
        - O que faro com o  beb quando forem viajar perguntou, cheia de curiosidade
        - Deixamo-lo com uma baby-sitter  - respondeu o marido
        - Contratamos uma ama -  acrescentou a mulher
        - Porque querem adotar um beb.
        Sam foi direita ao assunto, tal como faria a irm mais velha, e Allegra sorriu
        - Eu tenho trinta e oito anos, a Janet trinta e cinco, e consideramos que chegou o momento -  respondeu ele, como se estivessem falando da compra de um automvel. 
Todos os nossos amigos tm filhos. Vivemos nos subrbios
        Moravam em Naperville, mas isso no era motivo suficiente para Sam lhes entregar o beb. No eram nada simpticos
        - Mas querem mesmo um beb  -  insistiu, verificando que tinham ficado atrapalhados com a sua pergunta.
        - Se no quisssemos, no estaramos aqui  - retorquiu Janet, tentando causar uma melhor impresso na garota, mas sem grandes resultados. Tambm eles no 
gostavam de Sam; parecia-lhes uma pessoa sobranceira e as suas perguntas eram muito contundentes.
        - Temos passagens gratuitas da companhia area, mas parece que viemos aqui para nada  - resmungou Paul.
        Sam olhou para Allegra
        - Tm mais algumas perguntas a fazer? - A advogada percebera que a entrevista no estava  correndo bem e que Sam no gostava deles.
        - No, acho que  suficiente -  respondeu Sam com delicadeza.
        O casal saiu e ficou  espera noutra sala. Pouco depois Suzanne voltou, com um ar cndido, para trocar impresses com Sam e Allegra.
        - Detesto-os! - disparou Sam de chofre, assim que Suzanne entrou na sala.
        - No me diga! - replicou Suzanne, rindo para suavizar o ambiente. Eu tambm me apercebi disso. Por qu?
        Embora soubesse o motivo, queria comprovar.
        - Eles no precisam de um beb, deviam era comprar um co! S pensam em andar  viajando, porque tm bilhetes gratuitos, e vo entreg-lo a uma baby-sitter. 
Eles querem um filho s porque toda a gente tem um nas redondezas. Porque no se mudam para a cidade e esquecem o assunto?
        Sam foi cortante. Havia muita gente convencida de que queria bebs, mas na realidade no os desejava. Procuravam alcanar uma sensao de plenitude, de realizao, 
talvez tentar salvar o casamento ou sentir-se jovens outra vez. Podiam querer muita coisa, mas no um beb. Para elas, ter um beb  ou adot-lo no seria soluo.
        - No lhes vou dar o meu beb! - disse Sam, resoluta.
        Allegra estremeceu ao ouvi-la. De repente, Sam comeara a falar no 'seu beb'. A criana era agora muito mais real e Sam estava a sentir-se profundamente 
apegada a ela, apesar de fingir que no.
        - Eu compreendo  - assegurou Suzanne com ar calmo. E os Whitman, de Santa Brbara? Eles esto muito interessados em voc, Sam. Gostariam de levar o caso 
at ao fim.
        - At agora, so aqueles de que mais gosto, mas ainda estou pensando  - admitiu Sam.
        Era como se algum tentasse fazer um grande filme com um produtor de dezessete, quinze ou mesmo catorze anos. De sbito, Allegra sentiu-se aliviada por no 
ser aquela a sua especialidade.
        - Em que est pensando? - perguntou Suzanne.
        - Estou a tentando apurar se gosto ou no deles.
        - Porque hesita?
        Era nisto que Suzanne era muito boa: na mistura e na convivncia entre mes abandonadas e pais adotivos.
        - No sei, so um pouco velhos -  respondeu Sam honestamente. Os Whitman estavam ambos perto dos quarenta e nunca haviam tido filhos.
        - Eles tiveram muito pouca sorte -  explicou Suzanne, mais por Allegra do que por Sam, que j conhecia a histria.
        Da ltima vez, Sam fora com a me. Apesar de Allegra fazer o possvel por acompanh-la, Blaire viera duas vezes, mas Simon nunca, no era capaz. A perspectiva 
de a filha ir ter um beb e de, ainda por cima, o ir dar deixava-o destroado. Nem queria ouvir falar no assunto! S o fato de olhar para Sam j era penoso: estava 
to inchada que parecia uma uva, mas, ao mesmo tempo, to bonita... Em certos aspectos, ainda mais bonita. O seu rosto enchera um pouco, porm, havia nele uma doura 
que o encantava.
        - Os Whitman so um casal fora do comum -  explicou Suzanne, em pormenor. Alis,  o casal com mais azar que eu conheo. Tentaram adotar dois bebs que foram 
reclamados pelos pais naturais antes de a adoo ser oficializada Isto foi h dez anos, e eles resolveram desistir. Depois, com as novas tcnicas, tentaram que a 
Katherine engravidasse, mas teve catorze abortos e um natimorto. Agora querem adotar outra vez, e eu sou obrigada a dar-lhes crdito, apesar de no serem to jovens 
como alguns dos outros candidatos, Sam. Talvez no sejam assim to maus. Pessoalmente, gosto deles, acho que tm muita coragem.
        No entanto, os Whitman eram o gnero de pessoas com as quais Suzanne no queria jogar. No gostava de criar expectativas a pessoas como eles, com bebs que 
as mes viessem depois a reclamar, por isso perguntara a Allegra, logo ao princpio, se a irm tinha a certeza de que queria dar o beb. Mas Sam continuava a ser 
categrica; falara no assunto a Jimmy e, na sua opinio, no tinha alternativa.
        Jimmy continuava a rondar a porta, mas, no estado em que Sam se encontrava, os pais no levantavam objees. Ela precisava de amigos, e Jimmy era um rapaz 
bom e com carter, que no lhe oferecia mais do que a sua amizade. Considerava que era triste ter que dar o beb, e dissera-o a Sam.
        - E os Whitman? Gostavas de voltar  a v-los?
        - Talvez...
        Sam no se queria comprometer. Empurrara os culos escuros para o cima da cabea e parecia uma princesinha rechonchuda. Tinha a barriga grande e redonda, 
mas os braos e as pernas continuavam esguios e, apesar do volume, continuava a ser muito graciosa.
        - A Katherine Whitman gostava de assistir ao parto, se voc os escolher.
        - Porqu?
        Na opinio de Sam, era uma idia muito desagradvel.
        - Porque quer ver o beb  nascena e afeioar-se logo a ele. H muitos casais que fazem o mesmo. Voc no se importaria que o John tambm estivesse presente? 
Ele disse que gostava, mas, neste caso,  apenas uma hiptese.
        Allegra sentia-se mal ao ouvir todos estes acordos e condies. Aquilo era um autntico negcio!
        - Eu no o quero l! Quanto a ela, vou pensar.
        - John podia ficar  sua cabeceira, de onde no veria nada.
        Suzanne estava a pression-la de mais, e Sam reagiu imediatamente.
        - No! No o quero l, j lhe disse!
        - Est bem, no h problema. Ento, quem  que resta? A conversa estava deixando Allegra emocionalmente exausta.
        - Acho que s os Whitman  - respondeu Sam com ar triste. Detestava ir quele lugar: era to deprimente. Mas no havia sada, tinha de lhes entregar o beb. 
Agora, a nica coisa a resolver eram os pormenores.
        - Vai ao mdico com regularidade? -  Suzanne lia a sua lista de perguntas. Sam tambm detestava essa parte, mas compreendia-a. Tem tomado a vitamina? No 
consome drogas? Teve relaes sexuais h pouco tempo? Sam fulminou-a com o olhar, mas respondeu a tudo.
        Ia ao mdico, tomava as vitaminas, nunca tocara em drogas, no bebia cerveja nem vinho e no tivera relaes sexuais desde que engravidara: era o sonho de 
todos os pais adotivos. Suzanne no lhe disse nada, porque no queria pression-la mais, mas os Whitman estavam desesperados para ficar com o beb. Na opinio da 
advogada, tratava-se de uma boa oportunidade para eles, se lidassem habilmente com Sam. No era o tipo de garota que reagisse bem a presses, por isso Suzanne nunca 
o fazia; deixava que as coisas corressem com naturalidade e aceitava todas as suas decises. E avisara os Whitman de que tinham de ser pacientes e esperar pela deciso 
dela. Chegou mesmo a aconselh-los a tentarem outras pistas e a falarem com mais garotas, para no ficarem desiludidos se Sam optasse por outro casal. Era bvio 
que o fato de serem mais velhos no lhe agradava.
        - Gostaria de voltar a v-los? - perguntou Suzanne pela ltima vez, mas Sam abanou a cabea.
        - Por enquanto, no
        Para j, queria descansar. Allegra levou-a a tomar um batido de leite no Johnny Rocket quando saram do escritrio da advogada. Tinha um aspecto horrvel: 
a situao era esgotante e a deciso que tinha a tomar assustadora. O mdico queria que ela freqentasse aulas Lamaze, para que o parto fosse mais fcil. Sam fora 
 primeira na semana anterior, com Blaire, onde fora projetado um filme sobre um parto, e ia desmaiando: teria de passar pelo mesmo para depois entregar o beb a 
outros. Era pedir muito! E, evidentemente, nem podia pensar que os Whitman estivessem presentes nesse momento, como sugerira Suzanne. Estava desolada quando acabou 
de beber o batido.
        - Quem me dera morrer  - disse, pesarosa.
        Allegra lembrou-se de novo de Carmen, que queria morrer porque no tinha um beb. s vezes, a vida possua um estranho sentido de humor.
        - No te parece que est exagerando? - perguntou Allegra tranquilamente, pensando que Carmen e a irm eram muito parecidas. E que tal se desejasse ver isso 
tudo pelas costas?
        - Sim, acho que sim.
        Depois se lembrou que a cerimnia de fim de curso de Sam era nessa semana e ela nem podia ir assistir. Era mais um golpe. Perguntou  irm o que sentia a 
esse respeito.
        - No me importo. O Jimmy trouxe-me a papelada toda. O meu nome continua a constar do programa, mas o Jimmy disse que a cerimnia devia ser muito enfadonha.
        Sam recebera o seu diploma. Apesar de no ter ido s aulas nos dois ltimos meses, acabara o curso com distino.
        - Afinal o que existe entre vocs? - perguntou Allegra casualmente.
        Jimmy era um rapaz engraado e, sobretudo nos ltimos tempos, freqentava muito a casa de Sam. Allegra encontrava-o sempre que l ia, mesmo  noite. Aparentemente, 
fora o nico amigo que nunca a abandonara. Era como se os outros estivessem envergonhados e no soubessem o que haviam de dizer. Todos tinham deixado de aparecer, 
mesmo as garotas.
        - Somos apenas amigos  - explicou Sam. Nesse momento, Jimmy era o seu melhor amigo. Ela confiava-lhe os seus medos e todas as suas esperanas e preocupaes.
        - Eu e o Alan ramos assim na vossa idade. Comeamos a namorar quando andvamos no colgio e ramos como irmos. Ainda continuamos assim, creio.
        - H tanto tempo que no vejo o Alan...
        Sam sorriu; sempre gostara dele. Alan adorava arreli-la, embora ignorasse que estava grvida. Partira para a Sua antes de Allegra saber a notcia, e ela 
ainda no lha dera. J lhe bastavam os problemas que tinha com Carmen!
        - Ele est na Sua a fazer um filme -  explicou Allegra.
        - Como vai a Carmen?
        - No muito bem. Teve um aborto na Sua. O Alan ainda l est, trabalhando, e ela teve de voltar para fazer um filme. Sente-se muito infeliz e tem muitas 
saudades dele, mas o Alan s volta em Agosto.
        - Ela no pode ir l v-lo?
        - No, a menos que queira que eu lhe aperte o pescoo. Est filmando.
        - Ah! Deve ser duro para eles no estarem juntos. Allegra concordou. O aborto fora muito penoso para Carmen.
        Allegra foi lev-la a Bel Air; j era muito tarde para regressar ao escritrio e prometera ir ter com Jeff ao estdio. Ao afastar-se, reparou que Jimmy ia 
a chegar. Perguntou a si prpria se teria acontecido alguma coisa de grave, mas duvidava: o que poderia ter acontecido, se Sam estava grvida de sete meses?
        No caminho no conseguiu tirar a irm da idia e custava-lhe pensar no que ela tinha de sofrer. E ainda lhe custava mais imagin-la a dar  luz com estranhos 
ao seu lado,  espera de lhe tirarem o beb. Era assustador! Allegra ainda ia a meditar nisso quando chegou ao estdio. Mais tarde, ao regressarem a Malibu, falaram 
no assunto.
        - Detesto v-la nessa situao  - disse Jeff, abanando a cabea.
        - Tambm eu  - confessou Allegra, mas a Suzanne est fazendo um bom trabalho. Eu no era capaz.
        - Ai isso  que era!
        Jeff inclinou-se e beijou-a. A conversa acabou por afastar-se de Sam e recair em Carmen. Jeff perguntou-lhe se ela estabilizara, e Allegra respondeu que 
as coisas pareciam mais calmas nesse momento.
        Depois esqueceram os outros e falaram do filme dele e do casamento.


CAPTULO 18

        Por fim, no dia 1 de Julho, Allegra deu uma alegria a Delilah Williams: ela e a me foram fazer compras  Dior e encomendaram um vestido no qual o Sr. Ferre 
se disps a fazer ns pequenos ajustes para agradar a Allegra. Era de piqu branco, coberto de renda, curto  frente e comprido atrs, e ele ia acrescentar-lhe um 
casaco curto de renda branca, gola alta e mangas compridas. Condizia com um grande chapu de renda branca e era exatamente o que Allegra sonhara para o seu casamento: 
elegante, jovem e discreto. Blaire chorou quando a filha o vestiu e Allegra ficou radiante ao ver-se ao espelho. Tambm tencionavam encomendar sapatos forrados de 
renda branca, e a me prometeu emprestar-lhe a gargantilha que Simon lhe oferecera quando fizera cinqenta anos. Tinham exatamente as mesmas medidas, at nas jias, 
o que era muito conveniente.
        Nesse mesmo dia encontraram um vestido curto de renda bege, com mangas curtas e uma pequena tnica atrs, ideal para as damas de honra. Blaire sugeriu que 
mandassem fazer uns chapelinhos de renda da mesma cor, umas verses menores da capelina da noiva. Na Dior tinham-lhe prometido acrescentar uma longa cauda de tule 
branco. Allegra ficaria deslumbrante!
        - Bem, tratamos de tudo  - afirmou Blaire, conferindo uma das listas que Delilah Williams lhe enviara.
        - Agora pode dizer-lhe que deixe de me telefonar para o escritrio. No tenho tempo para patetices!
        - No so patetices, querida. Trata-se do teu casamento. Tinham escolhido msica clssica para a cerimnia e Beethoven para o cortejo no jardim, no meio 
dos convidados. A me encarregara-se da ementa e o ramo ia levar rosas brancas, lrios-do-vale e orqudeas; para as damas de honra, pequenas orqudeas cor de ch. 
H muito que tinham escolhido o bolo, e iriam oferecer aos convidados uma recordao numa caixinha branca com a data e o nome dos noivos gravados em prata, como 
na Europa. Ainda era preciso pensar nas flores para as mesas, a tenda fora encomendada h vrios meses e Peter Duchin iria atuar na recepo. A nica coisa que faltava 
era a limpeza do jardim, o arquiteto paisagista continuava a prometer que estaria completamente pronto no dia 1 de Setembro e o casamento era no dia 5.
        Haviam reservado uma sute em Bel Air para a Sr. Hamilton e dois quartos menores para as damas de honra, que vinham de Nova Iorque e de Londres. Blaire 
apalavrara o cabeleireiro para todas elas e uma esteticista para quem quisesse. No dia 1 de Julho tudo parecia estar em ordem, faltava pouca coisa, exceto combinar 
aquilo a que Delilah chamava 'acontecimentos satlite' as despedidas de solteiros e o jantar de ensaio. Habitualmente, competiria a Sr. Hamilton oferec-lo, mas, 
como ela vinha de Nova Iorque, no saberia onde realiz-lo, por isso os Steinberg chamaram a si essa obrigao e reservaram o primeiro andar do Bistr. Era prtico 
e seria divertido
        Por fim Allegra cedera e escrevera ao pai, participando-lhe que ia casar e que, apesar de no esperar que ele viesse, seria bem recebido. Esta atitude teve 
grandes custos emocionais para ela, que discutiu longamente o assunto com a Dr. Green, mas escrever fora mais fcil do que telefonar. Fizera-o no princpio de Junho 
e ele ainda no respondera, o que a levou a partir do princpio de que no viria, e ficou muito aliviada
        Regressou bem-disposta ao escritrio, depois de ter comprado o vestido de noiva. Tinha falado com a me acerca do 4 de Julho, que recaa no fim-de-semana 
seguinte, e em que a famlia costumava reunir-se num piquenique. Os filhos convidavam sempre alguns amigos e Blaire e Simon um ou dois casais. Em geral, juntavam 
cerca de vinte pessoas no quintal. Nesse ano no haveria grama para fazer o churrasco, mas todos concordaram que o pormenor era irrelevante, o importante era estarem 
juntos E Jeff tambm lhes faria companhia. Era a sua iniciao na tradio da famlia, visto que no estivera presente no Dia de Ao de Graas nem no Natal. Os 
Steinberg adoravam feriados e tradies
        Na manh seguinte, depois de ter comprado o vestido de noiva, Allegra, sentada no seu gabinete, descrevia-o a Alice.
        - Deve ser fabuloso concluiu a secretria
        O intercomunicador estava sempre a interromp-las. Alice atendeu ao telefone, franziu o sobrolho e depois o passou a Allegra. Fez-se um longo silncio. Allegra 
ouviu e tomou alguns apontamentos. Quando desligou, estava furiosa.
        Procurou qualquer coisa no meio de uns papis, sem dizer uma palavra, e ligou para o estrangeiro, para o hotel de Alan, em Genebra. Pediu que ligassem ao 
quarto dele e, ao quarto toque, tal como esperava, Carmen atendeu.
        - O que voc  est  fazendo a? - perguntou, fora de si. Que disparate! Vai arruinar a sua carreira cinematogrfica para estar ao p dele. Os produtores 
no se esquecero!
        - Foi superior a mim... -  choramingou Carmen. Tinha tantas saudades dele! No se atreveu a dizer a Allegra que fora porque estava no perodo de ovulao 
e queria engravidar.
        - Eles disseram que voc desapareceu ontem e que podem prescindir de voc hoje e amanh, mas est custando-lhes uma fortuna. De hoje em diante fica debaixo 
de olho. Depois de amanh dispensam-te. Por outras palavras: sai da amanh, seno dou cabo de ti!
        - Eu no quero voltar...
        Carmen desatou de novo a chorar, e Allegra foi propositadamente rspida para com ela.
        - Se no vier, bem pode pedir a reforma. Fica fora da carroa, Carmen Connors! Depois pensou melhor e perguntou por Alan. Manda-a embora, est a ouvindo? 
- disse-lhe com firmeza, e Alan percebeu que estava a falar a srio.
        - No tenho culpa, Al, no sabia que ela vinha! Apareceu sem mais nem menos. Foi timo, mas eu sabia que tu irias ficar furiosa. Amanh de manh meto-a num 
avio para a. De qualquer modo, tambm eu estarei de volta daqui a um ms lembrou Alan. Entretanto, toma conta dela.
        - Isso no  tarefa fcil, como sabe. Allegra comeava a ficar verdadeiramente cansada de Carmen. Era uma criana mimada e estava sempre a lamentar-se que 
tinha saudades de Alan. Talvez ela tenha razo. Talvez daqui em diante seja prefervel vocs s trabalharem juntos.
        - Falaremos nisso quando eu voltar.
        - Manda-a embora amanh sem falta, caso contrrio ser obrigada a pagar uma grande quantia . A multa  de cinqenta mil dlares por dia, e ela merece-a.
        Alan assobiou e apontou um dedo acusador para Carmen
        - Vou mand-la imediatamente
        - No falhe.
        Desligou e telefonou aos produtores do filme de Carmen. Pediu muitas desculpas por ela e explicou que estava emocionalmente doente e precisara ir ver o marido. 
No voltaria a acontecer a mesma coisa, e Carmen pagaria a multa de boa vontade. Da a dois dias estaria de volta ao trabalho. Os produtores aceitaram esquecer o 
que se passara, na condio de ela pagar a multa e regressar, como prometia.
        Avaliando pelo fim desse dia, o seguinte prometia ser agitado. Allegra mal dormiu nessa noite e de manh foi esperar Carmen ao aeroporto. Leu-lhe a cartilha 
das suas obrigaes assim que ela passou pela alfndega, e Carmen desfez-se em desculpas, continuando a dizer que sentira necessidade de estar com Alan. Por causa 
dela, seria necessrio filmar no 4 de Julho, s para recuperar o tempo perdido. Carmen no teria feriado. Allegra estava de tal modo irritada que nem se lembrou 
de a convidar para o piquenique dos Steinberg
        Certificou-se de que Carmen estaria no estdio s quatro da manh do dia seguinte e andou a rond-la at cerca das nove horas, s para ter a certeza de que 
no falhava. Em seguida foi para casa, meteu-se na cama com Jeff e dormiu at ao meio-dia. Quando acordaram foram para casa dos pais dela
        Estava l toda a famlia, mesmo Scott que levara uma amiga e Sam convidara Jimmy Mazzoreli, que fazia agora parte da moblia, como dizia Simon, com sentido 
de humor. Jimmy estava sempre l em casa. Tambm se encontravam presentes dois vizinhos e uns amigos de Scott, mas nenhuma amiga de Sam; nesse ano Era um grupo pequeno, 
porm, todos gostavam de festejar esse dia, e divertiram-se muito, apesar da confuso que reinava no quintal e da falta de um jardim.
        As pessoas que no viam Sam h algum tempo ficaram admiradas, ela estava grvida de oito meses e notava-se bem, Allegra ficou surpreendida por ningum comentar 
o fato. O assunto era completamente tabu, e perguntou a si prpria se isso no tornaria a situao ainda mais difcil para Sam. Em vez de ser o momento mais feliz 
da sua vida, era o mais triste.
        Blaire continuava a acompanh-la s aulas Lamaze, e Allegra fora uma ou duas vezes, mas era raro ter disponibilidade. E Jimmy chegara a praticar algumas 
vezes com ela. Fascinava-o sentar-se e ver o beb a mexer-se. Parecia correr de um lado para o outro, deslocando-se na barriga da me como um elefante debaixo de 
um cobertor num filme de desenho animado.
        - Como se sente? - perguntou Allegra, sentando-se ao lado dela numa cadeira de jardim.
        - Estou bem -  respondeu Sam, encolhendo os ombros. Jimmy vinha ao seu encontro com um dos cachorros-quentes de Simon na mo. s vezes custa-me um pouco 
a andar.
        - No falta muito  - disse Allegra, tentando anim-la, mas os olhos de Sam encheram-se de lgrimas ao ouvir estas palavras.
        Allegra no percebeu muito bem o motivo, e foi ento que Sam lhe disse que tomara uma deciso.
        - Telefonei aos Whitman para Santa Brbara. A Suzanne falou ontem com eles. Sentem-se um pouco estranhos depois de tudo o que passaram, mas acho que so 
simpticos e querem mesmo o beb. A Suzanne disse-me que ficaram mesmo felizes, por isso era importante que eu estivesse segura do que ia fazer e no mudasse de 
idia, sobretudo depois de eles receberem o beb, durante o perodo de espera legal, porque isso j lhes aconteceu duas vezes e acha que no agentariam passar por 
tudo de novo.
        - Mas essa responsabilidade no  sua -  assinalou Allegra, e Sam concordou.
        - Mesmo assim no seria justo faz-los sofrer outra vez. J houve duas garotas que lhes tiraram os bebs, e a Katherine levou anos refazendo-se. Sam respirou 
fundo, como se tentasse habituar-se  idia. De repente, desejaria ver-se livre daquilo: do parto, do processo legal de adoo, da agonia de dar a criana, desse 
momento terrvel em que teria de entreg-la para sempre. No conseguia ultrapassar essa fase nem imaginar como seria a sua vida da em diante. No pensava noutra 
coisa. Eles insistem em assistir ao parto  - disse Sam, constrangida.
        - Faz o que estiver certo para voc, Sam  - retorquiu Allegra com firmeza.
        Simon, que andava  procura delas, aproximou-se
        - Porque esto com uma cara to sria? - perguntou, deleitado ao olhar para as garotas.
        Havia muitos assuntos srios na famlia. Sam, evidentemente, e o casamento, que era uma ocasio alegre, mas frtil em decises e em caos. Alm disso, os 
nveis de audincia do programa de Blaire tinham voltado a cair, e dessa vez drasticamente. Ela andava muito preocupada, apesar de evitar comentar o assunto com 
o marido. Alis, no falavam muito nos ltimos tempos, mas Simon no queria pressionar a mulher, por motivos bvios.
        - Estvamos dizendo que os cachorros esto melhores do que nunca este ano  - respondeu Allegra, sorrindo. Depois se levantou e beijou-o. Por pouco Sam no 
foi parar  piscina quando a cadeira se ergueu numa extremidade, como um balano, assim que Allegra se ps de p. O seu peso, solitrio mas impressionante, f-la 
aterrar no cho. Sam deu uma gargalhada e Allegra secundou-a. Pouco depois Jimmy aproximou-se outra vez, com mais um cachorro-quente para Samantha.
        - Precisa disto como contrapeso - disse ele com um sorriso, ao ver o que acontecera. Tem cuidado, caso contrrio a tua irm te catapulta por cima do muro, 
e ainda vai parar no quintal do vizinho!
        Riram ambos e Jimmy sentou-se ao lado dela, no lugar de Allegra, conversando. Mais tarde, quando ficaram de novo ss os outros foram jogar pingue-pongue 
e s ferraduras, Sam deu-lhe conta da sua deciso de aceitar os Whitman. J tinham falado da adoo, mas agora ela assumira um compromisso. Ainda podia mudar de 
idia, evidentemente, mas Suzanne dissuadi-la-ia de tal coisa, se pudesse. E, depois de o beb nascer, tinha seis meses para alterar a sua deciso.
        - No  obrigada, como sabe, j te disse -  afirmou Jimmy em voz baixa, para que mais ningum ouvisse.
        Oferecera-se para casar com ela, mas Sam no quisera. De que serviria? Jimmy j tinha dezoito anos e ela fazia-os da a duas semanas. Duas crianas a tomarem 
conta de um beb? Sam sabia como estavam desamparados. Mal podiam sustentar-se a si prprios, como iriam criar um beb? Alm disso, sentia que Jimmy no merecia 
aquele fardo aos seus ombros, visto que o beb no era seu. Samantha gostava demasiado dele para lhe fazer tal coisa. Tinham-se aproximado muito desde que Jimmy 
comeara a ir ter com ela, a levar-lhe livros e a partilhar apontamentos e testes. Agora eram inseparveis e, quando ele a beijava, era fcil adivinhar o que aconteceria 
depois de o beb nascer. Mas Sam nem sequer queria pensar nisso agora. No entanto, beijavam-se muito e, ultimamente, quando o faziam, Sam tinha contraes que a 
assustavam. Por um lado, desejava ver-se livre daquilo, mas, por outro, preferia que o momento nunca chegasse. O que no lhe apetecia mesmo era sofrer.
        Blaire aproximou-se e sentou-se ao lado deles durante algum tempo. Sam j reparara que a me andava triste desde que a audincia tinha descido, estava mesmo 
aborrecida! O programa era muito importante para Blaire, trabalhava nele h nove anos. V-lo desmoronar-se lentamente era como ver uma velha amiga a morrer de cancro.
         claro que tinham passado o dia falando do casamento, do nmero de convidados, da necessidade ou no de armar uma tenda, dos possveis fornecedores do copo-d'gua 
e da msica para danar. No se falava de outra coisa! Depois, ao fim da tarde, Simon fez questo de conversar com Jeff a ss. H vrias semanas que tencionava telefonar-lhe, 
mas andara muito ocupado.
        - H uns dias que ando para falar com voc  - disse, apanhando-o finalmente junto dos gelados.
        Ningum fizera mais nada seno comer durante todo o dia, e Sam jurou a Jimmy que teria o beb ali mesmo se engolisse mais alguma coisa.
        Jeff estava a comer um ltimo Esquim e parecia muito bem-disposto.
        - Mas que piquenique formidvel! - exclamou, em jeito de cumprimento. Gostava verdadeiramente de fazer parte da famlia Steinberg. Aquilo no se parecia 
nada com o fim-de-semana em casa da me, que fora um fiasco. Saiu-se muito bem com o churrasco. H-de ensinar-me o segredo e ir visitar-nos em Malibu. Mas eu no 
sou um especialista como o senhor... -  acrescentou afetuosamente
        Simon sorriu. Gostava muito do futuro marido de Allegra; ela fizera uma escolha inteligente e, em sua opinio, seriam os dois muito felizes.
        - Creio que voc tem outros talentos  - retorquiu Simon. Era acerca disso que eu lhe queria falar. Li o seu segundo livro e gostei. Gostei mesmo muito.
        - Isso  animador.
        Jeff sorriu, sem esperar mais nada; fora uma atitude simptica de Simon
        - O que tenciona fazer do argumento?
        - Nada, por enquanto  - respondeu Jeff honestamente. J falei com algumas pessoas que se mostraram interessadas em compr-lo, mas no me propuseram nada 
de jeito. No quero ser eu a produzir o prximo filme; tem sido uma tarefa desgastante, e quero voltar a escrever. Aguardo a proposta certa para vender o prximo 
filme, e talvez me limite a fazer o guio.
        -  a que eu quero chegar  - atalhou Simon com simplicidade; era assim que ele falava de negcios. Gostava de lhe fazer uma proposta. Se voc tivesse tempo 
esta semana, podamos encontrar-nos para conversar.
        Jeff ficou radiante, e nem conseguia acreditar no que estava ouvindo. Simon era um dos produtores mais importantes de Hollywood e queria fazer o seu filme 
seguinte. E o fato de ele ir casar com a filha no o preocupava. Ou, pelo menos, era o que as outras pessoas diriam. Mas Jeff conhecia Simon suficientemente bem 
para saber que, se no tivesse gostado do seu livro, no o compraria, fosse ele casado ou amigo de quem fosse.
        - H sculos que no tinha uma notcia to boa. -  exclamou Jeff, esfuziante
        - O que h? - perguntou Allegra, aproximando-se deles, curiosa em relao ao que diziam.
        - O teu pai gosta do meu novo livro e talvez queira fazer alguma coisa com ele  - respondeu Jeff com humildade. Depois se voltou para a futura mulher com 
um amplo sorriso. Porque no mantemos isto em famlia? Negocia o meu livro, Allie?
        - Existe conflito de interesses... -  respondeu Allegra, soltando uma gargalhada. Estava radiante por causa de Jeff. No imaginava uma melhor dupla profissional 
que a de Jeff e o pai; eram perfeitamente talhados um para o outro.
        No fim da tarde, Allegra olhou para o relgio. Tinham de ir andando, para assistirem ao concerto de Bram Morrison do 4 de Julho. Era o ponto alto da tourne 
antes de ele partir para o Japo, e, apesar de Jeff no morrer de amores por concertos, Allegra prometera-lhe que iriam ambos. Estaria l um mar de gente. Allegra 
sabia que haviam sido contratados oito guarda-costas, s para evitar que a multido lhe tocasse. At ento, as tournes de Bram tinham sido sempre um grande xito, 
e tornava-se cada vez mais uma figura de culto para todas as idades.
        - Onde vo vocs com tanta pressa? - perguntou Sam quando viu Jeff e Allegra pegarem nas suas coisas e comearem a preparar-se para sair.
        - Ao concerto do Bram Morrison no Great Western Frum.
        - Oh, que sorte! - exclamou Sam com inveja. Jimmy tambm se mostrara interessado, mas tinham concludo que era perigoso encontrarem-se no meio de uma multido 
como aquela, dado o estado de Sam.
        - Para a prxima vez, arranjo bilhetes  - prometeu Allegra.
        Pouco depois saram e foram mudar de roupa na casa de Allegra, em Beverly Hills. Ia p-la  venda, para tentarem comprar uma maior em Malibu.
        s seis horas, Allegra e Jeff estavam prontos. Alugara uma limusine e os promotores ofereceram-se para fornecer um guarda-costas, se fosse preciso, mas ela 
duvidava. Os fs adoravam Bram e s vezes aproximavam-se ou tocavam-lhe, mas eram inofensivos.
        Allegra e Jeff eram esperados nos bastidores antes do espetculo, mas, quando chegaram, a multido era tal que mal conseguiram dirigir-se at l. At nos 
bastidores havia mais gente do que era habitual. A maioria parecia estar sendo empurrada para o palco e durante o espetculo quase se misturavam com a banda, mas 
era inevitvel. O nmero de fs era lendrio, e Allegra nunca vira um concerto to concorrido.
        Tanto ela como Jeff eram empurrados de um lado para o outro, e admitiu mais do que uma vez que o pblico pudesse mostrar-se agressivo, mas tal no aconteceu. 
O concerto durou vrias horas e, a certa altura, a maior parte da assistncia j estava drogada, alguns com drogas pesadas. Havia sido marcada uma sesso de fogo-de-artifcio 
para as onze horas; cinco minutos antes, um homem de peito nu e colete, com os cabelos compridos, ps-se de p no palco e, tirando o microfone ao baterista, desatou 
a gritar, dizendo que adorava Bram Morrison e que sempre o adorara, que haviam estado juntos no Vietnam, que tinham morrido e que eram agora uma s pessoa. Parecia 
a letra de uma cano. O homem continuava aos berros quando um elemento da segurana se dirigiu a ele, mas eram tantos os basbaques no palco que no conseguiu aproximar-se; 
entretanto o f gritava 'Amo-te! Amo-te!' a plenos pulmes. Felizmente o fogo-de-artifcio distraiu as atenes de todos, e os guarda-costas no tiveram dificuldade 
em agarr-lo. Arrastaram-no para fora do palco, enquanto ele continuava no mesmo falando, mas depois comeou a chorar e sacou de uma arma que parecia um brinquedo; 
no cu, ouvia-se o estralejar do fogo-de-artifcio. Ento, Allegra olhou em frente, por acaso, e viu Bram de joelhos, com o sangue a jorrar do corpo, da cabea, 
do peito e a escorrer pelos braos. Bram caiu para frente no momento em que Allegra deu um safano num guarda-costas e o agarrou, gritando por socorro.
        - Ele est ferido!
        Apontou para Bram e foi ento que os outros o viram. A mulher tambm o viu, e os filhos. De repente, a multido fechou-se  volta dele num crculo impenetrvel. 
Por fim, ergueram Bram por cima das cabeas, enquanto a msica continuava a tocar e o sangue salpicava a multido. A mulher pegava-lhe na mo e os filhos choravam. 
Morreu ainda antes de os paramdicos lhe tocarem. Allegra ajoelhou-se no cho ao lado deles. A mulher abraava-o e suplicava-lhe que no os abandonasse, mas ele 
partira, e o seu esprito elevara-se no cu entre o fogo de cores vivas, enquanto as suas canes atroavam os ares como nunca. A multido nem sequer se apercebera 
do que acontecera. A msica continuava a tocar.  meia-noite deram a notcia. O pblico transformou-se numa multido turbulenta e agitada, a chorar ao som da msica, 
que continuava a tocar. Foi o ltimo concerto de Bram Morrison.
        O homem que o matara nunca o vira, nunca o conhecera, mas Deus enviara-o para salvar Bram, segundo as suas prprias palavras. Tinha de resgat-lo das pessoas 
que lhe fariam mal e devolv-lo a Deus. E fizera-o. A sua misso fora cumprida, conforme disse  polcia, e agora Bram estava feliz. Mas era o nico.
        Um luntico solitrio assassinara Bram Morrison, um dos grandes heris do rock, e cinqenta mil fs desesperavam, choravam, gritavam, soluavam. S na manh 
do dia seguinte  que conseguiram arranc-los do Frum. Allegra estava acordada h vrias horas, com as jeans e a blusa branca ainda salpicadas de sangue, de mo 
dada com Jeanie, tentando perceber o que ela pretendia fazer. Era provvel que desejasse uma cerimnia simples, mas o pblico nunca permitiria tal coisa. Por fim, 
concordaram que o funeral seria privado e que se realizaria um concerto evocativo para cem mil pessoas no Coliseum. Os promotores encarregaram-se disso e Allegra 
tratou do resto: o funeral, o elogio fnebre, as disposies legais e as implicaes do cancelamento da tourne. Allegra fez tudo, incluindo pegar em Jeanie ao colo 
e consolar os filhos. Era o que Bram teria desejado. Sempre gostara dele, ao contrrio do que sentia por Mal O'Donovan, que era um autntico palhao. Bram fora um 
dos grandes homens da msica.
        - No posso crer! - exclamou, quando regressaram a Malibu, de manh. J era meio-dia quando chegaram a casa, mas Allegra quis ir at  praia. No acredito 
que ele morreu!
        Ficou ali chorando e pensando em tudo o que acontecera naquela noite, abraada a Jeff.
        - Vivemos num mundo tresloucado, cheio de gente doida  - disse Jeff, baixinho. Pessoas que nos querem levar a alma, a vida, o dinheiro, a reputao, seja 
o que for!
        Tambm ele chorava, profundamente emocionado com a crueldade da morte de Bram, e pela mulher e os filhos, que iriam sentir a sua falta.
        Um louco roubara a vida a Bram, mas no a alma. A sua alma seria livre para sempre. Allegra sentou-se na areia e chorou, lembrando-se dele, do perodo em 
que se tinham conhecido e das suas conversas bem-humoradas. Fora um homem discreto, uma pessoa sem exigncias, e, contudo, estava constantemente a ser ameaado. 
Era demasiado bom, simples e puro, um fruto apetecvel para os lunticos.
        No fim dessa semana, quando o sepultaram e Allegra viu os filhos abraados  me, sentiu algo novo para si, profundo: queria um filho, um beb, um pedao 
de Jeff, antes que o destino se abatesse sobre eles e os separasse. Nunca sentira aquilo! Acima de tudo, sabia que havia algo que tinha de fazer primeiro, uma obrigao 
do corao. A vida era to preciosa, to curta, to facilmente roubada! No era para ser arrebatada, ou desperdiada; era para ser protegida e acarinhada. Ela j 
no podia salvar Bram, mas havia uma pequena vida que podia resgatar, e agora compreendia que estava destinada a faz-lo: o beb de Sam.
        Olhou para Jeff sem dizer nada, e depois fez-lhe a pergunta, quando iam para casa. A princpio, ele ficou admirado, mas depois a surpresa desvaneceu-se. 
Como no se haviam lembrado mais cedo? Iam casar da a um ms. Sam era demasiado jovem para ter um filho, mas eles no. Para eles isso estava certo, e no havia 
razo para entregar a criana a desconhecidos.
        - Acho que  uma grande idia  - concordou Jeff, vibrante e um pouco atordoado.
        - Est falando srio? - perguntou Allegra, deslumbrada; ele era realmente um ser humano extraordinrio.
        -  claro que estou falando srio. Vamos dizer  Sam. Mal tinham sobrevivido ao funeral de Bram e ao choque de o terem perdido e, no entanto, curiosamente, 
aquele era o seu ltimo presente. Era como se tivesse sido Bram a fazer a sugesto e eles tivessem agarrado aquele beb, que ningum se atrevera a aceitar antes. 
Agora, era deles.
        - No posso acreditar... - disse Allegra, rindo. Vamos ter um beb...
        Jeff tambm sorria, e Allegra esperava que Sam compreendesse o sentido da proposta. Os nicos que ficavam a perder eram os pais adotivos, os Whitman, mas, 
tal como Allegra lembrara a Sam, ela no lhes devia nada nessa fase, o beb ainda no nascera.
        Mais tarde, nesse mesmo dia, quando falaram com Sam, ela concordou imediatamente: era a soluo ideal e Jeff e Allegra seriam os pais perfeitos. Abraaram-na 
e Sam chorou de alegria; pelo menos, o beb estaria perto dela. Era uma bno para todos e a resposta s preces de Samantha.




CAPTULO 19

        Aparentemente, Katherine e John Whitman no concordaram com eles. No se sentiram agradecidos nem abenoados, nem reconheceram que Jeff e Allegra seriam 
os pais perfeitos. Por sinal, ficaram furiosos. A raiva no foi sequer suficiente para descrever a sua reao; j tinham sofrido demasiado para conseguirem escutar 
a voz da razo. Suzanne Pearlman tentou explicar-lhes o que se passara, que ainda no havia contrato e que Sam no tinha obrigaes para com eles, mas os Whitman 
sentiam que a vida lhes devia mais do que haviam alcanado at ento, que j tinham sido alvo de bastantes partidas cruis pregadas pelas mes que se arrependiam 
e lhes tiravam os seus bebs. Estavam sofrendo muito e procuravam magoar quem pudessem. Para eles, qualquer pessoa servia: os Steinberg, Allegra, Jeff, Sam, algum 
que pudessem ofender de qualquer forma, desde que dentro da legalidade. Consideravam que Sam era particularmente merecedora da sua vingana.
        Venderam a sua histria aos tablides por cento e cinqenta mil dlares,  revista What's New por mais setenta e cinco mil e a trs programas de televiso 
por vinte e cinco mil cada um. Ao todo um bom dinheiro pela destruio da paz de esprito de uma famlia e pela reputao de uma jovem. No seu dcimo oitavo aniversrio, 
Sam tinha o seu nome espalhado por toda a parte e nada do que diziam a seu respeito era agradvel. Os Whitman insinuavam que era uma prostituta, que dormira com 
meio mundo em Hollywood e que nem sequer sabia quem era o pai da criana. Forneceram aos tablides todos os pormenores de que dispunham e acrescentaram mais alguns: 
afirmaram que se drogava, que bebia e que ia para a cama com quase toda a gente, e que at se oferecera uma ou duas vezes a John quando estava grvida de oito meses. 
Era o tipo de histria que causava pesadelos s estrelas de cinema, mas que era ainda mais devastadora para uma jovem da idade de Sam. E como os pais eram pessoas 
clebres e se poderia argumentar que a exposio pblica de Sam se devia a eles, no tinha qualquer hiptese de recorrer  justia, e os Whitman sabiam. Os tablides 
jogavam sempre pelo seguro e a destruio de uma ou duas vidas no tinha qualquer importncia para eles. Era o seu ofcio.
        No entanto, para surpresa de todos, Sam suportou a situao com dignidade e com uma fora discreta; sofrera tanto que aquilo j quase no a afetava. Reduziu 
um pouco a sua apario em pblico, no recebia telefonemas e aparentava uma grande paz. E, como sempre, a famlia cerrou fileiras  sua volta e protegeu-a, tal 
como Jimmy. Ele estava a seu lado de noite e de dia e s vezes saam os dois de carro ou a p. Tornaram-se mais inseparveis do que nunca, e ele tinha tanta fora 
como ela. Falavam do assunto e das implicaes que tinha para Sam: os seus sentimentos estavam feridos, fora humilhada, e a comunicao social estava tirando o mximo 
partido da situao, mas Sam sabia a verdade acerca de si prpria, da sua vida e do beb. Compreendia melhor do que nunca que fora estpida com Jean-Luc, mas nunca 
fizera aquilo de que os tablides a acusavam. E as histrias que os Whitman tinham vendido no lhes davam um beb. Haviam feito tudo o que podiam para tortur-la 
e humilhar, para se vingar dela por no lhes ter dado o beb, mas a verdade  que Sam tinha a sua vida, a sua alma, a sua integridade e o beb. Sentia pena deles, 
mas, depois do que lhe tinham feito, no se arrependia de ter recuado na adoo: eram pessoas amargas, podres, vingativas. Os artigos tinham surgido em fora nos 
tablides nas trs ltimas semanas de Julho e a data do parto estava aproximando-se. As histrias a seu respeito continuavam a ser notcia, e os Whitman tinham dado 
mais uma entrevista, mas Sam parecia calma e cada vez mais prxima de Jimmy. No fizera comentrios  imprensa, e o pai garantira-lhe que o silncio era a posio 
mais sensata, embora muitas vezes fosse tambm a mais difcil.

        Foi nessa semana que Alan voltou da Sua. Telefonou a Allegra assim que chegou a casa e ficou magoado por ela no lhe ter dito nada mais cedo acerca de 
Sam. Carmen telefonara-lhe assim que a notcia estalara.
        - Meu Deus, o que est a acontecer? No me contou nada quando eu te telefonei!
        - Eu no sabia o que ela ia fazer, por isso no quis falar no assunto. Isto tem sido duro por aqui. No contei a ningum, mas agora toda a gente sabe, portanto 
 diferente.
        'Todas as pessoas" era um eufemismo: os tablides e a televiso tinham chegado a vrios milhes de pessoas.
        - O que tenciona ela fazer com o beb?
        Alan tinha pena de Sam; era uma menina to doce e to nova para ter um filho.
        - Eu e Jeff vamos ficar com ele  - respondeu Allegra, orgulhosa
        - No est se precipitando? Vocs ainda nem se casaram. Quando  que ele nasce?
        - Daqui a trs dias -  respondeu Allegra, soltando uma gargalhada.
        Allegra e Jeff tinham andado numa correria, tentando comprar fraldas e um bero, camisinhas, lenis de flanela, resguardos, biberes e cobertores. O equipamento 
necessrio era absolutamente esmagador. Era muito mais complicado do que um casamento, mas, de certo modo, mais divertido. Estavam os dois muito entusiasmados.
        E, no meio daquilo tudo, Jeff tentava acabar o filme e ela ia para o escritrio, procurando resolver a situao dos bens de Bram e ocupando-se de todos os 
outros clientes. Andava  procura de uma baby-sitter que a ajudasse na fase do casamento e da lua-de-mel, e em seguida tencionava tirar uma licena, se possvel 
depois da boda, at que todos estivessem adaptados  nova vida.
        Havia tanta coisa para organizar! Tinham colocado o bero mesmo no meio do quarto e Jeff pendurara no teto um mbile com carneirinhos e nuvens. Compraram 
bonecos com msica, bolinhas e camisolas e uma montanha de equipamento. Tinham tudo! Alan riu quando Allegra lhe fez a lista e admitiu perante eles que Carmen estava 
grvida outra vez, mas no tencionavam dizer a ningum, no fosse Carmen voltar a perder o beb. Ainda faltava um ms para ela terminar as filmagens. Andavam todos 
muito atarefados.
        Na noite a seguir ao regresso de Alan, Jeff e Allegra tinham ido para a cama tarde e estavam exaustos. Quando o telefone tocou, s duas da madrugada, Jeff 
partiu do princpio de que devia ser Alan ou Carmen. Era bvio que tinham discutido e Carmen queria desabafar.
        - No atendas.. - gemeu Jeff.
        Precisava desesperadamente dormir, e por uma vez Allegra sentiu-se tentada a dar-lhe ouvidos, mas depois pensou na irm.
        - E se  a Sam?
        - No pode ser -  disse ele, com ar infeliz. Estou demasiado cansado para ter um beb...
        Por fim, venceu a conscincia de Allegra, que atendeu o telefone. Era a me. A bolsa de Sam tinha rebentado h uma hora, e a princpio nada acontecera, mas 
de repente comeara a ter contraes fortes e regulares.
        - Tem certeza de que no   um falso alarme? - perguntou Allegra com nervosismo, e Jeff suspirou.
        - Estou demasiado cansado para isto... - repetiu. Allegra riu-se e deu-lhe um empurro.
        - No, no est. Vamos ter um beb.
        Um dia seria ela a acord-lo quela hora para ter o seu primeiro filho, mas naquele momento era Sam, e para eles o entusiasmo era semelhante.
        -  melhor vir -  disse a me. No pode perder este momento.
        J se encontravam no hospital, na sala de partos, e a dilatao de Sam estava a processar-se rapidamente.
        - Como  que ela est? - perguntou Allegra, preocupada com a irm mais nova.
        - No est mal -  respondeu a me, empunhando o relgio que usava para medir os intervalos das contraes. Depois acrescentou uma coisa que surpreendeu Allegra. 
Acabamos de telefonar ao Jimmy.
        Havia ternura na voz da me, e no censura.
        - Acha que fazemos bem? - perguntou Allegra.
        - Sam quer que ele esteja presente. Alm disso, o Jimmy tem-na acompanhado na preparao.
        Com tudo o que a filha estava a passar, Blaire sentia que tinha o direito de ter a seu lado quem lhe apetecesse. No quisera John Whitman ali, e com boas 
razes para isso, depois de tudo o que tinham dito a seu respeito, mas, curiosamente, queria Jimmy.
        Antes de sarem de casa, Allegra parou a olhar para o bero e para o mbile, no dia seguinte estaria ali um beb. A emoo f-la sorrir. Nunca se apercebera 
de que desejava tanto aquele beb. Era o acontecimento mais empolgante da sua vida!
        -  emocionante, no ? - comentou Jeff, pensando na mesma coisa. Abraou-a com um gesto carinhoso. Ainda bem que tomamos esta deciso!
        Era muito importante para eles, apesar de o momento ser um pouco estranho para terem um filho.
        - Tambm estou contente  - disse Allegra.
        Correram para o carro, de  jeans, camisetas e tnis velhos. Allegra tencionava ficar na sala de partos, e Blaire tambm, mas, quando chegaram ao hospital, 
estava sentada c fora, com Simon.
        - O que se passa? - perguntou Allegra, em pnico. A me sorriu: em certos aspectos, Allegra encontrava-se menos preparada para aquele momento do que Sam. 
Jeff bocejou e sentou-se ao lado de Simon. Estavam ambos sonolentos e o seu papel parecia ser o menos emocionante. A nica coisa que tinham a fazer era no se esquecerem 
de dizer a toda a gente o que haviam passado quando tudo aquilo terminasse.
        - Esto a observ-la -  explicou Blaire. Ela est a portar-se lindamente. A enfermeira acha que o parto no ser demorado, se continuar a este ritmo.
        - No devamos estar l dentro? - perguntou Allegra, preocupada. No queria abandonar Sam nem perder o nascimento do beb.
        - Achei que ela devia ficar uns momentos a ss com o Jimmy. Esto dando-se bem e ele tem-na ajudado muito na preparao para o parto. Parece-me que a Sam 
entrar em pnico se vir muita gente  sua volta.
        Deixaram-na sozinha com Jimmy durante mais algum tempo e depois Allegra e a me foram espreit-la, em bicos de ps. Sam estava sentada na cama, com um ar 
assustado, tentando respirar no meio de uma contrao, enquanto Jimmy falava com ela. Era extraordinariamente calmo para um rapaz de dezoito anos. Quando a dor terminou, 
deu-lhe  umas pedrinhas de gelo e passou-lhe um pano frio pela testa, enquanto ela se reclinava nas almofadas.
        - Como vai isso, Sam? - perguntou-lhe Allegra, com ternura.
        - No sei -  respondeu a irm, inquieta e agarrada  mo de Jimmy.
        O monitor mostrava que estava com mais uma dor, e eles repetiram o processo, sob o olhar atento e aterrado de Allegra. No entanto, Blaire considerava que 
estava tudo a correr bem e, quando o mdico chegou, manifestou a mesma opinio e elogiou Sam.
        - No vai demorar muito  - assegurou, alegremente, dando uma palmadinha na perna de Sam, depois de a ter observado. Iria ajudar o beb a nascer ali mesmo, 
na cama de partos, quando chegasse o momento. Est quase...
        Sam soltou um gemido angustiado.
        - Quase... No suporto isto por muito mais tempo  - disse ela, fitando Jimmy com os olhos cheios de lgrimas.
        - Ests se portando muito bem, Sam segredou Jimmy.
        No parecia um rapaz, mas sim um homem, quando pegou na mo de Sam sem dizer nada e esperou pela contrao seguinte. Blaire e Allegra sentiram-se completamente 
inteis e saram outra vez. Jeff adormecera e ressonava numa cadeira; Simon dormitava, com um jornal  sua frente. Era um lindo espetculo!
        - O que acha do fato de o Jimmy estar to envolvido com ela? -  perguntou Allegra  me, quando foram para o corredor e pararam para ver os bebs no berrio. 
Alguns estavam dormindo, mas a maioria chorava. Havia alguns recm-nascidos e outros ligeiramente mais velhos, esfomeados,  espera que os levassem s mes.
        Allegra foi de novo espreitar a irm, que estava sentada na beira da cama, enquanto Jimmy lhe esfregava as costas, sentado mesmo atrs dela. Uma enfermeira 
mostrava-lhes o que haviam de fazer, e Jimmy ajudou-a at a dar uma volta pelo quarto, mas Sam comeou a chorar quando veio a dor seguinte. Ento pegaram-lhe ao 
colo e puseram-na de novo na cama. Sam comeou a gritar quando a dor apertou e Jimmy mudou-a de posio. Estava a ser extraordinrio e Allegra sentia-se profundamente 
comovida com o que via. Durante toda a noite, Sam lutou com as contraes. Ao amanhecer, ainda no havia sinais do beb, mas todos diziam que ela se estava a portar 
muito bem, exceto Sam, que afirmava ter chegado ao limite das suas foras: queria medicamentos, queria ajuda, queria tudo. Estava agarrada aos braos de Jimmy e 
chorava sempre que tinha uma contrao. Quando Allegra julgava que ela no agentava mais, o mdico disse-lhe que podia comear a fazer fora. Iniciara-se verdadeiramente 
o trabalho de parto, mas Sam olhava para eles e chorava.
        - No posso... - repetia. Estava exausta.
        - Sim, pode -  insistia Jimmy. V l, Sam... Por favor... Tem de conseguir!
        Pareciam duas crianas a dar coragem uma  outra, mas Blaire, que os observava, via o que Allegra no via: eles j no eram crianas, eram muito mais do 
que isso. Tinham amadurecido durante a noite, eram um homem e uma mulher. Recordou-se do nascimento dos filhos, de Paddy, de Allegra, e depois dos outros. A sua 
vida mudara da em diante, assim como a relao que tinha com o marido. Jimmy no era o pai do beb, mas podia ter sido. Estava ali totalmente por causa de Samantha. 
E ela ignorava a presena de todas as outras pessoas que se encontravam no quarto. S queria Jimmy.
        Haviam-lhe levantado as pernas. Sam tinha umas dores horrveis, suplicava-lhes que parassem com aquilo e agarrava-se a Jimmy. O mdico dizia-lhe que fizesse 
fora, mas ela no era capaz. Jimmy ajudou a levantar-lhe a cabea e os ombros e, por fim, ela comeou a colaborar. Com o auxlio de Jimmy, conseguiram anim-la 
e o beb comeou a mexer-se lentamente. Blaire no suportava v-la a sofrer tanto e saiu do quarto, com Allegra, mas Jimmy no arredou p durante toda a noite: estava 
ali para ajud-la. Pouco antes das nove, Blaire voltara a entrar no quarto e deparara com um frenesi generalizado: estavam a levar um bero; tinham chegado mais 
duas enfermeiras, o mdico agarrava nas pernas de Sam e Jimmy segurava-a, para ela conseguir expulsar o beb. Seguiu-se uma sbita corrente de ar vinda do interior 
do corpo de Sam e ela deixou-se cair contra Jimmy, completamente  esgotada, incapaz de fazer mais nada. Depois desatou a gritar com a contrao seguinte, mas, dessa 
vez, no a deixaram descansar, continuaram a pression-la, at que um som encheu o quarto: era a msica do seu beb, o seu vagido, e depois um grito, seguido dos 
risos e das lgrimas de Sam, misturados com os de Jimmy.
        - Oh!, meu Deus... Oh!, meu Deus...  to bonito! Ele est bem? - perguntou Sam, sem flego, mas muito emocionada.
        -  perfeito -  respondeu o mdico.
        Jimmy estava sem fala, mas a expresso do seu olhar fixo em Sam dizia tudo. Depois, com a mesma discrio, pegou-lhe na mo e beijou-a.
        - Amo-te, Sam. Voc  incrvel  - disse-lhe em voz baixa.
        - Eu no teria conseguido sem voc!
        Sam encostou-se nas almofadas e ele ficou a seu lado, enquanto as enfermeiras deitavam o beb junto da me. Sam levantou a cabea e, ao ver Allegra, virou-se 
para Jimmy e trocou com ele um olhar de entendimento. Allegra e a me estavam no quarto. Jeff e Simon tambm se encontravam presentes e admiravam o rapazinho saudvel 
que gritava a plenos pulmes, solicitando a me. Todos se riram, mas Sam fitou Jeff e Allegra, e havia remorso no seu olhar. Detestava feri-los, mas, por muito que 
os amasse, sabia que no havia alternativa. Tinha de faz-lo.
        - Eu e o Jimmy temos uma coisa para dizer. Tomou flego e apertou a mo de Jimmy. Casamos na semana passada. Temos dezoito anos, e, apesar de sabermos que 
 difcil sustent-lo sozinhos, queremos ficar com o beb. Allegra, desculpa...
        Sam desatou a chorar e tocou na mo da irm. Desiludira tanta gente! Os pais, os Whitman, que queriam adot-lo, e agora Allegra e Jeff, que olhavam para 
ela, espantados.
        - Quer ficar com o beb? - perguntou Jeff  futura cunhada, e ela fez um sinal afirmativo, sem conseguir dizer mais nada. Est bem, ele  teu filho acrescentou 
com ternura, dando-lhe uma palmadinha na mo. Tinha lgrimas nos olhos. Ns queramos ficar com ele para que no sasse da famlia, mas o beb te pertence. Depois 
olhou para Jimmy com um sorriso viril. Parabns!
        Jeff ps um brao  volta da cintura de Allegra
        - No se importa, Allie - perguntou Sam, olhando para a irm mais velha
        - Acho que no  - respondeu ela, tristemente. Parece que ainda estou atordoada com isto tudo. Sinto-me feliz por ti. Fiquei entusiasmada, mas, ao mesmo tempo, 
andava um pouco assustada.  cedo para ns. No entanto, queria o beb, e desistir da idia fora apenas um recurso, mas Jeff tinha razo afinal, o beb pertencia 
 me. Vamos levar tudo o que temos para casa da me. Bem precisa.
        Allegra sorriu a ambos, com os olhos cheios de lgrimas; queria o beb, mas, em parte, no queria. Tal como Jeff As emoes eram contraditrias, mas tentavam 
fazer o que fosse melhor para todos. Blaire fitou-os, incrdula, tentando interiorizar o que acabava de acontecer.
        - Sem cozinha, com um casamento  porta e agora com um beb - disse ela, aligeirando o ambiente e referindo-se  declarao de Sam. Depois se virou para 
Jimmy com um sorriso. E um novo genro. Acho que vamos ter muito que fazer l em casa
        Nunca voltariam as costas  filha, nem ao filho, e Blaire j sabia que Jimmy era digno desse afeto
        - Acho que sim, me  - concordou Sam, sorrindo e olhando para o seu beb; era to bonito e lutara tanto por ele.
        - Vocs podem ficar vivendo conosco  - disse Simon num tom um pouco rspido, dirigindo-se ao jovem casal.
        Iam os dois para a mesma faculdade. Sam estava a pensar em levar o beb, para poder amament-lo durante os primeiros meses. Ultimamente falara muito com 
Jimmy nesse assunto e tencionavam tentar aproveitar algumas aulas comuns
        - Isso significa que eu posso agora voltar para a cama -  perguntou Jeff com um bocejo, provocando o riso de toda a famlia. Em seguida olhou para o relgio. 
Acho que j no vou ter tempo. Tenho de ir trabalhar
        -  to parvo, mas eu e amo  - disse Allegra. Todos beijaram Sam, Jimmy e o beb, que ainda no tinha nome, andavam a pensar nisso. Sam gostava de Matthew, 
que, em sua opinio, dava bem com Mazzolen, Blaire tencionava falar com a me de Jimmy, agora que sabiam o que o jovem casal fizera. Tinham sido muito corajosos, 
embora bastante imprudentes, mas talvez conseguissem ultrapassar tudo. A verdade  que havia outras pessoas na famlia a quem tinham acontecido coisas mais estranhas. 
A av de Blaire casara aos quinze anos e vivera setenta e dois com o mesmo homem. Talvez Sam fosse to feliz como ela.
        Allegra foi levar Jeff ao estdio. No caminho falaram do beb e do que sentiam por no terem ficado com ele.
        - Ficou muito desiludida? - perguntou Jeff, tentando expulsar tudo da sua mente. Fora uma noite emotiva para todos e estava preocupado com Allegra.
        - Mais ou menos, mas acho que, em parte, tambm estou aliviada. Ainda no sei ao certo o que sinto, mas respeito a vontade da Sam.
        Ambos sabiam que fora a deciso acertada.
        - Tambm eu  - confessou ele. Sei que teramos gostado muito do beb, mas prefiro que comecemos por ter um nosso, se pudermos. De qualquer modo, faria isso 
pela Sam. Nunca concordei que ela o entregasse para adoo, parecia-me uma soluo muito cruel para todos. Jeff fizera-o por Allegra e por Sam.
        Allegra concordou e Jeff olhou para ela com um sorriso rasgado.
        - Agora temos de fazer o nosso. Vai ser divertido... Sorriram ambos, pensando que aquele desfecho fora o mais certo para todos. Nos ltimos tempos, a vida 
dera algumas reviravoltas estranhas, como se danasse uma espcie de tango.
        Em Bel Air, Simon e Blaire deixaram-se ficar em casa. Entraram na cozinha recm-mutilada, que, ainda assim, no perdera toda a sua funcionalidade. Blaire 
fez caf e sentaram-se ambos  mesa. Fora uma longa noite, repleta de uma mirade de emoes. Sentiam-se ambos orgulhosos, mas um pouco cansados. Fora difcil para 
Blaire ver a filha com tantas dores e o beb despertara neles sentimentos ambivalentes. Porm, quando tinham visto Sam com ele ao colo, tudo lhes parecera certo. 
E o que sentiam nesse momento era ainda mais confuso: estavam contentes ou tristes? Aquele nascimento  fora uma tragdia, como haviam pensado a princpio, ou uma 
bno?
        - Ento o que acha? - perguntou Simon, suspirando. Sinceramente, Blaire. Aprova ou no? Aqui entre ns
        J tinham prometido apoiar Sam e Jimmy em todos os seus esforos.
        - Eles so muito novos, mas, no sei por que, acredito que tudo correr bem respondeu Blaire, esfregando os olhos e fitando o marido com ar sincero. O beb 
 to querido, independentemente do modo como entrou nas nossas vidas! Ele no tem culpa E eu gosto do Jimmy. Que menino fantstico! Tem sido maravilhoso para a 
Sam. No era isto que eu queria para ela, se algum me perguntasse, mas talvez d certo, a longo prazo.        
        Era o que todos desejavam secretamente ao jovem casal. E Jimmy ficara ao lado de Sam muito antes de o beb nascer; no seria possvel pedir-lhe mais, mesmo 
que ele fosse o pai. A verdade  que a maioria dos homens da sua idade no teriam sido to solidrios.
        - Eles foram patetas, ao casarem assim, sem nos dizerem nada  - replicou Simon, de sobrolho franzido, bebendo o caf, mas temos de reconhecer que, pelo menos, 
tentaram desfazer esta confuso. O Jimmy  bom tipo. E o beb  lindo, no ? - acrescentou com enlevo, lembrando-se dos seus prprios filhos  nascena.
        -  adorvel -  reconheceu Blaire, e depois esboou um sorriso triste. Lembra-se como o Scott era bonito quando nasceu?
        - E a Sam  - disse ele, saudoso, recordando-se das madeixas de cabelo dourado e dos grandes olhos azul-escuros e olhando ternamente para Blaire.
        Ultimamente estas recordaes pareciam muito longnquas, embora a culpa no fosse dela. Haviam comeado a afastar-se e Simon aventurara-se a ir um pouco 
mais longe, mas agora ambos sabiam que o tecido do seu casamento se rasgara. Ele pensara, de forma idiota, que Blaire no se aperceberia se se afastasse por uns 
tempos. Continuava ali, oficialmente, mas, no seu ntimo, partira por uns meses, e agora sabia que o preo a pagar por ambos era muito alto.
        - Desculpe, Blaire. Sei que tem sido um ano difcil.
        A princpio, ela no respondeu; estava pensando no passado prximo. s vezes, percorria a casa, via as fotografias, que lhe lembravam melhores dias, e emocionava-se. 
Lembrava-se dos tempos em que Simon a fitava daquela maneira, quando os seus abraos eram apertados e os olhares que trocavam emocionados e vivos. Agora se sentia 
morta por dentro. Nunca esperara, nunca imaginara, que o marido pudesse feri-la daquela maneira.
        - Fui to estpido... - disse ele em surdina, com as lgrimas nos olhos, pegando-lhe na mo.
        Simon sentiu-se mal ao ver o que fizera  mulher. Elizabeth fora um sopro de nova vida para ele, e empolgara-o, mas nunca a amara verdadeiramente, como amava 
Blaire. E nunca quisera que ela soubesse. Fora um erro terrvel, mas agora era demasiado tarde. Via no abandono dos ombros de Blaire, nas cinzas que pairavam nos 
seus olhos quando a observava, que aquilo que ambos tinham partilhado noutros tempos desaparecera. A princpio ela ficara amarga, irritada e assustada, mas agora 
se sentia apenas cansada e triste. Simon apercebia-se disso, e, para si, a tristeza de Blaire era pior do que a fria.
        - Essas coisas acontecem... - respondeu ela, filosofando. No pronunciaram o nome de Elizabeth, mas ambos sabiam do que estavam a falar. Nunca esperei que 
isto nos sucedesse. Foi a parte mais difcil. A princpio no acreditei, mas depois compreendi que ramos como todas as outras pessoas, gastos, destroados e amargos. 
Era como se tivssemos perdido toda a nossa magia  - confessou, olhando para ele pela primeira vez desde h muito tempo.
        Simon falou baixinho e pegou-lhe na mo, do outro lado da mesa.
        - Voc  nunca perdeu a sua magia, Blaire.
        - Perdi, sim... Quando ns perdemos a nossa.
        - Talvez no a tenhamos perdido... Talvez s a tenhamos utilizado mal  - insistiu ele, com esperana, e sorriu.
        No podia imaginar que as coisas voltassem ao ponto em que se encontravam; fora uma grande mudana, embora no se visse. Aparentemente, eram os mesmos de 
sempre, delicados, inteligentes, criativos, pessoas felizes, com uma grande famlia e uma vida cheia de ternura, mas, por dentro, Blaire sabia que tudo era diferente. 
Passara o ltimo ano completamente s, abandonada pela segunda vez na sua vida.
        - Vai ser bom ter um beb em casa  - disse ele, baixinho.
        Blaire olhou-o com um ar triste e derrotado.
        - Se  o que deseja, Simon, ainda pode ter um filho. Eu no posso.
        - Isso  importante para ti? - perguntou ele, admirado. Jamais pensara nessa hiptese com Elizabeth. Casamento e filhos nunca tinham estado em questo, tratara-se 
apenas de prazer e de emoo. Porm, Blaire respondeu com um gesto de cabea.
        - s vezes, . Ter filhos foi importante para mim. Agora sinto-me to velha!
        Nesse ano passara pela mudana de idade, o mesmo ano que o marido escolhera para lhe ser infiel com uma mulher que tinha quase metade da sua idade, praticamente 
a mesma da filha mais velha. No mnimo, no fora muito oportuno, mas Blaire nada pudera fazer para  evitar.
        - Eu no quero mais filhos  - declarou Simon com determinao. Sempre quis estar casado contigo e com mais ningum, nunca te quis deixar, Blaire. E tenho 
conscincia de que cometi um erro tremendo, mas s queria afastar-me por uns tempos. Na verdade, no sei o que me aconteceu; sei apenas que estou velho e estpido. 
Ela era nova, adulava-me, e talvez voc e eu tivssemos chegado a um impasse, mas nunca me arrependi tanto de uma coisa na minha vida. Ambos haviam pago um preo 
demasiado alto pelos prazeres de Simon. A Elizabeth no te chega aos calcanhares -  disse, com ternura. Era difcil ser to honesto com ela, mas Simon sentiu que 
chegara o momento. Ningum vale metade do que voc vale assegurou, - inclinando-se para beij-la.
        Por instantes, Blaire sentiu algo por ele que j no sentia h um ano.
        - Agora sou av, sabe? - disse ela com um sorriso tnue. Beijou-o, hesitante; pronunciar estas palavras j era um choque.
        Riram-se ambos.
        - E depois? Eu at me sinto mais velho do que sou! A princpio, com Elizabeth Coleson parecia que havia rejuvenescido, mas perder Blaire, em termos emocionais, 
fizera-o sentir-se de repente cem anos mais velho. V l  - insistiu, levantando-se lentamente e abraando-a, leva este velhote l para cima. A noite foi longa e 
eu preciso de me deitar.
        Havia malcia no seu olhar quando subiu as escadas com a mulher. Estavam ambos cansados, mas tinha algo em mente que no se atrevia sequer a sugerir h meses.
        - Se voltar a fazer o mesmo... -  advertiu Blaire com um lampejo no olhar que no lhe via h muito tempo e que o alvoroou. O seu andar era leve e o corpo 
atraente. Blaire subiu as escadas  pressa e, quando chegou l acima, deu-lhe um olhar violento e arrasador. No repita a graa, Simon Steinberg! No h compaixo 
nesta casa para velhos que se portem mal!
        Mas no foi necessrio Simon dizer nada; no modo como a fitava Blaire viu o remorso e todo o amor que lhe dedicava. O marido voltara para ela, apesar de 
tudo. Blaire estremeceu ao pensar que estivera quase a perd-lo.
        - Nem precisa de me avisar -  retorquiu, abraando-a e beijando-a. Nunca mais voltar a acontecer!
        - Ai isso no! Blaire sorriu-lhe ao entrarem no quarto inundado de sol; estava um belo dia. Para a prxima, mato-te! - acrescentou baixinho. No entanto, 
o mais provvel era que ela morresse se o perdesse.
        - Anda c! - disse Simon num tom rspido e sensual.
        H meses que no faziam amor, e nesse momento ele desejava-a ardentemente. Atiraram-se para cima da cama como dois meninos. Blaire riu dele e, de sbito, 
Simon comeou a beij-la e ela recordou tudo o que tanto lhe custara a esquecer como o amava, como ele era atraente e como ambos se tinham divertido juntos. Nunca 
pensara que conseguiria voltar a confiar no marido, ou sequer a am-lo, mas, ali deitados ao sol, no dia em que nascera o seu primeiro neto, ambos descobriram, aliviados, 
que nada se perdera. Quanto muito, o amor que sentiam um pelo outro aumentara, e reconheceram que tinham sido felizes e que o filho de Sam os abenoara.



CAPTULO 20

         medida que Agosto avanava, todas as coisas importantes das suas vidas pareciam acontecer tal como eles queriam. O filme de Jeff corria s mil maravilhas. 
Carmen continuava  trabalhando e a portando-se bem e a sua gravidez no causara problemas, embora Alan aparecesse sempre que filmava uma cena de amor, o que levara 
o diretor a manifestar o seu desagrado a Allegra. No entanto, os dois filmes iam de vento em popa. Allegra, entretanto, estava ajudando Jeanie Morrison a vender 
a casa de Beverly Hills e a mudar-se para o seu rancho, no Colorado. Jeanie queria afastar-se o mais possvel e concluir a mudana antes de os filhos comearem as 
aulas, em Setembro. Continuavam rodeados de guarda-costas vinte e quatro horas por dia, mas, aparentemente, o acontecimento que destrura as suas vidas fora o gesto 
perturbado e delirante de um pistoleiro ocasional. Provocara um grande clamor entre as celebridades de Los Angeles, porque realara a insanidade do pblico e a proteo 
insuficiente que a lei lhes proporcionava, mas Jeanie no estava interessada em exercer presses nem em fazer discursos, queria apenas sair da ribalta e desaparecer 
com os filhos.
        Allegra tinha muita pena deles, e em Setembro iria realizar-se um concerto em memria de Bram. Estava marcado para pouco depois do seu casamento, e ela falara 
com Jeff na hiptese de adiarem a lua-de-mel, mas, por fim, reconhecera que havia limites a definir da em diante, por isso telefonou a Jeanie e explicou-lhe o que 
se passava; esta compreendeu perfeitamente. Allegra j fizera muito por eles e sempre fora extraordinria para Bram.
        O beb de Sam, Matthew Simon Mazzoleri, era a alegria e o orgulho de todos e estava cada vez mais gordo. Sam amamentava-o e Jimmy tirava-lhe fotografias 
constantemente e filmava centenas de vdeos em todas as situaes, tomando banho, dormindo, na piscina, na relva... O beb acompanhava-os para toda a parte e, duas 
semanas depois, Sam voltara ao que era; recuperara at a sua figura esguia e elegante.
        Os Whitman continuavam a vender artigos vexatrios aos tablides e deram mais uma entrevista  televiso depois do anncio do nascimento de Matthew 'Sr. 
E Sr.  James Mazzolen (Samantha Steinberg) tiveram um filho, Matthew Simon, no dia 4 de Agosto, em Cedars-Sinal, com quatro quilos e cem'. Em geral, os anncios 
indicavam tambm que Sr.  Mazzolen era filha de Simon Steinberg e de Blaire Scott. Surgiu uma fotografia muito engraada de Sam com Jimmy e o beb num jornal de 
Los Angeles, e George Christy referiu-se a eles no Hollywood Reporter, na sua coluna 'A boa vida'.
        Os Steinberg tambm se tinham reunido demoradamente com a Sr. Mazzolen, apesar de ter ficado chocada com o que o filho fizera; casar com Sam sem dizer a 
ningum, afirmara que era tpico dele tentar resolver os problemas sozinho. Desde que o marido morrera, Jimmy fora extraordinrio para a famlia, mas preocupava-a 
aquilo que os Steinberg esperavam dele, pois queria que o filho fosse para a UCLA, como estava planejado. Porm, os Steinberg desejavam o mesmo. Blaire e Simon tinham-lhes 
oferecido a casa de hspedes, que lhes servia perfeitamente. Iam ambos para a universidade no Outono, e Simon mostrou-se disposto a sustent-los at que terminassem 
os estudos, depois, como todos os seus outros filhos, Sam e Jimmy ficariam entregues a si prprios. Blaire j pedira  governanta que ajudasse a tomar conta do beb 
durante o dia, quando eles fossem para as aulas, e os pais encarregar-se-iam do resto. A Sr. Mazzolen ficou-lhes muito grata. Alm disso, Simon assegurou-lhe que 
o filho fora fantstico para Sam e que, apesar da idade de ambos, acreditava que tudo havia de correr bem.
        A situao entre Simon e Blaire melhorara incomensuravelmente. At parecia uma segunda lua-de-mel, agora que Sam vivia na casa de hspedes com Jimmy e Matt 
e haviam ficado sozinhos Eles prprios estavam surpreendidos e envergonhados.

        J no se lembravam de estar a ss fosse onde fosse, e depressa estabeleceram uma poltica, os filhos tinham de telefonar antes de entrarem na casa principal 
E, sempre que isso acontecia, Simon ficava admirado com a rapidez como se gerava o caos  sua volta: carrinhos, cadeirinhas, porta-bebs, fraldas descartveis... 
As mil e uma coisas de que Matt precisava pareciam estar em todo o lado; Sam amamentava-o em todas as divises e Jimmy parecia uma criana grande e desengonada 
a correr pela casa. Simon montou um novo cesto de basquete no quintal e s vezes saam e iam jogar os dois, para se distrarem, para se descontrarem ou s para 
conversarem. Simon sentia-se muito satisfeito com a inteligncia de Jimmy e com a sua determinao em ir para a universidade e em se valorizar. Estava decidido a 
ir para a Faculdade de Direito, como o pai, e tentava convencer Sam a fazer o mesmo. Os Steinberg estavam satisfeitos e impressionados com a sua dedicao como marido.
        O nico grande fator de perturbao na casa continuava a ser as obras. Dezenas de jardineiros atacavam o quintal todos os dias e na cozinha, onde ainda era 
possvel fazer comida, os operrios arrancavam os velhos azulejos e mudavam a instalao eltrica no teto.
        O que era assustador  que faltavam s trs semanas para o casamento. O jardim estava longe de ficar pronto, as damas de honra ainda no tinham os seus vestidos 
e o da noiva nem sequer chegara. Allegra andava histrica por causa de mil e um outros pormenores.  noite tentava falar com Jeff, mas ele estava muito cansado. 
Queria acabar o filme da a dez dias, por isso andava irritvel e muitas vezes implicava com ela; a tenso do estdio estava a dar-lhe cabo dos nervos.
        - Ouve, Allegra, eu sei... Mas no podemos falar disso noutra altura? - resmungava, entre dentes.
        Delilah Williams telefonava-lhes para casa de noite e de dia e perturbava-o ainda mais do que o filme. Tinham sido precisos seis meses para ensinar Alan 
e Carmen, e agora Delilah ligava para eles s onze da noite para trocar impresses sobre uma 'alterao' no bolo ou uma 'idia' fabulosa para as flores e os ramos 
das damas de honra. Jeff e Allegra tinham vontade de mat-la!
        Haviam sido duas semanas infernais para ambos, e a tenso atingiu o auge quando, uma noite, o telefone tocou a altas horas, como era habitual. Allegra calculou 
que fosse Delilah outra vez, a queixar-se de que Carmen no provara o vestido, e ela teria de lhe lembrar que a amiga o faria assim que terminasse as filmagens. 
Todavia, ao pegar no aparelho, ouviu uma voz familiar, mas que a princpio no reconheceu: era o pai, Charles Stanton. Estava telefonando de Boston, em resposta 
 carta que ela lhe enviara h uns meses e  qual nunca respondera.
        - Voc vai casar? -  perguntou, com cautela, depois de saber como estava. H sete anos que Allegra no o via nem falava com ele.
        - Evidentemente.
        S de lhe ouvir a voz, Allegra sentiu o corpo rgido. Jeff entrara no quarto e, ao olhar para ela, no pudera deixar de lhe perguntar quem estava ao telefone. 
Por instantes, admitiu que fosse Brandon; enviara-lhe um bilhete h umas semanas, a insinuar que teria casado com ela, e fizera questo de lhe participar que finalmente 
se divorciara de Joanie. Tivera mesmo o descaramento de lhe pedir que lhe telefonasse, para irem almoar um dia. Allegra mostrara o bilhete a Jeff e em seguida jogara-o 
fora.
        - Algum problema? - perguntou, inquieto.
        Allegra abanou a cabea e ele voltou para o escritrio, onde estava a trabalhar.
        - Ainda quer que eu v a? - continuou o pai.
        Allegra no se recordava de lhe ter pedido nada, mas talvez o tivesse feito na carta que lhe enviara. Julgava que se limitara a participar-lhe o casamento.
        - No creio que isso tivesse alguma importncia para voc  -  retorquiu. Os nossos contatos so praticamente inexistentes.
        Estas palavras eram ao mesmo tempo uma censura e uma constatao.
        - Continua sendo minha filha, Allegra. Tirei uns dias de frias e pensei que, se gostasse, poderia ir ao teu casamento.
        Allegra no 'gostava' de nada que lhe dissesse respeito, nem via interesse na sua presena, mas a verdade  que lhe pusera a questo h cerca de trs meses. 
J se arrependera; preferia no lhe ter dito nada. E apeteceu-lhe perguntar por que motivo  que ele queria agora vir ao seu casamento depois de todos aqueles anos, 
depois de todas as crticas, depois de t-la rejeitado, que lhe interessava que ela se casasse?
        - Tem certeza que no  um grande incomodo para voc? - perguntou, atrapalhada; o pai sempre lhe fizera sentir que a rejeitara.
        - De maneira nenhuma. No  todos os dias que tenho oportunidade de levar a minha filha ao altar. Afinal, voc   a minha nica filha!
        Allegra estava boquiaberta. O que lhe dissera ela? Como  que interpretara as suas palavras daquela maneira? No tencionava ser conduzida ao altar por ele, 
Charles Stanton nunca a acompanhara, nunca! Seria Simon a lev-la ao altar, ele que estivera sempre presente.
        - Eu... Bem...
        Faltaram-lhe as palavras e no lhe conseguiu dizer que no queria entrar pelo brao dele na igreja. Antes que pudesse responder, ele participou-lhe que chegaria 
de Boston na sexta-feira  tarde, o dia do jantar de ensaio; ficaria em Bel Air. 'Merda!', exclamou Allegra entre dentes, ao desligar. Frentica, telefonou  me. 
Os preparativos para o casamento estavam sendo um tormento, e no podia acreditar no que acontecera: tinha dois pais  espera de a levarem ao altar, um dos quais 
odiava.
        Simon atendeu ao telefone ao segundo toque e pareceu-lhe muito calmo. Allegra conhecia aquela voz; em geral, queria dizer que havia algum problema grave, 
mas, como j tinha a sua conta nessa noite, no perguntou nada.  pressa, pediu para falar com a me.
        - Ela agora est ocupada  - respondeu, muito calmo. Pode telefonar mais tarde?
        - No, preciso falar com ela imediatamente!.
        - Allie, ela no pode respondeu Simon num tom firme, que a assustou.
        - H algum problema, pai? A me est doente? Era mesmo do que precisava, que a me adoecesse gravemente antes do pesadelo do casamento a que a tinham obrigado, 
com aquela tarada, a Delilah, a borboletear  sua volta! Onde est ela?
        - Aqui, mesmo ao meu lado  - respondeu Simon, tocando no brao da mulher. Est um pouco aborrecida. Blaire estava a chorar h uma hora. Simon ergueu o sobrolho, 
perguntando-lhe se podia contar o que se passara a Allegra, e ela fez um sinal afirmativo; a verdade  que seria mais fcil para ele dizer a todos.
        - Recebemos um telefonema do Tony Garcia h uma hora: vo cancelar o programa da tua me. Esto preparando um final em grande estilo, que tencionam transmitir 
daqui a umas semanas, e depois saem de cena.
        Ao fim de cerca de dez anos, era um rude golpe para Blaire; era como se tivesse perdido uma velha amiga.
        - Pobre me -  exclamou Allegra. Como  que est aceitando isso?
        - Mal  - respondeu Simon com sinceridade.
        - Posso falar com ela? - perguntou Allegra, hesitante. No entanto, quando Simon consultou Blaire, esta disse que telefonaria  filha mais tarde.
        Allegra desligou e ficou pensando na me: Blaire trabalhara muito e alcanara tantos xitos com aquele programa! Durante muito tempo, ele realizara-a verdadeiramente, 
e agora acabara. Imaginava como a me devia estar e sentiu-se solidria com ela.
        - O que h? - perguntou Jeff, entrando e vendo a expresso de Allegra; parecia ter recebido uma m notcia.
        - Acabaram de cancelar o programa da minha me.
        Era um anncio sombrio e, de certo modo, a poeira ainda no assentara. Buddies fazia parte da vida de Blaire, ao ponto de Allegra no conseguir pensar na 
me sem ele, e agora teria de preparar o ltimo episdio  pressa. A ocasio era pssima, com o seu casamento  porta.
        - Lamento  - disse Jeff, compreensivo. Ela andava preocupada h algum tempo. Quem sabe se adivinhou?
        -  curioso... Pareceu-me que ela tinha melhorado nestas ltimas semanas. E era verdade, desde que voltara a aproximar-se de Simon, Blaire parecia mais feliz 
e menos absorta. Talvez no se sentisse bem. De qualquer modo, o pai diz que aceitou mal a situao. Talvez eu devesse ir ter com ela.
        - Depois  - falou-lhe do telefonema do pai e do seu aparecimento inesperado no casamento. Convencera-se de que nunca mais ouviria falar dele. At se esquecera 
da carta!
        - Est mesmo esperando de me levar ao altar. Acredita? Depois de todos estes anos, est convencido de que eu o deixo fazer tal coisa. Deve julgar que sou 
muito estpida!
        - Talvez pense que  isso que voc espera dele ou j no saiba como h-de agir contigo. Pode ser que tenha mudado. Devia dar-lhe uma oportunidade e, pelo 
menos, falar com ele enquanto estiver aqui.
        Tal como Simon, Jeff tentava sempre ser simptico, mas Allegra ficou furiosa com a sugesto.
        - Est brincando? E quando  que julga que eu vou ter tempo para uma conversa como essa? Dois dias antes do nosso casamento?
        - Talvez valha a pena arranjar disponibilidade. Ele teve um impacto enorme na sua vida, Allegra.
        De certo modo, Jeff considerava que era importante reconhecer esse impacto.
        - Nem sequer vale a pena eu v-lo, Jeff. Estou arrependida de lhe ter escrito!
        Allegra ficara furiosa com Jeff, por ele ter sugerido que desse uma oportunidade ao pai, e com este, por ser to arrogante.
        - Est sendo muito dura - insistiu Jeff serenamente. Ele vem porque voc o convidou. Parece que est tentando.
        - Tentando o qu? Agora  demasiado tarde. Tenho trinta anos e no preciso de um pai!
        - Precisa, caso contrrio no teria escrito. No parece que chegou o momento de resolver as coisas entre vocs? Acho que esta  uma oportunidade como qualquer 
outra. Tudo tem um princpio e um fim.
        - Voc no percebe nada disso! - explodiu Allegra, andando de um lado para o outro na sala. No podia acreditar que Jeff lhe estava dizendo para dar uma 
oportunidade ao pai, ele que sempre fora um patife para ela! No faz idia do que se passou aps a morte do meu irmo, o que ele bebia, como batia na minha me, 
como nos tratou depois de sairmos de casa e virmos para a Califrnia. Ele nunca perdoou  minha me o fato de t-lo deixado e acusou-me sempre disso. Odiava-me! 
Talvez lamentasse que no tivesse sido eu a morrer, em vez do Patrick;  provvel que o Paddy tivesse sido mdico como ele.
        Allegra soluava, e todos os seus terrores e imperfeies pairavam sobre ela.
        - Talvez precisem falar acerca disso  - sugeriu Jeff, aproximando-se dela. Como era ele antes de o teu irmo morrer, se  que te recordas?
        - Sempre foi frio e era uma pessoa muito ocupada. Faz-me lembrar muito a tua me, incapaz de se abrir, de se aproximar dos outros e de se relacionar fosse 
com quem fosse. No era muito humano  - respondeu com candura, olhando para Jeff, embaraada. Apesar de ambos terem reconhecido que o fim-de-semana em Southampton 
fora horrvel, nunca criticara abertamente a me dele.
        - O que significa tudo isso? A minha me  muito reservada, mas  perfeitamente humana, Allegra  - replicou Jeff, glido.
        - No duvido. Allegra tentava retroceder, mas estava aborrecida por ele ter tomado o partido do pai e se mostrar compreensivo para com ele. Exceto se for 
judeu acrescentou,  pressa.
        De sbito, Jeff afastou-se, como se ela fosse radioativa.
        - Esse comentrio  muito desagradvel. A pobre senhora tem setenta e um anos e  de outra gerao!
        A mesma que enviou os judeus para Auschwitz. No me pareceu que fosse uma pessoa meiga e interessada enquanto ns l estivemos. O que diria ela se no lhe 
tivesses participado que o meu 'verdadeiro' nome era Stanton e no Steinberg? No devia ter feito isso. Foi um ato de covardia, na verdade.
        Allegra deu-lhe um olhar fulminante do outro lado da sala e Jeff tremia de raiva com aquilo que ela dissera da me.
        - Tal como  a recusa em falar com o seu pai. Provavelmente o pobre j pagou por aquilo que fez nestes ltimos vinte anos. Ele tambm perdeu um filho, alm 
da tua me. Ela teve mais filhos, tem outra vida, outra famlia, outro marido. E ele? Segundo diz, no tem absolutamente nada!
        - Porque se mostra to compreensivo, pelo amor de Deus? Talvez ele no merea nada, talvez seja por sua culpa que o Paddy tenha morrido. Se no tivesse sido 
ele a trat-lo, ou se no estivesse embriagado, talvez o tivesse salvo!
        -  isso que voc pensa? -  Jeff estava assustado: aqueles eram os demnios que a perseguiam h vinte anos, que danavam naquela sala, e at Allegra parecia 
amedrontada. Acha que ele matou o seu irmo? - Insistiu, horrorizado. Era uma afirmao terrvel acerca de qualquer pessoa, sobretudo de um pai.
        - No sei o que penso -  respondeu ela com uma voz rouca.
        Porm, Jeff ainda estava arrepiado. Mal a reconhecia nas coisas que dissera nessa noite e no gostara de ouvi-la. Era a primeira discusso a srio que tinham, 
e nada pequena: lembrava as de Carmen e Alan.
        - Acho que me deve um pedido de desculpas pelo que disse da minha me. Ela nunca fez nada para te ofender, mostrou-se apenas tmida quando te conheceu.
        - Tmida? - gritou Allegra do outro lado da sala. Chama quilo timidez? Eu chamo de maldade!
        - Ela no foi m para voc!
        Jeff tambm gritava, o que no era do agrado de nenhum dos dois.
        - Mas odeia judeus! - retorquiu Allegra. Fora a nica resposta que conseguira arranjar.
        - Se no  judia, o que te importa? - disparou Jeff. Allegra saiu de casa, batendo com a porta, e meteu-se no carro. No sabia para onde ia, mas sabia que 
queria afastar-se de Jeff. Ele que fosse passear mais o casamento! No casaria com ele nem que fosse o nico ser humano existente na Terra, independentemente de 
quem organizasse o casamento ou a levasse ao altar. Queria que fossem todos dar uma curva! Seguiu pela Pacific Coast a cento e vinte  hora e da a quarenta e cinco 
minutos chegou a casa dos pais. Abriu a porta principal com a sua chave, esquecendo que as novas regras a obrigavam a telefonar primeiro, e bateu com tanta fora 
ao fech-la que ia partindo o vidro do postigo. Os pais encontravam-se sentados na sala e a me deu um salto ao ouvi-la.
        - Meu Deus, o que te aconteceu? Est bem?
        Blaire olhou para a filha e ficou atnita com o seu aspecto desalinhado. Allegra vinha de cales e camiseta, descala; apanhara o cabelo no alto da cabea 
e prendera-o com um lpis.
        - No, no estou  - respondeu, tresloucada. Vou cancelar o casamento!
        - Agora?! - perguntou a me, aterrada. Faltam menos de duas semanas... O que aconteceu?
        - Odeio-o!
        Simon virou-se para o lado, para disfarar um sorriso, e a me ficou a olhar para ela, sem conseguir acreditar que fizesse tal coisa. S lhe vinham  cabea 
os interminveis preparativos. Tanto trabalho para nada!
        - Vocs discutiram?
        - Isso  secundrio. A me dele  um monstro e ele acha que eu devia dar uma oportunidade ao Charles Stanton ao fim de todos estes anos. 'O pobre homem tem 
tido tantos problemas'...  revoltante!
        Allegra estava fora de si.
        - Como  que o Charles entra nisto?
        Blaire estava totalmente confusa; no o via h sete anos nem pensara mais nele desde que dissera a Allegra que, pelo menos, o convidasse para o casamento.
        - Telefonou hoje  noite. Julga que me vai levar ao altar Imagina? Ele quer vir ao meu casamento!
        - Isso est certo, querida  - replicou a me, com calma, esquecendo as suas prprias mgoas e desiluses e concentrando-se na filha. Talvez o Jeff tenha 
razo, talvez seja altura de fazer as pazes com ele.
        Ao ouvir estas palavras, Allegra ficou ainda mais irritada.
        - Esto todos doidos? O homem abandonou-me emocionalmente h vinte e cinco anos e vocs acham que devemos ser amigos? Perderam o juzo?
        - No, mas no vale a pena odi-lo por tanto tempo, Allegra  - disse Blaire, com sensatez. Passaram-se muitas coisas nessa poca que voc ainda no tinha 
idade para compreender, acerca do desgosto e do que lhe aconteceu. Ele no conseguiu se agentar quando o Paddy morreu, afundou. Por sinal, creio que perdeu o juzo, 
em parte, ou pelo menos do ponto de vista emocional, e no sei se se recomps por completo. Tenho a certeza de que  tecnicamente saudvel ou, quanto muito, calculo 
que seja, mas a verdade  que nunca conseguiu recuperar depois disso, ter uma vida pessoal, pelo menos at agora. Devia ouvir o que ele tem a dizer.
        Enquanto Blaire falava, algum tocou  campainha da porta com insistncia. Admirado, Simon foi ver quem era. Parecia que vivia num aeroporto ou no meio de 
uma comdia de costumes. Para surpresa de todos, era Jeff, quase to desalinhado e furioso como Allegra.
        - Como se atreve a virar-me as costas daquela maneira? - gritou para Allegra.
        Simon e Blaire trocaram um olhar de entendimento e subiram as escadas sem fazer barulho. Allegra e Jeff estavam to irritados que nem os sentiram sair. Ficaram 
na sala e gritaram um com o outro durante uma hora, at que Blaire se aproximou do cimo das escadas, em bicos de ps, perguntando a si prpria se ainda iria haver 
casamento.
        - Bem, no h dvida que parecem talhados um para o outro  - observou Simon com um sorrisinho.
        H anos que no se ouvia um rebulio to grande naquela casa. Pouco depois, Samantha telefonou. A noite estava quente e, com as janelas abertas, a gritaria 
da discusso entre Jeff e Allegra chegava  casa de hspedes.
        - Est discutindo com a me, pai? - perguntou, inquieta. Tinha acabado de dar de mamar a Matt e deitara-o no bero. Nunca ouvira uma discusso daquelas na 
sua vida e Jimmy aconselhara-a a telefonar, para saber se os pais estavam bem. Simon riu da pergunta.
        - No.  a tua irm  - respondeu, sem mais pormenores.
        - Com a me? - Sam admirou-se. Allegra nunca discutia daquela maneira, nem com a me nem com ningum.
        - No, com o teu futuro cunhado, isto se o casamento vier a realizar-se. Simon no pde conter o riso; era uma telenovela de primeira ordem! Teremos de  
perguntar quando isto acabar.
        - Quando  que eles chegaram?
        Sam sentia-se intrigada com o que estava acontecendo, mas, pelo que se podia ouvir, a discusso continuava encarniada. Finalmente, as comportas tinham-se 
aberto. H meses que eles viviam sob tenso, com clientes, com filmes, com argumentos. Allegra lidara com ameaas de morte e abortos naturais e um dos seus clientes 
preferidos fora baleado e assassinado. Seguira-se a gravidez da irm, quase decidida a prescindir do beb, a hiptese de ser ela a adot-lo e depois a desiluso 
de ter de abdicar, a presso do casamento, o encontro com a futura sogra e todos os planos, expectativas e esperanas inerentes ao enlace... Era suficiente para 
deixar qualquer pessoa histrica, e Jeff e Allegra pareciam estar ambos com os nervos em franja.
        - Chegaram h pouco. Estou certo de que no se demoram, se sobreviverem.. -  retorquiu.
        Pouco depois Simon e Blaire desceram para ver se podiam ajudar a acabar com aquela guerra, antes que no houvesse sobreviventes. Allegra chorava baixinho 
na sala e Jeff parecia disposto a morrer ou a matar algum, consoante a oportunidade que se lhe deparasse primeiro. No parecia o momento indicado para lhes perguntarem 
se ainda tencionavam casar-se; era bvio que ambos estavam dispostos a jogar o casamento pela janela fora.
        - Como esto vocs aqui em baixo? - perguntou Simon com calma, enchendo quatro copos de vinho e oferecendo o primeiro a Jeff, que parecia muito necessitado 
dele.
        Jeff pegou no copo, fez um gesto de agradecimento e voltou a sentar-se, muito longe de Allegra.
        - Estamos bem  - respondeu Allegra, a soluar, em resposta  pergunta do pai.
        - No sei se devo acreditar  - disse Simon.
        Blaire foi sentar-se ao lado da filha e fez-lhe a melhor das sugestes.
        - Acho que vocs os dois precisam ir passar o fim-de-semana fora. Esta pode ser a  ltima oportunidade antes do casamento. Blaire olhou para Jeff. Creio 
que o podem dispensar no estdio por dois dias. Tem de tentar!
        Jeff respondeu com um aceno de cabea; sabia que era uma sugesto acertada.
        - Lamento o que se passou com o programa -  comentou ele com simpatia, e depois olhou para Allegra.
        - Tambm eu, me  - disse ela, assoando-se outra vez. Nunca algum fora to injusto para consigo como Jeff: afirmara que estava a ser indelicada para com 
a me dele e que no queria dar uma oportunidade ao pai, e as suas recriminaes pareciam o fim do mundo para Allegra. Isto a juntar ao fato de ter de ultimar tudo 
o que tinha em cima da secretria antes do casamento... Era quase desumano!
        - Obrigada  - agradeceu Blaire, com voz sumida. J chorara o suficiente nessa noite, mas aquela cena era muito mais importante para ela; sabia que no era 
a srio, mas tratava-se da vida deles, e no de um absurdo programa de televiso. Felizmente, sabia estabelecer a diferena.
        - Acho que a tua me tem razo  - disse Jeff, acabando de beber o vinho. Talvez precisemos ir passar o fim-de-semana fora.
        Allegra teve vontade de lhe responder que no iria com ele para parte nenhuma, depois das coisas que lhe dissera, mas no se atreveu a faz-lo na presena 
dos pais. Assim, concordou em irem para Santa Brbara por dois dias. Por sugesto de Simon, ficariam em Saint Ysidro.
        Por fim, passadas duas horas, saram em carros separados, entregues aos seus prprios pensamentos, medos, remorsos e terrores. A caminho de casa, Allegra 
pensou em Jeff e na frieza com que a me dele a tratara. Tambm pensou no pai e na angstia que ele lhe causara ao longo dos anos, mas reconheceu que tanto Simon 
como Jeff eram muito diferentes. No entanto, nada disto lhe pareceu to importante quando regressou  casa de Malibu e Jeff lhe pediu desculpa pelo que dissera a 
seu respeito. No era sua inteno faz-lo, mas ficara muito aborrecido com as suas acusaes e estava muito preocupado com o fim das filmagens. Nessa noite disseram 
mil e uma coisas um ao outro; mais tarde, quando se deitaram, conversaram, riram da sua prpria estupidez e pediram desculpa pelos disparates com os quais se tinham 
mimoseado. Depois de tudo esclarecido, abraaram-se e adormeceram.
        Em Bel Air, Simon e Blaire tambm foram para a cama, mas ficaram acordados  conversando acerca dos filhos.
        - No sei ao certo se gostaria de voltar a ser nova  - segredou Blaire a Simon.
        Depois de Jeff e Allegra sarem, tinham conversado durante horas acerca da discusso frentica de ambos; fora esgotante assistir quela cena
        Talvez seja divertido fazer tanta algazarra e berraria. No h dvida de que a Allegra ficou excitada. Voc  nunca gritou comigo daquela maneira.
        Simon parecia divertido e Blaire riu.
        - Isso  uma reclamao? Eu posso aprender... Agora tenho muito mais tempo.
        Blaire ainda no se recompusera. Ia sentir muito a falta do seu programa, e no sabia o que havia de fazer. No queria ficar em casa e limitar-se a tomar 
conta do neto. Tinha cinqenta e cinco anos e muita vivacidade, mas j no tinha emprego, exceto a ltima sesso. Ainda lhe custava a acreditar!
        Esta noite tive uma idia. No sei qual  a tua opinio... - disse Simon, pensativo, quando estavam deitados lado a lado, s escuras; o espectro de Elizabeth 
Coleson desvanecera-se, finalmente. Virou-se e apoiou o corpo num cotovelo, para poder olhar para a mulher ao luar. Quero contratar mais um co-produtor para a minha 
equipe durante uns tempos; estou cansado de fazer tudo sozinho. Os louros so todos para mim, mas s vezes isso me pe doido, e voc  muito melhor do que eu nos 
pormenores criativos. Eu prefiro as generalidades. O que achas se tentssemos uma colaborao no meu prximo filme? Ou no do Jeff? O que acha da idia?
        Blaire ficou pensando e depois sorriu.
        - O que lhe vamos chamar? Empresa Familiar? -  respondeu, julgando que ele estava sendo caridoso, ou at brincando.
        - Estou falando a srio. H anos que queria fazer uma coisa dessas, mas voc nunca tinha tempo...  demasiado boa para a televiso. Porque no tenta?
        Simon adorava a idia de trabalhar com ela; formavam uma boa equipe em vrios domnios e as suas competncias profissionais eram compatveis. Blaire sorriu.
        Creio que podia tentar; no tenho mais nada que fazer.. Dentro de trs semanas estarei disponvel, precisamente depois do casamento da Allegra.
        Blaire gostara da idia e beijou o marido em sinal de gratido.
        - A propsito, o casamento ainda est de p? -  perguntou Simon, arreliador. No me atrevi a perguntar-lhes nada antes de eles sarem.
        - Espero que sim  - respondeu Blaire, suspirando e deitando-se outra vez. Agradava-lhe a idia de ir trabalhar com Simon.
        - Ento o que acha? -  insistiu ele.
        - Tenho de telefonar ao meu agente -  respondeu Blaire com ar modesto.
        Simon deu uma gargalhada.
        - Vocs, os de Hollywood, so todos iguais! V, telefona ao teu agente! Eu vou telefonar ao meu advogado!
        Deu-lhe um beijo no pescoo e ela aninhou-se nele. O dia fora desastroso, mas acabara bem. Blaire ainda se sentia desgostosa por ter perdido o seu programa, 
mas a idia de uma parceria com Simon atraa-a. Queria trocar impresses com Allegra acerca disso na manh seguinte. Quando se virou para Simon, ele adormecera profundamente; 
era muito tarde e o sero fora longo e agitado. Blaire sorriu, olhando para ele. Era um homem bom, e, depois de todo o sofrimento que lhe causara no ltimo ano, 
era como se o houvesse reencontrado. Talvez uma parte desse sofrimento tivesse valido a pena...


CAPTULO 21

        Allegra aplaudiu a idia de os pais irem trabalhar juntos, sobretudo no filme do marido
Assim fica tudo em famlia disse ela, rindo. No h nenhum papel para mim.
        Falou no assunto depois de regressar de Saint Ysidro com Jeff, depois de tudo ter acalmado entre eles A situao voltara  normalidade e faltavam seis dias 
para o casamento. Como dizia Delilah Williams, comeara a contagem final.
        O vestido de noiva j chegara, assim como os chapus, e o vu estava pronto. O arquiteto paisagista jurava que o jardim estaria a postos no fim-de-semana
        As duas damas de honra que no eram da cidade vinham da a dois dias, uma de Londres e outra de Nova Iorque, e a me de Jeff no dia seguinte, ficava hospedada 
em Bel Air. O pior era que o pai de Allegra chegava tambm na sexta-feira
        - Acha que vamos sobreviver a isto, me? - perguntou Allegra, com ar aterrado.
        Tentava acabar a semana trabalhando e Jeff terminava o filme na quarta-feira, estava tudo rigorosamente programado e equilibrado como um castelo de cartas. 
Allegra conseguira vender a casa e o negcio seria ultimado da a dois dias. Para onde quer que se virasse, havia mil e um pormenores a tratar
        As damas de honra chegavam na noite de tera-feira e na manh de quarta faziam uma prova de ltima hora para quaisquer ajustamentos que fossem necessrios 
Nancy e Jessica tinham enviado as suas medidas e no havia motivos para pensar que surgisse algum problema
        - Estou to assustada  - segredou Allegra a Blaire quando a foi visitar, na manh de segunda-feira. Jeff trabalhava at tarde, e ela fora ver Sam e o beb.
        - Com o qu, querida -  perguntou a me, tentando acalm-la
        - Com tudo. E se no resultar, como aconteceu entre voc e... A me sabe... O Charles...?
        Allegra recusava-se a chamar-lhe 'pai'.
        - Isso pode acontecer, mas as circunstncias eram muito diferentes e eu era muito mais nova do que voc quando me casei. Voc e o Jeff so mais espertos 
do que ns ramos, e tudo vai correr bem com vocs, tenho certeza.
        Jeff e Allegra eram jovens e inteligentes e tinham ponderado muito o passo que iam dar. A Dr. Green estava satisfeita com o modo como Allegra geria os seus 
sentimentos e os seus velhos temores, mas no havia garantias. Podiam perder o emprego, pr em risco as suas vidas, sofrer algum acidente, os filhos podiam morrer, 
como sucedera com Blaire, e os seus sonhos desfazer-se num pice.
        - Na vida no h garantia. Tem de fazer o melhor que sabe e estar preparada para o que der e vier  - acrescentou Blaire, sorrindo.
        - Pois, e que nunca  falte a cerveja e a pizza congelada  - acrescentou Sam, contribuindo com o seu conselho matrimonial.
        Alimentar Jimmy era o mesmo que fornecer o Green Bay Packers, mas nunca fora to feliz na sua vida e adoravam o beb Matthew dormia ao colo da me e estava 
constantemente a mamar; tinha um ms e j pesava seis quilos. Sam parecia ter nascido para aquela vida e adorava a companhia de Jimmy, que no se cansava de ajudar 
a cuidar do beb. As irms mais novas iam visit-los com freqncia e brincavam no quintal. De repente, a casa de Blaire enchera-se de crianas. Era como se o tempo 
voltasse para trs, o que trazia vantagens e inconvenientes. Blaire e Simon tinham a sua vida prpria e eram livres pela primeira vez desde h muito tempo, exceto 
quando queriam ver Jimmy e Sam, quando Allegra passava por l ou quando Scott voltava de Stanford, o que era raro. Tinham tempo para estar juntos, faziam planos 
para o seu trabalho em conjunto, que comearia assim que Blaire conclusse o ltimo programa, e falavam mesmo em ir  Europa antes do filme seguinte. Finalmente 
tinham tempo um para o outro, o que muito agradava a Simon. De vez em quando, at ia almoar em casa, e passavam mais tempo na cama do que quando eram jovens.
        - Talvez envelhecer no seja assim to mau  - gracejou Blaire uma manh, quando o marido a foi buscar na ducha e a arrastou para a cama para fazerem amor, 
queixando-se de que ela se levantara muito depressa. Blaire ainda estava pingando e tinha o cabelo enrolado no alto da cabea. Simon sara logo a seguir, com meia 
hora de atraso, para uma reunio.
        Mas estavam no fim, ou a aproximar-se dele. Allegra e Jeff encontravam-se no princpio, como Jimmy e Sam, quando o amor ainda era uma criana, e havia montanhas 
para subir, antes dos filhos, da vida real, das vitrias e das derrotas, e de tudo aquilo de que  feita a vida. Em determinados aspectos, Blaire invejava-os, noutros, 
no. J passara por aquela fase e agora se sentia bem onde estava, os acidentes de percurso tinham sido um pouco excessivos.
        - Descontraia-se e tente passar esta semana o mais calma possvel. Esta  talvez a parte mais difcil
        Era o melhor conselho que Blaire lhe podia dar
        - Ainda bem que eu no passei por isso  - disse Sam, rindo. Ps Matthew ao peito outra vez e acariciou o seu rostozinho aveludado com o dedo. No entanto, 
Blaire tinha pena que Sam no tivesse vivido aquela fase, a verdade  que saltara uma etapa da sua vida. Todavia, por enquanto, estava a agentar-se bem, e a pobre 
Allegra continuava a girar no carrossel, com a cabea  roda.
        As duas damas de honra telefonaram assim que chegaram, na tera-feira  noite Ficaram hospedadas em Bel Air, e Allegra encarregara Alice de lhes enviar flores, 
alm de revistas e chocolates. Os vestidos estavam pendurados nos roupeiros,  espera delas, junto dos sapatos forrados de renda bege que Allegra mandara fazer de 
acordo com as medidas cedidas pelas amigas. No falhara nenhum pormenor
        Na quarta-feira,  hora do almoo, Allegra ia ter com elas ao hotel, na companhia da modista. Alugara uma sute enorme e levava Sam. Carmen tambm ia provar. 
Depois ainda precisava ir  agncia para assinar os documentos relativos  venda da casa. Passou a semana numa roda-viva e sentia-se atordoada s de pensar em todos 
os seus afazeres
        H cinco anos que no via Nancy Towers, desde que a amiga se mudara para Nova Iorque e depois para Londres, nem Jessica Farnsworth, desde a faculdade. Passara-se 
muito tempo, mas continuavam boas amigas, e a prov-lo estava o fato de t-las convidado para o casamento.
        Allegra ajudou a irm a transportar a alcofa de Matthew e um balano para distra-lo enquanto provavam os vestidos e almoavam. Reservara uma sute espaosa, 
para que tivessem privacidade. O cabeleireiro tambm estaria presente e levava a esteticista. Alm disso, haveria uma sesso informal de fotografias.
        Blaire resolvera no ir. Disse que no queria intrometer-se nos assuntos das mulheres mais jovens, e de nada serviram os argumentos para convenc-la, apesar 
de Delilah Williams repetir que ela 'tinha' de ir. Blaire queria ver as garotas todas juntas, com os seus belos vestidos, e no uma ou duas. Allegra fizera uma boa 
escolha ao optar pela renda bege, e, como todas eram elegantes, a prova no iria levantar problemas.
        No entanto, os deuses deviam estar distrados nesse dia. Quando Sam e Allegra chegaram, a sute no estava pronta, e, para cmulo, comeou a chover. Ficaram 
as duas ensopadas ao passarem correndo pelo lago dos cisnes, arrastando os pertences de Matthew. Carmen j chegara. Estava bebendo cola, comendo chocolates e falando 
ao telefone com o seu agente. Tranara as pernas, numa pose lendria, mas, assim que se levantou, Allegra percebeu que ia haver problemas: no via Carmen h um ms, 
e, embora estivesse grvida de dois meses e meio, mais parecia que esperava gmeos. Tinha o dobro da cintura e as ancas estavam ainda mais largas. Com certeza que 
vestia o nmero doze! Allegra estremeceu ao lembrar-se do tamanho do vestido que encomendara para ela.
        - O que te aconteceu? - perguntou a meia voz. Eram suficientemente amigas para que Carmen tivesse sido franca. Quantos quilos aumentaste?
        - Dez  - respondeu Carmen sem pestanejar. Graas a Deus, acabamos o filme!
        - Como  que engordou to depressa? A Sam no aumentou mais de doze quilos e meio at ao fim  - disse Allegra em tom de censura. No conseguiriam met-la 
dentro do vestido; no o poderiam fechar e Carmen ficaria com as costas  de fora, e no seria pouco. Iria arrepender-se mais tarde, certamente, mas sentia-se muito 
feliz por estar grvida outra vez, e no fazia mais nada seno ficar em casa, comer e dormir.
        - A tua irm  uma menina  - retrucou Carmen com uma voz sibilante. No admira que pese quarenta quilos!
        - Ela tem  autodomnio  - retorquiu Allegra. Em seguida sentaram-se todas a admirar Matthew. Sam foi a primeira a provar o vestido, e verificou-se que tinha 
menos peso do que antes de engravidar. Media um metro e setenta e pesava cinqenta e cinco quilos. O fecho deslizou a toda a velocidade, mas parou no meio das costas, 
e era fcil perceber por que: ningum se lembrara que ela estava a amamentar.
        - Que nmero de soutien est  usando? - perguntou Allegra, em pnico.
        - Trinta e oito, D - respondeu Sam com orgulho.
        - Oh, meu Deus! Fazem esse tamanho? -  admirou-se a irm.
        Carmen rolou os olhos nas rbitas e exclamou, radiante:
        - Estou ansiosa por isso!
        - No te lembraste que devia me  avisar? - perguntou Allegra  irm. Passaste de um trinta e dois, A, para um trinta e oito, D, e nem pensou que isso faria 
diferena?
        - Esqueci-me  - desculpou-se Sam, mas a modista assegurou que tinha tecido suficiente para resolver o problema.
        O caso de Carmen era diferente. Desvairada, Allegra telefonou para a casa Valentino; disseram-lhe que tinham mais um vestido, um nmero catorze. Seria demasiado 
grande?
        - Acho que no  - respondeu Allegra, aliviada e com vontade de matar Carmen.
        Foram resolvendo mil e um pormenores, e pouco depois chegou Nancy Towers, radiante por voltar a v-la. A amiga casara-se, divorciara-se e admitia regressar 
a Nova Iorque. Estava tentando lanar uma revista, pintara o cabelo e depois voltara  cor natural. Tinha uma relao com um homem divino em Munique e a sua vida 
repartia-se pelos quatro cantos do mundo. Allegra estava exausta quando acabou de ouvir tudo, ou a maior parte, porque parecia haver sempre mais.
        O pior  que tambm Nancy engordara. Afirmara que usava o tamanho quatro, mas agora mais parecia vestir um dez. Tornara-se rechonchuda. Felizmente o vestido 
destinado a Carmen poderia ser arranjado para ela, e mais uma vez se evitou um desastre.
        - No me parece que os meus nervos agentem  - disse Allegra, sentando-se, no mesmo tempo que fitava Sam com ar desesperado.
        - Descontraia-se. Vai ver que tudo corre bem  - replicou a irm mais nova, de repente muito mais madura, com o beb no colo.
        - Parece mesmo a me. Allegra sorriu e deu-lhe um beijo; sentia-se mais prxima dela desde o nascimento do beb. s formidvel! J tinha te dito isto?
        - Ultimamente, no, mas eu j tinha percebido. E voc  uma irm mais velha do melhor que h!
        Depois, baixando o tom de voz, Sam acrescentou:
        As tuas amigas esto a engordar um pouco...
        As duas irms soltaram uma gargalhada. Pouco depois chegou Jessica. Allegra desconhecia as mudanas que se tinham registado na vida da amiga nos ltimos 
cinco ou seis anos. Jessica usava o cabelo curto, no vinha maquiada e vestia um belo traje Armani que comprara em Milo. Trabalhava em publicidade, mas tinha uma 
srie de amigos no mundo da moda. O seu aspecto austero e discreto estava muito em voga na Europa e na Costa Leste, mas havia mais... Havia qualquer coisa em Jessica 
que no existia antes, e Allegra no pde deixar de reparar que ela olhara para Carmen com um interesse muito especial. Ao observ-la com mais ateno, percebeu 
o que mudara na amiga desde que se tinham visto pela ltima vez: Jessica era agora abertamente lsbica, embora se tivesse retrado durante anos.
        Jessica, agora 'Jess', falou da amante no almoo, da sua vida e do fato de sentir que o movimento lsbico tinha ganho fora no Oeste, mas no tanto no Leste. 
Carmen fitou-a e afirmou que no havia lsbicas em Portland.
        - Bem, em Londres h muitas  - disse Nancy, rindo. Ria de tudo e de todos. Divertia-se onde quer que estivesse, e, apesar de exagerar um pouco na bebida, 
foi a alma do grupo.
        - J teve alguma experincia homossexual? - perguntou Jess a Nancy com toda a naturalidade.
        Nancy ficou pensando, Carmen corou e Sam deu um olhar cmplice  irm mais velha, que tentava manter a calma. Agora estava definitivamente convencida de 
que no sobreviveria ao casamento.
        - Por acaso, no me lembro -  respondeu Nancy num tom despreocupado.
        - Ora, isso no se esquece...
        Em seguida disps-se a provar o vestido. Despiu a blusa e o traje Armani; usava uns cales de seda e mais nada, e Allegra foi obrigada a admitir que tinha 
um corpo fabuloso, mas no lhe dizia nada, e s de saber quais eram os interesses de Jessica sentiu-se pouco  vontade. Mais tarde, enquanto o criado servia champanhe, 
Jessica disse-lhe que ela cometia um grande erro ao casar com um homem e que devia ter-se unido a uma mulher. Foi ento que Allegra reparou que a amiga usava uma 
aliana de ouro estreita, e ela explicou-lhe que vivia com a mesma mulher h dois anos. Era uma estilista do Japo, e trabalhavam ambas em toda a Europa e no Extremo 
Oriente sempre que tinham oportunidade, por prazer e por dinheiro. Jessica tinha uma vida interessante, embora as suas opes fossem diferentes das de Allegra.
        O vestido caa-lhe bem e, quando Delilah chegou, parecia estar tudo em ordem. Os sapatos serviam a todas e os chapus assentavam na perfeio. O fotgrafo 
tirou algumas fotografias informais. Nancy bebera de mais e Jess resolvera brincar e, para se divertir, optara por assediar Carmen.
        - Eu estou grvida, pelo amor de Deus! - retrucou ela, quando Jess lhe pousou um dedo vido no pescoo, embora o fizesse por brincadeira, Carmen no gostou.
        - Est bem, eu no me importo - disse Jess. Pouco depois comeou conversar a srio com Sam e pegou no beb. Era uma mulher simptica e assumira-se nos ltimos 
anos. No se envergonhava das suas opes e s vezes era ostensivamente descarada. De certo modo, Allegra continuava a gostar dessa sua faceta, mas precisava meditar 
um pouco nela para se adaptar  idia.
        - Porque no me disse? - perguntou-lhe Allegra mais tarde.
        - No sei. Eu no te conhecia bem. s vezes  difcil explicar isto. No me pareceu que compreendesses.
        - Talvez no  - admitiu Allegra.
        Depois falaram do impacto da AIDS na cultura americana e dos amigos que haviam perdido, sobretudo em Hollywood ou em meios criativos de Londres e Paris.
        Por fim, s cinco horas, entregaram a chave da sute e saram. As duas mulheres de fora tinham combinado encontrar-se com uns amigos e na noite seguinte 
voltavam a reunirem-se todas na festa de despedida de solteira de Allegra, aps o jantar de ensaio. E depois, finalmente, o casamento.
        - Se eu sobreviver... - desabafou Allegra, quando foi levar Sam e o beb a Bel Air.
        Foi uma tarde esgotante, mas divertida. Allegra no sabia ao certo se continuava a gostar das suas velhas amigas, mas elas faziam parte da sua vida e da 
sua histria e estavam ali para assistir ao seu casamento. Ainda se sentia um pouco abalada por causa de Jess e ia  pensandp nela quando passou pelo escritrio para 
recolher as mensagens e ir buscar trabalho. Depois encontrar-se-ia com Jeff no estdio. Era um grande dia para ele: chegara o momento final, o fim do seu primeiro 
filme.
        Allegra entrou no estdio discretamente e assistiu ao ltimo take da cena final. Ouviu o grito de vitria do diretor ao pronunciar as palavras mgicas: 'Est 
no papo, rapazes!' Jeff e Tony apertaram as mos e abraaram-se; era um momento emocionante para eles e para toda a equipe. E quando Jeff se voltou e viu Allegra, 
ficou radiante. Tony foi ao encontro dela e abraou-a tambm. Era baixo, magro e louro, o contrrio de Jeff. Ambos sabiam que tinham feito um belo trabalho e orgulhavam-se 
dele; produzir o filme no fora tarefa fcil, mas as recompensas eram muitas. Nessa noite tinham uma festa, mas Allegra no ia. Quando chegaram a Malibu estava exausta.
        - Como foi o seu dia? - perguntou Jeff, concentrando-se nela ao entrarem em casa.
        Fora um grande dia para ele. O filme estava finalmente concludo. Agora tinham de tratar da ps-produo, mas os problemas afiguravam-se menores. As estrelas 
iriam para casa, assim como o elenco e a equipe. O resto era com os editores, o diretor, Jeff e Tony.
        - O meu dia foi bizarro  - respondeu Allegra com um sorriso.
        Falou-lhe de Nancy e de Jess. O mais estranho era que j no tinha nada em comum com elas. Eram velhas amigas, mas haviam-se tornado desconhecidas.
        - Foi por isso que eu no quis que viessem muitos ex-colegas meus de Nova Iorque. J pouco temos em comum, o nico que me interessa  o Tony.
        - Foi mais esperto do que eu!
        Sentaram-se e ficaram conversando durante algum tempo. Por fim, foram para a cama. Jeff ainda tinha alguns pormenores a ultimar no dia seguinte e ao meio-dia 
ia buscar a me.
        Allegra tambm iria, se no tivesse de ajudar nalguns preparativos finais para o casamento; Blaire precisava da sua colaborao na distribuio dos lugares 
no jantar de ensaio. Tudo lhe parecia to descontrolado! Carmen  que fora esperta ao ir casar a Las Vegas. J para no falar de Sam, que no fora a lado nenhum, 
mas o seu caso era diferente.
        Combinou encontrar-se com Jeff e com a me dele em Bel Air  hora do lanche, mas dessa vez levou reforos, pedira  me que a acompanhasse. Blaire prometera 
ir, apesar de estar muito atarefada, mas nem os avisos de Allegra foram suficientes para prepar-la.
        A Sr. Hamilton vestia uma roupa escura e uma blusa de seda branca. Caminhava, hirta, pelo jardim de Bel Air quando Allegra a viu.
        - Boa tarde, Sr. Hamilton. Como correu a viagem?
        - Bem, obrigada, Allegra -  respondeu ela, formal, sem convidar a trat-la de uma forma mais familiar. Com certeza que no por Mary, mam, ou me...
                Foram sentar-se na casa de jantar e Blaire ocupou-se dela. Ao fim de uma hora no eram amigas, mas criara-se certo respeito mtuo e as duas mulheres 
tratavam-se com bastante cordialidade. Jeff estava particularmente grato  futura sogra. Ela sabia como havia de lidar com a me e, apesar de esta no ser fcil, 
era possvel dar-lhe a volta, como Blaire disse mais tarde a Allegra.
        Quando Jeff foi acompanhar a me ao quarto, a Sr. Hamilton confessou-lhe que, para uma mulher do mundo do espetculo, a Sr. Steinberg era muito inteligente 
e surpreendentemente distinta. Assim que foi ter com Allegra ao vestbulo, contou-lhe tudo.
        - Ela gosta da tua me  - traduziu Jeff numa linguagem mais simples.
        - A minha me tambm gosta dela.
        - E voc? Est bem?
        Jeff lembrou-se da terrvel discusso que haviam tido duas semanas antes e dos insultos dirigidos s famlias um do outro, sobretudo  me dele. Sentia-se 
na obrigao de defend-la, mas tambm sabia que Allegra tinha razo em certas coisas. A Sr.  Hamilton no era uma pessoa fcil. No era nova, nem pertencia ao 
mundo moderno; era preconceituosa e limitada,  sua maneira. Porm Jeff era o seu nico filho; era necessrio dar-lhe um certo desconto, embora tambm compreendesse 
Allegra.
        - Estou bem, mas estou nervosa.
        - Quem no est? -  respondeu ele, sorrindo.
        Nessa noite tinham as respectivas festas de despedida de solteiros. Para Allegra, tratava-se essencialmente de sobreviver. No era uma ocasio relaxante, 
nem divertida, era uma obrigao. Nem os presentes de casamento a entusiasmaram tanto como gostaria. Depois de ver o primeiro, um par de castiais de cristal da 
Carrier, encontrara mais dez iguais, e tudo o que recebiam tinha que ser listado, catalogado, inventariado, computadorizado e agradecido. Tudo aquilo era trabalho, 
e no divertimento, e os pequenos pormenores transformavam-se numa dor de cabea. Apetecia-lhe dizer s pessoas que esperassem e mandassem as coisas mais tarde.
        - Como vai ser a tua festa de despedida de solteira desta noite? - perguntou Jeff, quando a levou a casa para ela mudar de roupa.
        Allegra pouco fizera no escritrio, mas tambm no alimentara grandes esperanas, e Alice tentava tapar todas as suas lacunas.
        - Vamos jantar ao Spago  - respondeu ela, encostando-se no banco e bocejando.
        - Ns vamos ao Troy.
        - Mas que distintos! Espero que no aparea ningum com meia dzia de prostitutas.
        Allegra nunca achara graa a essas histrias das festas de despedida de solteiros; no lhe parecia ser maneira de comear um casamento, e ficaria furiosa 
se algum as levasse.
        No entanto, a festa dele foi muito mais casta que a sua, graas a algumas colegas que Carmen convidara. Na de Jeff houve a stripper da praxe que entrou e 
saiu sem incidentes, uma srie de canes obscenas, versos e anedotas, e a nica visita inesperada foi levada por Alan Carr; o ator apareceu com um jacar, fortemente 
drogado, preso a uma coleira, com o seu tratador e com um pequeno cartaz ao pescoo onde se lia ALLEGRA. Os rapazes riram a bandeiras despregadas, mas Allegra ficou 
satisfeita por ningum ter feito o mesmo na sua festa; teria ficado horrorizada. Eles, pelo contrrio, adoraram.
        No Spago, foi contemplada com um stripper masculino, que Jess considerou muito enfadonho. Jess tinha um grande sentido de humor, arreliou muito as companheiras 
e, de certo modo, conseguiu fazer-lhes sentir que o lesbianismo nada tinha de ameaador e at podia ser engraado. Todas as amigas ofereceram a Allegra presentes 
ousados, filmes obscenos e vibradores, e houve partidas atrevidas e roupa interior ertica para todas, 'fios dentais' e 'auxiliares conjugais' para a noiva. A princpio 
foi divertido, mas depois se tornou cansativo, e Allegra s tinha vontade de chegar em casa, meter-se na cama, adormecer e esquecer o casamento.
        -  como se tivesse participado nos Jogos Olmpicos disse ela baixinho, antes de adormecer ao lado de Jeff, perguntando a si prpria se estariam ambos a 
dar o passo certo. Porque se sentiam as outras to seguras? Carmen... Sam... Porque era to fcil para elas e to difcil para ela? Tinha medo do casamento ou de 
Jeff? No soube responder; caiu imediatamente num sono profundo e passou o resto da noite com pesadelos.


CAPTULO 22

        Sexta-feira foi o dia mais difcil de todos para Allegra. Era o seu ltimo dia de trabalho, e conseguiu deixar tudo pronto. A casa fora vendida e a escritura 
estava feita. Era como se esgotasse o seu tempo com pormenores de ltima hora. Alm disso, estava-lhe reservada uma derradeira tarefa espinhosa: o pai chegava nessa 
tarde e combinara encontrar-se com ele no Belage para tomarem um caf.
        H vrias semanas que receava esse confronto e os pesadelos repetiam-se todas as noites. Os seus receios nada tinham a ver com Jeff nem com o casamento, 
mas sim consigo mesma, com a sua vida, com as suas recordaes e com a sua liberdade, e ela sabia. Esperara vinte e cinco anos por este momento.
        O que mais detestava nesta fase era ter a impresso de que estava  perdendo Jeff no meio de tantos preparativos. Tudo girava  volta de chapus, sapatos 
e vus, vdeos e fotografias, bolos de noiva e damas de honra, no tinha nada a ver com Jeff nem com aquilo que os aproximara. Era como se tivessem que atravessar 
um labirinto para se encontrarem outra vez, e estava ansiosa por voltar a v-lo.
        Nesse dia, de manh, sara de casa antes de ele se levantar e telefonara-lhe depois de ter sado sabe Deus para onde. Jeff tinha as suas voltas a dar por 
causa dos padrinhos. Gostariam de ter almoado os dois, mas no com companhia, e Allegra ia encontrar-se com o pai, Charles Stanton.
        O ensaio seria ao fim da tarde, e ento veria Jeff, mas voltariam a separar-se durante o jantar. Nessa noite, como mandava a tradio, Allegra ficaria em 
casa dos pais, para no ver o noivo antes do casamento e porque j no tinha a sua casa. Ao mesmo tempo, ansiava por estar com eles e talvez ficasse a conversar 
com Sam at de madrugada, se a irm a fosse visitar.
        Entretanto, havia outras coisas a fazer. Tinha de ir ver o pai. Falara no assunto a Sam e mostrara-se relutante em ser conduzida ao altar por ele. Simon 
censurara-a.
        - At parece que est falando de um rapto
        - No caso dele,   - respondera Allegra.
        A caminho do hotel, s pensava que teria de lhe comunicar que, no seu casamento, ele era apenas um convidado e no o pai da noiva. 'Esta noite, o papel do 
pai ser representado por Simon Steinberg, e no por Charles Stanton'. Quando entrou no trio, ainda ia pensando nisso. Foi direita ao pai, sem saber.
        Pediu desculpa e dirigiu-se  recepo. Depois se virou para trs e olhou com ateno, a expresso pareceu-lhe familiar, mas ele estava muito mais velho. 
Tambm a observava e aproximou-se lentamente.
        - Allegra? - perguntou,  com cautela.
        Allegra fez um sinal afirmativo e susteve o flego. Era ele, o seu pai!
        - Ol  - disse, sem encontrar mais palavras.
        Ele props que fossem para o bar, mas, quando se sentaram, pediu uma Coca-Cola, e Allegra ficou satisfeita; pelo menos, no andava bebendo. Eram as piores 
recordaes que tinha do pai, quando estava embriagado e batia na me.
        Durante algum tempo falaram de ninharias, da Califrnia, de Boston, do trabalho dela, do tempo. No perguntou por Blaire, e Allegra admitiu que ainda sentisse 
alguma animosidade em relao  me: nunca lhe perdoara por ela ter sado de casa. Allegra participou-lhe que Jeff era de Nova Iorque e que dois dos seus avs tinham 
sido mdicos.
        - Como  que ele escapou? - perguntou Charles Stanton, tentando anim-la, apesar de a tarefa no ser fcil.
        Havia um muro entre eles. Allegra estava admirada com o ar envelhecido e fragilizado do pai. A me dissera-lhe que ele devia ter setenta e cinco anos, o 
que a deixara admirada, pois nunca pensara que fosse muito mais velho do que Blaire.
        -  escritor  - explicou Allegra, referindo-se a Jeff. Falou-lhe dos dois livros e do filme. Tem muito talento assegurou, sem se conseguir concentrar no 
que estava a dizer. S queria saber por que motivo a odiara tanto, porque nunca a vira, nunca lhe telefonara, nunca a amara. Desejava perguntar-lhe o que acontecera 
quando o irmo morrera, no conseguia estar apenas ali sentada ao lado dele. A sua raiva assemelhava-se a uma pequena poa de petrleo, sem escoamento, a menos que 
algum acendesse um fsforo e a incendiasse. Por fim, Charles Stanton falou. Perguntou-lhe pela me, e o seu tom de voz exasperou Allegra.
        - Porque fala dessa maneira quando se refere a ela? - disparou, atnita com as suas prprias palavras, sadas talvez de um canto recndito do seu corao, 
sem mais nem menos.
        - O que quer dizer com isso? Charles ficou desconcertado e bebeu a sua Coca-Cola. Era mestre na agresso passiva. Eu no sinto rancor pela tua me.
        Estava mentindo, e o olhar denunciava-o. Odiara Blaire ainda mais do que Allegra. Em relao  filha, parecia sentir apenas indiferena, mas, quanto a Blaire, 
tinha umas contas a ajustar.
        - Sim, o senhor tem animosidade pela minha me  - insistiu Allegra, sem tirar os olhos dele, mas isso  compreensvel. Ela deixou-o.
        - O que voc sabe de tudo isso? -  perguntou, irritado e de mau humor. Foi h muito tempo, era uma criana nessa altura.
        - Ainda me lembro... Ainda me lembro das discusses... Dos gritos... Das coisas que vocs os dois diziam...
        Como  que isso  possvel? Charles olhou para o copo, recordando tambm esse tempo. Eras pouco mais do que um beb.
        - Eu tinha cinco anos, seis, quando nos fomos embora. Foi horrvel!
        Charles concordou, com um gesto de cabea, incapaz de negar. Receava que ela se lembrasse do tempo em que batia em Blaire e de tudo o resto. Tinha conscincia 
de quo fora insensato. Depois Allegra resolveu remexer guas profundas. Sabia que era a nica forma de alcanar de novo a outra margem, e tinha de faz-lo. Talvez 
nunca mais o voltasse a ver, talvez fosse a nica oportunidade de se libertar e de libertar o pai.
        - O pior foi quando o Paddy morreu -  disse ela. Ao ouvir estas palavras, Charles estremeceu, como se Allegra o tivesse agredido.
        - Isso no tem remdio! -  retorquiu bruscamente. O Paddy tinha um tipo de leucemia que no era curvel, nesse tempo. Talvez nem mesmo hoje... -  acrescentou, 
com ar triste.
        - Acredito  - respondeu Allegra em voz baixa, e era verdade; a me dissera-lhe o mesmo alguns anos mais tarde. No entanto tambm sabia que o pai considerava 
que era seu dever ter salvo o filho e que nunca perdoara a si mesmo por ter falhado. Por isso  que bebia e as perdera. Mas eu lembro-me dele... Era sempre to meigo 
para mim... Em certos aspectos, Paddy era parecido com Jeff, to terno e generoso, to cuidadoso com ela... Eu gostava tanto dele!
        O pai fechou os olhos e virou a cara para o lado.
        - No vale a pena falar disso agora.
        Ao ouvir estas palavras, Allegra lembrou-se de que ele no tinha mais filhos, e por instantes teve pena do pai: estava cansado e s, talvez doente, e no 
tinha nada. Ela tinha Jeff e os pais, Sam e Scott, e at Jimmy e Matthew, Charles Stanton s tinha remorsos, fantasmas, um filho que amara e perdera e uma filha 
que abandonara.
        - Porque nunca quis me ver? -  perguntou sem levantar a voz. Depois disso, quero eu dizer. Porque nunca me telefonou nem respondeu s minhas cartas?
        - Eu fiquei muito zangado com a tua me  - respondeu ele, infeliz por lhe fazerem estas perguntas passados tantos anos.
        Mas a explicao no satisfez Allegra.
        - O senhor era meu pai.
        - Ela tinha me abandonado, e voc tambm, e era demasiado penoso continuar ligado a voc. Eu sabia que nunca conseguiria que vocs voltassem, nem uma nem 
outra. Era mais simples esquecer-vos.
        O que fizera ele ento? Expulsara-a da sua mente? Repudiara-a? Sepultara-a, como a Paddy? Eliminara-a? Cortara os laos que os uniam?
        - Mas por qu? - insistiu Allegra. Porque no respondeu s minhas cartas? E quando eu falava consigo, zangava-se tanto, era to mau!
Era duro pronunciar tais palavras, mas era inevitvel. Ento ele disse algo muito estranho.
        - Eu no te queria na minha vida, Allegra, no queria que gostasses de mim. Talvez isto te parea absurdo, mas eu amava-vos muito, s duas, e, quando vos 
perdi, desisti. Era como se tivesse perdido o Paddy outra vez! Eu sabia que no podia lutar contra a distncia, nem contra a nova vida aqui. Um ano depois de partir, 
tinha um padrasto, e, passados trs anos, um novo irmo, e era natural que viessem mais. Ela tinha uma nova vida, e voc tambm, seria uma crueldade eu tentar agarrar-me 
a vocs, s duas. Era prefervel deixar partir, deixar que a mar as levasse para a uma nova vida. Desse modo, no teriam de olhar para trs. No tinham passado, 
apenas futuro.
        - Mas eu levei tudo comigo, levei-o a voc e ao Paddy para toda a parte. Nunca compreendi porque deixou de gostar de mim  - disse ela com as lgrimas nos 
olhos. Eu tinha de saber por qu. Sempre julguei que o senhor me odiava acrescentou, perscrutando-o, em busca de uma confirmao.
        - Eu nunca te odiei  - retorquiu ele com um sorriso triste, tocando-lhe ao de leve nos dedos, mas no tinha nada para te oferecer nessa altura, estava destroado. 
Durante algum tempo odiei a sua me, mas depois at esse sentimento se desvaneceu. Eu tinha os meus prprios demnios... Suspirou e olhou para Allegra. Eu tentei 
um tratamento experimental no teu irmo, Allegra. Ele teria morrido, de qualquer maneira, mas eu tinha a certeza de que aquilo iria ajud-lo. A verdade  que no 
ajudou, e sempre receei que o tratamento lhe tivesse encurtado a vida, talvez no muito, mas alguma coisa. A sua me culpou-me e afirmou que eu o matei -  concluiu, 
com ar derrotado.
        - No era isso que ela me dizia quando falvamos no assunto, nunca o incriminou.
        - Talvez tenha me perdoado  - aquiesceu Charles tristemente.
        - Ela perdoou-lhe h muito tempo -  retorquiu Allegra em voz baixa.
        No havia respostas fceis. No era possvel compreender verdadeiramente o que o levara a afastar-se dela, mas pelo menos Allegra sabia agora que tinham 
sido os demnios do  pai, a sua prpria culpa, os seus prprios terrores, as suas prprias insuficincias que o haviam convencido de que era essa a deciso certa. 
Charles Stanton no tinha nada para lhe dar. Fora o que a Dr. Green sempre lhe dissera, e ela nunca acreditara, mas pelo menos agora o ouvira da boca dele.
        - Eu gostava muito de voc  - acrescentou, em surdina. Eram estas as palavras que Allegra sempre esperara ouvir. Creio que no sabia at que ponto, nesse 
tempo. Continuo a gostar muito de voc, e foi por isso que vim. Comeo a perceber que o tempo  um luxo e que  prefervel goz-lo. s vezes penso nas coisas que 
te poderia ter dito, que te poderia ter telefonado, no teu aniversrio, por exemplo... Sempre me lembrei dele, do teu, do Paddy, e do dela... Mas nunca telefonei. 
Pensei nisso durante muito tempo quando me escreveu. No tinha a inteno de responder, mas depois percebi que no queria faltar ao seu casamento.
        Havia lgrimas nos seus olhos ao dizer isto; era muito importante para ele.
        - Obrigada  - murmurou Allegra, com as lgrimas a correrem pela face; agradecia-lhe as palavras, a honestidade e a sua prpria liberdade. Ainda bem que veio 
-  assegurou, beijando-lhe a mo.
        Ele sorriu, sem se atrever a dizer mais nada. Tal como antes, era prisioneiro das suas prprias limitaes, como todos os seres humanos.
        - Tambm estou contente por ter vindo  - respondeu em voz baixa, ainda abalado pela conversa.
        Depois beberam mais uma Coca-Cola e falaram do casamento. Allegra no lhe disse quem a levaria ao altar. Tencionava pedir a Delilah que o fizesse, mas sentia-se 
muito aliviada com o que ele dissera, por saber que se preocupara com ela, pensara nela e at se lembrara dos seus aniversrios. De certo modo, nem era importante 
que no lhe tivesse telefonado, mas para Allegra havia uma tremenda diferena.
        Quando se levantaram, ofereceu-se para o levar ao ensaio, que se realizava no mesmo lugar do jantar; era prefervel do que regressarem a Bel Air,  residncia 
dos Steinberg, onde os jardineiros continuavam trabalhando freneticamente. O casamento era s cinco horas do dia seguinte, e faltavam exatamente vinte e trs horas 
para concluir o trabalho.
        No caminho, o pai surpreendeu-a ao admitir que se sentia nervoso por ir voltar a ver Blaire. Era estranho. A me estava casada com Simon h vinte e cinco 
anos, e este homem no tinha lugar na vida dela. Mas tivera. Em termos histricos. O casamento de ambos durara onze anos e Blaire dera-lhe dois filhos. At parecia 
mentira! Ele estava to cansado e grisalho, to velho! Era to reservado e conservador. To diferente da me, que era bela, expansiva, jovial e dinmica, e que parecia 
no ter nada a ver com Charles Stanton! E, de fato, agora no tinha.
        s seis horas em ponto estavam no Bistr, e o resto do grupo comeava a chegar. Delilah e o padre confabulavam a um canto, enquanto as empregadas serviam 
champanhe. s sete horas, Delilah imps a ordem. Toda a famlia de Allegra estava presente, alm das damas de honra, dos amigos, do padre e dos seus dois pais. A 
me de Jeff ficara ao lado de Charles e envergava um vestido preto, austero. Apanhara o cabelo atrs e estava terrivelmente sria, mas, apesar de tudo, Allegra achou-a 
bonita.
        Alan contava a Simon tudo acerca das filmagens na Sua, enquanto Carmen falava com Sam do beb. Por uma vez, a irm deixara Matthew em casa com uma baby-sitter. 
Dera-lhe de mamar antes de sair e avisara Jimmy de que no queria demorar-se muito. Era a primeira vez que se afastava do filho, mas era formidvel voltar a sair. 
Jimmy admirava a figura magnfica da mulher.
        Formavam um grupo elegante, e os tablides teriam ficado satisfeitos com os nomes que ali estavam representados. O padre explicou o que se iria passar no 
dia seguinte, quem iria onde, quem faria o qu em primeiro lugar. Charles Stanton no sabia ao certo qual seria o seu papel, e Simon percebeu. Chamou-o de parte, 
discretamente, apertou-lhe a mo e disse-lhe que tinha uma proposta a fazer-lhe. Allegra ouvira o princpio da conversa, mas depois eles afastaram-se e no percebeu 
do que estavam falando.
        De sbito, era tudo muito emocionante. Estava acontecendo. Todas as peas do puzzle encaixavam! Os amigos mais antigos de Allegra estavam ali, alm da famlia, 
e at o pai admitira que a amava. A confuso, a fragilidade e a desorientao tinham norteado o seu comportamento para com a filha, mas ela no fora abandonada. 
No fundo sempre o soubera, e escutara o mesmo dos especialistas, mas, por fim, ouvira-o da boca do seu prprio pai.
        Allegra apresentara-o a alguns amigos,  entrada. Havia uma certa semelhana entre pai e filha, mas era com Blaire que ela se parecia verdadeiramente e era 
Simon que amava como a um pai. Charles foi-se aproximando de Allegra e de Blaire, que estavam  falando acerca do jardim.
        - Ol, Blaire... Se fosse mais novo, teria corado, mas limitou-se a olh-la fixamente. Estava quase na mesma e tinha um aspecto to jovem! Para ele, era 
como se os ponteiros do relgio andassem ao contrrio. Sentiu-se inundado por recordaes contraditrias e lembrou-se do tempo em que Paddy e Allegra eram pequenos. 
Est com um timo aspecto -  acrescentou, em voz baixa.
        - Voc tambm  - respondeu ela, sem saber o que lhe havia de dizer, quando os olhares de ambos se cruzaram.
        Partilhavam as mesmas recordaes, a mesma dor, as mesmas esperanas frustradas, e, h muito tempo, tinham partilhado as mesmas alegrias e o mesmo riso. 
Era duro recordar essa poca. S restavam as tragdias: a morte de Paddy e a partida de ambas. Charles viera acrescentar mais uma recordao aos seus lbuns.
        - Foi simptico da sua parte ter vindo  - disse Blaire, quando Allegra foi cumprimentar Tony Jacobson, o diretor de JefF.
        Ao afastar-se, Allegra reparou que Nancy Towers movia uma perseguio feroz ao irmo, mas Scott parecia no reagir. Nancy j tinha bebido um pouco e a sua 
mo acariciava-lhe a coxa. Os olhares de Scott e de Allegra cruzaram-se.
        - Ela  muito parecida com voc  -  disse Charles a Blaire. Observava Allegra, que voava pela sala, rindo, com o cabelo a esvoaar, como o de Blaire. Era 
to esbelta, jovem e graciosa! A princpio, ela assustou-me... Julguei que eras voc... Tivemos uma conversa muito importante, esta tarde, no hotel.
        - Ela disse-me  - respondeu Blaire, que queria aproximar-se dele, confort-lo, dizer-lhe que lamentava tudo o que se passara, ao fim de todos aqueles anos. 
Est bem, Charles? - perguntou, tentando no se lembrar do tempo em que eram novos e o tratava por Charlie.
        - Tenho uma vida muito discreta -  respondeu ele, com resignao. Voc tem uma famlia encantadora.
        Era fcil identificar todos os membros, pois os filhos de Blaire eram parecidos com ela. E a conversa com Simon agradara-lhe. Talvez Blaire tivesse conseguido 
o que merecia. No merecera, com certeza, o sofrimento que ele lhe infligira, mas fora inevitvel. Charles esperava que ela percebesse. Como gostaria de lhe dizer 
tudo o que transmitira a Allegra nessa tarde!
        - Ainda bem que veio, Charles -  assegurou Blaire, e ele compreendeu.
        Tinha os olhos cheios de lgrimas quando lhe tocou na mo e se afastou. No podia estar junto dela por mais tempo, era demasiado doloroso. Optou por meter 
conversa com Mary Hamilton e descobriu que no s tinham amigos comuns em Boston como conhecera o pai dela, que fora seu professor na Faculdade de Medicina. Falaram 
animadamente at que Blaire os chamou para jantar.
        Nessa noite fizeram-se vrios brindes. Jeff e Allegra conseguiram sentar-se um ao lado do outro, falaram, riram e conviveram com os amigos. Na noite seguinte 
ficavam no Hotel Bel Air e de manh partiam para a Europa. Custava a acreditar que chegara o momento, que chegara o dia... Quase... Ainda faltavam vinte horas para 
o casamento.
        Simon brindou aos noivos e Jeff  noiva. Blaire disse que se orgulhava dos filhos, e Allegra reparou que Charles Stanton olhara para ela mais do que uma 
vez. Estava a dar-se muito bem com a me de Jeff, que parecia muito mais simptica. No fim do jantar, Charles Stanton e Mary Hamilton eram bons amigos, e quando 
Allegra os viu pela ltima vez Charles ia lev-la a Bel Air.
        - Acho que o meu ex-pai anda atrs da tua me  - disse Allegra, divertida, a Jeff, antes de ele regressar a Malibu. Esta noite vou sentir a tua falta...
        De sbito, aquela tradio, que obrigava a que o noivo no visse a noiva antes do casamento, parecia estpida e obsoleta. Noutros tempos, as pessoas no 
viviam juntas antes do casamento e no estava em causa perderem uma noite antes da lua-de-mel. Agora era apenas uma privao gratuita.
        - A propsito, como correram as coisas com ele? - quis saber Jeff, cauteloso. No tivera oportunidade de lhe fazer a pergunta durante o jantar.
        - Muito bem  - respondeu ela com um sorrisinho. Acho que consegui algumas das pistas de que precisava. Ele  uma pessoa triste. Deve sentir-se muito s.
        - Talvez esteja melhor assim. No consigo imaginar a tua me com ele. So diferentes como o dia da noite.
        - So, no so? Ainda bem para o Simon.
        - J decidiu quem  que te leva ao altar? -  perguntou Jeff, sorridente. Custava-lhe muito separar-se dela.
        - O Simon disse que se encarregava disso, para eu no me preocupar. Graas a Deus!
        Allegra suspirou de alvio. Fizera as pazes com o pai ao fim de vinte anos, mas queria que fosse Simon a lev-la ao altar.
         porta do Bistr, entraram cada um no seu automvel. Sam e Jimmy j tinham sado h uma hora. Os seios da irm pareciam bolas de boliche, cheios de leite 
para o beb. Allegra lembrou a Jeff onde estavam as suas malas para a lua-de-mel, receava que ele as deixasse em casa.
        - No se esquea das minhas malas! - gritou da janela do carro.
        - Vou fazer o possvel! -  respondeu ele, seguindo o carro de Alan e Carmen, que tambm iam para Malibu. Agora estavam l quase sempre.
        Dez minutos depois, Allegra chegou a casa dos pais, em Bel Air. Simon e Blaire verificavam alguns pormenores e, na casa de hspedes, as luzes ainda estavam 
acesas. Allegra sentia-se ansiosa por ir visitar a irm e o cunhado, mas no queria intrometer-se. Gostaria de ter falado com Scott, mas ele desaparecera com Nancy 
depois do jantar, e Allegra desconfiava que s voltaria de manh.
        -  melhor ir dormir  - recomendou Blaire, enquanto Allegra vagueava pela casa, inquieta.
        - No estou cansada  - respondeu ela
        Parecia uma criana, pensou a me, com um sorriso nos lbios.
        - Amanh vai estar...
        Por fim, como j no tinha mais nada que fazer, subiu as escadas, entrou no seu antigo quarto, despiu-se e meteu-se na cama. Depois telefonou a Jeff, que 
acabara de chegar em casa, e trocaram impresses acerca da noite agradvel que tinham passado, de alguns amigos e da excitao despertada pelo casamento.
        - Amo-te tanto  - disse ele, e era sincero. Nunca se sentira to feliz.
        - Eu tambm te amo muito -  respondeu Allegra. Em seguida, desligaram. Allegra ficou acordada durante algumas horas, pensando nele e na sua felicidade. Encontrara 
exatamente o homem que desejava, ou o que era mais importante o homem de que precisava. E, tal como sempre sonhara, em certos aspectos ele fazia lembrar Simon. Nessa 
noite dormiu em paz, sem sonhar. Tratara de tudo. Do seu trabalho, da sua vida, do seu passado, do seu futuro e do seu pai.


CAPTULO 23

        No sbado, 5 de Setembro, estava um dia cheio de sol em Los Angeles. No havia nvoa nem poluio. Soprava uma brisa quase imperceptvel e o cu estava muito 
azul. s cinco da tarde ainda havia muita luz.
        A essa hora, Allegra estava no seu quarto. O vestido assentava-lhe como uma luva, o chapu era espetacular e o vu comprido e farto caa sobre ele e dava-lhe 
um ar de princesa sada de um conto de fadas. O cabelo fora cuidadosamente penteado por baixo do chapu. Estava linda, com a saia de renda pelos joelhos  frente 
e comprida atrs. A me estendeu-lhe o ramo perfumado que David Jones criara especialmente para ela.
        - Oh!, meu Deus, Allegra.. -  exclamou Blaire, com as lgrimas nos olhos. Nunca vira uma noiva to bonita como a filha. Estava absolutamente divina, com 
o vestido que Gianfranco Ferre desenhara para a Dior.
        Quando Simon a viu descer as escadas na sua direo, os olhos encheram-se-lhe tambm de lgrimas. Era uma emoo incontrolvel.
        - Oh!, minha querida... -  murmurou. No havia dvida absolutamente nenhuma na mente de ambos de que Allegra era sua filha, e Simon percebeu, ao olhar para 
ela, que nenhum deles se esqueceria disso.
        L fora, a msica tocava baixinho; os convidados aguardavam-nos. Delilah pavoneava-se pela sala, como um avestruz a vigiar as suas crias. As damas de honra 
j estavam em fila e encontrava-se tudo a postos quando Simon desceu com Allegra.
        - Ontem fiz uma coisa. Falei com o Charles. Tive uma idia... Agora, no te zangues comigo disse ele. Allegra comeou a ficar nervosa.  uma espcie de compromisso.
        Segredou-lhe o resto ao ouvido. Allegra pensou por instantes, sorriu e fez um sinal afirmativo. Logo a seguir apareceu Charles Stanton, de fraque e calas 
s riscas. Tinha um ar muito distinto e um pouco tenso. Simon tinha o aspecto magnfico de uma estrela de cinema.
        - Muito bem, minhas senhoras, vamos andando sem fazer barulho -  disse Delilah, fingindo bater as palmas em silncio.
        Allegra riu: era tudo to ridculo! Tinham levado meses naquilo, que no passava de um espetculo com mil e um pormenores absurdos.
        - Sem fazer barulho e devagarinho  - segredou Delilah, demonstrando o passo solene.
        Nancy era a primeira. Passara uma noite inesquecvel com Scott no seu quarto de hotel. Logo atrs vinha Jess, com um ar muito senhoril, de vestido de renda 
bege e chapu de organza da mesma cor. Piscou o olho a Allegra antes de sair para o jardim, e a noiva soltou uma gargalhada irreverente. Era o dia mais feliz da 
sua vida, e da a dez minutos estaria casada com Jeff... Para sempre.
        Carmen vinha a seguir. Aparecia propositadamente em terceiro lugar, para no monopolizar as atenes, mas, apesar de ter engrossado na cintura, era difcil 
no atrair os olhares. As pessoas ficaram sem flego ao v-la e ouviu-se um cochichar quando desceu a nave na direo do altar florido. Depois vinha Sam, to jovem, 
to pura, to fascinante com a sua figura alta e esguia, parecida com a de Allegra e de Blaire. Jimmy era um dos padrinhos e aguardava-a no altar, ao lado dos outros.
        Seguiu-se uma longa pausa, enquanto todos esperavam pela noiva. Por fim apareceu Allegra, belssima, como seria de esperar. Vinha pelo brao do pai, com 
passos estudados e de olhos postos no cho por baixo do vu, e sentia-o tremer a seu lado. Ele regressara no momento certo da sua vida, o momento de ela o deixar, 
e no de ser deixada. E dessa vez continuariam o seu caminho, sem abandonos.
        Quando chegaram ao meio da nave, Charles Stanton parou e virou-se para ela com um sorriso. Depois lhe levou a mo aos lbios, beijou-a e deu-lhe a sua bno.
        - Boa sorte, minha filha... Gosto muito de ti  - disse, em voz baixa.
        Admirada, Allegra olhou para ele. Charles Stanton desviou-se  no momento em que Simon avanou para junto dela. Deu-lhe o brao e encaminhou-a para o altar, 
tal como a encaminhara na vida. Ambos a acompanhavam h quase trinta anos: Charles nos primeiros anos de vida, e Simon depois. Apertando-lhe o brao com fora, Simon 
olhou para a sua primeira filha, aquela que Blaire lhe trouxera, to sedenta de amor, to assustada!
        - Gosto muito de voc  - disse ele, por entre as lgrimas. Allegra ps-se em bicos de ps e beijou-o. Depois o deixou, como deixara todos os outros, abandonando-os 
da mesma maneira que os amara, para assumir o seu novo papel de mulher de Jeff. Simon foi sentar-se ao lado de Blaire e Allegra virou-se para Jeff, irradiando amor. 
Viera de longe para junto dele, e juntos iriam ainda mais longe. Tinham esperado muito um pelo outro.
        - Est to bonita! - segredou Jeff quando ela lhe apertou a mo.
        - Amo-te tanto  - respondeu Allegra, tambm em surdina.
        Jeff olhou para ela, to orgulhosa, to bela, to cheia de esperana, enquanto as pessoas que a tinham amado choravam de alegria e lhe desejavam um futuro 
feliz.
        Juraram amor e lealdade um ao outro e, por fim, Jeff deu-lhe um longo beijo, enquanto os convidados aplaudiam.
        O sacerdote declarou-os marido e mulher, e eles desceram a nave de mos dadas, sob uma chuva de ptalas de rosa. Era um momento feliz, um dia feliz; era 
o culminar de uma vida.
        Os convidados garantiram que nunca tinham visto uma noiva to linda. Allegra e Jeff agradeceram a todos. Por fim, Peter Duchin tocou Fascinao e eles comearam 
a danar uma valsa lenta  volta da sala. Todos ficaram em transe: nunca tinham visto um casal to atraente. Em seguida, Allegra danou com Charles e por fim com 
Simon, que a conduziu sem dificuldade, fazendo-a rir com os seus disparates e com a alegria prpria do casamento. A sua sutileza e o seu corao h muito tinham 
conquistado Allegra. Depois danou com Alan, com o irmo, com o cunhado, com Tony, Art e os amigos de ambos, e de novo com Jeff. Danou durante horas. Por fim, foram 
jantar. Allegra danou mais um pouco. Agradeceu  me e a Simon o magnfico casamento e disse-lhes que se tinham portado muito bem. Haviam convidado duzentas e cinqenta 
pessoas, e tudo correra s mil maravilhas. At Mary Hamilton parecia estar divertindo-se. Charles Stanton no a largara durante toda a noite.
        Por ltimo, enquanto Allegra mudava de roupa e vestia um traje Valentino de seda branca, Simon danou lentamente com Blaire, saboreando os ltimos momentos 
da festa. Jimmy e Sam tambm danavam. De repente, Blaire sentiu-se terrivelmente culpada e olhou para Simon.
        - J pensou que a pobrezinha teve um beb e casou-se h ms e meio, e nem sequer teve uma festa? Talvez fosse boa idia fazer-lhes qualquer coisa depois 
de termos a cozinha em ordem... - disse, com ar pensativo, olhando para o marido. De repente, tudo parecia to simples!
        Mas Simon riu e abanou a cabea.
        - Nem se atreva! Preferia dar-lhes um cheque e mand-los para uma lua-de-mel. No se atreva a organizar outro casamento! - disse ele com firmeza. Olhou para 
a filha mais nova, to feliz nos braos do marido, e depois para a mulher. Sam ainda tinha um ar to inocente e confiante! A menos que ela queira. Talvez seja prefervel 
perguntar-lhe...
        Simon detestava sobrecarregar a filha com uma festa de casamento depois de tudo o que ela passara.
        - Podamos fazer qualquer coisa no Natal... Ou na Primavera...
        Blaire j estava fazendo planos: uma festa de Natal para Sam.. Uma renovao dos votos... Pequenas rvores de Natal espalhadas pelo jardim... Uma tenda... 
Uma banda mais jovem que a de Peter, qualquer coisa de que os meninos gostassem...
        - Pra! -  exclamou Simon, rindo dela. Porque no nos casamos outra vez? Talvez fosse divertido... E, no caso deles, talvez se justificasse. Desde que Matthew 
nascera que o seu casamento sofrera uma renovao. Amo-te, minha tonta... Deixa de fazer planos para o casamento da Sam por cinco minutos. S quero que saiba que 
te acho formidvel.
        - Tambm eu. Considerei um golpe de gnio o que voc fez com a Allegra e o Charles. Todos tiveram a sua oportunidade e, em certos aspectos, foi to simblico...
        -  por eu trabalhar com atores h quarenta anos... Compromisso e criatividade. Funciona sempre!
        - No posso me esquecer disso quando comear a trabalhar contigo, na prxima  - semana gracejou ela, enquanto danavam ao som de New York, New York.
        Nesse momento apareceu Allegra, deslumbrante com o seu vestido Valentino branco. Subiu ao estrado onde se encontrava a orquestra, virou as costas aos convidados 
e atirou o ramo para trs. Este atravessou o ar e foi cair nas mos de Jess, que abanou a cabea e voltou a atir-lo, como se ele fosse uma granada de mo. Dessa 
vez, foi Samantha que o apanhou. As duas irms riram, e quando Allegra lhe deu um beijo de despedida, segredou-lhe que a me lhe queria oferecer uma festa de casamento 
no Natal.
        - Oh!, no... -  guinchou Sam, como uma criana diante de um prato de espinafres. Eu no agentaria... O Jimmy matava-me... Eu morria...
        Sam estava sendo sincera. O casamento de Allegra fora maravilhoso, mas, em sua opinio, dera muito trabalho.
        - Diz isso  me  - retorquiu Allegra, acenando a todos e entrando no automvel que os levaria para o hotel. Fora um casamento perfeito.
        Blaire e Simon viram-na partir. Ela fora dar-lhes um beijo e agradecer-lhes, e Jeff fizera o mesmo. Voltariam da Europa da a trs semanas. Assim que eles 
saram, Jimmy empurrou Sam para a pista de dana, Scott desapareceu no seu quarto com Nancy e Simon puxou a mulher para si e beijou-a.



















Esta obra foi digitalizada e revisada pelo grupo Digital Source para proporcionar, de maneira totalmente gratuita, o benefcio de sua leitura queles que no podem 
compr-la ou queles que necessitam de meios eletrnicos para ler. Dessa forma, a venda deste e-book ou at mesmo a sua troca por qualquer contraprestao  totalmente 
condenvel em qualquer circunstncia. A generosidade e a humildade  a marca da distribuio, portanto distribua este livro livremente.
Aps sua leitura considere seriamente a possibilidade de adquirir o original, pois assim voc estar incentivando o autor e a publicao de novas obras.
Se quiser outros ttulos nos procure: 
http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros, ser um prazer receb-lo em nosso grupo.









http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros
http://groups.google.com/group/digitalsource
